terça-feira, 1 de setembro de 2009

Confiança sincera

Como funciona a mentira
Quando você é jovem, há uma lição que é martelada na sua cabeça mais do que qualquer outra: diga a verdade. Diga a verdade, dizem para você, e ficará tudo bem. Então por que a sua mãe liga para o chefe dizendo que está doente quando não está, e por que seu pai diz para sua mãe que o vestido que ela está usando não a deixa gorda? Eles não aprenderam essa lição quando eram pequenos, e você e eu também não.
Mentir não é um sinal de depravação moral (a não ser que seja). Mentir é um sinal de avanço cognitivo. Essa ação requer um cérebro fértil e altamente funcional para pegar uma coisa tão simples como a verdade e mudá-la, burlando a decepção que causaria a outra pessoa com a honestidade de um coroinha.
O problema com a verdade é que ela nem sempre serve aos nossos propósitos, promove nossas carreiras ou nos livra de problemas. Quando podemos pegar a via da imaginação e realização dos nossos desejos, seríamos loucos de não passear pelo caminho enganoso em busca de nossos objetivos, certo?
Crianças mais novas acreditam que sempre estão sendo vigiadas, e que a mamãe (ou outra figura de autoridade) sabe de tudo. Por essa razão, elas são mais propensas a dizer a verdade no começo. Conforme vão crescendo, elas começam a testar a mentira: o cachorro é azul, minha camiseta é feita de cobre, foi o biscoito que me contou. Para os ainda mais novos, mentir é uma série de experimentos sobre causa e efeito. Quando uma mentira funciona? Que tipo de mentira? O que é uma mentira acreditável? Vão me pegar no pulo alguma vez, ou devo continuar mentindo até que a verdade seja uma lembrança distante para as duas partes?
Por volta dos 2 ou 3 anos, as crianças percebem que não estão sob constante observação de um “Olho da Verdade” onipresente e onisciente. Uma criança típica de 4 anos distorce a verdade a cada duas horas, enquanto uma de 6 anos conta uma mentira a cada 90 minutos. Elas estão aplicando seus estudos sobre a mentira em direção ao objetivo geral de todos os que distorcem a verdade: ganhar vantagem, evitar problemas e parecer melhor aos olhos dos outros. Quanto mais velhas as crianças ficam, mais se tornam hábeis na mentira. E elas nunca param.
O básico sobre a mentira
A habilidade de mentir é um feito cognitivo. Enquanto nós desprezamos a prática com um ponto de vista moral e ético, o ato de mentir não é normalmente feito sem que haja uma boa razão. Mentiras são ditas por algum dos seguintes motivos:
Esconder algo e evitar problemas. Danos quase sempre não têm volta, e é rara uma situação em que admitir a culpa tenha um resultado positivo (ao menos em curto prazo). Essas mentiras são ditas para evitar repercussão e responsabilidade.
Preservar a reputação. Um ex-viciado em drogas pode mentir sobre o tempo em que ficou na instituição de tratamento, especialmente para um potencial empregador ou futuro interesse amoroso. Uma mentira como essa serve para evitar vergonha e embaraço.
Evitar magoar os sentimentos de alguém - as reais intenções. Crianças aprendem logo cedo a ser educadas, não apontar defeitos físicos e dizer “obrigado” mesmo que ganhem algo de que não gostaram. Essas “mentiras inofensivas” são distinguidas das outras porque não carregam más intenções.
Aumentar status ou reputação. Algumas mentiras são ditas sem nenhum estímulo externo óbvio, como a demanda por uma resposta para uma pergunta específica. Esse tipo de mentira é muitas vezes narcisista por natureza, dita para fazer o mentiroso parecer mais completo, qualificado ou talentoso como meio de ganhar pontos positivos aos olhos dos outros.
Manipular. Essas mentiras não são evasivas ou defensivas, mas antes agressivas e maliciosas por natureza. Tais mentiras são ditas para ganhar riqueza, amor, favorecimento ou qualquer outra vantagem para danificar a reputação de outra pessoa ou espalhar inverdades prejudiciais.
Controlar informações. Como oposto de transmitir uma falsidade, a mentira indireta é segurar ou esconder fatos importantes. Isso é frequentemente visto como uma forma mais aceitável de mentir, já que a pessoa não constrói mentiras, mas apenas esconde a verdade. Uma parte da informação escondida pode alterar completamente a compreensão de um evento, levando as cortes americanas a exigir não somente a verdade, mas toda a verdade.
Personalidade
Alguns tipos de personalidade são mais passíveis de mentir do que outros:
Mentirosos patológicos são geralmente sociopatas, não têm um senso claro de certo e errado e mostram ausência de remorso quando prejudicam outros. Sociopatas contam algumas das melhores mentiras, já que não se sentem mal por agir assim e não mostram sinais de culpa ou preocupação. Sociopatas mentem para ganho próprio, e suas mentiras desviam fortemente para a manipulação.
Mentirosos compulsivos mentem como primeira opção, mesmo quando não há razão ou vantagem para agir assim. Experiências na infância, como viver em um ambiente abusivo onde mentir pode ser necessário para a sobrevivência ou bem-estar emocional, são frequentemente responsáveis pela mentira compulsiva.
Narcisistas mentem para ganhar glória e estima desmerecidas aos olhos dos outros.
Pessoas com transtorno de personalidade limítrofe (borderline) sofrem mudanças de humor e têm comportamento fora de controle, como abuso de drogas, jogos de azar e sexo promíscuo. Esse tipo pode contra mentiras como um esforço para lidar com as conseqüências desses comportamentos.
Pessoas com transtorno de personalidade histriônica desejam desesperadamente amor e atenção e contarão mentiras que, apesar de não serem precisas, podem refletir a verdade emocional da situação. “Estou tão doente que eu poderia morrer” e “se você me deixar, eu me mato” são dois exemplos de mentiras contadas por esse tipo.
Sinais típicos
Não existe um único modo de descobrir os sinais de uma mentira, mas sim uma constelação de possíveis sinais que podem “vazar” do mentiroso durante o ato. Vamos discutir os sinais verbais e não verbais:
Primeiro, vamos examinar alguns sinais não verbais da mentira. Um sinal que escapa à maioria das pessoas é demonstrar microexpressões, que são expressões super rápidas que passam pelo rosto das pessoas contra sua vontade e sem que elas percebam. Isso fornece uma visão de seus verdadeiros sentimentos sobre algum assunto. Enquanto a maioria das pessoas não procura por tais pistas, muitos de nós detectamos essas expressões sem nos dar conta do que acabou de acontecer. A informação que colhemos – detectando um olhar de raiva por um milissegundo durante um sorriso, por exemplo – é muitas vezes atribuída à intuição ou “sexto sentido”. Se sua intuição diz que alguma coisa não está certa com aquela pessoa, você muito provavelmente deve ter detectado uma microexpressão no rosto daquela pessoa que não combina com o que ela está dizendo.
Outro sinal não verbal da mentira é um sorriso forçado, que geralmente envolve apenas os músculos da boca e não os outros do rosto. Um sinal típico é um sorriso ou outro gesto – como fazer que “sim” com a cabeça enquanto nega alguma coisa – que contradiz o que está sendo dito. Quando interagimos normalmente, fala e linguagem corporal acontecem naturalmente, sem pensamento específico. No entanto, quando mentimos, não só temos que avaliar a verdade, construir uma mentira plausível e verbalizá-la, precisamos ainda decidir quais gestos corporais combinam com a mentira, ou que representam melhor uma verdade. Pensar em tudo isso leva a palavras e linguagem corporal que não combinam.
Alguém que está mentindo pode se sentir atacado e assumir uma posição defensiva. A pessoa pode se afastar do questionador, cruzar os braços e até ir para mais longe ainda. Mentirosos ficam notavelmente inquietos, especialmente durante uma pausa na conversa.
Há outras pistas não verbais que muitas pessoas acreditam ser um sinal exato de mentira mas não são, como piscar muito, coçar o rosto ou o nariz, ou colocar a mão na boca enquanto fala. Esses sinais são apenas bons indicadores quando são uma mudança no comportamento normal da pessoa (isso é, o comportamento que antecede imediatamente a suposta mentira). Talvez a pessoa que esteja piscando muito tenha algum cílio no olho, e a garota que está cobrindo a boca é apenas tímida; no entanto, se a pessoa não pisca com frequência durante os três primeiros relatos mas pisca muito ou coça o pescoço enquanto fala sobre um 4º assunto, esse último merece uma análise melhor.
Uma pessoa contando uma mentira também deixa vazar pistas verbais que apontam para a desonestidade. Já que precisa inventar uma resposta, o mentiroso irá passar mais tempo procurando a palavra certa enquanto conta a mentira. A pessoa pode trocar as palavras ou demorar muito para responder. Para ter mais tempo de pensar, o mentiroso não usa abreviações de palavras (opta por “estava” em vez de “tava”) e pode repetir as perguntas (“Onde eu estava ontem à noite?” ou “Você quer saber o que eu estava fazendo ontem?”).Como eles precisam criar uma realidade à parte da verdade, mentirosos têm dificuldade de saber quanto da nova história precisam contar e quase sempre acabam detalhando fatos desnecessários.
Recursos utilizados na mentira
Você pode elogiar o jantar horroroso que seu amigo fez, ou dizer aos policiais que você não sabe como as drogas foram parar no seu carro, mas o fato é que todos nós mentimos alguma vez. Elas podem ir desde pequenas mentirinhas inofensivas, que servem apenas para manter a situação social ou os relacionamentos, até grandes mentiras quase infames.
Ficar calmo. A pessoa para quem você está mentindo estará observando de perto sua fala e seu comportamento. O ato de mentir pode acelerar seu batimento cardíaco ou aumentar sua pressão sanguínea. Comporte-se como se você não tivesse nada a esconder. Cuidado com sua própria irritação de ser colocado no centro das atenções – isso pode causar micro expressões de desprezo ou raiva.
Ser simples. Mentir requer muita imaginação e esforço. Enquanto inventamos cenários e realidades, nossas mentes completam todos os detalhes que são úteis. Mentirosos tendem a contar muitos detalhes irrelevantes, e fazem isso para “provar” que a mentira é a verdade. Frequentemente, essa informação extra salta aos olhos porque tem muito pouco ou nada a ver com a questão. Manter a mentira simples faz com que seja mais fácil os “fatos” parecerem corretos. Adicionar detalhes fará apenas com que você tropece quando for questionado sobre eles, porque essa informação extra não adicionará nada à mentira coerente e plausível.
Manter-se estável. É importante que você mantenha seus maneirismos e humor estáveis, durante e depois da mentira. Se você está se sentindo nervoso antes de mentir, continue parecendo nervoso. Se você estiver relaxado antes de alguém fazer uma pergunta inesperada, continue relaxado. É a mudança no tom da voz e na linguagem corporal que pode dar pistas a alguém que você está fabricando fatos. Uma vez que o questionário acabar, não relaxe subitamente ou pareça aliviado. Se você estiver agitado enquanto mente, continue agitado quando a mentira acabar. A pessoa que está de guarda em uma torre procura por movimentos ou mudanças no ambiente, e assim também é a pessoa que procura por uma mentira. Dê a ela o menos possível para trabalhar.
Fazer com que o ouvinte goste de você. Você está tentando contar uma mentira, e o ouvinte quer ouvir a verdade. Você deve fazer com que ele acredite que a mentira é verdade. Pense dessa forma: nós suspeitamos menos daqueles de quem gostamos, em parte porque perturbaria a relação se você acreditasse que está sendo enganado.
Além disso, nos sentimos ofendidos com mentiras porque elas são sinais de desrespeito. Então quando mentimos, não devemos dar nenhuma razão para que o ouvinte duvide de nosso valor ou da nossa percepção do valor dele. Pense: ambos somos adultos. Gostamos um do outro. Você tem uma pergunta? Aqui está a resposta, e vamos seguir em frente. Não se submeta à aprovação da pessoa ou tente agradá-la demais. É isso que mentirosos fazem. Não inclua frases como “você está bravo comigo?”. Por que uma pessoa ficaria brava com você se você não está mentindo? Ela quer a verdade, mas também quer acreditar que você não mentiria.
Como saber se alguém está mentindo
Se você fosse acusado de assassinato, ficaria sob uma enorme pressão para mentir se fosse culpado. O risco é alto, e esse tipo de pressão pode levar a pistas físicas que podem te denunciar. Uma pessoa servindo prisão perpétua por assassinato, no entanto, virtualmente não sentiria nenhuma pressão quando mentisse sobre o assassinato, porque ela já está presa – a mentira não teria nenhuma conseqüência futura. Nesse caso, não são os detalhes verbais, e nem a linguagem corporal, que seria sua ruína.
Como separar os mentirosos dos que contam a verdade
Estabeleça um padrão de comportamento. Mentirosos podem olhar diretamente nos seus olhos, e quem conta a verdade pode ficar inquieto e parecer evasivo, então não procure uma característica específica. Primeiro, estabeleça comportamento, humor e maneirismos da pessoa naquele ponto particular do tempo, antes que você comece o questionamento. A pessoa está relaxada ou nervosa? Brava? Distraída? Repare no quanto ela pisca ou mantém contato visual. A pessoa toca na própria mão ou rosto enquanto fala?
Procure desvios no padrão de comportamento. A chave para detectar mentiras é procurar por desvios de um padrão de comportamento. Se a pessoa normalmente não mantém contato visual e pisca muito, mas encara você quando responde alguma pergunta em particular, esse é seu sinal de perigo. Procure por pausas pequenas antes de respostas – esse é o tempo que o cérebro deles precisa para fabricar dados. O mentiroso pode agir como se estivesse ofendido por estar sendo questionado, mas subitamente afável quando a mentira está sendo contada, ou vice versa.
Ouça. Às vezes, pode não haver pistas visuais ou na linguagem corporal que acompanhem a mentira. Você tem que contar com a informação verbal que recebe. Os fatos somam algo à informação? A pessoa está contando muitas informações que não são relacionadas à pergunta? Se alguém conta muitos detalhes, pergunte mais coisas. Esses detalhes podem ser a ruína dessas pessoas. Após inteirar-se de todos os pequenos detalhes, reveja o questionamento em toda a linha do tempo ou curso da história. Agora, foque novamente em algum detalhe pequeno. A história ainda bate? A pessoa está criando novos detalhes para explicar porque os outros detalhes não estão batendo com a história?
Pause. Para a maioria das pessoas, mentir – e a circunstância que requer contar uma mentira – é estressante. Se você está interrogando alguém, pause entre uma das respostas dele ou dela e sua próxima pergunta. Intervalos são um pouco desconfortáveis para a maioria das pessoas em uma interação social, e muito mais para uma pessoa que está tentando contar uma mentira. Essa pausa pode parecer uma eternidade torturante para um mentiroso. Veja se ele está inquieto, se tem microexpressões ou está com uma postura defensiva.
Mude de assunto. A melhor notícia que um mentiroso pode receber é saber que a mentira acabou. Quando a pessoa acredita que o tópico da conversa mudou, ela pode parecer visivelmente relaxada. Uma pessoa nervosa pode ficar aliviada, uma pessoa agitada pode sorrir. Essa tática também permite que você continue procurando desvios no padrão de comportamento ou até um retorno a ele.

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