domingo, 20 de janeiro de 2008

Nifes

É muito bom passar horas com amigas, ainda mais quando surgem dicas preciosas como a do filme Noivas (Nifes) dirigido pelo grego Pantelis Voulagaris e produzido por Martin Scorsese.
A encantadora música de Stamatis Spanoudakis e a belíssima fotografia de Yorgos Arvanitis merecem especial apreciação.
O filme, baseado na obra de Ioanna Karistian é primoroso, comovente e retrata com especial cuidado a difícil existência de mulheres russas, turcas, búlgaras, armênias e das ilhas gregas, que sofreram em seus países com as guerras, estupros, orfandade e a pobreza, e foram obrigadas a se tornarem noivas por correspondência de imigrantes solteiros que moravam nos Estados Unidos.
Sobre essas mulheres foram depositadas, por suas famílias, todas as esperanças e a responsabilidade pela subsistência.
Portanto, além de amedrontadas com a vida que teriam em um país distante, com um homem que jamais haviam encontrado, ainda eram responsáveis pelos seus irmãos e pais.
- Na América, minha primeira tarefa é mandar lápis de cor para minha irmã caçula. Ela tem quinze anos. Ela pinta a areia, a onda.
Tudo se inicia na ilha grega de Samotrácia, no ano de 1922, enquanto Niki Doukas aguardava o regresso de sua irmã, Eleni, dos Estados Unidos, para onde ela havia seguido para casar-se com um imigrante grego. Eleni foi uma noiva por correspondência, mas não conseguiu viver longe de sua ilha de origem. Niki, por sua vez, seria a noiva substituta da própria irmã, em acordo que foi firmado por sua madrinha, que morava nos Estados Unidos e também havia sido noiva por correspondência. Alguma vez costurei um vestido novo para ir a um encontro?
Alguma vez coloquei jasmim nos meus seios?
Alguma vez esperei o carteiro? Amor, Eleni, é para os desocupados. Estou bem sem ele. Se houvesse uma outra pessoa, uma pessoa que esperasse por mim primeiro...Vou para um país estrangeiro com o mesmo vestido de noiva e com a mesma foto que você levou no ano passado.
Em Smirne, na Turquia, o fotógrafo americano de origem irlandesa, Norman Harris (Damian Lewis), desiste de sua profissão após ter suas fotos da guerra greco-turca rejeitadas por um jornal e resolve retornar para os Estados Unidos.
Não menos do que setecentas noivas por correspondência embarcaram no transatlântico King Alexander. A cena dos barcos que levavam as jovens para o navio é belíssima, assim como o fino bordado que une suas histórias e o paralelo demonstrado entre a primeira e a terceira classe da embarcação. A crueza é tratada com sutileza e o encanto crescente entre Niki Doukas e Norman Harris, o marco amoroso do filme.
E sua bagagem Niki levou lentilhas, folhas de louro e alho - o alho americano não teria cheiro - para preparar a comida favorita de seu noivo, que teria comentado que se casaria com qualquer uma, desde que não vivesse choramingando, nem

fosse preguiçosa.
O primeiro diálogo entre Niki e Norman foi sobre fotografias:
- Você rasgou fotografias? Se tiver mais fotografias, não as rasgue. Dê-as para mim.
- O que fará com elas?
- Mesmo fotografias de estranhos são muito boas para decoração.
- Sua casa dever ser cheia de fotografias.
- Somente uma.
- Do casamento de seus pais?
- Não. Do meu pai no caixão.
- Sinto muito.
- Sim... Meu pai em seu caixão e toda família reunida em volta dele. Na minha ilha, só assim as pessoas conseguem ter sua foto. Quando morrem. Que tipo de fotografias fazia?
- Fotos incomuns. Gosto de fotografar coisas que os outros não percebem. Detalhes, coisas pequenas.
Niki sabia costurar, auxiliava as demais noivas com seus vestidos e sugeriu que Norman fotografasse as jovens de sua ilha, o que fez com que ele resgatasse o prazer de fotografar. No meu baú tenho um vestido de noiva que já cruzou o Atlântico várias vezes, indo e vindo, indo e vindo. 1909, com minha madrinha, 1921 e, agora, 1922. Um vestido bastante azarado. Indo e vindo, indo e vindo.
No diálogo de Niki com o capitão do navio a comparação da rota das estrelas com o destino dos imigrantes que partiram para o Novo Mundo:
- A primeira a aparecer será Vênus. Depois, Sírius. Após, Órion. E quando o céu ficar iluminado, limpo e escuro, você conseguirá ver até as menores estrelas. Todas elas viajam juntas para o oeste. Todas as estrelas vêm do leste.
- As estrelas vêm do leste para o oeste. Assim como nós.
E as lembranças de algumas características de povos imigrantes:
- Gregos morrem sem o mar.
- Minha avó irlandesa sempre falava das ondas batendo nas rochas em Cork
No começo, ela era nostálgica; depois, ficava melancólica.Quando estava nostálgica, fazia comida salgada. Se melancólica fazia bolos. Você entende?
- Nostalgia e melancolia são palavras gregas.
- Niki, my darling, I thought about you all last night. Se agapo.
- Não.
- Não consigo evitar.
- Não me ame.
- Mas eu amo!
- Sou grega.
- E daí?
- Pare!
Assim ficou a tristeza do verdadeiro amor não vivido para que a tradição se mantivesse.
- Você jamais o esquecerá e esta será sua punição.
- Não é punição lembrar de alguém que se ama. A punição é esquecê-lo.
Em menos de um instante os olhos encararão uma vida que passará e nunca será esquecida.
Eis parte do texto de Celso Sabadin sobre o filme:
O jornalista Fernando Morgado, meu editor na época em que eu trabalhava na finada Folha da Tarde, uma vez me disse uma frase que eu jamais esqueci: "Existem filmes que são distribuídos e existem filmes que escapam". Definitivamente, Noivas é um filme que acaba de escapar. Produzido em 2004 e exibido para a imprensa paulista uma única vez em agosto de 2006, Noivas estréia de surpresa, num circuito minúsculo e praticamente sem divulgação. Com Martin Scorsese assinando como um dos produtores e um pano de fundo baseado em fatos reais (sempre me pergunto se um filme pode ser baseado em "fatos irreais"), Noivas ganhou cinco prêmio do Festival de Tessalônica (Grécia) e participou da mostra competitiva de Moscou. Tem tudo para agradar a um público que prefere narrativas mais clássicas.

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