sábado, 2 de agosto de 2008

Bubbles and lather

Eu sei que pode parecer meio tolo, mas é muito bom contar com o auxilio de eletrodomésticos cheio de funções eficazes, que tornam nossa vida mais fácil e melhor.
Resolvemos aposentar a máquina de lavar após oito anos de uso, sem esquecer os comentários do meu pai sobre a qualidade dos eletrodomésticos, carros e demais máquinas e equipamentos que, segundo ele, haviam se tornado descartáveis. Ele era engenheiro mecânico, sabia o que dizia e reconhecia o uso exagerado do plástico de qualidade ruim em quase tudo. Ainda tenho em casa aparelhos importados de extrema qualidade, eficácia e durabilidade, que meus pais compraram.
Escolhi três modelos, comparei preços, qualificações, capacidade, fabricante e sugeri que meu filho escolhesse o que mais lhe agradaria. Ele foi além, comprou a super king profissional, com ciclos ecológicos, trinta e cinco programas, economia de energia, duplo enxágüe, luzes azuis, vidro temperado, que fala, anda, cozinha e passa. Fiquei encantada com o vidro temperado porque, pela primeira vez, posso curtir a dança louca das roupas enquanto são lavadas e a velocidade que a centrifuga atinge e me faz lembrar o movimento inicial de uma turbina de avião. Sim, tenho um lado menina que se diverte com tudo.
Mas o que fazer com a máquina de lavar que estava em casa? Deixá-la ao lado da geladeira Gibson, que tem mais de cinqüenta anos e gela mais e melhor do que muita super geladeira que existe por aí, seria alçar a lavadora de roupas a uma categoria não merecida. Sugeri que a lavadora ficasse guardada em algum lugar para uso do pimpolho que logo, logo, montará sua própria casa, mas ele aceitou de bom grado doá-la a uma instituição de caridade. E assim foi: No mesmo dia que entregaram a máquina nova, retiraram a antiga e os quatro carregadores se auxiliaram. Doar de coração aberto é muito bom e nos faz sentir bem.


Imagem: Gil Elvgren's pin up

A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira.

Rubem Alves

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Two roads - the road not taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I could
To where it bent in the undergrowth
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that, the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I -
I took the one less traveled by,
And that has made all the diference.

Robert Frost

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Pausas

O escritório mudará para a região que sempre trabalhei. Conheço e gosto daquela área, além de estar bem próximo de casa e me poupar do cansaço e das horas gastas em congestionamentos. Mas ainda não é bem isso; não é bem para isso, que me preparei por tantos anos.
Abracei a causa e puxei para mim a responsabilidade da intermediação entre corretoras, proprietário e possibilidades. Às vezes erram pelo amadorismo e por mais que eu queira limitar minha atuação ao razoável e proporcional à contrapartida, é impossível não intervir e corrigir a rota. O bom de toda a movimentação e empenho é conquistar o resultado favorável para todos.
Até mesmo pelo cansaço que os novos medicamentos me fizeram sentir nestes dias, aprendi a dedicar quinze minutos e apreciar uma boa xícara de chá, num café com pretensões a bistrô que fica bem próximo. Paro tudo e tomo com prazer o chá, enquanto folheio alguma revista que colocam à disposição. Aprendo sobre necessárias pausas.

Quem explica ?

Mais uma vez um sonho indesejado pleno de detalhes e significados, que atormentou a noite e alguns poucos dias seguintes. É incrível sonhar com alguém jamais visto e que não se quer ver, que atropela e muda a vida da pior maneira possível, sobre quem se aprendem as piores referências, além de, infelizmente, nos obrigar a desacreditar valores e idéias fundamentais.
Que coisa incontrolável é essa, que nos faz entristecer até em sonho.
Parece que estamos em período de sonhos conturbados e desalentadores, porque duas pessoas queridas e próximas comentaram sobre o mesmo transtorno: Sonhos e sensações ruins que deles vieram.
Pensando bem, o sonho recente de uma querida amiga foi bem pior, porque – até agora, em dúvida se acordada ou adormecida – ouviu sons e ainda por cima, viu vultos.
Na manhã seguinte o mal estar era tão forte, que voltei ao pronto-socorro (depois da última experiência fui valente, ou, idiota o suficiente para insistir no conhecimento da causa e cura de tanto mal estar) para diagnóstico e medicação imediata, antes da ida ao escritório. Os mesmos sintomas, alguns agravados, novas possíveis causas e a certeza de mais exames e da opinião de especialista. O duro é segurar isso quieta, para não expor o que vai por dentro.
Dois dias depois toca o telefone e ensaio o início de um comentário, um desabafo necessário para encontrar força, carinho, mas ouço palavras agressivas
e bem duras, mescladas com injustos gritos sobre culpa, que em momento algum pretendi fazer sentir. Fico triste e sem ação. Há tempos me pergunto que força ruim é essa, que impregna de tal forma negativa o bom sentimento e impede a realização do melhor. Não, não é força alguma, por que não há nada tão ruim que dure tanto tempo; é o medo, apenas o medo.
Não é normal ligar só para destruir. Não é normal.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Receitas pedantes

Os ingleses têm um senso de humor interessante. Outro dia li uma matéria sobre o mais novo livro de Julian Barnes, um assumido aprendiz de cozinheiro, que se dedica a desmistificar os livros de culinária existentes. Em seu “O pedante na cozinha”, encontramos o relato de um apaixonado por iguarias, que depende de receitas alheias para preparar delícias. “O pedante na cozinha não está interessado em saber se cozinhar é ciência ou arte; ele se conforma se for um hobby. Só quer comida gostosa, nutritiva, sem envenenar os amigos, só quer ampliar seu repertório, e devagar”.
Essas são algumas das dicas de Barnes:
“1- Jamais comprar um livro por causa das imagens.
2- Jamais comprar livros com layouts transados.
3- Evitar livros abrangentes demais (como Grandes Pratos do Mundo).
4- Jamais comprar o livro de receitas do chef, em exposição, quando sair do restaurante.
5- Jamais comprar um livro de sucos se não possuir um espremedor de frutas.
6- Resistir, se possível, às antologias atraentes de receitas regionais, que nos sentimos tentados a comprar de lembrança em férias no exterior.
7- Evitar livros de receitas famosas do passado.
8- Jamais trocar livros com receitas garantidas por uma versão nova que tenha mais figuras.
9- Jamais comprar uma coleção de receitas com fins beneficentes. Mande o valor do livro direto para a instituição de caridade.
10- Não esquecer que os autores de livros de culinária não diferem de outros escritores: muitos só têm um livro dentro de si (e alguns não deveriam te-lo deixado sair).”


Imagem de Mapplethorpe

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Vida saudável

A pausa nunca é simples, ou, por outra, nunca é contemplativa e quieta.
Invento comidinhas gostosas, tento mostrar para meu filho que estou bem, inteira, também tento me convencer que estou bem e inteira. Foi assim à tarde em casa: Mansa, tranqüila, boa música, refeição preparada com carinho, plantas regadas, chá quentinho, televisão e cochilos.
Foi no programa da Oprah que assisti à última palestra do professor da Carnegie Mellon University, Randy Pausch. Não me impressionei com as difíceis flexões que ele fez em pleno palco, nem com o fato de ele ter sido criado com extremo amor pelos pais e ser ele pai de três encantadoras crianças, uma delas ainda bebê. Não me impressionei com o fato de ele ter câncer e ter recebido o diagnóstico de três meses de vida, mas fiquei muito comovida com o que ele faz com o tempo que lhe resta, com o legado que ele se esforça para deixar aos seus filhos, em detrimento do seu próprio emocional.
Comovi-me com esse amor imenso de quem parte e quer que os que ficam estejam bem.
“Estou enfrentando um problema de planejamento. Embora em geral eu esteja em excelente forma física, tenho dez tumores no fígado e me restam apenas alguns meses de vida. Sou pai de três crianças e sou casado com a mulher dos meus sonhos. Seria cômodo ficar me lamentando, mas isso não faria bem a eles nem a mim. Então, como viver esse meu tempo tão limitado? O óbvio é ficar com minha família e cuidar dela. Enquanto posso, estou com eles todos os instantes e tomo as providências logísticas necessárias para lhes facilitar o caminho na vida sem mim. O menos óbvio é como ensinar a meus filhos o que eu lhes ensinaria nos próximos vinte anos. Agora eles são jovens demais para essas conversas. Todo nós, pais, desejamos ensinar os filhos a distinguirem o certo do errado, o que consideramos importante e como lidar com os desafios que a vida lhes trará. Também queremos que conheçam histórias de nossas vidas, uma maneira de ensinar-lhes a lidar com suas próprias vidas.”

“A lição final” de Randy Pausch vale a leitura.
Outro que descobri neste período e está aqui, ao meu lado, deveria ser leitura obrigatória para todos, sem exceção: “Anticâncer” de David Servan-Schreiber, um psiquiatra e pesquisador de neurociência que, acidentalmente, há quinze anos, descobriu ter um tumor no cérebro. Lista de alimentos e exercícios anticâncer; a competição de ácidos em nosso organismo; o gasto de energia associado a diferentes atividades em MET por hora; o desejo de viver e as células imunológicas e muito mais.
Esqueça a palavra câncer e leia esse manual da vida saudável: “Prevenir e vencer usando nossas defesas naturais - Sempre pensei que o único problema da medicina científica fosse o fato de ela não ser suficientemente científica. A medicina moderna só se tornará verdadeiramente científica quando os médicos e seus pacientes tiverem aprendido a tirar partido das forças do corpo e do espírito que agem através do poder de cura da natureza.”

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pronto-socorro

No pronto-socorro encontramos médicos generalistas e habitualmente experientes, que conseguem diminuir o mal estar e determinar a realização de exames imediatos, com diagnósticos rápidos e eficientes. O resultado de um hemograma, que pode demorar até uma semana, no pronto-socorro é definido em uma hora. Enquanto escrevo penso quando foi que inventei a moda de ir ao pronto-socorro sozinha e com tristeza me lembro que foi quando voltei para minha cidade e sem qualquer auxílio tive que enfrentar situações muito ruins. Aprendi o caminho e os procedimentos. Aprendi a fingir ser forte e a ter paciência.
Fato é que passei muito mal no escritório e com muito esforço consegui dirigir até minha casa. Tentei descansar, minimizar os efeitos e na manhã seguinte, fui ao pronto-socorro para descobrir o motivo e diminuir tanto mal estar. É óbvio que minha intenção era em seguida ir para o escritório, por que não admito que, às vezes, uma pausa é necessária.
Fiquei sob cuidados médicos por quatro longas e cansativas horas, com direito à glicose, dramin e cloridato de ranitidina direto na veia. O dramin deixou minha voz pastosa e lenta; deixou minha mente lenta e isso me fez sentir considerável angústia, porque eu estava sozinha e queria permanecer atenta.
Não sei por que a enfermeira – céus! que enfermeira – insistiu que deveríamos ficar lado a lado, na sala de enfermagem, enquanto seus incompetentes assistentes empreendiam a busca por nossas veias. Não sei por que também, presumem que todas as pessoas tenham a mesma tolerância e reação diante de agulhas, que são incompatíveis com qualquer parte do corpo humano. Ainda penso qual a melhor maneira para esclarecer a aquela senhora, que a paciente que estava ao meu lado e zelosa perguntou se o medicamento que lhe foi receitado não agravaria seu estado de “pré-diabética”, não brincou quando insistia em dizer que “estava tudo escuro”, quase vomitou, demonstrou claramente sua reação sofrida à medicação e desmaiou. Pelo amor de Deus, tire a agulha da moça! Espera o quê, minha senhora? Tire a agulha da moça! E a maldita agulha ainda ficou por um tempo, enquanto nós éramos retirados para a sala de repouso, onde deveríamos estar desde o começo, para que cuidassem da infeliz. Quase meia hora depois, a moça pré-diabética saiu inconsciente da sala de enfermagem, deitada em uma maca, sem qualquer agulha espetada em sua veia. Finalmente, tiraram o medicamento.E ela estava sozinha!

Quem me conhece sabe como me senti e qual seria minha reação. A droga é que o dramin me deixou prostrada. Eis o principal motivo da minha angustia: Senti-me responsável por aquela mulher, inconsciente e só Deus sabe com quais danos decorrentes do medicamento mal indicado. Quis ir até os fundos daquele pronto-socorro e encontrá-la, saber como estava, chamar alguém seu conhecido, ajudar, não deixá-la sozinha e desamparada nas mãos daqueles profissionais.
Na sala de repouso, frasco de glicose e complementos pendurado no teto, observei uma garota japonesa que dormia, enquanto o seu próprio frasco se esvaziava. Nenhuma assistente de enfermagem, ninguém. Quando o líquido do frasco dela terminou, peguei meu frasco do suporte e fui chamar a assistente de enfermagem para ajudar a garota.
O meu celular tocou, tive que atender por conta do barulho e me angustiei mais ainda por que eu não conseguia formar uma sentença completa.
Lembrei muito do pôster que havia em qualquer hospital e consultório no meu tempo de garota: A enfermeira bonita, com chapeuzinho branco e uma cruz vermelha, o dedo indicador encostado nos lábios a pedir silêncio. Pois silêncio é palavra desconhecida da gritante enfermeira e de suas assistentes saltitantes. Salto de borracha silencioso? Nunca ouviram falar. Toctoctoctoctoc, o maldito barulho do salto alto da assistente de enfermagem, que talvez se sentisse em alguma passarela ou boate, menos num hospital. Em qualquer lugar o barulho daquele salto incomodaria: toctoctoctoctoc, pisava firme a baixinha espevitada vestida de branco. Sob o efeito dos medicamentos, voltei à sala de enfermagem para que tirassem a agulha. Lá estava a enfermeira ocupada a preencher papéis. Quando uma das assistentes começou a tirar os esparadrapos, imperativa ela a impediu e ordenou: “Deixa que dessa moça eu tiro”. Naquele momento eu não entendi o motivo de fazer-me esperar mais ainda, muito menos da atenção desnecessária daquela senhora. Pois, enquanto ela tirava a agulha me olhava direto nos olhos e tentava me convencer com as seguintes palavras: “Sabe aquela moça que passou mal, foi medo da agulha, viu? Ela está bem e tem medo de agulha, entendeu?” Entendeu?
Escrevo e exponho neste espaço, com a esperança que a moça pré-diabética esteja bem, leia blogs e responda: Passou.
Imagem de Friedlander

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Auto-engano

Outro dia li o diálogo fictício de um colunista do Estadão com Nelson Rodrigues.
A conversa era sobre o país, as mudanças de costumes e comportamentos.
Uma das frases mais interessantes: Na mentira, o essencial é o auto-engano.

Por isso a mentira é tão ruim, desgastante e trabalhosa: O seu pior é o auto-engano.

domingo, 13 de julho de 2008

A arte de Juliana Dias


Volto ao conceito que advém da emoção estética, ensinamento inicial das aulas de história da arte – um dos melhores cursos que fiz e carrego comigo ao longo dos anos. A obra de um artista deve nos transmitir emoção estética e sua apreciação depende diretamente do impacto que nos causa. Não me refiro à técnica, mas ao sentir.
Tenho o privilégio de resgatar mais uma vez essa idéia com a obra da querida Juliana Dias.
Encantada observo os traços por ela criados, as formas etéreas e belas que parecem flutuar suaves e ao mesmo tempo densas, o formato, as expressões diluídas e únicas, que conferem a conquista de sua marca registrada – objetivo de todo artista: Ser reconhecido através de sua criação.
Sua vocacional aptidão faz com que ela nos presenteie com o oniro e o bom augúrio dos deuses.
Recentemente, Juliana foi convidada a expor parte de sua obra no site da galeria
Saatchi.








sexta-feira, 11 de julho de 2008

Cecília Meireles

"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."

* * *

"Os galos cantam, no crepúsculo dormente
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente

Os galos cantam, no crepúsculo dormente
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma

Fica-se longe, quase morta, como ausente
Sem ter certeza de ninguém, de coisa alguma
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma
E os galos cantam, no crepúsculo dormente

Os galos cantam, no crepúsculo dormente
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente

Os galos cantam, no crepúsculo dormente
Tão para lá, no fim da tarde além da bruma

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma
E os galos cantam, no crepúsculo dormente"

* * *

"O canteiro está molhado.
Trarei flores do canteiro,
Para cobrir o teu sono.

Dorme, dorme, a chuva desce,
Molha as flores do canteiro.

Noite molhada de chuva,
Sem vento, nem ventania,
Noite de mar e lembranças"

* * *

"O olho é uma espécie de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globo brilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são inventadas.

O olho é um teatro por dentro,
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no olho, lágrimas."

* * *

"É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a criação de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence."

quinta-feira, 10 de julho de 2008

The thing about my folks


Pais e filhos deveriam viajar de carro e colocar o sentimento em dia. Fazer coisas inéditas e comuns, aproveitar o melhor da simplicidade e viver juntos por alguns dias. Pai e filho. Passar a vida a limpo, antes que seja tarde.
Assisti pela segunda vez ao filme The thing about my folks, escrito por Paul Reiser, que tem considerável experiência com histórias sobre relacionamentos, cotidiano, erros e acertos. Ele foi um dos criadores e protagonista do adorável seriado Mad about you, aquele que todo casal gostaria de ser e viver.
No papel do pai Peter Falk, que transita entre a firmeza do responsável chefe de família e a ternura do pai e marido dedicado.
A mãe não poderia ser outra além da genial Olympia Dukakis, de quem sou fã incondicional. Filha de imigrantes gregos, Olympia confere a cada personagem que interpreta a sabedoria e a magia das mulheres ternas e fortes.
É dela uma das mais interessantes frases deste filme: As pessoas não mudam, apenas adequam suas expectativas.
Personagens feitos de amor.


Confesso que voei

1.

Mas, se nestas seis décadas e meia
eu fui capaz de algum voo

– concedo, semelhante ao das galinhas,
isto é, rudimentar, desgracioso,
com muitíssimo dispêndio de energia
para pouca ascensão, breve e apenas
em desespero de causa;
em todo o caso uma forma de voo
pelo qual me sustentei no ar
em horas de menos peso –

devo agora, fechado o ciclo do voo,
como os pássaros pousar.

E isto não é como uma loja
que muda de ramo
ou que em fins de Dezembro
fecha para balanço.
Nem como executar
um mandado de detença.
Nem expiar a desordem
de, sendo pedestre, ter voado.
Nem um remate compulsivo
à sedição.

Pousar, é tudo. Regressar
ao afago das coisas da terra.
A terra cobrar por fim o que lhe devo
e eu cobrar dela o que me deve
desde a primeira hora.

Voei, está voado.
Nada de nostalgias.

2.

Escolho o galho
mais ajeitado à minha condição
e, como a ave a quem o voo se esgota
temporariamente, apeio-me do voo.

Assim como a ave que, acabada
de pousar, bate ainda as asas
por duas ou três vezes,
assim as bato eu.

Mas enquanto a ave as bate
como para sacudir delas
os resíduos do voo,
eu faço-o por exigência de equilíbrio:
o ramo verga, já não tenho
a agilidade doutros tempos,
cairia se não batesse as asas.

Isto é: bato-as da mesma forma que
o funâmbulo tenteia a vara
e o cego a bengala.

Para me acomodar mais facilmente
no exterior do voo.

3.

Nem o meu pouso é passageiro
como o da ave. Daqui em diante
assistirei ao decurso dos dias
pousado definitivamente.

Eis-me pois pousado, procurando
ajeitar o corpo à nova condição.

Os olhos erguidos para o espaço
donde me escorracei
para saber se porventura risquei
o cristal do ar com o meu voo.
Um arranhão que fosse, que depois dele
o cristal já não fosse cristal.

Não risquei.
Louvado seja Deus.
Depois de tanto voo desastrado
deixo o ar nítido e inteiro
como o encontrei.

(Não admira. Sempre tive o cuidado
de sacudir os pés à entrada do voo.)

4.

Não. Não é por nostalgia
que nesta hora extrema de pousar
me lembram as hábeis imprudências do voo,
as impudências, a tomada da luz.

Parece-me isto antes gratidão.

Voar foi sempre o mais útil
dos meus gestos inúteis.
A haste de feno ao canto da boca.
Um donativo à carne.
O orifício por onde se escoavam enxurradas.

Intensamente pousado,
é isto que me lembra.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Todo amor que houver nesta vida

O amor verdadeiro de pais, irmãos, amigos, amantes, traz segurança e tranqüilidade, características inerentes ao próprio amar.
No entanto, entre um casal não bastam a segurança e a tranqüilidade, que facilmente se transformam em tédio e monotonia, mas também é fundamental a paixão e a química porque delas surge a energia que impulsiona para a vida, a melodia.
Lembrei desse poema de Cazuza ao pensar no próximo ao ideal.

No bastar-se, no encontrar-se, no completar-se no outro, com tranqüilidade, segurança, paz e a real paixão, o mundo todo em dois.
Ser o pão, ser a essência, sem reter a mente, sem manipular, nem aprisionar. A eterna conquista diária.
Superar idealizações e excluir cativeiros.
É isso o que todos buscam e em cada substituição que fazem têm a esperança de encontrar. Mas o substituir não combina com o amar.
"No aprimoramento da visão que temos do outro seremos capazes de identificar o quanto amamos, ou não. Quem ama quer conhecer. O objetivo é simples: acrescentar, multiplicar em vez de subtrair."
No nosso corpo, o sexo está abaixo, o coração em seguida e acima a cabeça. O erro que muitos praticam é o valorizar um deles em detrimento dos demais. O amor de verdade presume a harmonia entre a cabeça, coração e o sexo; a realização total. Onírico? De forma alguma.

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

E ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não

Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio que me dê alegria

Cazuza

Imagem de Mário de Biasi

domingo, 6 de julho de 2008

Augmentation

It sometimes happens that one kisses
The hand of a morning reflection
In the silence of a landscape
Standing motionless with sealed mouth
Before the city awakens with a thousand fountains
And with the unfettered bathing voices
Suddenly released in the sudden sun
By the street-cleaners of the morning.

And so our pains have not gone for nothing
They lift their veils and reveal
Their mighty arms swelling
To reach into the heart of the city
Like the Magi of the East, and to raise
The fingers of the sleepers one by one
Toward the row of boats that sail the streets
Laden with perfumes
With treasures and provisions
From the remote lands, like the glance
Of a woman daydreaming.

Andreas Embiricos