terça-feira, 6 de novembro de 2007

Outro continente

International Herald Tribune
03/11/2007

"Instituições humanitárias são os novos imperialistas na África

Por Greg Mills de Johannesburgo, África do Sul

"Façamos um teste. Vamos ver qual Landcruiser de uma ONG chega primeiro ao estacionamento", disse recentemente um colega em Ruanda. Não era uma piada. A área de estacionamento de um restaurante sofisticado em qualquer capital africana revela muita coisa a respeito do novo jogo neo-imperialista que se desenrola na África. Um veículo de tração nas quatro rodas após o outro, cada um trazendo a logomarca de alguma agência doadora ou instituição de caridade voltada para as crianças, disputava o espaço para estacionar. Não é difícil também identificar o pessoal do setor humanitário. Eles geralmente são brancos e barulhentos, e preferem usar um uniforme do tipo chique-surrado composto de camiseta, calça jeans e sandálias. Mas eles são mais poderosos e geralmente menos benignos do que parecem. O fato de ter me sentado recentemente no Cafe Bourbon na reluzente área de compras em Kigali abriu os meus olhos - e os meus ouvidos - para algumas das conseqüências disso. "Precisamos apenas transferir os US$ 8,5 milhões", disse o funcionário norte-americano de uma proeminente organização não governamental. Tal dinheiro confere poder e influência consideráveis a esses indivíduos. O ruandês médio ganha US$ 240 por ano. O orçamento anual do governo é de US$ 650 milhões. Acontecimentos recentes no Chade relativos ao suposto contrabando de crianças órfãs por uma ONG ilustram, para dizer o mínimo, o grau de suspeita provocado por tal poder relativo. Aqueles que simpatizam com o povo, a maioria jovens, que realizam trabalhos humanitários na África argumentam que fornecem habilidades muito necessárias aos africanos destituídos. A defesa normalmente acrescenta que eles estão abdicando de carreiras promissoras e enfrentando dificuldades ao optar por esse trabalho. O que eles não enfatizam é o dano menos óbvio que causam. Aqueles que anteriormente prestavam serviços imperialistas sofreram dificuldades, doenças e violência. Naquela época não havia evacuação médica de emergência, a mídia para dramatizar os serviços realizados, nem astros da música pop para fazer campanhas favoráveis àqueles funcionários. E, ainda que aqueles antepassados tenham promovido políticas que hoje em dia são consideradas repulsivas, eles eram mais responsáveis do que os indivíduos engajados nesse novo serviço quase colonial. Os agentes imperialistas do passado pelo menos tinham que prestar contas aos parlamentos e contribuintes, e não a diretorias escolhidas internamente, compostas de líderes ideológicos cheios de auto-importância. Mas isso não é o pior. Recentemente Paris Hilton anunciou que será realmente corajosa e viajará para Ruanda."Sim, estou assustada", disse ela. "Ouvir dizer que é realmente perigoso. Nunca fiz uma viagem como essa". Ela estaria pretendendo "deixar a sua marca", assim como vários outros antes dela, supostamente ajudando a África enquanto ajuda a si própria.
Assim que chegar lá ela pode pensar em fazer uma visita à Millennium Development Village local, uma idéia para ajudar a África formulada pelo professor da Universidade Columbia, Jeffrey Sachs. A celebridade cabeça-de-vento poderia conhecer a celebridade da economia.
Ao explicar o que motivou a idéia da viagem, Hilton declarou: "Existe tanta necessidade nessa área, e sinto que, se for lá, isso atrairá mais atenção para aquilo que as pessoas podem fazer para ajudar".Se isso de fato ocorrer, tomara que a visita da herdeira do império da hotelaria - uma visita atualmente adiada - seja mais bem-sucedida do que o conceito de vila por meio do qual Sachs quis provar a sua teoria de que, se você fornecer recursos suficientes a uma pequena unidade, os habitantes prosperarão, em um micro-protótipo da tese do "mais ajuda é igual a mais desenvolvimento africano". O custo dos "serviços" prestados por tais estrangeiros é, como sempre, carregado pelos africanos. As suas ações, técnicas de obtenção de verbas e proeminência fortalecem a percepção de que a África é incapaz de ajudar a si mesmo, uma percepção ao mesmo tempo doméstica, e, especialmente tendo em vista as exigências feitas para o financiamento das ONGs estrangeiras, externa. O trabalho dessas pessoas perpetua a idéia do desamparo e uma mentalidade de vítima. Em um momento no qual muita gente percebeu que o desenvolvimento da África depende dos africanos determinarem as suas próprias políticas e fazerem essas escolhas, tais ações deslocam poder e ênfase para longe dos tomadores de decisões do continente.
Retratar a África como um objeto de pena é algo que também ignora o progresso bem real que o continente, atualmente no seu quarto ano consecutivo de crescimento de 6% do seu produto interno bruto, fez na solução de conflitos e elevação dos padrões de vida.
O que a África necessita é de um crescimento econômico extraordinário, e não de uma piedade extraordinária. É por isso que a África acabará cansando-se desta nova geração de imperialistas, assim como rejeitou os imperialistas anteriores.

Greg Mills é diretor da Fundação Brenthurst, com sede em Johannesburgo."

Tradução: UOL

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2007/11/03/ult2680u592.jhtm

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