segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Fundamental

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Meu pai dizia que o sono é alimento. Fundamental.

Cartoon

domingo, 11 de outubro de 2009

Rimagem

- Existem pessoas com características próprias, perfeitamente identificáveis, que fazem questão de estar bem em todas as fotos?
- Sim, existem.
- É possível sair bem em todas as fotos, sem exceção?
- Não importa o esforço dedicado, a constante preocupação e cuidado com a imagem, nem o traquejo e o molejo adquiridos ao longo dos anos, ou, o pós-doutorado em manipulação.
Não há fotógrafo desmemoriado,
nem versão avançada do photoshop capaz de fazer com que qualquer pessoa saia bem em todas as fotos.
- Quanto tempo duram as fotos com aparência mais que perfeita?
- Pouco. O tempo exato da ilusão, da ótica.
- Qual é o motivo da constante busca pela autoimagem perfeita?
- Ausência de conteúdo.

La vie en close

Bênçãos e graças - o mundo

Estamos em época tão sofrida, pessoas combalidas, desesperadas, abandonadas, sem qualquer possibilidade de suportar mais, de resistir mais, sem o mínimo para manterem a dignidade que de alguma maneira resiste, persiste, capacita para a manutenção de alguma esperança, algum resquício de força para prosseguir. Não falo somente sobre desumanos e estúpidos conflitos, sobre o injusto preço pago pelos desfavorecidos, sobre o insuportável desequilíbrio de recursos, sobre o lucro desenfreado capaz de garantir gerações futuras e tão covardemente incapaz de ter uma parte, uma pequena parte compartilhada com o próximo, sobre a insaciável ansia de possuir cada vez mais, sobre a falsa garantia que o material - o efêmero material - traz, sobre a falta de caráter, a falta de respeito, a falta de vergonha e a total falta de valores. Não falo somente sobre guerras, sobre desarmonia, sobre a irascível incapacidade de convivência entre os desiguais, sobre as ações ou omissões humanas, individuais, coletivas, governamentais, mas também sobre as ações da natureza sufocada pelo nosso descaso e maltrato, sobre terremotos, tsunamis, furacões, sobre as mudanças climáticas, sobre gerações que merecem, que precisam de paz, de saúde, de alimento e de saber. Não é mais suficiente juntar cacarecos imprestáveis num saco qualquer para posterior depósito em algum lugar, na tentativa de amenizar o peso insuportável do que pensamos, falamos, fazemos e, principalmente, do que deixamos de fazer. Não basta mais pensar no 'fluxo da boa energia', no 'feng-shui' estilizado, na 'disponibilização do velho para garantir a vinda do novo' - até quando entregamos o que não mais queremos somos, continuamos a ser cada vez mais egoístas. (Imagem de Andrew Biraj)


Deixemos um pouco de lado as bobeirinhas, as futilidades, a perda de tempo, que também fazem uma pequena parte da vida, e pesquisemos notícias, relatos, imagens do sofrimento ao redor do mundo. Vejamos nos sites da reuters, BBC, CNN, nos sites que quisermos. Vejamos o que acontece na esquina da nossa rua, na praça perto de nossa casa. É hora de acordar. (Imagem de Carlos Barria - pescadores no Sri Lanka)



Garanto a origem e a veracidade desta parte de fotografia, que representa a união, a dedicação, a abnegação, o altruísmo, a ação humanitária desprendida, imagem que por respeito, amor e consideração não exponho inteira, do jeito que eu a recebi e tanto me emocionou, ao saber sobre essa obra de querida e admirada amiga, que me conhece desde o dia que apareci neste mundo e hoje, na Itália, feliz e casada com engenheiro construtor, faz parte de associação que ameniza o sofrimento na África central: Em Burundi, seu marido constrói uma escola primária e um jardim de infância. Eles não ofertam conhecimento, tijolos e cimento, mas a melhor parte das muitas bênçãos e graças que receberam ao longo da vida.



Follow the women, pesquisem, conheçam. Ideias que podem fazer diferença. Alguma diferença. A tão necessária diferença.

Cães

O cão de casa, que de imediato identifica quando não estamos bem, dorme no chão, ao lado do enfermo, do triste, do deprimido, anda atrás de nós por toda a casa e somente se afasta, por segundos, para beber água ou esticar o tronco no seu canto preferido da sala, enquanto dormimos. Que nos recebe com genuína e entusiasmada alegria. O cão que não abandona sua vigília e late não apenas se dizemos alguma palavra num tom mais alto, mas se pretendemos dizer alguma palavra num tom mais alto e áspero - nos bota em ordem este pacífico cão - uma mini-draga diante do alimento, com infinita vontade de comer acompanhada pela autentica e comovedora cara de pidão, deste cão. Pois o cão de casa pode ter o alimento que mais gosta e quer à sua disposição, mas não se aproximará, sequer o tocará, se não estivermos perto, se não compartilharmos com ele o sagrado momento da refeição. Nosso irracional cão.

Você já reparou nos cães que acompanham pessoas que vagueiam pela rua? Os cães não abandonam os humanos.
Imagem de Doisneau

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A estrela cadente me caiu ainda quente na palma da mão

No final da tarde de quinta, direto do trabalho, fui ao consultório da minha médica. Uma hora e meia de consulta, olhos, ouvidos e mente interessadas prestaram atenção em cada palavra dita e analisaram comportamento e reações. Com base nas informações anteriores e nas recentes - ela conhece seus pacientes! - veio a nova hora do aparelhinho de pressão seguida de orientação direta, assim por mim interpretada: Está na hora de ouvir a opinião de especialistas e recomeçar a mini-maratona. Segunda orientação direta: Você ficará de repouso. Comentamos sobre leituras e ela, mãe de dois pequerruchos e com a agenda do consultório cheia, só tem tempo para ler livros de medicina para estar sempre atualizada. Foi por isso que lembrei de Asclépios, Ighia e Hipócrates. Saí do consultório amparada, orientada e considerada. Não me senti perdida, tampouco atendida em poucos minutos, tal qual linha de montagem: Next!
Molho. Pausa. Sono. Tudo para equilibrar: energia, mente, corpo, vida.

Imagem de Doisneau
Hai-kai de Paulo Leminski

A vida requer pausa


Para o bem, nunca para causar dano ou mal

Asclépios (deus da cura), filho de Apolo com a mortal Coronide, era hábil cirurgião, foi citado na Ilíada por Homero, tornou-se capaz de curar aos mortos e aprendeu sua arte com o centauro Chiron. Antes de ser considerado deus pela mitologia grega, foi príncipe da Tessália e de seu casamento com Epione nasceram suas filhas Ighia (protetora da saúde), Panakea (protetora da cura) e seus filhos Telésforo (protetor da convalescença) e Poladira (médico dos exércitos).
Nas estátuas que o representam, Asclépio tem seu braço direito apoiado sobre um cajado no qual uma serpente está envolta, assim, fica mais fácil entender o juramento de Hipócrates (considerado o pai da medicina, nascido na ilha de Kós, em 460 a.C., décimo-nono descendente de Asclépios, que acreditava na importância da moderação para uma vida sã: a harmonia entre a mente sã e o corpo são) e o símbolo da medicina:
“Eu juro, por Apolo médico, por Asclépio, Ighia e Panakea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem compromisso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substancia abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os homens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."
Asclépios era cultuado principalmente na região do Peloponeso, que tornou-se o centro da medicina antiga, à época, praticada pelos Asclepíades
Os templos que homenageiam Asclépios estão em Epidauro e nas ilhas gregas de Kós e Kythnos, além de Pérgamo, situada na costa da atual Turquia, banhada pelo mar Egeu, próxima à cidade de Smirn e a noroeste da Anatólia (Ásia menor). Pérgamo construída pelo gregos no século VI a.C. era famosa por sua biblioteca - prestigiada e comparara a de Alexandria e tão importante quanto Éfeso, ambas reconhecidas como centros culturais e políticos. No monte próximo ao vale existente ao redor da cidade de Pérgamo, os gregos construíram complexo em homenagem a Asclépio e Ighia, que também incluía um teatro, centro médico e salas de tratamentos e lá, acolhiam peregrinos e enfermos em busca da cura para seus males.
Sob a construção circular há um corredor com aberturas no teto e dessas aberturas os médicos observavam seus pacientes que caminhavam pelo longo corredor e lhes diziam orientações, palavras de encorajamento e cura, através da indução. Ao final do corredor existem outras construções.
A atmosfera, a calma e a paz sentidas no templo de Ighia são especiais. Fazem bem.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Asclépios

“Os deuses não revelaram aos homens todas as coisas desde o começo, mas estes, procurando-as, encontram com o tempo o que lhes é melhor.”


“Queres ser médico, meu filho? Essa aspiração é digna de uma alma generosa, de um espírito ávido pela ciência. Desejas que os homens te considerem um deus que alivia seus males e lhes afugenta o méd. Mas, pensaste no que se transformará tua vida?
Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar teu descanso, teu lazer, tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás.
Os pobres, acostumados a sofrer, te chamarão só em caso de urgência. Mas os ricos te tratarão como escravo encarregado de remediar seus excessos: seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados: farão com que te despertes e venhas a toda pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns de sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar desse ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado.
Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conservadores. Agora não poderás descartar aos chatos, aos poucos inteligentes, aos presunçosos, aos desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo de tua profissão te proibirá impedir ou denunciar ações indignas das quais serás testemunha.
Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atendo poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não por tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte de tua roupa, pela aparência de tua casa, pelo número de teus criados pela atenção que dediques às conversas informais e aos gostos de teus pacientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; outros se és ateu.
Gostas de simplicidade: terás que adotar a atitude de um profeta. És ativo, sabes quanto vale o tempo. Não poderás demonstrar cansaço ou impaciência: terás que escutar relatos que procedem do começo dos tempos quando apenas se quer explicar a história de uma prisão de ventre. Os ociosos virão ver-te pelo simples prazer da conversa: servirás de escoamento para suas mínimas vaidades. Embora a medicina seja uma ciência incerta, que graças aos esforços de seus discípulos vai adquirindo pouco a pouco, um certo grau de certeza, não te será permitido duvidar, sob pena de perderes a confiança que em ti depositam. Se não afirmas que conheces a natureza da enfermidade, que possuis o remédio para curá-la, o povo te trocará pelos charlatães que vendem a mentira que eles necessitam.
Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam tara sido por sua própria robustez: se morrem fostes tu o culpado.
Enquanto estão em perito, te tratam como a um deus: te suplicam, te exaltam, te enchem de elogios. Apenas começam a convalescer já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários se aborrecem e te denigrem. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem.
Não penses que essa profissão tão dura te tornará um homem rico. Assegura-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivestes os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político.
Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das favelas, os fortes perfumes das prostitutas: terás que palmar tumores, tratar de chagas verde de pus, examinar urina, remexes em escarros, fixar o olhar e o olfato em imundícies.
Quantas vezes em um belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: ainda bem que tive a precaução de não jogar fora. Recordas então que terás que agradecer e mostrar todo teu interesse por aquela dejeção.
Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas desprovidas de maquiagem, com parte de seus atrativos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para converterem-se em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão.
O mundo te parecerá um grande hospital, uma assembléia de seres que se queixam. Tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas. Assistindo algumas vezes o luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante faz cálculos sobre sua herança.
Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão: e sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido, se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar à luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhastes até o final; se anseias conhecer o homem e penetrar na trágica grandeza do seu destino, então, torna-te médico, meu filho.”

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Unbelievable

Tattoo

Será que conseguimos parar um tantinho só para percebermos o quanto determinados símbolos e atitudes deixaram de ter peso e significado negativos? O violão, por exemplo. Nas décadas de cinquenta e sessenta, as crianças, os jovens aprendiam a tocar piano, violino, flauta, reco-reco,campainha, mas violão, não. Violão era coisa de desocupado, de boêmio, do povo que ficava no bar e isso no Rio, cidade mais aberta e leve que São Paulo. Dias atrás assisti a documentário sobre a Bossa Nova e lá estavam Carlinhos Lyra e Roberto Menescal a comentar sobre a dificuldade que era, à época, aprender e ensinar a tocar violão. Wanda Sá, que fez um belo dueto com Menescal, ambos com seus violões, confirmou o quanto era difícil ser mulher e ainda por cima tocar violão. Mulher com voz ativa, a sustentar sozinha a família? Hoje, quase quarenta por cento dos lares brasileiros são sustentados por mulheres (não me baseio somente nos dados do IBGE), mas o que não mudou foi a dupla jornada: A maioria das mulheres cuida da casa e trabalha fora para garantir o sustento. Na década de sessenta Anne Bancroft (Mrs.Robinson) seduziu Dustin Hoffmann em The Graduate (1967), enquanto Jane Fonda, lançada por Roger Vadim como Barbarella (1968), era o auge da sensualidade. Hoje, Barbarella é ingênua e a síndrome Mrs.Robinson ganhou força, espaço e garante a felicidade de muitos casais.
Eu gosto dos anos 60 e gosto das mudanças que surgiram nessa década, tão ingênua e lírica, quanto idealista e entusiasta. Afinal, foi naquela década que a paz e o amor conviveram com as músicas de protesto e a rebeldia de parte da juventude que oscilava entre a vida natural e a química alucinógena. Os anos 60 fortaleceram a base da década seguinte e me conscientizo que faço parte da última geração que pode escolher entre estudar para ser alguém na vida, ou, construir uma casinha no meio do mato, perto do rio e do mar, para viver em harmonia com a natureza o resto de seus dias. Somos os últimos pais de surfistas, músicos e 'artistas', que passaram ao longe da gana por grana. Fizemos parte do grupo eclético de jovens, cujo futuro foi em parte definido pelo tamanho e pela força empenhada por nossos pais em nossas rédeas.
Os nascidos no final da década de cinquenta mantiveram vivos os sonhos da casinha no meio do mato, do alimento natural, da liberdade, da paz, da yoga, da busca por respostas em outras dimensões, em outros planetas. Alguns ingressaram ou criaram grupos, cultos e ritos em busca da chamada "luz universal", do "autoconhecimento", da busca pela "divindade interna", da magia, através das folhas da ayahuasca, de ervas, do kambo. Eu não sei se foram as músicas, a doutrina repetida, o barato (ou o tremendo bode) que a mistura de determinadas plantas propiciou à alguns jovens da minha geração e os fez acreditarem em "novas revelações", "luzes", "desbloqueios", "corpos sutis" a reforçar, do norte ao sul do país, o sincretismo religioso que sempre existiu aqui, a junção do espiritismo com a "força" da floresta. Essa era uma das vertentes. A segunda, mais urbana, procurou seu nirvana com o amigo do amigo do amigo, que sempre tinha no bolso o pacotinho fedido de maconha, o pó e outros trecos nada baratos, hoje, consumidos por alguns pais da minha geração e seus filhos, baseados no convencimento de que um cigarrinho de maconha "faria menos mal" do que uma dose de whisky e o cigarro impregnado de câncer vendido na banca de jornal da esquina. Tenho o espírito livre e sei onde é meu lugar, onde me sinto bem e feliz, sei sobre as coisas que eu quis fazer e não fiz, os lugares que eu queria viver, mas não vivi e dou graças a Deus pelos pais que tive, responsáveis, presentes, preocupados, exímios e competentes seguradores das minhas rédeas. Fiz parte da terceira vertente: Os caretas politizados (não entramos em contato com
drogas, tampouco fizemos parte de movimentos político-estudantis), jovens multiculturais, leitores e desportistas pelo prazer que a leitura e a pratica de esportes nos proporcionava, plenos de ideias, ideais e, à época, sem sabermos, equilibrávamos as outras duas vertentes com os valores, os sentimentos e a segurança de lares bem estruturados e a ingenuidade natural que ainda nos é tão peculiar. Fizeram-me careta, meus pais, e me ensinaram o prazer das coisas simples pela alegria interna, pela naturalidade para ser e fazer feliz, sem o trago, sem o gole, sem a fuga e, principalmente, sem a dependência. Dizem que foi na década de sessenta que um tatuador estrangeiro teria se instalado na zona portuária da cidade de Santos e lá teria criado fama. Portanto, no Brasil, há cinquenta anos, a tatuagem era coisa de bandido e de marinheiro. Li que arqueólogos encontraram registros de tatuagens feitas no Egito de 4000 a 2000 a.C. Na Polinésia, Filipinas, Indonésia, Nova Zelândia, a tatuagem estaria ligada à religião, à proteção e também identificaria a qual tribo a pessoa pertencia. Algumas tatuagens serviam para marcar fatos da vida: A primeira caça, a puberdade, o casamento, o nascimento do filho. Consta que os primeiros cristãos, perseguidos pela nova fé que optaram, reconheciam-se por sinais específicos tatuados em suas peles. Na Idade Média, a igreja Católica Romana teria proibido a tatuagem, por considerá-la vandalismo contra o próprio corpo. Na Segunda Grande Guerra a tatuagem ganhou força com os soldados que tatuavam o nome da amada e também representou o sofrimento dos prisioneiros de guerra. A tatuagem “é uma forma de comunicação não verbal que oferece informação instantânea”. E é permanente.
Tudo o que é permanente ou que causa dependência me afasta. Mas em algum momento da vida surge a necessidade de se tomar determinada decisão e assim foi com a minha tatuagem. Primeiro, foi meu filho que fez a sua tatuagem sem que eu soubesse e mostrou-me o desenho no dia que recebíamos visita em casa - com isso, ele descartou qualquer surto materno mais enfático. Depois, ele fez a segunda tatuagem e planejava a terceira quando eu voltava para casa, num dia chuvoso de Brasília, e apesar da velocidade mínima, rodei 360º com o carro, atravessei o canteiro entre um poste de luz e uma palmeira e aterrissei na pista contrária. Descarto a aquaplanagem porque a velocidade era bem baixa, considero um acidente comum de pistas molhadas naquela cidade seca, considero um milagre eu não ter machucado ninguém - o ponto de ônibus estava cheio de gente - eu não ter batido meu carro em outro carro, eu não ter me machucado. Considero outro milagre minha aterrissagem perfeita na pista oposta, apesar do ônibus que vinha em sentido contrário. Agradeci a todos esses milagres com a única tatuagem que tenho, desenho escolhido no calendário litúrgico greco-ortodoxo daquele ano. Foi divertido ver meu filho no papel de pai, a exigir agulhas novas, tinta de boa qualidade e o cuidado do tatuador, tudo o que eu teria feito se ele tivesse me contado antes de fazer sua primeira tatuagem. A minha tattoo é puro agradecimento e reforça minha fé.
Espalhadas e adotadas por muitos, há tantas pessoas tatuadas a criar nova estética, por vezes de gosto duvidoso. Acho um barato a tattoo de Angelina Jolie da latitude e longitude do nascimento de cada filho e ao mesmo tempo acho exagerada a quantidade de suas tatuagens e a exposição de seus símbolos com roupas e jóias habillés. Acho estranha a Marilyn Monroe tatuada no braço da bela Megan Fox. A perna tatuada de Drew Barrymore talvez ficasse mais interessante com um belo par de tênis. Considero as tatuagens de Fernanda Young demasiadas em quantidade e colorido. Percebo que Jolie tentou, sem sucesso, apagar algumas tatuagens, presumo da época de Bob Thornton. Tatuar o nome de amados pode dar trabalho. Enfim, fui mocinha muito bem comportada a vida inteira e tenho uma tatuagem. Talvez faça a segunda, não sei. Não gosto do exagero e do que se aproxima da mutilação. Piercing? Nenhum. Não tenho interesse.
Menina, menina, você tatuou todo o rosto? Assim, não vai encontrar ninguém. Será?

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Difusão, correção e qualidade

Hoje em dia, as pessoas que precisam checar um nome ou uma data tendem a recorrer à Wikipedia. Para a minoria que ainda não sabe do que se trata, a Wikipedia é uma enciclopédia online constantemente escrita e reescrita por seus usuários. Em outras palavras, se você buscar um verbete como "Napoleão" e perceber que há alguma informação incompleta ou incorreta, você pode se registrar no site, editar o texto e salvar a versão correta na base de dados.
Naturalmente, isso permite que algumas pessoas irresponsáveis e mal intencionadas disseminem informações falsas, mas os milhões de usuários também podem atuar checando uns aos outros. Se alguém alterou o texto sobre Napoleão Bonaparte, mudando o lugar de sua morte para Santo Domingo em vez de Santa Helena, outros iriam imediatamente corrigi-lo (e eu acredito que depois que várias pessoas entraram com processos de calúnia contra a Wikipedia, um tipo de conselho editorial foi estabelecido para exercer controle sobre as mudanças que são difamatórias). Nesse sentido, a Wikipedia confirma as teorias do filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, de uma comunidade (científica) que através de um tipo de homeostase elimina os erros e legitima novas descobertas, continuando assim a carregar o que ele chamou de tocha da verdade.
Mas, embora esse controle coletivo mantenha a acuidade do texto sobre Napoleão, será que fará o mesmo para um João da Silva? Para dar um exemplo, vamos observar o texto sobre uma pessoa que é um pouco mais conhecida do que João da Silva, porém menos famosa do que Napoleão - em outras palavras, eu mesmo. Há algum tempo eu corrigi o texto sobre "Umberto Eco" porque ele continha informações falsas. Entre outras invenções, estava escrito que eu sou o mais velho de treze filhos. Isso é verdade no caso do meu pai, não no meu. Todas as vezes que a curiosidade me levou a checar o texto sobre mim, encontrei mais nonsense, então desisti.
Recentemente, alguns amigos informaram-me que o texto da Wikipedia dizia que eu havia me casado com a filha de meu ex-chefe, o editor italiano Valentino Bompiani. Isso não é nem um pouco difamatório, mas no caso de suas filhas - minhas queridas amigas Ginevra e Emanuela - pensarem assim, eu eliminei a informação. Nesse caso não é possível argumentar que isso foi um erro compreensível - como a história dos treze filhos - ou que simplesmente perpetuou um rumor corrente: ninguém nunca nem mesmo pensou que eu poderia me casar com qualquer uma delas. O editor anônimo da Wikipedia havia modificado o texto para disseminar sua fantasia particular, sem checar a informação com nenhuma fonte.
Então, o quão confiável é a informação encontrada na Wikipedia? Quando eu a uso, emprego as técnicas utilizadas pelos acadêmicos profissionais: leio sobre um determinado tópico na Wikipedia e depois comparo a informação com material encontrado em três ou quatro outros sites. Se o fato for confirmado por três fontes diferentes, então há uma boa possibilidade de que seja verdade - mas fique atento para os sites que são parasitas da Wikipedia, porque eles simplesmente repetem os erros.
Outro método é ler sobre o mesmo tópico na Wikipedia, mas em outra língua - se o seu Urdu estiver meio enferrujado, você pode experimentar as versões italiana ou francesa. Se elas forem diferentes, você poderá encontrar a contradição. Isso, por sua vez, fará com que você se levante da escrivaninha e consulte uma enciclopédia impressa, apesar de sua fé convicta no virtual.
Esses são métodos de um acadêmico que aprendeu como descobrir os fatos ao comparar as fontes. E os outros? Os crentes? As crianças que usam a Wikipedia para suas tarefas escolares? Tenham em mente que o que eu escrevi aqui sobre a Wikipedia é verdadeiro para qualquer outro site. Tanto assim que já faz um certo tempo que venho defendendo o estabelecimento de um centro de monitoramento da internet no qual um comitê de especialistas conceituados revisaria e avaliaria os sites por sua confiabilidade e precisão.
Mas vamos considerar outro exemplo, um que não envolva um nome histórico como Napoleão (com dois milhões de entradas no Google), mas o de um jovem escritor que trabalhou na obscuridade até um ano atrás, quando ganhou o Prêmio Strega, de grande prestígio literário na Itália. Estou falando de Paolo Giordano, autor de "The Solitude of Prime Numbers" ["A Solidão dos Números Primos"]. Uma busca por seu nome no Google resulta em 242 mil entradas. Como podemos monitorar todos esses sites?
Pensei em monitorar apenas sites dedicados a um único autor sobre quem estudantes possam buscar informações com frequência. Mas se alguém fizer uma busca pelo nome de Peirce (o filósofo que mencionei no início) a busca resulta em quase um milhão de entradas.
Então temos um sério problema que, por enquanto, não tem solução.

Texto de Umberto Eco publicado no jornal The New York Times

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nosso lado mulherzinha

Será que existe alguém sem uma pontinha de curiosidade diante do tapete vermelho de festival badalado e do desfile de famosos, que dedicam tempo e esforço para se apresentarem, alguns poucos minutinhos, diante de flashes de inúmeros fotógrafos? Pois foi no tapete vermelho do festival de cinema de Toronto, que Jennifer Connelly - uma das mulheres mais bonitas do cinema - mostrou a sensibilidade de seus calcanhares machucados pelos sapatos com saltos super-altos, altíssimos, que todas insistem em usar. É bom saber que a belíssima Jennifer tem calcanhares sensíveis iguais aos nossos, ou a algumas de nós. Penélope Cruz, não entendi, deixou de lado o charme e a produção de outras mostras e parecia ter amarrado um tecido sobre o corpo. A baixinha Natalie Portman não ganharia o prêmio da mais elegante da noite, mas esbanjou charme e Juliane Moore, bem, será que Juliane Moore e as milhões de sardas que a acompanham, sentiram-se bem e à vontade no vestido bufante e um tanto exagerado escolhido para a ocasião? Pelo sorriso meio forçado, pela posição da perna e pelos dedos dos pés esparramados, acredito que não. Acho feio dedos dos pés esparramados em sandálias mal escolhidas. Alguém repara em dedos de pés esparramados? Eu reparo.
Eu sei, tentam nos convencer, a nós, mulheres com um pouco mais de vinte e bem menos de sessenta, tal qual Mrs.Moore, que podemos e devemos até, abusar de decotes, mas será que tanto assim? Desse jeito? E as sardas? Eu sei, dizem que são charmosas e encantadoras, mas tantas? Outro dia vi uma fotografia das mãos de Juliane Moore e fiquei impressionada com a quantidade de sardas.
Drew Barrymore usou um vestido bem interessante da coleção 2010 de Alexander Mcqueen e fugiu dos padrões curto, curtíssimo, decotes escancarados e tecidos amontoados sobre o corpo.
A cor não valoriza muitas mulheres, ainda mais as loiras - decididamente o amarelo é para poucas - mas a linha do vestido, os detalhes e a renda preta diretamente sobre o colo reviveram época de extrema elegância. Renda preta que parecia desenhada, tatuada sobre a pele de Miss Barrymore. Ela sempre surpreende e tal qual camaleão muda a cor dos cabelos, faz penteados de épocas diferentes, utiliza cores ousadas (reparem na cor do esmalte) e se transforma para cada tapete vermelho que lhe aparece pela frente. Ela tem personalidade.
Curiosa eu quis conhecer outros modelos da mesma coleção e fiquei encantada com detalhes que me fizeram lembrar vestidos dos anos 60 e trajes da Europa oriental e da Ásia. O chato é saber que o mesmo tecido com padrão tão distinto foi utilizado para a confecção de outro modelito usado por Naomi Campbell - onde anda a exclusividade? - em evento do qual também participou Victoria Beckham e sua crescente magreza.