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sábado, 13 de setembro de 2008

Leveza

Alma leve, rosto lavado, cabelos ao vento.












Imagem de Cunningham

domingo, 7 de setembro de 2008

Livro multimídia

Ao ler uma matéria sobre o futuro multimídia do livro confesso que torci o nariz e pensei: não, imagine deixar de segurar um bom livro, apreciar a textura do papel, me aconchegar confortável na minha poltrona favorita e lá ficar por horas com uma das melhores companhias que podemos ter, além da boa música.
Minha relação com os livros vem da infância, do costume dos meus pais me levarem às livrarias, me apresentarem aos clássicos, orientarem-me sobre os escritores recentes. Sou dos que apreciam uma boa livraria e dedicam tempo considerável a esse mundo a parte. Tenho respeito pelos livros, manuseio-os com cuidado, não me sinto bem em escrever em suas páginas e mantenho por perto um bloquinho de post-it para marcar o texto que eu queira reler, ou, pelo qual eu tenha especial apreço.
Guardo belos livros encadernados, com mágicas histórias e figuras incríveis para os filhos que meu filho terá e considero esta uma das melhores heranças.
Aprendi a doar livros e o faço com prazer, como se uma pequena parte minha seguisse junto às páginas que trarão encantamento a quem os receber.
Mas essa matéria que descreve as vantagens dos audiobooks, dos e-book reader, dos livros online da editora inglesa Penguin, dos e-books, não importa o meio: ipod, laptop, palm, PSP, vale tudo para apreciar com facilidade alguns poucos capítulos, é certo, pois não consigo imaginar Guerra e Paz na tela do meu celular. Olhei os armários com livros que tenho em casa. Ocupam espaço, eu sei, demandam tempo para limpeza e organização – mantenho-os arrumados nas estantes por autores, temas, idiomas. Pensei nas minhas viagens e no que não falta em minha bolsa: água, ipod e um bom livro, assim como me lembrei das vezes, nas quais, ao terminar o livro que eu lia, evitei deixá-lo no meu destino e o trazia de volta, sempre com um tantinho de excesso de peso na bagagem e o risco de pagar a tarifa apropriada.
Por sua vez, o e-book reader consegue armazenar duzentos livros, possui tela fosca, que não emite luz e tenta reproduzir uma folha de papel, além das letras que parecem bem maiores e mais compatíveis com as lentes multifocais.
Sim, durante uma viagem eu apreciaria um e-book reader e não mais me preocuparia com o peso dos livros, mas essa seria, até agora, a única exceção que me permito.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Trama

Bateu com firmeza na mesa e berrou que não seria de outro jeito:
- Não será do seu jeito!
Mas que jeito torto é esse, quem nem jeito é.
- Quem você pensa que é? O centro do universo?
Quem, eu? Mas não é no meu entorno que orbitam os satélites, você incluso, e tudo acontece. Não é o meu manipulado e dissimulado comando que cegamente é obedecido.
O estômago embrulhou mais quando surgiu a palavra cartilha.
Espuma no canto da boca, tsunami de palavras que carregou tudo o que encontrou pela frente. Cataclismo pleno de pesadas, dissuadidas e descabidas culpa e responsabilidade.
- Olha para mim.
Trovão.
- Olha para mim.
Desconforto.
- Olha para mim.
Não consegue.
A neurose está em contrariar a natureza e o sentimento que não tem controle, nem nunca terá.


Imagem de Eugene Atget

domingo, 24 de agosto de 2008

A dança dos sapatos brancos

Médicos e exames, alguns inéditos e invasivos realizados após preparo e anestesia.
Cinco especialistas distintos, cada um com seu objetivo e dá-lhe mais exames, o desta semana antecedido por repouso de trinta minutos no pronto-socorro. Por terem ouvido a palavra câncer se esforçam para me convencer que o raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas, as pesquisas são realizadas com esmero.
Os dois exames que exigiram a presença obrigatória de acompanhante e foram realizados durante duas horas no hospital, sem que eu nada sentisse por estar anestesiada, obrigaram-me a chamar meu filho. Só nosso bom humor para aliviar a chatice que começou com a assinatura de uma declaração que descrevia as piores conseqüências que poderiam ocorrer – e me fez pensar em elaborar e anexar meu testamento, além da assinatura de duas testemunhas. Tem que ter muito senso de humor para manter a leveza e dissipar o medo.
Gostei de duas médicas sérias e competentes, mas não menos humanas e atenciosas e as escolhi para me acompanharem durante e após os tratamentos. Ambas têm a visão do todo – mente e corpo – e num alento honesto me tranqüilizaram e retiraram boa parte do que ia aos ombros, com o reconhecimento de que foi demais.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Interesse público

Foi estranha a atitude do policial militar que, do portão de um dos comandos localizado em movimentada avenida, segurava prancheta com dois blocos de multa e se divertia em anotar os dados de todos os carros que tentavam estacionar no supermercado em frente. Não avisou ao aplicar as sanções, não considerou que os carros entravam no estacionamento, não organizou a situação, não foi justo, nem equânime.
Não agiu, como deveria ter agido, nos dias que todos ficamos com medo de sair de casa e mesmo assim saímos, porque remédios deveriam ser comprados nas farmácias e os cães necessitavam de seus passeios. Naquela ocasião, cones imensos impediam que qualquer um se aproximasse e não havia ninguém no portão para ajudar, transmitir alguma segurança, ou, até mesmo multar. Saiu no caderno Metrópole do Estadão que 18% das multas em São Paulo são aplicadas por policiais militares, que triplicaram as autuações. De janeiro a junho deste ano, consta na matéria, 2,3 milhões de multas foram aplicadas na capital, 16,5% a mais do que nos seis primeiros meses de 2007. Essa ação deve estar de acordo com o interesse público, imagino, mas não é só isso.


Imagem de Eisenstaedt

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Vanity

Tenho oito fios de cabelos brancos e os deixei porque se perdem entre os castanhos.
Ao descobri-los lembrei-me da primeira e única espinha da adolescência, que parecia ocupar o rosto inteiro. Para mim, naquela época, aquela espinha chamava mais atenção do que meu olhar, meu sorriso e até mesmo meus pés, que são clássicos e bonitos. Não dou a mesma dimensão aos fios brancos, nem me preocupo com eles. Talvez para chegar até eles, aprendi o que realmente vale à pena.





Imagem de William Klein

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Sabor

Havia me esquecido o quanto é gostoso entregar-se ao sabor de um autêntico feta grego. E os acompanhamentos ideais, que lhe acentuam o gosto... Yummy

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Santa Clara clareou e aqui quando chegar vai clarear

O pai teve força para fotografar toda a cesariana e o nascimento da menina tão querida – “não fui eu que fotografei isso, não fui eu!”, a mãe com a carinha de mamãe mais linda do mundo e a filha, que veio rápido e os pegou de surpresa, mas mesmo assim, nasceu no tempo certo porque a vida nem sempre presume planejamento e flui com sabedoria única quando as pessoas certas se encontram e permitem-se o verdadeiro amar.
Não houve qualquer barreira entre eles, por mais que todos os empecilhos do mundo estivessem presentes e, por vezes, os oprimissem insuportavelmente. Superaram diferenças, pessoas, estados, situações, crenças, medos, espaços, enganos e tristezas. Quem quer e ama de fato supera tudo sem demora.

Queria contar mais sobre as histórias da Bia, do Luciano e da Maria Clara, mas penso que eles mesmos podem se incumbir dessa tarefa.
Com todo carinho que tenho pelos três afirmo que fazem parte daquele grupo bem reduzido de pessoas especiais, que aparecem na vida da gente e pelas quais torcemos incondicionalmente. Quero que sejam felizes. Serão felizes. São felizes.

Final de tarde na maternidade: Um lindo bebê, pais encantados, irmãs que se reencontraram e se perdoaram, choros de emoção e alegria e eu fiquei leve e feliz porque presenciei tudo isso. De lá, direto para um café confortável e bem montado nos Jardins, sem uma única mosca a ocupar espaço. Ficou assim, vazio, por horas. A música de fundo, bem variada, trouxe um dos clássicos dos Herman’s Hermits: Bus stop, wet day, she’s there, I say please share my umbrella. Bus stop, bus goes, she stays, love grows under my umbrella. All the summer we enjoyed it, wind and rain and shine, that umbrella, we employed it by August, she was mine. Chovia e fazia frio. Apesar de andar quieta e um tanto calada, batemos um longo papo e, ora pílulas, mesmo com todos os pesares continuamos firmes e fortes a desafiar nossas vidas de não quereres alheios. O telefone toca e o filho-pai preocupado com o paradeiro da filha-mãe manda abraço e parte para curtir sua noite de sábado. Dormi como há tempos não dormia.

Nossos cafés começaram em outubro do ano passado e são mágicos. Eu juntei os três para que criássemos base que sustentasse as mazelas de um e todas as nossas mazelas foram sustentadas por três, com alegria e papos que duravam horas. Muitas mudanças, boas mudanças, em pouquíssimo tempo. Faz parte do bem-querer incondicional e do torcer pela felicidade do outro. Tal qual a frase do perfume das rosas, fica um pouco com a gente, sim.


Imagem de Bresson

sábado, 2 de agosto de 2008

Bubbles and lather

Eu sei que pode parecer meio tolo, mas é muito bom contar com o auxilio de eletrodomésticos cheio de funções eficazes, que tornam nossa vida mais fácil e melhor.
Resolvemos aposentar a máquina de lavar após oito anos de uso, sem esquecer os comentários do meu pai sobre a qualidade dos eletrodomésticos, carros e demais máquinas e equipamentos que, segundo ele, haviam se tornado descartáveis. Ele era engenheiro mecânico, sabia o que dizia e reconhecia o uso exagerado do plástico de qualidade ruim em quase tudo. Ainda tenho em casa aparelhos importados de extrema qualidade, eficácia e durabilidade, que meus pais compraram.
Escolhi três modelos, comparei preços, qualificações, capacidade, fabricante e sugeri que meu filho escolhesse o que mais lhe agradaria. Ele foi além, comprou a super king profissional, com ciclos ecológicos, trinta e cinco programas, economia de energia, duplo enxágüe, luzes azuis, vidro temperado, que fala, anda, cozinha e passa. Fiquei encantada com o vidro temperado porque, pela primeira vez, posso curtir a dança louca das roupas enquanto são lavadas e a velocidade que a centrifuga atinge e me faz lembrar o movimento inicial de uma turbina de avião. Sim, tenho um lado menina que se diverte com tudo.
Mas o que fazer com a máquina de lavar que estava em casa? Deixá-la ao lado da geladeira Gibson, que tem mais de cinqüenta anos e gela mais e melhor do que muita super geladeira que existe por aí, seria alçar a lavadora de roupas a uma categoria não merecida. Sugeri que a lavadora ficasse guardada em algum lugar para uso do pimpolho que logo, logo, montará sua própria casa, mas ele aceitou de bom grado doá-la a uma instituição de caridade. E assim foi: No mesmo dia que entregaram a máquina nova, retiraram a antiga e os quatro carregadores se auxiliaram. Doar de coração aberto é muito bom e nos faz sentir bem.


Imagem: Gil Elvgren's pin up

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Pausas

O escritório mudará para a região que sempre trabalhei. Conheço e gosto daquela área, além de estar bem próximo de casa e me poupar do cansaço e das horas gastas em congestionamentos. Mas ainda não é bem isso; não é bem para isso, que me preparei por tantos anos.
Abracei a causa e puxei para mim a responsabilidade da intermediação entre corretoras, proprietário e possibilidades. Às vezes erram pelo amadorismo e por mais que eu queira limitar minha atuação ao razoável e proporcional à contrapartida, é impossível não intervir e corrigir a rota. O bom de toda a movimentação e empenho é conquistar o resultado favorável para todos.
Até mesmo pelo cansaço que os novos medicamentos me fizeram sentir nestes dias, aprendi a dedicar quinze minutos e apreciar uma boa xícara de chá, num café com pretensões a bistrô que fica bem próximo. Paro tudo e tomo com prazer o chá, enquanto folheio alguma revista que colocam à disposição. Aprendo sobre necessárias pausas.

Quem explica ?

Mais uma vez um sonho indesejado pleno de detalhes e significados, que atormentou a noite e alguns poucos dias seguintes. É incrível sonhar com alguém jamais visto e que não se quer ver, que atropela e muda a vida da pior maneira possível, sobre quem se aprendem as piores referências, além de, infelizmente, nos obrigar a desacreditar valores e idéias fundamentais.
Que coisa incontrolável é essa, que nos faz entristecer até em sonho.
Parece que estamos em período de sonhos conturbados e desalentadores, porque duas pessoas queridas e próximas comentaram sobre o mesmo transtorno: Sonhos e sensações ruins que deles vieram.
Pensando bem, o sonho recente de uma querida amiga foi bem pior, porque – até agora, em dúvida se acordada ou adormecida – ouviu sons e ainda por cima, viu vultos.
Na manhã seguinte o mal estar era tão forte, que voltei ao pronto-socorro (depois da última experiência fui valente, ou, idiota o suficiente para insistir no conhecimento da causa e cura de tanto mal estar) para diagnóstico e medicação imediata, antes da ida ao escritório. Os mesmos sintomas, alguns agravados, novas possíveis causas e a certeza de mais exames e da opinião de especialista. O duro é segurar isso quieta, para não expor o que vai por dentro.
Dois dias depois toca o telefone e ensaio o início de um comentário, um desabafo necessário para encontrar força, carinho, mas ouço palavras agressivas
e bem duras, mescladas com injustos gritos sobre culpa, que em momento algum pretendi fazer sentir. Fico triste e sem ação. Há tempos me pergunto que força ruim é essa, que impregna de tal forma negativa o bom sentimento e impede a realização do melhor. Não, não é força alguma, por que não há nada tão ruim que dure tanto tempo; é o medo, apenas o medo.
Não é normal ligar só para destruir. Não é normal.

domingo, 6 de julho de 2008

Cabotinice

O cabotino faz assim: Chama a atenção para si; necessita e quer causar efeito sobre os demais; julga-se superior, mesmo que saiba, tenha plena ciência não ser; faz graça e pretende ser pleno de graça. Graça barata. Chinfrim. Alegria falsa. Monótona.
O cabotino, homem ou mulher, não importa, demonstra. Precisa demonstrar. Posse, ter, falso ser. Usurpa momentos e os incorpora. Hipócrita. Finge ser.

O cabotino é assim: Manipula. Precisa manipular.
O cabotino não muda.Tem a essência incorporada.
Tartufo? histriônico? cabotino? jeito de ser.





sábado, 5 de julho de 2008

Sampolândiacity

Não é fácil viver em São Paulo. A quantidade de pessoas, carros, stress, problemas decorrentes da má administração e da falta de educação já são suficientes para complicar bem a vida por aqui. Por isso não sou complacente com situações adicionais que surjam e demonstrem o quanto esta cidade forte, dura e fria é, ao mesmo tempo, muito vulnerável.
Sempre respeitei o direito – e é realmente um direito – que todos têm de se manifestar, reivindicar, tornar públicas suas justas necessidades e equilibrar as relações conflituosas que são obrigadas a viver. É também com a manifestação pública que empregados, bem ou mal, são ouvidos pelos patrões; que mães choram os filhos mortos em guerras; que reclamamos da péssima administração pública. Mas há formas, maneiras, para que esse direito não limite o direito dos demais. É inconcebível que qualquer passeata ocorra na Avenida Paulista, ou, em qualquer outra via de acesso principal de São Paulo. É abusivo parar ou impor lentidão ao fluxo de carros nas Marginais. É injusta toda e qualquer movimentação que cause transtorno e constrangimento aos restante da população. Falta bom senso e propriedade no agir, que acaba por prejudicar a razão da manifestação.



O mote desta semana: “Com oito anos de atraso São Paulo teve o bug do milênio”.
É ruim reconhecer o quanto dependemos da internet para trabalhar, para resolver questões, para viver.

Como vivíamos, e vivíamos bem, sem ela antes?


Administrar a própria vida é muito fácil:
- Bom dia. Por favor, quero marcar uma consulta.
- Próxima sexta feita às quatro da tarde.
- Desculpe, sexta é o dia do meu rodízio.
- Na quarta à tarde da outra semana?
- Puxa, para quarta está marcada a passeata dos lanterninhas

de cinemas, teatros e estabelecimentos similares aí, na Paulista.
- O doutor tem livre a manhã da primeira quinta feira do mês que vem.
- Os exames que devo fazer são fundamentais e não posso esperar um mês.

Por favor, o doutor atende pela internet?
Tolinha.



Telefonemas das tardes de sexta feira:
- Onde você está?
- Atravesso a Estados Unidos e você?
- Estou na Ibirapuera.
- Meu filho, você tem vinte minutos para chegar em casa
antes do horário do rodízio.
- Eu me viro, mãe. Como está a Bela Cintra?
- Agora, está livre.
Passada meia hora
- Onde você está meu filho?
- Parado na Ministro.
- O que você foi fazer na Ministro?
- Tentei fugir do congestionamento por causa da passeata da Paulista.
- Puxa, mas eu atravessei a Paulista há vinte minutos e não havia qualquer movimentação...
Salvo um grupo de desordenados amarelinhos parado na esquina... Filho, tente sair dessa confusão na Paulista e atravesse o quanto antes a Consolação porque é para lá que irão.
Uma hora e meia depois
- Me dê alguma idéia, mãe.
- Onde você está, filho?
- Parado na Augusta.

- Você ta bem? Quer que eu vá aí, lhe fazer companhia?
- Não, mãe, tô bem.
- E os amarelinhos? Já levou alguma multa, filho? Deixe o carro em algum estacionamento e venha a pé.
No final do nosso rodízio levo você e buscamos seu carro.

Imagem do largo do Paraíso com vista da Paulista, década de trinta.

Um eu dentro do outro

Eu sempre tive a necessidade de viajar para outros lugares, dirigir em boas estradas, para sair da rotina, renovar a boa energia e regressar inteira.
Em Brasília, o destino desse precioso período de renovação era a cidade de Pirenópolis, que fica próxima, em outro tempo e cenário, com várias cachoeiras para um bom refrescar. A cidade das cavalhadas, dos fuscas contados em frente da igreja, da pequena rua central apinhada de gente nos barzinhos locais.
A água é fundamental em meu destino. Água corrente que leve a parte ruim que às vezes impregna na gente.
Em São Paulo, eu sempre fiquei entre o mar e a montanha com seus rios. Ora um, ora o outro, além das constantes escapadas para Penedo e Visconde de Mauá. Apesar dessa necessidade, desse tanto gostar, às vezes, estamos tão fracos, tão sensíveis e vulneráveis, que tememos fazer o que nos traz o bem. Pois foi justo nessa fase que dirigir em boas estradas assustou demais. Sem dúvida, o medo impede, a insegurança restringe e sentí-los enquanto dirigimos demanda atenção extrema, concentração e nos deixa tensos. Muito tensos. Como resgatar a confiança entre caminhões imensos e ousados, ônibus apressados e carros que zunem ao nosso lado? De casa até a marginal do Tietê – não, eu não tenho a menor idéia onde fica a tal ponte da Casa Verde – na escuridão das seis da manhã de inverno, com trânsito intenso apesar da hora, quase fiquei na típica posição das velhas senhorinhas que grudam a face no vidro da frente do carro. Descobri que grudam, porque são inseguras. A estrada certa – no tal do rodoanel viário, qualquer um pode se confundir – cem quilômetros de pescoço e braços duros, até a parada estratégica para refrescar o rosto e perceber o dia clarear. Proteção. Bendito o rapaz que no dia anterior ligou para a concessionária das rodovias e descobriu em qual quilômetro, e o número da saída, a estrada B se encontra com a estrada C e me mostrou no mapa para qual direção seguir e não correr o risco de ser multada na marginal, pela perda de tempo com o erro do caminho, porque também era o dia do rodízio municipal de carros. Os outros quarenta quilômetros e os cento e cinqüenta da volta foram como costumavam ser: Boa música, garrafas de água e a mente livre. Relaxamento. Está tudo dentro de nós, sempre esteve.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Esse sonho mão mais

Algum dia, quem sabe, eu aprenda mais sobre sonhos. Quase não sonho. Dizem que todos sonham, mas há os que não se lembram de seus sonhos. Eu não sei.
Mas reconheço a existência de sonhos premonitórios. Ou será que nosso subconsciente registra com rapidez certas situações, não assimiladas racionalmente, e as traz de volta nos sonhos para nossa compreensão?
Recentemente, meu filho sonhou com determinado animal. Procurei o significado e o alertei: Tinha tudo a ver com uma situação que ele vivia.
Sonhar com algumas pessoas é sinal certo de tristeza ou contrariedade.
Eu que não sonho, ou não me lembro dos meus sonhos, tive um sonho triste e ruim na noite passada. Corrijo: Tive um pesadelo, rico em detalhes, entre as cinco e seis da manhã. Vi nesse sonho o que eu jamais quis ver na vida real. Com certeza se encaixou no sonho com pessoas que deixam o dia da gente ruim e esquisito; afetam nossa concentração e ânimo, desequilibram nossa boa energia.
Assim como a memória, talvez devamos ter sonhos seletivos.
Não segui o conselho de um amigo, que me falou para colocar uma tesoura de baixo do travesseiro para cortar pesadelo. Será que isso adianta? Com tesoura, ou sem, aquele foi um sonho para nunca mais.


Hoje eu sonhei contigo
Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina todo
E quer sufocar

Meu amor
Vi chegando um trem de candango
Formando um bando
Mas que era um bando de orangotango
Pra te pegar

Vinha nego humilhado
Vinha morto-vivo
Vinha flagelado
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo
Pra te esfolar

Quanto mais tu corria
Mais tu ficava
Mais atolava
Mais te sujava
Amor, tu fedia
Empestava o ar

Tu, que foi tão valente
Chorou pra gente
Pediu piedade
E olha que maldade
Me deu vontade
De gargalhar

Ao pé da ribanceira
Acabou-se o liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar

Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemos os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina todo
E já não tem paz

Pois eu sonhei contigo
E caí da cama
Ai, amor, não briga
Ai, não me castiga
Ai, diz que me ama
E eu não sonho mais.

Chico Buarque

Imagem de Ansel Adams

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cotidiano

A sapataria da esquina

Lá, bem na esquina da Cardoso com a Itápolis, existe um sapateiro diferente de todos os outros. Alto e magro, de segunda a quinta ele veste calça social, camisa bem passada e gravata – as cores variam do rosa ao cinza claro e o tom de seus sapatos combina com o traje formal. Nas sextas feiras, ele assume o casual day e usa camiseta branquíssima, jeans e tênis. Seu estabelecimento fica na esquina da padaria e é composto por dois banquinhos de madeira: num ele se senta e no outro ele apóia a furadeira, que substitui o maquinário existente em qualquer sapataria. É com a furadeira que ele lixa e alisa os saltos consertados e as solas recém colocadas. É com ela, também, que ele lustra os sapatos. Tudo adaptado da forma mais criativa possível.
Para os dias de pico, que não são poucos, um auxiliar se ajeita como pode na calçada irregular e estreita. No mais, um martelo, pregos, graxas e panos.
Semana passada, o estabelecimento da esquina foi decorado com uma poltrona antiga para que as pessoas tenham seus sapatos engraxados com conforto.
Quase todos os empregados dos escritórios próximos – e são muitos - deixam nessa esquina seus sapatos para conserto. Outro dia, um senhor mal humorado reclamou sobre a ocupação da “rua pública” pelo mais novo empreendedor.
Nesses meses percebi o jeito do sapateiro, que passou do tímido para o seguro com desenvoltura.
Gosto daquela imagem. Gosto da ação positiva e honesta que transpõe a dificuldade e a lamúria.


Calçadas e pedestres

Calçadas estreitas, desniveladas, esburacadas e irregulares. Movimentadas. Calçadas movimentadas e estreitas. Não, bandos que insistem no andar vagaroso e concentrado, não. Pode parecer agradável o caminhar lento de pessoas que, lado a lado, conversam calmamente e ocupam toda a largura da calçada. Parece agradável. Mas não para quem quer passar em outro ritmo, sem conseguir.


Bufês impacientes

Não adianta virar e revirar a bendita folha de alface para tentar descobrir se existe alguma coisa além da alface. Se você optou por arriscar uma cisticercose, abandone o hábito de permanecer cinco minutos diante da travessa com folhas cruas. Por favor, deixe o papo furado para depois da balança e não empaque mais ainda a fila. Suco, refrigerante, água, cerveja, chá gelado... Para alguns tudo isso junto e à disposição pode gerar grave dilema existencial.

domingo, 29 de junho de 2008

Conversa de criança

Encantado, o menino conquista a condição de usar pela primeira vez o telefone. A orgulhosa mamãe sugere que a ligação inaugural seja para a querida tia Iolanda Maria - professora concursada do colégio estadual São Benedito, que aproveita sua aposentadoria em Santos, no litoral paulista. Com os olhinhos brilhantes o ansioso garoto se esforça para não errar a série de números do telefone da tia. Céus! Qual será a primeira frase dita? Alô, atende Iolanda Maria. Liguei para dar um beijinho, diz o guri. A mãe se emociona e deixa rolar uma lágrima. Entre gostosas risadas o garotinho de três anos repete a frase para manter a magia: liguei para dar um beijinho.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Congestionamentos

A velocidade média dos veículos em São Paulo no horário de pico da tarde despencou 32% nos últimos dez anos, passando de 25 km/h, em 1998, para 17 km/h, em maio de 2008. O percentual é maior do que o crescimento da frota paulistana no mesmo período, que subiu de 4,7 milhões para 6,1 milhões. Uma das hipóteses para essa piora está no alto número de interferências registradas
no trânsito.

A partir de agosto, 400 motocicletas serão distribuídas para auxiliar o serviço de atendimento móvel de urgência. As 'motolâncias' de 250 cilindradas serão dirigidas por auxiliares de enfermagem, treinados para dar atendimento rápido até a chegada da ambulância.


Para mim é inédito todos os dias enfrentar o trânsito louco e estressante. Não, não vivi em outro planeta, explico: Quando trabalhei na avenida Paulista ia a pé de casa e em Brasília trânsito era palavra desconhecida.
Falta paciência, sobra irritação e surge o cansaço. É absurdo perder tantas horas preciosas do dia, no meio de carros, ônibus, caminhões e motocicletas - se bem que as motos passam rapidinhas - e ainda dividir espaço com caçambas.
Música. Sem boa música é impossível agüentar. Uma garrafa de água ao lado e algumas besteirinhas gostosas para distrair também são essenciais. Inevitável o celular, que virou instrumento de navegação: Você já passou pela Bela Cintra? Como está o trânsito por lá? E a Brasil? Pego a Estados Unidos e sigo pela Rebouças?
Um carro parado na pista da direita causa lentidão nas outras três pistas. Reunião básica e informal de policiais com motos e viaturas paradas de qualquer jeito, em divertida conversa, pára as quatro pistas. Passeata? Céus! As passeatas param uma boa parte da cidade - que nova mania é essa de fazerem passeatas nas tardes de sextas feiras?
Carros estacionados em locais errados, caminhões de entregas em horários impróprios, motoristas-tartarugas, motoristas-indecisos, motoristas-agressivos, motoristas que querem levar vantagem em tudo. Antes, eram os garotos desmiolados que dirigiam como se estivessem em algum rali; hoje, são as garotas desmioladas que dirigem como kamikazes. Motoristas infelizes que acreditam que o tamanho do carro é documento; os que dirigem caravelas e necessitam de duas pistas para entrar à direita ou à esquerda; alguns taxistas que perderam a noção do perigo e os motoristas rurais - que tal levarem seus imensos veículos utilitários, que ocupam tanto espaço, para fazendas, chácaras e pacatas cidades do interior? Sirene de ambulância nada representa, carroceiros e carroceiras dividem o espaço como podem e ousados ciclistas se arriscam. Pedestres nervosos e atirados, cachorros soltos, caos.
Se não bastasse tudo isso, ainda existem os ‘amarelinhos’ que adoram anotar seus blocos de multas. O sinal logo atrás do agente de trânsito não funciona, os motoristas estão desorientados, a confusão afeta as ruas da região, mas ele não larga a caneta e o papel para organizar o movimento, como deveria fazer. Foram treinados para multar, não para orientar. Alguns se satisfazem em multar.
O rodízio municipal de carros afeta nossa vida e atrapalha nosso relógio biológico: Acorde uma hora mais cedo, torça para não encontrar algum congestionamento e fique com sono pelo resto do dia. Por conta do rodízio e do trânsito entendi que é necessário descobrir lugares estratégicos - de preferência com boas salas de cinema, livrarias e restaurantes - para esperar, ao menos quatro horas, enquanto o tempo de rodízio prevalece.
Diariamente vejo o pouso do helicóptero cinza no alto do prédio de um Banco. O mesmo segurança, de terno escuro e rádio na mão, recebe o passageiro e lhe segura a pasta. Por sinal, é um prédio com sete andares, cinza e quadrado que mais parece a base do heliporto. Deve ser a base do heliporto. O helicóptero decola, segue rumo à Marginal e os carros que estão na avenida não se moveram sequer um centímetro.
Grudar no carro da frente, negar passagem, ficar hiper atenta e descobrir-se agressiva. Sem dúvida é um desafiador exercício de paciência e educação.
Não faço esforço para enfrentar o trânsito, mas para não perder a suavidade e a gentileza apesar do trânsito.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Among crazy competitive boys

Once again among the crazy, competitive and impolite boys . Who told you, dear, not to deal with flowers, puppets, candies and non sense stuffs?

sábado, 29 de março de 2008

Folias culinárias

Fiz questão de assistir ao primeiro programa da nova série da Nigella Lawson e observei que ela está mais prática, rápida, bonita e gordota.
E quem mais prepararia deliciosos e crocantes biscoitinhos para presentear uma amiga e, durante o percurso até a casa da amiga, os comeria sozinha? Ora, Nigella. Mas ela pode e durante a apresentação tomou sua sopa de ervilhas frescas no parque, lambuzou-se com o frango assado e a salada cole slawe, comeu pedaços e mais pedaços de doces de chocolate com nozes, além das garfadas de sua mistura de macarrão com legumes, creme de amendoim e gengibre.

Ver Nigella preparar com muita facilidade tantas coisas e deliciar-se com todas as guloseimas deixa qualquer um encantado com a arte da culinária.
Outro representante do máximo sabor com pouco esforço é Jamie Oliver, que amadureceu, continua competente e agitado, e realiza um belo trabalho com a reeducação alimentar das crianças de seu país. A salada Caesar que ele preparou em seu último programa apresentado pelo canal GNT parece divina e será a próxima folia que tentarei realizar.
Vi que Jamie também adotou o modelo plante em qualquer lugar seus próprios temperos e seja feliz.
No meio desse festival gastronômico assisti novamente aos filmes A Festa de Babette (1987), Chocolate (2000) e O Tempero da Vida (2003) e curti cada movimento tão feminino que as atrizes oferecem. Pela primeira vez pude comparar o jeito elegante e organizado que minha mãe tinha ao preparar as deliciosas e inigualáveis refeições que nos proporcionou ao longo de sua vida e o meu próprio jeito, um tantinho mais caótico e rebelde. Lena Olin, que interpreta a personagem Josephine Muscat em Chocolate, é idêntica à minha mãe na cozinha; já a vigorosa Juliette Binoche, a Vianne Rocher do mesmo filme, tem o meu jeito. Por sinal, Chocolate e O Tempero da Vida retratam bem a alquimia dos ingredientes e a pura magia de seus resultados.
Foi com esse espírito que resolvi dar uma mudadinha no cardápio e quis botar por terra os dois mais famosos pratos à grega que encontramos por ai: O camarão e o arroz.
O verdadeiro camarão à grega é preparado da seguinte maneira: Esquente a água e quando ela começar a borbulhar coloque os camarões inteiros - sim, as cabeças ficam porque conferem mais sabor - mas não deixe de limpar os dejetos desses crustáceos com um pouco de habilidade e a ponta de uma faca. É muito feio ofertar camarões com a sujeira que costumam ter. Quando ficarem rosados retire-os da água e prepare azeite de oliva extra-vigem de boa qualidade, sal e suco de limão. Bata essa mistura com um garfo e coloque os camarões descascados. Só isso. Camarões cozidos no tempo ideal e mergulhados no azeite com sal e limão. O arroz à grega também é simples e feito com azeite de boa qualidade e sal.
Volto à mini-horta de temperos e outras delícias. É muito fácil de criar, manter e curtir em qualquer lugar. Não precisa de mais nada além de mudas, terra, água e sol.