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domingo, 4 de março de 2012

O perdão




Alteramos a máxima cartesiana “penso, logo, existo” para “penso, logo, incomodo” e, às vezes, através de nossos pensamentos nos tornamos  eficientes no auto-incomodo.
Este tema surgiu em conversa entre amigas queridas, mestras da fluidez, da leveza, do ânimo e do entusiasmo e, também, exímias provocadoras de libertadoras catarses - o perdão. 
Parece fácil, não? Afinal, perdoar presume vontade e querer perdoar deveria ser suficiente, mas não é.
Em primeiro lugar considere o indivíduo e seus amalgamas, seus valores e limitações, suas crenças, sua totalidade complexa. O senso comum ou o bom-senso tem sua importância, porém, entre a ofensa ou tristeza recebida e a capacidade de perdoar pode haver um abismo.
Todos sabem que o impacto do mal recebido é proporcional à intimidade permitida e quanto mais íntimo o agressor, mais contundente sua atitude negativa e mais complexo o perdão.
Em segundo lugar considere o arrependimento de quem causou o mal e projete o pior cenário: O causador do mal é incapaz de sentir empatia e não reconhece o prejuízo por ele causado, logo, não sente qualquer arrependimento. 
Ora, se a ofensa foi causada por pessoa íntima incapaz de sentir-se arrependida, o perdão pode situar-se anos luz de distância e para acontecer exigiria os empenhos e desprendimentos da Madre Teresa e da Irmã Dulce somados. 
Como se vê, perdoar pode não ser fácil.
É necessário perdoar? Sim, e esta é afirmação plena de “se" e “depende". Regra geral perdoar é necessário para libertar-se e seguir adiante, embora, é possível seguir adiante sem perdoar. 
Em particular ao cristão que professa a oração primária e nela acredita, a incapacidade de perdoar, no mínimo, gera a incongruência no momento do perdão solicitado: “perdoai as nossas ofensas, assim como perdoamos aos nossos ofensores”, opa! Mas aquela ofensa é imperdoável, então, Senhor, por favor perdoe todo o mal que eu causei e desconsidere a minha incapacidade de perdoar o mal recebido, pedido que poderia ser complementado com a mágoa nossa de cada dia nos dai hoje, pois não? Não é à toa que a incapacidade de perdoar pode prejudicar a própria fé e aumentar ainda mais a abrangência negativa da ofensa recebida: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas” (Mateus, 6:14-15) - os que têm fé necessitam do perdão do divino, necessitam perdoar para serem perdoados.
Assim, o dilema persiste e se amplia: Como perdoar quem não se arrepende e como não perdoar se também peço perdão?
O perdão é libertador: Libera o ofendido e lhe retira o mal recebido (ou deveria retirar-lhe o mal recebido) e libera o agressor da culpa. No entanto, o perdão presume o total esquecimento? Ele é incondicional? E a questão inicial: Como perdoar quem não se arrepende? O perdão pode ser confundido com tolerância ou permissão? 
Cá entre nós, se já não bastasse toda a tristeza recebida, você ainda assume a incumbência de resolver todos os dilemas correlatos e as questões filosóficas e éticas que há milênios afligem a humanidade?
Simplifique sua vida e apazigue sua mente com solução solitária e eficaz: Perdoe a você mesmo e liberte-se. Liberte-se da culpa e de todo o sofrimento inútil. Liberte-se. Imagine a quantidade imensa de pessoas que deixam irmãos, amigos, filhos, pais, amantes desaparecem de suas vidas antes de trocarem preciosas palavras de clemência e absolvição, imagine a quantidade imensa de assuntos mal resolvidos que poluem nossa vida emocional, liberte-se. Você mesma pode terminar todos os assuntos dentro de si e isso é essencial. Trata-se de um ritual libertador: Represente mentalmente uma conversa entre almas, o acerto e o perdão celebrado em outra dimensão, ofereça e peça perdão e aos poucos você se sentirá eximida e fora desse acerto, você perceberá que a sua participação no relacionamento negativo findou e com ele terminaram todas as tristezas inacabadas e ocas. E se no futuro surgirem pensamentos e sentimentos tristes, é para o local desse ritual libertador que você os mandará. É para isso que existem os rituais, com eles criamos lugares seguros nos quais descansam nossos sentimentos mais profundos de alegria ou trauma, sentimentos que não precisamos carregar.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

O que de mais belo soube sempre o disse, de repente, a alguém que não conhecia

Pode ser difícil, conflituoso até, o exercício do “e se” praticado solitariamente, você e seus botões mais falantes, ou em conjunto com alguém que a estima, sincero e íntimo o suficiente a ponto de bem conhece-la e a sua vida.
"E se" eu não tivesse feito aquela escolha, não tivesse adotado aquela atitude, não tivesse dito aquelas palavras, não tivesse agido daquele jeito, não tivesse me omitido, não tivesse deixado de lado aquela coisa, valor, sentimento e tudo mais que  faz parte da nossa vida? 
"E se" eu tivesse considerado minhas expectativas, tivesse sido mais egoísta, tivesse posicionado minha vida em primeiro lugar? 
"E se" eu não tivesse mudado de cidade, de país, de planeta? Costumam ser tantos os “e se”, ainda mais em uma vida plena e independente cujas rédeas estão bem firmes nas mãos, que não raro surgem Cíclopes e Lestrigões imaginários capazes das piores torturas internas, superáveis através dos seguintes entendimentos básicos:
1- Circunstâncias e sentimentos - Com o tempo circunstâncias e sentimentos perdem força, são esquecidos, apesar de serem os fatores que mais influenciam as diversas escolhas feitas ao longo da vida. Portanto, tenha em mente as circunstâncias e seus sentimentos no momento de cada escolha crucial.
Um exemplo banal: Se hoje você tem certeza que aquele par de sapatos caríssimos, de grife internacional, vermelhos com bolinhas roxas e fivelas lusco-fusco são de amargar, certamente, quando os compro você os considerou lindos e a sua cara, quem sabe o melhor investimento do ano e seu passe definitivo para a felicidade. Ora, escolher sapatos é ato de menor importância se comparado com a escolha da carreira, das reações diante da vida, do que se imaginava ser o verdadeiro grande amor.
2- Todos são mestres - Por mais complicado que possa ser considere mestres, professores, todas as pessoas que passaram por sua vida porque, certamente, com elas você aprendeu o que deveria, o que precisava aprender, mesmo o conhecimento anverso, que não deveria ser.
3- O devir - Este tem jeito meio surreal, transcendente, mas acredite que você está exatamente onde deveria estar, do jeito que deveria estar o que, no final, retira pesos, correntes, ônus abusivos e confere especial pertinência à todas as escolhas que a trouxeram até aqui.   

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Espero que me digam se sou feliz, real, ou simplesmente uma espuma de cinza em muitas mãos

É um exercício imaginar o que você faria se descobrisse que seu bilhete foi premiado no sorteio de algum jogo oficial qualquer e você tem 70 milhões de reais à imediata disposição. Qual seria a sua primeira atitude? Qual seria o seu comportamento? O que eu faria? Bom, por segurança e até que eu providenciasse sistemas protecionais pertinentes e não ostensivos, eu mandaria para bem longe as pessoas que me são mais caras e após receber o prêmio eu também me afastaria por um curto período para melhor pensar. 
Eu teria em mente que qualquer valor tem sua capacidade, logo, uma parte desse dinheiro seria utilizado para gerar mais dinheiro, porque diferente de muitos, eu não deixaria de produzir - a vida é meio vazia sem uma atividade séria e remunerada. Eu negociaria quaisquer pendências, as melhores aplicações e criaria uma associação (ou outra pessoa jurídica qualquer) para prover recursos (materiais, médicos, jurídicos, educacionais) aos mais necessitados e minha opção seria pelas crianças e pelos velhos. Eu não concebo a ideia de receber tanto sem nada retribuir. Seria inadmissível. Eu zelaria por essa associação e cooptaria profissionais éticos e honestos de diversos segmentos para, conjuntamente, realizar a boa diferença. Eu não daria vinda mansa aos meus, mas lhes proporcionaria os melhores meios para, através do trabalho, realizarem seus bons sonhos. Eu faria algumas surpresas, sem dúvida, porque a vida também requer regalos. Eu vigiaria a arrogância para que ela não se instalasse e não perderia a noção de quem realmente sou. Eu faria o esforço necessário para, em detrimento das facilidades, jamais perder a minha capacidade de sentir indignação. Isso tudo se eu ganhasse 70 milhões em algum sorteio oficial qualquer. 
Vocês repararam nos valores citados em filmes antigos? O super bandido demandava alguns milhares de dólares para não contaminar toda a água do planeta; a obra de arte almejada e exposta em um museu famoso valeria, no máximo, cinquenta mil dólares e esse montante garantiria o resto da vida mansa ao personagem ladrão; no filme “The Italian Job”, de Gary Gray, com Donald Sutherland, Mark Wahlberg, Edward Norton e Charlize Theron, aquele, com uma porção de mini Coopers em corrida urbana frenética, sobre o roubo em Veneza de 35 milhões de dólares em barras de ouro, valor que dividido garantiria a aposentadoria e a realização de todos os sonhos de sete malfeitores. Caramba! Em 2003, ano daquela produção, 35 milhões de dólares era muito dinheiro e poderia ser dividido por sete, ou mais, com sobra. Hoje, lemos, sabemos e ouvimos sobre rios de milhões de dólares, de reais, de euros, que insatisfazem, não sete, mas um único ladrão. 
Se por ventura eu aprimorasse o exercício inicialmente proposto e resolvesse vender o meu bilhete premiado, obviamente por um preço bem maior, para quem necessitasse legalizar dinheiro ilícito? Bom, de início eu teria alguma dificuldade para justificar a mudança de status social: Herança ganha? Casamento bem sucedido? Sorte nos negócios? Dinheiro achado e não reclamado não é roubado? A simplicidade costuma ser regra: Fulano ganha x, gasta y, tem patrimônio no valor de w. Se o patrimônio do Fulano ou de seus filhos profissionalmente malsucedidos, os Fulaninhos Júniores, de seus pais humildes, sr. e sra. Fulano de Fulano, irmãos, cunhados, primos e amantes, todos tão humildes quanto os pais, de repente, é inundado por um rio de dólares, reais ou euros, sem um bilhete premiado de algum jogo oficial que justifique tamanha felicidade, então, no mínimo, deveria garantir uma boa explicação.
Não é apenas a deterioração das principais bases de uma sociedade que o rio monetário caudaloso e corrupto garante. Ele também mina o comportamento de cada um de nós e nos torna suscetíveis ao desmando e ao erro. Assim, diariamente a manutenção de máquinas, edifícios, procedimentos também é corrompida. O empresário percebe mais lucro com a venda de produtos contaminados, o funcionário público recebe mais para virar o rosto ou fazer menos, o empregado sabota a máquina para fraudar o seguro e a seguradora não paga o tratamento de saúde devido e pertinente. Os valores aumentam cada vez mais e demandam exercícios imaginativos periódicos: O que você faria se descobrisse que seu bilhete foi premiado no sorteio de algum jogo oficial qualquer e você tem 700 milhões de reais à imediata disposição. Qual seria a sua primeira atitude? Qual seria o seu comportamento? 
     

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Simplificar a vida, ou, a excelência ao alcance de todos

Vejo cafeteiras cada vez mais sofisticadas, fantásticas e algumas preparam cafés gostosos a ponto de, eventualmente, tentarem esta que vos escreve (eu gosto de chás e leite com chocolate). Máquinas que se transformam no centro das cozinhas (quem sabe da casa inteira) e são manuseadas com tamanha destreza, a ponto de demandarem um barista particular para o preparo do cafezinho de cada dia. 
Sem dúvida estamos mais sofisticados e nossa sofisticação nos leva à escolha do melhor vinho, o melhor azeite, a melhor água mineral, o melhor grão de café, a melhor flor de sal e tanta melhoria amplia nosso conhecimento sobre coisas antes impensáveis, ou, desconsideráveis, além de fortalecer nossa ansiedade e complicar a vida. 
Volto às super cafeteiras e a inevitável lembrança que trazem do brick, como há séculos, na Grécia e na Turquia, é chamada a mini panelinha bem barata, com formato diferente, que com água filtrada e café de boa qualidade moído fino, sem erro, prepara o melhor café. Repare bem, cara senhora, caro senhor, para usar essa panelinha à toa não é necessário filtro de qualquer espécie, energia elétrica, tampouco prática e habilidade. E se vocês têm por perto uma tia idosa, também conhecerão o futuro através da leitura mágica da borra no fundo da xícara.

A simplificação da vida é exercício saudável, necessário e nos remete ao passado. Hoje, graças à complexidade que nos impusemos, a excelência é sobrecarga

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Eu fui às touradas em Madri e quase não volto mais aqui, para ver Peri beijar Ceci

Tirolesa, bailarina, havaiana, que atire o primeiro punhado de confete quem na infância não participou da folia carnavalesca.
Eu gostava das brincadeiras, da guerrinha de água com bisnagas plásticas, dos confetes jogados para o alto e do desenrolar rápido e meio mágico das serpentinas. Eu gostava do banho de piscina depois da algazarra e também gostava de saber que meu pai andava por perto para proteger a filha amada.  
Depois, o carnaval transformou-se no tempo dos quereres, a quase obrigação de viajar para longe do corre-corre de São Paulo, ou mesmo do Brasil, até encontrar o melhor motivo para correr para o Rio de Janeiro, na contracorrente do próprio carioca, que corria para Itaipava, Búzios e, sim, algumas vezes também seguir o fluxo dos que  saíam do Rio no carnaval. Aquele foi o tempo que perdi o sotaque meio europeu, uma parte do jeito tão peculiar de filha dos meus pais, um punhado da atávica (e aparente) frescura e aprendi a gostar de bolinhos salgados e cerveja gelada em alguma praia paradisíaca perto de Paraty, e dos bolinhos de aipim com camarão do Bracarense no final de um dia inteiro de praia. Céus! Bem lembro que pensei a primeira vez: Se a minha mãe me visse nesse boteco... Eu gostava do Rio, do jeito da cidade, dos passeios, da diversão, das pessoas, do relaxamento, do bem-querer e do amor. Eu adorei quando fui ao ensaio de uma escola de samba tradicional (escolhida à dedo por quem sabia, para a perfeita segurança e aproveitamento da princesa greco-paulista), quando fui ao desfile na Sapucaí - aquele espetáculo foi arrebatador, quando acompanhei um bloco alegre em Ipanema e também ao curtir os divertidos e desengonçados jogadores de volei de praia, homens grandes, barbados e másculos, todos vestidos de mulher a brincar na areia de Copacabana. 
Hoje, não acompanho a movimentação nem resultados de desfiles, e o carnaval é a deliciosa oportunidade de reaver a minha cidade, a São Paulo vazia, que nessa época tem o ritmo das décadas de sessenta e setenta, do bom tempo da infância.
Aos poucos o carnaval transforma-se em metáfora de vida.   

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

A permissão equivocada que a pressa traz



Se eu tivesse o dom de dar bons conselhos este, hoje, seria o mais importante: Não tenha pressa. 
A pressa é o passe livre para pessoas erradas e resultados ruins.



(Imagem de Saul Steinberg)

Miscelânea

Para o casal amoroso a conquista é exercício constante.

A pimenteira tem florzinhas brancas e delicadas, pimentas de um vermelho vivo intenso e brilhante, e outras verdes, certamente com sabor mais suave, imaturas, que em poucos dias conhecerão a magia da vermelhidão incandescente na boca da gente. Está aqui o vaso vistoso da pimenteira, próximo das diversas violetas multicolores, das azaléias brancas e rosas que aparecem quando bem entendem e dos lírios da paz, os mais presentes.  
Experimento, faz parte da vida, e acrescento novos sabores e aromas ao alimento preparado: Pimentas vermelhas, gengibre, novas ervas e especiarias - o sabor mais adulto, brinco - e peço que me avisem se exagero. Oscilo entre o sabor delicado e o instigante, desconsidero o temor das pimentas e embora retire suas sementes para suavizar o ardido, também percebo o quanto se harmonizam e aromatizam a refeição concluída. Eu diria que estou bem próxima da excelência do verdadeiro sabor indiano e não se enganem, porque a real comida indiana não é ardida e prescinde do estratégico copo de leite para  amenizar a queimação. Eu sabia que a refeição preparada com esmero é um dos maiores confortos oferecidos a quem chega e aprendo que a refeição-incentivo é a que prove de boa energia e exclui qualquer tristeza. O segredo está no prazer sentido, quer no preparo da refeição, quer em seu consumo, e este é o novo aprendizado, ou melhor, o aperfeiçoamento de descobertas recentes, a excelência da entrega feminina.

Há amor abundante no olhar verdadeiramente carinhoso.

Dizem, eu acredito e pratico, que para bem-viver é necessária memória curta, mas, como a vida tem humor próprio, criativo e nos testa com certa frequência, também ando em fase de inventar novas qualificações e classificações, compartimentos internos para melhor organizar novelos emaranhados,  imagens, sentimentos, odores, lembranças e tudo mais passado que (feliz ou infelizmente) forma a nossa história. É fácil - corrijo - para mim sempre foi fácil desconsiderar motivos e certezas e permitir a reaproximação de desafetos que se apresentaram hostis em determinado momento, pelo puro esquecimento que sempre me abençoou. Mas, e este mas é danado, eis o mais novo compartimento criado para o ruim excepcional, que de tão ruim não pode ser esquecido, unicamente, para nunca mais acontecer. É aquela tristeza-exceção que já perdeu seu amargor e serve apenas de constante alerta, luzes piscantes a lembrar: Cuidado! Esse mal é pungente e pode até matar de desgosto, pode trazer doença ruim! É um mal tamanho que às vezes atravessa a vida da gente, não retorna nem reverbera, e serve de lição. Apenas.

Crer é uma das mais complexas e completas ações. Não perder a crença pode demandar esforço imenso e continuo.

Às mulheres é reservada a condição de parir o mundo e tudo que nele se encontra. Sublime condição esta, plena de possibilidades. Sem dúvida requer desprendimento e bom coração, por sinal, este é requisito fundamental para todos, o bom coração.

É uma pena que subestimemos a suavidade.  

Infelizmente todos os dias vejo cães agressivos que acompanham pessoas sem a menor vocação para criar animais de estimação. Da mesma forma que o trânsito hostil é instrumento para que o frustrado exerça suas mais intimas limitações, os cães agressivos são os reflexos das limitações de seus donos. Criamos cães agressivos, criamos filhos agressivos, criamos um mundo agressivo. Em especial esta minha geração é a que mais falhou em sua responsabilidade de ofertar à vida filhos com o emocional saudável, solidários e justos. Cada vez mais enfatizo a nossa responsabilidade moral diante dos atos de nossas crias. Se menores, somos integralmente responsáveis, e se maiores nossos filhos, nossa responsabilidade moral jamais cessa. Nos perdemos entre a melhor orientação e o exemplo por nós apresentado. Relegamos nossa missão mais importante. 

Tenho conversado com amigas e conhecidas e aprendo que a maternidade não é obrigatória nem realizadora, por mais que nossa sociedade exija com fervor sua ocorrência. Tenho amigas que optaram por não ter filhos e se sentem bem com essa alternativa. No entanto, reconhecem que são exceção, assim como reconhecem a pressão externa, velada ou não. Afinal, temos por certa a realização que a prole propicia, bem como banalizamos as demandas do organismo quando se aproxima o fim da capacidade de procriação. Há pouco reencontrei amiga de muitos anos que, meio sem jeito, começou a conversa com o “fiz uma produção independente” - ora, querida, você é mãe e isso é o mais importante, muito legal, portanto, dependente ou independente são qualificações desnecessárias. Outra amiga quebrou o tabu, o acordo assumido com o namorado de muitos anos, próximo da menopausa engravidou e hoje dedica sua vida à cria. Às duas contraponho a bem sucedida experiência de poucas amigas que podiam ter filhos, mas exerceram outras opções. 
O único anseio que parece presente na vida das mulheres é o casamento. Todas, sem exceção, querem casar ao menos uma vez, para sentir a sensação de ser a escolhida de alguém. Somos super executivas, astronautas, médicas cirurgiãs, mas o casamento ainda faz parte do imaginário realizador não importam todas as demais conquistas. Por isso e ainda, principalmente com o passar do tempo, aceitamos cônjuges dependentes químicos, sem caráter, abusivos e desprovidos de bom coração. 
Aristófanes nos entendeu cerrados ao meio e desesperados para encontrar alguém que nos complete. Assim o desejo seria o cordão umbilical cortado, que está sempre conosco, sangrando e ansiando a união sem falhas. A questão estaria na completude exigida do outro. Entendo que essa exigência representa carga insana que jamais deveria ser transferida. Não é o marido (ou a mulher) que nos completa - essa, é função nossa. Com o tempo nos esquecemos da nossa própria inteireza. 

O perdão é o único antídoto realista que o amor oferece para ultrapassar as decepções inevitáveis da intimidade. 

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O exercício da poesia, a busca verbal de finalidade desconhecida, a percepção das palavras

É duro escrever sobre descobertas áridas e aprendizados tão cruéis quanto necessários, pedaços feridos desprendidos, arrancados, cicatrizados e outros cuidados com o zelo do distanciamento e do tempo curadeiro, a constatação que o fim, ah, o nosso fim independe do nosso entendimento e até mesmo do nosso querer.
Recentemente e no momento certo, tudo parece estar ligado ao momento certo, iniciei a leitura do livro de Andrew Solomon, “O demônio do meio-dia uma anatomia da depressão” e enfeito suas páginas com adesivos coloridos, minhas bandeirolas pessoais que definem quais ideias e frases merecem releitura, quais devem ser repensadas e assimiladas com mais atenção. Esta não será leitura fácil, caracterizada pela fluidez habitual, mas um bom desafio para concordar, discordar, se entristecer, descobrir e concluir: É isso! Não é apenas isso! 
“A depressão é a imperfeição no amor. Para podermos amar, temos que ser criaturas capazes de se desesperar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse desespero. Quando ela chega, degrada o eu da pessoa e finalmente eclipsa sua capacidade de dar ou receber afeição. É a solidão dentro de nós mesmos que se torna manifesta, e destrói não apenas a conexão com os outros, mas também a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo mesmo. Embora não seja nenhum profilático contra a depressão, o amor é o que acolchoa a mente e a protege de si mesma” ou a rasteira inicial, o primeiro soco no estômago, o empurrão violento e inesperado da pessoa amada que estatela a moça preterida no chão. A moça não merecia ser empurrada, ninguém merece ser empurrado.
Considere o temor que o desconhecido provoca, porque pouco sabemos sobre a depressão, e acrescente a dificuldade de encontrar bons profissionais de saúde que saibam lidar com essa enfermidade. Sim, a depressão é doença; um desequilíbrio químico dizem alguns (tudo é química, já repararam?) estigmatizado socialmente pela nossa imensa ignorância, nosso estúpido preconceito. Há o risco de, com o tempo, tornar-se a genérica “virose" dos diagnósticos médicos imprecisos e limitados - eu temo a futura banalização da depressão.
Fatores genéticos e o meio externo colaboram para o desenvolvimento da depressão, mas não são preponderantes. A tristeza profunda e momentânea não pode ser confundida com a depressão, muito menos o comportamento menos positivo ou otimista diante das agruras da vida. Seria bom (ou desastroso) se todos tivessem o leve, positivo e alegre modo tralalá conectado tempo integral, o que não é humano tampouco normal, porque a minha reação diante de alguma circunstância não é igual a reação de outra pessoa, cuja reação difere da terceira. Somos complexos e parte da nossa complexidade é decorrente da nossa formação, da nossa vida familiar, dos valores assimilados e tantas outras variantes possíveis. É o que faz com que os estudos sobre a depressão apontem possibilidades e parametros por vezes arbitrários e ineptos, afinal, lidamos com o complexo estado de espírito para o qual a equação C1 (MHPG) - C2 (VMA) + C3 (NE) - C4 (NMN + MN) / VMA + C0 = escore tipo D agrupa lindamente um monte de letrinhas sem qualquer nexo e define mostrengos esquisitos como o 3-metoxi-4-hidroxifenilglicol, que nada mais é do que um composto que os não depressivos teriam em seus xixis. No entanto é quase impossível determinar até que ponto uma experiência específica conduz a um tipo de depressão.
A minha experiência, e só posso expor a minha experiência, inicia pela influência da depressão de alguém extremamente próximo, respeitado e amado: Minha mãe era depressiva e, às vezes, a depressão dela me fundeava, diminuía o meu "joie de vivre”; dedicar-se em demasia ao trabalho foi fuga (estudo recente determinou que o excesso de trabalho causa depressão) e também necessidade de suprir a limitação da equipe e dos recursos geridos por tantos anos; credulamente relacionar-se com pessoa abusiva deixaria a mais forte das criaturas depressiva; o enfrentamento solitário de doença grave pode ser motivo de depressão, assim como a descoberta parcial de informações fundamentais sobre si. Sem dúvida foi um amontoado de fatores costurados pela vida com esmero e criatividade ímpares. Um único desses elementos seria suficiente e o conjunto deles foi insuportável. E, cá entre nós, é mais do que dispensável o insensível e descabido comentário “você é forte”, porque para determinadas circunstâncias ninguém é.
No meu processo de cura desconsiderei o clínico geral que nos assiste em todos os males e pesquisei o psiquiatra mais adequado (não o neurologista, mas o psiquiatra). Cumpri religiosamente todas as orientações, afastei os focos e pessoas negativas, tomei os medicamentos nas dosagens prescritas: Venlafaxina, fumarato de quetiapina, bupropiona e cloxazolam. Remédio para dormir, para levantar, para viver e foi toda essa química usada para equilibrar a química do meu cérebro, que me fez tocar o fundo do abismo e nele me aconchegar até recuperar o fôlego para iniciar a subida à superfície. Cuidado! A medicação ajuda mas por si não cura, o esforço pessoal do enfermo é fundamental. Recuperar a fé foi essencial e não desacreditar do amor também. Após um ano, a depressão severa e incapacitante deixou de ocupar todo o espaço e desistiu de comandar minha vida. 
Para enfrentar a depressão considero importante a assunção da enfermidade da mesma maneira que alguém faria ao, por exemplo, comentar ser diabético ou alérgico a pelos de animais. Eu tenho depressão ou eu sou depressivo dito com a mesma normalidade do eu sou hipertenso, sem qualquer desconforto social. O depressivo não é mais fraco que os demais ou desequilibrado, como acreditam os preconceituosos e ignorantes. Procure o auxílio que estiver ao seu alcance e se afaste das causas da sua depressão, ou, no mínimo, diminua a influência que possuem sobre você. Engordar é uma das consequencias da depressão, não salutar é óbvio, mas inicie a arrumação do seu interno para depois se ocupar do exterior. Tenha paciência, aceite seu próprio carinho e dedicação. O tempo é fundamental para a cura assim como o amor. 
Para fortalecer a recuperação exercite o reconhecimento do seu próprio comportamento, das suas reações, e aprenda a se prevenir contra a depressão.
E aqui vai uma afirmação de entendimento temeroso, mas não menos verdadeiro: Se a depressão é a exaustão e a aridez emocional, o ausentar-se de si mesmo, a decadência e o caos, também é nascimento ou renascimento. É o refazer-se da ruína, uma das mais valentes e belas lições de vida. 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Voltar também faz parte do bom caminho

Acostumar-se com algo é ultrapassado, talvez até inapropriado. Novidades sempre. Nossa (combalida) capacidade de adaptação é constantemente desafiada. Como? Mais de um ano longe deste blog? Ah, querida, você encontrou tanta novidade (gráficos, estatísticas, novo layout interno, dados sem-fim, informações úteis e inúteis) e pensou ser bem mais interessante sair desta página e cuidar da vida, curtir um bom livro e música de primeira, bater um longo papo com pessoas queridas, passear com o cão, ir ao cinema, preparar alguma gostosura (aprendeu a cozinhar gostosuras e, principalmente, aprendeu a gostar de cozinhar). Mas persistente e um tanto curiosa respira fundo, alonga a coluna, cruza os braços e finca o pé direito enquanto pensa: Este aqui também é meu pedaço, sem dúvida amorosamente compartilhado, e resolve ficar enquanto quiser ficar. Eu sei bem como é. Você oscilou entre o que chatice tanta mudança e o fato desta coisa cheia de textos e fotos e vídeos e poesias ter sido, em parte, o que ajudou a segurar o que se apresentou para ser segurado - e o que se apresentou para ser segurado foi um monstrengo malvado e indócil do tamanho do mundo, ou, uma pena suave e frágil, porque o todo não passa de nada dependendo da perspectiva; assim, o caos se  torna a melhor fonte de criação e superação. Afinal, o caos é o princípio de tudo.
Lições, preciosas lições, que somente um ser totalmente desprovido de sensibilidade e inteligência - da mediana, nada muito especial - deixaria de reconhecer e aprender e entender que a vida, bom a vida tem uma criatividade surpreendente e a disposição de dedicada e incansável professora que, carinhosamente, sorri para determinado aluno, depois, dá uma carinhosa piscadela, joga o giz na cabeça do aprendiz, uma pedrinha, uma bolinha de gude, um tijolo, uma pedreira inteira, até a adorável criaturinha acordar e, finalmente, aprender. E a dedicação da vida não se limita à pedreira jogada sobre a cabeça (ainda bem que ela, a vida, não sofre da síndrome da Rainha de Copas de Alice), mas também de repetir a lição até confirmar que a garota realmente aprendeu - no caso, em especial, a dizer não, simples assim.
Em outra ocasião virá texto sobre a depressão e tudo o que essa coisa ruim faz com a gente. Quem sabe algo sobre solidão adorável e construtiva. Sobre odisseias internas, tão assustadoras e dolorosas quanto abençoadas e admiráveis. Sobre Cíclopes e Lestrigões apavorantes e imaginários. Sobre vida e entusiasmo. 
No mais, se quiser e puder guarde bem esta imagem: Os 50 são adorável e exclusiva ponte entre os 40 e os 60. É a segunda adolescência desprovida da angústia e dos incômodos da primeira. É a época mais espetacular da nossa vida. Acredite. Por isso, cuide para atravessar essa ponte tão especial com o máximo de leveza que puder, acompanhado pela essencial fluidez. Tudo apenas começa. 
  

sábado, 2 de agosto de 2008

A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira.

Rubem Alves