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domingo, 26 de fevereiro de 2012

O que de mais belo soube sempre o disse, de repente, a alguém que não conhecia

Pode ser difícil, conflituoso até, o exercício do “e se” praticado solitariamente, você e seus botões mais falantes, ou em conjunto com alguém que a estima, sincero e íntimo o suficiente a ponto de bem conhece-la e a sua vida.
"E se" eu não tivesse feito aquela escolha, não tivesse adotado aquela atitude, não tivesse dito aquelas palavras, não tivesse agido daquele jeito, não tivesse me omitido, não tivesse deixado de lado aquela coisa, valor, sentimento e tudo mais que  faz parte da nossa vida? 
"E se" eu tivesse considerado minhas expectativas, tivesse sido mais egoísta, tivesse posicionado minha vida em primeiro lugar? 
"E se" eu não tivesse mudado de cidade, de país, de planeta? Costumam ser tantos os “e se”, ainda mais em uma vida plena e independente cujas rédeas estão bem firmes nas mãos, que não raro surgem Cíclopes e Lestrigões imaginários capazes das piores torturas internas, superáveis através dos seguintes entendimentos básicos:
1- Circunstâncias e sentimentos - Com o tempo circunstâncias e sentimentos perdem força, são esquecidos, apesar de serem os fatores que mais influenciam as diversas escolhas feitas ao longo da vida. Portanto, tenha em mente as circunstâncias e seus sentimentos no momento de cada escolha crucial.
Um exemplo banal: Se hoje você tem certeza que aquele par de sapatos caríssimos, de grife internacional, vermelhos com bolinhas roxas e fivelas lusco-fusco são de amargar, certamente, quando os compro você os considerou lindos e a sua cara, quem sabe o melhor investimento do ano e seu passe definitivo para a felicidade. Ora, escolher sapatos é ato de menor importância se comparado com a escolha da carreira, das reações diante da vida, do que se imaginava ser o verdadeiro grande amor.
2- Todos são mestres - Por mais complicado que possa ser considere mestres, professores, todas as pessoas que passaram por sua vida porque, certamente, com elas você aprendeu o que deveria, o que precisava aprender, mesmo o conhecimento anverso, que não deveria ser.
3- O devir - Este tem jeito meio surreal, transcendente, mas acredite que você está exatamente onde deveria estar, do jeito que deveria estar o que, no final, retira pesos, correntes, ônus abusivos e confere especial pertinência à todas as escolhas que a trouxeram até aqui.   

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Do psicopata de cada dia nos livrai

A quantidade de fãs é imensa e todos são aficionados pelas peripécias do protagonista da premiada série televisiva do psicopata cronico que mata outros psicopatas. “Ele é genial”, “é o outro lado do espelho”, “você é preconceituosa” são alguns dos inúmeros comentários que tentam justificar o forte apelo que  Dexter, “o cara do bem”, exerce. Como? Por favor, repita. Um psicopata homicida do bem?
Para ele nossa permissividade foi base da criação de duas categorias bizzaras antes inimaginadas: O “psicopata do bem” e o “psicopata do mal”, o primeiro, pelo entendido, o novo protótipo de justiceiro que lavaria a nossa alma de todas as injustiças e erros resultantes de um sistema policial e judiciário corrompido e inepto, não importam os métodos utilizados - certamente, um novo limite para a máxima dos fins justificantes dos meios.
Relembro experiência e imagino que seria possível, pela considerável revolta sentida na década de oitenta, que os então quartanistas da Faculdade de Direito quisessem o Dexter por perto para uma boa conversa com o entrevistado em pesquisa realizada na Penitenciária do Estado, um estuprador confesso de crime praticado contra uma garotinha de três anos e responsável pela enfática afirmação de que havia de fato estuprado e de novo estupraria. Não! Não seria esse o caminho. Era necessário que existisse alguma diferença - a grande diferença - entre aquele cruel psicopata e seu corretor. Afinal, se um psicopata nos protege dos demais psicopatas, quem dele nos protegerá? Talvez um terceiro psicopata, quem sabe.
Eu sei que meu desinteresse por Dexter me situa fora do grande oceano que rege suas marés com base nas aventuras desse novo protótipo de justiceiro e me faz confessar o meu estranhamento pelo forte fascínio que ele provoca, tanto quanto considero estranho o encantamento por vampiros e lobisomens assumido pela geração Crepúsculo. Há vários vieses nesses caminhos que fazem pensar.
A minha preocupação está no reflexo em nossos comportamentos diários e a presença do psicopata abusivo no local de trabalho, mas um bom técnico; o marido psicopata e violento, mas um ótimo provedor; o vizinho psicopata, mas um competente organizador de churrascos. Esse 'mas' é temeroso e tenta justificar os riscos aos quais nos expomos. Até que esse mesmo 'mas' inicie outra justificativa, a da essencia da própria psicopatia.


As pesquisas indicam que vez mais pessoas optam por obter na internet filmes (as salas de projeção estão em baixa) e capítulos de seriados. Considerando a péssima qualidade de serviço prestado pelas transmissoras da TV a cabo, que atrasam em demasia a apresentação de novas temporadas, insistem na sofrível programação dublada e repetem mil vezes cada episódio, eu também atualizo pela internet as séries de minha preferência para meu uso exclusivo. É uma pena que um serviço caro apresente resultado ruim. 
     

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Trama

Bateu com firmeza na mesa e berrou que não seria de outro jeito:
- Não será do seu jeito!
Mas que jeito torto é esse, quem nem jeito é.
- Quem você pensa que é? O centro do universo?
Quem, eu? Mas não é no meu entorno que orbitam os satélites, você incluso, e tudo acontece. Não é o meu manipulado e dissimulado comando que cegamente é obedecido.
O estômago embrulhou mais quando surgiu a palavra cartilha.
Espuma no canto da boca, tsunami de palavras que carregou tudo o que encontrou pela frente. Cataclismo pleno de pesadas, dissuadidas e descabidas culpa e responsabilidade.
- Olha para mim.
Trovão.
- Olha para mim.
Desconforto.
- Olha para mim.
Não consegue.
A neurose está em contrariar a natureza e o sentimento que não tem controle, nem nunca terá.


Imagem de Eugene Atget

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Interesse público

Foi estranha a atitude do policial militar que, do portão de um dos comandos localizado em movimentada avenida, segurava prancheta com dois blocos de multa e se divertia em anotar os dados de todos os carros que tentavam estacionar no supermercado em frente. Não avisou ao aplicar as sanções, não considerou que os carros entravam no estacionamento, não organizou a situação, não foi justo, nem equânime.
Não agiu, como deveria ter agido, nos dias que todos ficamos com medo de sair de casa e mesmo assim saímos, porque remédios deveriam ser comprados nas farmácias e os cães necessitavam de seus passeios. Naquela ocasião, cones imensos impediam que qualquer um se aproximasse e não havia ninguém no portão para ajudar, transmitir alguma segurança, ou, até mesmo multar. Saiu no caderno Metrópole do Estadão que 18% das multas em São Paulo são aplicadas por policiais militares, que triplicaram as autuações. De janeiro a junho deste ano, consta na matéria, 2,3 milhões de multas foram aplicadas na capital, 16,5% a mais do que nos seis primeiros meses de 2007. Essa ação deve estar de acordo com o interesse público, imagino, mas não é só isso.


Imagem de Eisenstaedt

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Vanity

Tenho oito fios de cabelos brancos e os deixei porque se perdem entre os castanhos.
Ao descobri-los lembrei-me da primeira e única espinha da adolescência, que parecia ocupar o rosto inteiro. Para mim, naquela época, aquela espinha chamava mais atenção do que meu olhar, meu sorriso e até mesmo meus pés, que são clássicos e bonitos. Não dou a mesma dimensão aos fios brancos, nem me preocupo com eles. Talvez para chegar até eles, aprendi o que realmente vale à pena.





Imagem de William Klein

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Pausas

O escritório mudará para a região que sempre trabalhei. Conheço e gosto daquela área, além de estar bem próximo de casa e me poupar do cansaço e das horas gastas em congestionamentos. Mas ainda não é bem isso; não é bem para isso, que me preparei por tantos anos.
Abracei a causa e puxei para mim a responsabilidade da intermediação entre corretoras, proprietário e possibilidades. Às vezes erram pelo amadorismo e por mais que eu queira limitar minha atuação ao razoável e proporcional à contrapartida, é impossível não intervir e corrigir a rota. O bom de toda a movimentação e empenho é conquistar o resultado favorável para todos.
Até mesmo pelo cansaço que os novos medicamentos me fizeram sentir nestes dias, aprendi a dedicar quinze minutos e apreciar uma boa xícara de chá, num café com pretensões a bistrô que fica bem próximo. Paro tudo e tomo com prazer o chá, enquanto folheio alguma revista que colocam à disposição. Aprendo sobre necessárias pausas.

Quem explica ?

Mais uma vez um sonho indesejado pleno de detalhes e significados, que atormentou a noite e alguns poucos dias seguintes. É incrível sonhar com alguém jamais visto e que não se quer ver, que atropela e muda a vida da pior maneira possível, sobre quem se aprendem as piores referências, além de, infelizmente, nos obrigar a desacreditar valores e idéias fundamentais.
Que coisa incontrolável é essa, que nos faz entristecer até em sonho.
Parece que estamos em período de sonhos conturbados e desalentadores, porque duas pessoas queridas e próximas comentaram sobre o mesmo transtorno: Sonhos e sensações ruins que deles vieram.
Pensando bem, o sonho recente de uma querida amiga foi bem pior, porque – até agora, em dúvida se acordada ou adormecida – ouviu sons e ainda por cima, viu vultos.
Na manhã seguinte o mal estar era tão forte, que voltei ao pronto-socorro (depois da última experiência fui valente, ou, idiota o suficiente para insistir no conhecimento da causa e cura de tanto mal estar) para diagnóstico e medicação imediata, antes da ida ao escritório. Os mesmos sintomas, alguns agravados, novas possíveis causas e a certeza de mais exames e da opinião de especialista. O duro é segurar isso quieta, para não expor o que vai por dentro.
Dois dias depois toca o telefone e ensaio o início de um comentário, um desabafo necessário para encontrar força, carinho, mas ouço palavras agressivas
e bem duras, mescladas com injustos gritos sobre culpa, que em momento algum pretendi fazer sentir. Fico triste e sem ação. Há tempos me pergunto que força ruim é essa, que impregna de tal forma negativa o bom sentimento e impede a realização do melhor. Não, não é força alguma, por que não há nada tão ruim que dure tanto tempo; é o medo, apenas o medo.
Não é normal ligar só para destruir. Não é normal.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Pronto-socorro

No pronto-socorro encontramos médicos generalistas e habitualmente experientes, que conseguem diminuir o mal estar e determinar a realização de exames imediatos, com diagnósticos rápidos e eficientes. O resultado de um hemograma, que pode demorar até uma semana, no pronto-socorro é definido em uma hora. Enquanto escrevo penso quando foi que inventei a moda de ir ao pronto-socorro sozinha e com tristeza me lembro que foi quando voltei para minha cidade e sem qualquer auxílio tive que enfrentar situações muito ruins. Aprendi o caminho e os procedimentos. Aprendi a fingir ser forte e a ter paciência.
Fato é que passei muito mal no escritório e com muito esforço consegui dirigir até minha casa. Tentei descansar, minimizar os efeitos e na manhã seguinte, fui ao pronto-socorro para descobrir o motivo e diminuir tanto mal estar. É óbvio que minha intenção era em seguida ir para o escritório, por que não admito que, às vezes, uma pausa é necessária.
Fiquei sob cuidados médicos por quatro longas e cansativas horas, com direito à glicose, dramin e cloridato de ranitidina direto na veia. O dramin deixou minha voz pastosa e lenta; deixou minha mente lenta e isso me fez sentir considerável angústia, porque eu estava sozinha e queria permanecer atenta.
Não sei por que a enfermeira – céus! que enfermeira – insistiu que deveríamos ficar lado a lado, na sala de enfermagem, enquanto seus incompetentes assistentes empreendiam a busca por nossas veias. Não sei por que também, presumem que todas as pessoas tenham a mesma tolerância e reação diante de agulhas, que são incompatíveis com qualquer parte do corpo humano. Ainda penso qual a melhor maneira para esclarecer a aquela senhora, que a paciente que estava ao meu lado e zelosa perguntou se o medicamento que lhe foi receitado não agravaria seu estado de “pré-diabética”, não brincou quando insistia em dizer que “estava tudo escuro”, quase vomitou, demonstrou claramente sua reação sofrida à medicação e desmaiou. Pelo amor de Deus, tire a agulha da moça! Espera o quê, minha senhora? Tire a agulha da moça! E a maldita agulha ainda ficou por um tempo, enquanto nós éramos retirados para a sala de repouso, onde deveríamos estar desde o começo, para que cuidassem da infeliz. Quase meia hora depois, a moça pré-diabética saiu inconsciente da sala de enfermagem, deitada em uma maca, sem qualquer agulha espetada em sua veia. Finalmente, tiraram o medicamento.E ela estava sozinha!

Quem me conhece sabe como me senti e qual seria minha reação. A droga é que o dramin me deixou prostrada. Eis o principal motivo da minha angustia: Senti-me responsável por aquela mulher, inconsciente e só Deus sabe com quais danos decorrentes do medicamento mal indicado. Quis ir até os fundos daquele pronto-socorro e encontrá-la, saber como estava, chamar alguém seu conhecido, ajudar, não deixá-la sozinha e desamparada nas mãos daqueles profissionais.
Na sala de repouso, frasco de glicose e complementos pendurado no teto, observei uma garota japonesa que dormia, enquanto o seu próprio frasco se esvaziava. Nenhuma assistente de enfermagem, ninguém. Quando o líquido do frasco dela terminou, peguei meu frasco do suporte e fui chamar a assistente de enfermagem para ajudar a garota.
O meu celular tocou, tive que atender por conta do barulho e me angustiei mais ainda por que eu não conseguia formar uma sentença completa.
Lembrei muito do pôster que havia em qualquer hospital e consultório no meu tempo de garota: A enfermeira bonita, com chapeuzinho branco e uma cruz vermelha, o dedo indicador encostado nos lábios a pedir silêncio. Pois silêncio é palavra desconhecida da gritante enfermeira e de suas assistentes saltitantes. Salto de borracha silencioso? Nunca ouviram falar. Toctoctoctoctoc, o maldito barulho do salto alto da assistente de enfermagem, que talvez se sentisse em alguma passarela ou boate, menos num hospital. Em qualquer lugar o barulho daquele salto incomodaria: toctoctoctoctoc, pisava firme a baixinha espevitada vestida de branco. Sob o efeito dos medicamentos, voltei à sala de enfermagem para que tirassem a agulha. Lá estava a enfermeira ocupada a preencher papéis. Quando uma das assistentes começou a tirar os esparadrapos, imperativa ela a impediu e ordenou: “Deixa que dessa moça eu tiro”. Naquele momento eu não entendi o motivo de fazer-me esperar mais ainda, muito menos da atenção desnecessária daquela senhora. Pois, enquanto ela tirava a agulha me olhava direto nos olhos e tentava me convencer com as seguintes palavras: “Sabe aquela moça que passou mal, foi medo da agulha, viu? Ela está bem e tem medo de agulha, entendeu?” Entendeu?
Escrevo e exponho neste espaço, com a esperança que a moça pré-diabética esteja bem, leia blogs e responda: Passou.
Imagem de Friedlander

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Auto-engano

Outro dia li o diálogo fictício de um colunista do Estadão com Nelson Rodrigues.
A conversa era sobre o país, as mudanças de costumes e comportamentos.
Uma das frases mais interessantes: Na mentira, o essencial é o auto-engano.

Por isso a mentira é tão ruim, desgastante e trabalhosa: O seu pior é o auto-engano.

domingo, 6 de julho de 2008

Cabotinice

O cabotino faz assim: Chama a atenção para si; necessita e quer causar efeito sobre os demais; julga-se superior, mesmo que saiba, tenha plena ciência não ser; faz graça e pretende ser pleno de graça. Graça barata. Chinfrim. Alegria falsa. Monótona.
O cabotino, homem ou mulher, não importa, demonstra. Precisa demonstrar. Posse, ter, falso ser. Usurpa momentos e os incorpora. Hipócrita. Finge ser.

O cabotino é assim: Manipula. Precisa manipular.
O cabotino não muda.Tem a essência incorporada.
Tartufo? histriônico? cabotino? jeito de ser.





sábado, 5 de julho de 2008

Sampolândiacity

Não é fácil viver em São Paulo. A quantidade de pessoas, carros, stress, problemas decorrentes da má administração e da falta de educação já são suficientes para complicar bem a vida por aqui. Por isso não sou complacente com situações adicionais que surjam e demonstrem o quanto esta cidade forte, dura e fria é, ao mesmo tempo, muito vulnerável.
Sempre respeitei o direito – e é realmente um direito – que todos têm de se manifestar, reivindicar, tornar públicas suas justas necessidades e equilibrar as relações conflituosas que são obrigadas a viver. É também com a manifestação pública que empregados, bem ou mal, são ouvidos pelos patrões; que mães choram os filhos mortos em guerras; que reclamamos da péssima administração pública. Mas há formas, maneiras, para que esse direito não limite o direito dos demais. É inconcebível que qualquer passeata ocorra na Avenida Paulista, ou, em qualquer outra via de acesso principal de São Paulo. É abusivo parar ou impor lentidão ao fluxo de carros nas Marginais. É injusta toda e qualquer movimentação que cause transtorno e constrangimento aos restante da população. Falta bom senso e propriedade no agir, que acaba por prejudicar a razão da manifestação.



O mote desta semana: “Com oito anos de atraso São Paulo teve o bug do milênio”.
É ruim reconhecer o quanto dependemos da internet para trabalhar, para resolver questões, para viver.

Como vivíamos, e vivíamos bem, sem ela antes?


Administrar a própria vida é muito fácil:
- Bom dia. Por favor, quero marcar uma consulta.
- Próxima sexta feita às quatro da tarde.
- Desculpe, sexta é o dia do meu rodízio.
- Na quarta à tarde da outra semana?
- Puxa, para quarta está marcada a passeata dos lanterninhas

de cinemas, teatros e estabelecimentos similares aí, na Paulista.
- O doutor tem livre a manhã da primeira quinta feira do mês que vem.
- Os exames que devo fazer são fundamentais e não posso esperar um mês.

Por favor, o doutor atende pela internet?
Tolinha.



Telefonemas das tardes de sexta feira:
- Onde você está?
- Atravesso a Estados Unidos e você?
- Estou na Ibirapuera.
- Meu filho, você tem vinte minutos para chegar em casa
antes do horário do rodízio.
- Eu me viro, mãe. Como está a Bela Cintra?
- Agora, está livre.
Passada meia hora
- Onde você está meu filho?
- Parado na Ministro.
- O que você foi fazer na Ministro?
- Tentei fugir do congestionamento por causa da passeata da Paulista.
- Puxa, mas eu atravessei a Paulista há vinte minutos e não havia qualquer movimentação...
Salvo um grupo de desordenados amarelinhos parado na esquina... Filho, tente sair dessa confusão na Paulista e atravesse o quanto antes a Consolação porque é para lá que irão.
Uma hora e meia depois
- Me dê alguma idéia, mãe.
- Onde você está, filho?
- Parado na Augusta.

- Você ta bem? Quer que eu vá aí, lhe fazer companhia?
- Não, mãe, tô bem.
- E os amarelinhos? Já levou alguma multa, filho? Deixe o carro em algum estacionamento e venha a pé.
No final do nosso rodízio levo você e buscamos seu carro.

Imagem do largo do Paraíso com vista da Paulista, década de trinta.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cotidiano

A sapataria da esquina

Lá, bem na esquina da Cardoso com a Itápolis, existe um sapateiro diferente de todos os outros. Alto e magro, de segunda a quinta ele veste calça social, camisa bem passada e gravata – as cores variam do rosa ao cinza claro e o tom de seus sapatos combina com o traje formal. Nas sextas feiras, ele assume o casual day e usa camiseta branquíssima, jeans e tênis. Seu estabelecimento fica na esquina da padaria e é composto por dois banquinhos de madeira: num ele se senta e no outro ele apóia a furadeira, que substitui o maquinário existente em qualquer sapataria. É com a furadeira que ele lixa e alisa os saltos consertados e as solas recém colocadas. É com ela, também, que ele lustra os sapatos. Tudo adaptado da forma mais criativa possível.
Para os dias de pico, que não são poucos, um auxiliar se ajeita como pode na calçada irregular e estreita. No mais, um martelo, pregos, graxas e panos.
Semana passada, o estabelecimento da esquina foi decorado com uma poltrona antiga para que as pessoas tenham seus sapatos engraxados com conforto.
Quase todos os empregados dos escritórios próximos – e são muitos - deixam nessa esquina seus sapatos para conserto. Outro dia, um senhor mal humorado reclamou sobre a ocupação da “rua pública” pelo mais novo empreendedor.
Nesses meses percebi o jeito do sapateiro, que passou do tímido para o seguro com desenvoltura.
Gosto daquela imagem. Gosto da ação positiva e honesta que transpõe a dificuldade e a lamúria.


Calçadas e pedestres

Calçadas estreitas, desniveladas, esburacadas e irregulares. Movimentadas. Calçadas movimentadas e estreitas. Não, bandos que insistem no andar vagaroso e concentrado, não. Pode parecer agradável o caminhar lento de pessoas que, lado a lado, conversam calmamente e ocupam toda a largura da calçada. Parece agradável. Mas não para quem quer passar em outro ritmo, sem conseguir.


Bufês impacientes

Não adianta virar e revirar a bendita folha de alface para tentar descobrir se existe alguma coisa além da alface. Se você optou por arriscar uma cisticercose, abandone o hábito de permanecer cinco minutos diante da travessa com folhas cruas. Por favor, deixe o papo furado para depois da balança e não empaque mais ainda a fila. Suco, refrigerante, água, cerveja, chá gelado... Para alguns tudo isso junto e à disposição pode gerar grave dilema existencial.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Congestionamentos

A velocidade média dos veículos em São Paulo no horário de pico da tarde despencou 32% nos últimos dez anos, passando de 25 km/h, em 1998, para 17 km/h, em maio de 2008. O percentual é maior do que o crescimento da frota paulistana no mesmo período, que subiu de 4,7 milhões para 6,1 milhões. Uma das hipóteses para essa piora está no alto número de interferências registradas
no trânsito.

A partir de agosto, 400 motocicletas serão distribuídas para auxiliar o serviço de atendimento móvel de urgência. As 'motolâncias' de 250 cilindradas serão dirigidas por auxiliares de enfermagem, treinados para dar atendimento rápido até a chegada da ambulância.


Para mim é inédito todos os dias enfrentar o trânsito louco e estressante. Não, não vivi em outro planeta, explico: Quando trabalhei na avenida Paulista ia a pé de casa e em Brasília trânsito era palavra desconhecida.
Falta paciência, sobra irritação e surge o cansaço. É absurdo perder tantas horas preciosas do dia, no meio de carros, ônibus, caminhões e motocicletas - se bem que as motos passam rapidinhas - e ainda dividir espaço com caçambas.
Música. Sem boa música é impossível agüentar. Uma garrafa de água ao lado e algumas besteirinhas gostosas para distrair também são essenciais. Inevitável o celular, que virou instrumento de navegação: Você já passou pela Bela Cintra? Como está o trânsito por lá? E a Brasil? Pego a Estados Unidos e sigo pela Rebouças?
Um carro parado na pista da direita causa lentidão nas outras três pistas. Reunião básica e informal de policiais com motos e viaturas paradas de qualquer jeito, em divertida conversa, pára as quatro pistas. Passeata? Céus! As passeatas param uma boa parte da cidade - que nova mania é essa de fazerem passeatas nas tardes de sextas feiras?
Carros estacionados em locais errados, caminhões de entregas em horários impróprios, motoristas-tartarugas, motoristas-indecisos, motoristas-agressivos, motoristas que querem levar vantagem em tudo. Antes, eram os garotos desmiolados que dirigiam como se estivessem em algum rali; hoje, são as garotas desmioladas que dirigem como kamikazes. Motoristas infelizes que acreditam que o tamanho do carro é documento; os que dirigem caravelas e necessitam de duas pistas para entrar à direita ou à esquerda; alguns taxistas que perderam a noção do perigo e os motoristas rurais - que tal levarem seus imensos veículos utilitários, que ocupam tanto espaço, para fazendas, chácaras e pacatas cidades do interior? Sirene de ambulância nada representa, carroceiros e carroceiras dividem o espaço como podem e ousados ciclistas se arriscam. Pedestres nervosos e atirados, cachorros soltos, caos.
Se não bastasse tudo isso, ainda existem os ‘amarelinhos’ que adoram anotar seus blocos de multas. O sinal logo atrás do agente de trânsito não funciona, os motoristas estão desorientados, a confusão afeta as ruas da região, mas ele não larga a caneta e o papel para organizar o movimento, como deveria fazer. Foram treinados para multar, não para orientar. Alguns se satisfazem em multar.
O rodízio municipal de carros afeta nossa vida e atrapalha nosso relógio biológico: Acorde uma hora mais cedo, torça para não encontrar algum congestionamento e fique com sono pelo resto do dia. Por conta do rodízio e do trânsito entendi que é necessário descobrir lugares estratégicos - de preferência com boas salas de cinema, livrarias e restaurantes - para esperar, ao menos quatro horas, enquanto o tempo de rodízio prevalece.
Diariamente vejo o pouso do helicóptero cinza no alto do prédio de um Banco. O mesmo segurança, de terno escuro e rádio na mão, recebe o passageiro e lhe segura a pasta. Por sinal, é um prédio com sete andares, cinza e quadrado que mais parece a base do heliporto. Deve ser a base do heliporto. O helicóptero decola, segue rumo à Marginal e os carros que estão na avenida não se moveram sequer um centímetro.
Grudar no carro da frente, negar passagem, ficar hiper atenta e descobrir-se agressiva. Sem dúvida é um desafiador exercício de paciência e educação.
Não faço esforço para enfrentar o trânsito, mas para não perder a suavidade e a gentileza apesar do trânsito.

sábado, 29 de março de 2008

Folias culinárias

Fiz questão de assistir ao primeiro programa da nova série da Nigella Lawson e observei que ela está mais prática, rápida, bonita e gordota.
E quem mais prepararia deliciosos e crocantes biscoitinhos para presentear uma amiga e, durante o percurso até a casa da amiga, os comeria sozinha? Ora, Nigella. Mas ela pode e durante a apresentação tomou sua sopa de ervilhas frescas no parque, lambuzou-se com o frango assado e a salada cole slawe, comeu pedaços e mais pedaços de doces de chocolate com nozes, além das garfadas de sua mistura de macarrão com legumes, creme de amendoim e gengibre.

Ver Nigella preparar com muita facilidade tantas coisas e deliciar-se com todas as guloseimas deixa qualquer um encantado com a arte da culinária.
Outro representante do máximo sabor com pouco esforço é Jamie Oliver, que amadureceu, continua competente e agitado, e realiza um belo trabalho com a reeducação alimentar das crianças de seu país. A salada Caesar que ele preparou em seu último programa apresentado pelo canal GNT parece divina e será a próxima folia que tentarei realizar.
Vi que Jamie também adotou o modelo plante em qualquer lugar seus próprios temperos e seja feliz.
No meio desse festival gastronômico assisti novamente aos filmes A Festa de Babette (1987), Chocolate (2000) e O Tempero da Vida (2003) e curti cada movimento tão feminino que as atrizes oferecem. Pela primeira vez pude comparar o jeito elegante e organizado que minha mãe tinha ao preparar as deliciosas e inigualáveis refeições que nos proporcionou ao longo de sua vida e o meu próprio jeito, um tantinho mais caótico e rebelde. Lena Olin, que interpreta a personagem Josephine Muscat em Chocolate, é idêntica à minha mãe na cozinha; já a vigorosa Juliette Binoche, a Vianne Rocher do mesmo filme, tem o meu jeito. Por sinal, Chocolate e O Tempero da Vida retratam bem a alquimia dos ingredientes e a pura magia de seus resultados.
Foi com esse espírito que resolvi dar uma mudadinha no cardápio e quis botar por terra os dois mais famosos pratos à grega que encontramos por ai: O camarão e o arroz.
O verdadeiro camarão à grega é preparado da seguinte maneira: Esquente a água e quando ela começar a borbulhar coloque os camarões inteiros - sim, as cabeças ficam porque conferem mais sabor - mas não deixe de limpar os dejetos desses crustáceos com um pouco de habilidade e a ponta de uma faca. É muito feio ofertar camarões com a sujeira que costumam ter. Quando ficarem rosados retire-os da água e prepare azeite de oliva extra-vigem de boa qualidade, sal e suco de limão. Bata essa mistura com um garfo e coloque os camarões descascados. Só isso. Camarões cozidos no tempo ideal e mergulhados no azeite com sal e limão. O arroz à grega também é simples e feito com azeite de boa qualidade e sal.
Volto à mini-horta de temperos e outras delícias. É muito fácil de criar, manter e curtir em qualquer lugar. Não precisa de mais nada além de mudas, terra, água e sol.

Dia leve

Percebi que algo estava meio esquisito quando perguntei o preço do carrinho de feira.
O dia começou com o passeio do cão e prosseguiu com o pastel. Pararia no pastel e no caldo de cana com abacaxi e partiria para o ar condicionado do supermercado - e sua oferta de produtos caros, passados e com baixa qualidade - se a calma que senti na feira não fosse tão intensa.
No início ouvi o comentário da moça que vendia ervas e temperos: São dez horas e tudo vai bem, sem qualquer assalto, sem violência.
Não resisti às frutas e verduras que estavam tão frescas, coloridas e redescobri o prazer de comprar em feira livre.
Estive em várias barracas e não considerei uma única para as frutas e outra para os legumes e verduras (escolher uma única barraca de frutas – sempre a compra mais cara – é opção segura, pois garante a entrega de todas as compras pelo garoto que auxilia na barraca), pechinchei preços que considerei excessivos, aprendi com um senhor japonês o segredo para fritar lulas sem que virem borrachas e peixes que não fiquem encharcados, desisti de comprar um carrinho de feira que não teria qualquer resistência a algo a mais do que três dúzias de laranjas e dois quilos de batatas e comparei o preço das sacolas de lona. O avô paterno do meu garoto tinha metalúrgica que fabricava carrinhos de feira e outros produtos domésticos e nem o de pior qualidade, o mais descartável, possuía as características dos carrinhos de feira ofertados hoje. No final da folia, duas sacolas recém adquiridas bem pesadas. Ah, mocinha, e agora? Deixar tudo e buscar o carro nem pensar, por que não haveria lugar para estacionar. Aceitar a oferta dos garotos carregadores não seria prudente e seguro. Bom, e com você mesma, arregace as mangas e siga em frente.
Parei diversas vezes no percurso de três quarteirões e em cada pausa curti o cenário, reparei em novos detalhes, observei as pessoas e imaginei suas histórias. Vi o casal de idade que passeava com quatro cachorros e a senhora que segurava as guias de outros três. É cachorro demais, mesmo para quem gosta. Senti e agradeci a sincera gentileza da senhora simpática com uniforme que ofereceu ajuda para seguir mais adiante – foi uma mulher que quis dividir o peso! Lembrei dos meus três anos de idade e do quanto dificultei a vida de minha mãe durante as feiras de cada semana. Eu e meu mini carrinho de feira de madeira vermelha a querer colinho e a maneira de minha mãe contornar a situação com o colinho fracionado e delimitado por esquinas – levo você até a próxima esquina e você caminhará as duas seguintes. Eu não estava cansada, era manhosa e queria aquele colo tão gostoso. Senti saudade de minha mãe. Aliás, na barraca de peixes me surpreendi com a artimanha preciso de peixe bom para uma senhora de idade; isso foi o que falei a maior parte da minha vida: Preciso de coisas de boa qualidade para a minha querida senhora de idade.
Ao chegar ao prédio encontrei o porteiro que solicito levou as sacolas até o elevador, sem deixar de comentar sobre o peso, sobre o percurso que ele havia feito: que pena, arrodiei pela avenida e não vi a senhora descendo a rua, e sobre um carregador que roubou a senhora que morava no apartamento 81.
Guardei na geladeira os produtos mais perecíveis e resolvi levar coisas para o conserto: Três pares de sapatos pretos, a haste dos óculos usados em casa, a troca das baterias de dois relógios e a alça da bolsa de pele de crocodilo de minha mãe.
O ajudante do sapateiro disse que a bolsa e o sapato de verniz não teriam conserto. Perguntei pelo sapateiro, um senhor ruivo e atencioso de quem não sei o nome, e o ajudante me disse que ele estaria tomando um lanche na padaria da esquina. De repente, o sapateiro voltou da clínica onde fez uma endoscopia para acompanhamento da cirurgia do estômago, examinou a bolsa, os sapatos, garantiu um bom serviço e cobrou barato. Eu não sei o nome desse senhor, mas sei que operou o estômago. Essa é uma das minhas características: Aprendi a ouvir o outro e a criar sincera empatia instantânea. Vá para casa descansar, meu senhor, faz o que aqui, depois de tomar anestésico por conta do exame?
Enquanto eu esperava a troca das baterias dos relógios surgiu uma senhora nascida em Nova York, magra e alta, com os olhos verdes, os cabelos compridos e grisalhos presos num coque e um sotaque irresistível a reclamar do calor. Trocamos idéias sobre aquela cidade e obtive dicas preciosas e inéditas. Fui ao supermercado e contei com o gentil e imediato acompanhamento do entregador – em detrimento das caixas de compras que lá estavam para serem entregues – apesar de já ter ultrapassado seu horário de trabalho. O cão, com minhas constantes saídas e chegadas, estava com a cara triste, se sentindo de lado e mereceu um agrado: O levei comigo para um café ao ar livre e mais diversão com a observação das pessoas e suas vidas imaginárias. Imaginar é ser livre. De lá, fomos ao petshop para o banho e a gravatinha que penduram em seu pescoço. Esperei e quis que ele me visse através da janela que separa os lavatórios da frente da loja, por conta da cirurgia que ele sofreu mês passado. Enquanto isso, apareceu um divertido lhasa, e seu dono também resolveu esperar. Ele é químico e dono de uma farmácia homeopática no bairro, ensinou-me mais sobre alimentação equilibrada e a farmacopéia natural, além das inevitáveis coincidências que ocorrem entre pessoas que engatam uma conversa sobre vários assuntos que fluem naturalmente: Ele nasceu em Poços de Caldas – cidade que gosto e onde, durante anos, passei minhas férias escolares de julho, é sagitariano e tem o tipo sanguíneo A negativo. E quem informa o tipo sanguíneo na primeira conversa? Ora, quem leu sobre a melhor alimentação de acordo com o tipo do sangue. Somente quando me despedi nos apresentamos e percebi que, às vezes, esse negócio de nome não é necessário. Paquera, pensará a mente tendenciosa. Não, em absoluto. A paquera estragaria a boa conversa. Esquecemos com facilidade que é essencial exercitar a capacidade de ouvir; e para isso, é necessário abrir-se e admirar a realidade e a verdade do outro.
O meu dia foi calmo, leve, produtivo e simples, como a vida deve ser. É fundamental uma pausa para deixar de lado a competente persona profissional e resgatar a essência humana. Pena que isso dura pouco, ou não: Será muito mais interessante retomar a maratona sem perder esse lado recém descoberto.
Imagem de Mário de Biasi.

terça-feira, 25 de março de 2008

Tempo da delicadeza

Tempo de balanço interno não costuma ser fácil e demanda considerável dose de amenidade e auto-condescendência. Você não escolhe a data, não define o programa, nem elege a intensidade. O procedimento é lento – cada pessoa tem o seu tempo - e surge com a maturidade. Aliás, costuma resultar em mais maturidade.
Observar-se e entender-se são duas ações complicadas que devem ser praticadas com a necessária isenção. Aprendo que essa é a primeira etapa para equilibrar a energia, o corpo e a mente: Observar-se e entender-se, seguidos pelo corrigir-se e gostar-se mais.
Às vezes, a culpa transmite um sinal forte, luminoso, repetitivo e barulhento: Como eu permiti que isso acontecesse? E é nesse momento que o carinho por si deve prevalecer, para que a dureza do auto-julgamento limite-se à correção, sem penas injustas por não ter sido capaz de estancar a influência e o comportamento equivocados recebidos, por não ter dito mais nãos e bastas, por ter tentado se habituar à falta de gentileza, polidez e delicadeza, por ter temporariamente relegado certos princípios e valores.
Somente o conhecimento integral - que inclui a circunstância, a intenção e o sentimento de todas as pessoas envolvidas - fortalece o entendimento e liberta.
Esse equilíbrio demanda silêncio, olhar atento para o que vai por dentro e a sintonia apurada para não desperdiçar todas as dicas que a vida? o universo? o destino? nos manda. Ouvi frases essenciais durante esse tempo, reaprendi e aprendi mais. Muito mais. Calibrei o compasso e fiquei melhor.
Concordei com meu filho que comentou sobre meus pés flutuantes que desconhecem o que significa cuidar-se, e não mais do outro. Minha vida inteira cuidei de outras pessoas. Agora, aprendo a cuidar de mim. Opa! Aprender a fazer as coisas por nossa causa, em nosso favor, não é tarefa tão fácil. Não é. É chegado o momento de prestar mais atenção as coisas que quero para minha vida e manter-me fiel às minhas necessidades. Ser mais delicada comigo.

segunda-feira, 24 de março de 2008

sexta-feira, 21 de março de 2008

São Paulo e os feriados

Você vai viajar? Essa foi a frase mais ouvida durante esta semana.
Necessidade? Capacidade? Obrigação?
Há algum tempo, em São Paulo, não se emendavam os dias que antecediam os feriados. Lembro que meus amigos de outros estados ligavam com a mesma pergunta: O que você está fazendo aí, em pleno feriado? Trabalho, ora.
Hoje, São Paulo pára e emenda e enforca e quem pode viaja nestes dias. Às vezes, viaja sem poder. Estranho esse comportamento.
Praia? Montanha? Cidades litorâneas e interioranas lotadas. Restaurantes lotados; mercadinhos lotados; ruas originalmente vazias e pacatas lotadas. Encontrar sempre as mesmas pessoas, sempre os mesmos programas, sempre os mesmos sempres. Diárias de hotéis mais caras. Alimentação mais cara. Tempo, o tempo perdido na estrada lotada de carros, aquele marzão sem fim de luzes contínuas tal qual árvore de natal deitada no chão. Mais stress fora daqui?- Você vai viajar?- Com amenidade e alegria sinceras respondo: Não.
Nestes dias, abençoados dias, São Paulo volta a ser minha e aproveito esta cidade como nunca. É incrível a reação de um lugar quando seus moradores se ausentam: O espaço se entrega, se alegra, fica mais colorido, muito mais calmo e leve. São Paulo é linda e querida vazia.
Parece que o fluxo contrário ainda me atrai. Você vai viajar? Eu fico.
Faço parte dos paulistanos autênticos que ficam, apesar de ser sagitariana típica, com rodinhas nos pés, asas nos braços e o espírito sempre pronto para viajar...
Quando eu mais gosto da minha cidade? Nos feriados. Adoro São Paulo nos feriados.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O homem moral e o moralizador

Moralizador é quem impõe ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar

Eliot Spitzer era governador do Estado de Nova York até sua resignação na semana passada.
Sua fortuna política e sua popularidade eram ligadas à sua atuação prévia como procurador agressivo e inflexível contra os crimes financeiros e contra as redes de prostituição e seus clientes.
Ora, descobriu-se que ele era freguês de uma rede de prostituição de luxo e que também recorria a artimanhas financeiras para que seus pagamentos -substanciais: US$ 80 mil (R$ 140 mil)- não fossem identificados.
Esse fato de crônica (no fundo, trivial) foi para a primeira página dos jornais do mundo inteiro -aparentemente, pela surpresa que causou: quem podia imaginar tamanha hipocrisia? Esse "espanto" geral foi, para mim, a verdadeira notícia da semana.
Começou no dia em que Spitzer deu sua primeira declaração pública, reconhecendo os fatos e a culpa, ao lado de sua mulher, impávida.
No programa "360", da CNN, o âncora, Anderson Cooper, convocou dois comentaristas. Um deles, uma mulher, psicóloga ou psiquiatra, ofereceu imediatamente uma explicação correta e óbvia. Ela disse, mais ou menos: é muito freqüente que um moralizador raivoso castigue nos outros tendências e impulsos que são os seus e que ele não consegue dominar. Cooper (que já passeou pelos piores cenários de guerra e catástrofes naturais) quase levou um susto e cortou rapidamente, acrescentando que essas eram, "claramente", suposições, hipóteses etc. Não é curioso?
Em regra, prefiro as idéias que são propostas, justamente, como hipóteses ou sugestões que cada um pode testar no seu foro íntimo.
Mas, hoje, considerar a dita declaração da especialista como uma suposição parece ser uma hipocrisia pior (e mais perigosa) do que a de Spitzer.
Afinal, depois de um bom século de psicologia e psiquiatria dinâmicas, estamos certos disto: o moralizador e o homem moral são figuras diferentes, se não opostas. 1) O homem moral se impõe padrões de conduta e tenta respeitá-los; 2) O moralizador quer impor ferozmente aos outros os padrões que ele não consegue respeitar.
Na mesma primeira declaração, Spitzer confessou, contrito, que ele não conseguira observar seus próprios padrões morais. Tudo bem: qualquer homem moral poderia confessar o mesmo. Mas ele acrescentou imediatamente que, a bem da verdade, esses eram os padrões morais de quem quer que seja.
Aqui está o problema: o padrão moral que ele se impõe, mas não consegue respeitar, é considerado por ele como um padrão que deveria valer para todos. Com que finalidade? Simples: uma vez estabelecido seu padrão como universal, ele pode, como promotor ou governador, impô-lo aos outros, ou seja, ele pode compensar suas próprias falhas com o rigor de suas exigências para com os outros.
Quem coloca ruidosamente a caça aos marajás no centro de sua vida está lidando (mal) com sua própria vontade de colocar a mão no pote de marmelada. Quem esbraveja raivosamente contra "veados" e travestis está lidando (mal) com suas fantasias homossexuais. Quem quer apedrejar adúlteros e adúlteras está lidando (mal) com seu desejo de pular a cerca ou (pior) com seu sadismo em relação a seu parceiro ou sua parceira.
O exemplo da adúltera, aliás, serve para lembrar que a psicologia dinâmica, no caso, confirma um legado da mensagem cristã: o apedrejador sempre quer apedrejar sua própria tentação ou sua culpa.
A distinção entre homem moral e moralizador tem alguns corolários relevantes. Primeiro, o moralizador é um homem moral falido: se soubesse respeitar o padrão moral que ele se impõe, ele não precisaria punir suas imperfeições nos outros. Segundo, é possível e compreensível que um homem moral tenha um espírito missionário: ele pode agir para levar os outros a adotar um padrão parecido com o seu. Mas a imposição forçada de um padrão moral não é nunca o ato de um homem moral, é sempre o ato de um moralizador.
Em geral, as sociedades em que as normas morais ganham força de lei (os Estados confessionais, por exemplo) não são regradas por uma moral comum, nem pelas aspirações de poucos e escolhidos homens exemplares, mas por moralizadores que tentam remir suas próprias falhas morais pela brutalidade do controle que eles exercem sobre os outros. A pior barbárie é isto: um mundo em que todos pagam pelos pecados de hipócritas que não se agüentam.

Texto escrito por Contardo Calligaris e publicado em 20.03.08, na Folha de São Paulo http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2003200829.htm

sexta-feira, 14 de março de 2008

Chão de estrelas

Uma das coisas mais gostosas é encontrar objetos antigos e reviver excelentes lembranças. Isso traz alegria, um pouco de saudade e a certeza da boa vivência e convivência, mantidas com amor, por muitos anos.
Livros antigos? Luvas longas de seda? Chapéus? Fotos? Leques de penas? Piteira de marfim? Discos de 78 rotações – Copacabana, RCA Victor, His Master Voice, Odeon, Columbia – sambas, boleros, fox-trots, marchas, baiões, os choros Gaúcho e Cuco, Victor Young e orquestra, Leny Eversong e orquestra, Frank Chaksfield e orquestra, Silvana Mangano, Jorge Vieira, Bing Crosby, Ray Anthony e orquestra...Ah! Quanta coisa boa!
Lembrei de uma marchinha carnavalesca que a vitrola, acoplada em um belo armário de madeira, tocava nos intervalos das óperas; da Malandrinha, do Boa Noite Amor e da Canção da Criança do Francisco Alves; do belíssimo Chão de Estrelas do Silvio Caldas, das rapsódias húngaras e da música clássica: Desceu um disco voador, na praia do Arpoador. E o marciano foi cantar uma sereia na areia... A turma lá de Marte é de morte.
Alguém quer de presente um barbeador Remington 60 nunca usado ? Só o estojo de couro e camurça já é um encanto...