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domingo, 4 de março de 2012

Das minhas mãos saem acalentos





















No indispensável período de indulgência, necessário para a recuperação do corpo e da mente, em parte me inspirei nas preciosas receitas de minha mãe, em Nigella Lawson e em Annabel Langbein para o preparo de alimentos restauradores e saborosos - o perfeito equilíbrio entre o corpo e a mente, a cura.
O texto abaixo é de Nigella, sobre o seu livro “How to be a domestic goddes”, aproveitem:

This is a book about baking, but not a baking book – not in the sense of being a manual or a comprehensive guide or a map of a land you do not inhabit. I neither want to confine you to kitchen quarters nor even suggest that it might be desirable. But I do think that many of us have become alienated from the domestic sphere, and that it can actually make us feel better to claim back some of that space, make it comforting rather than frightening. 
In a way, baking stands both as a useful metaphor for the familial warmth of the kitchen we fondly imagine used to exist, and as a way of reclaiming our lost Eden. This is hardly a culinary matter, of course: but cooking, we know, has a way of cutting through things, and to things, which have nothing to do with the kitchen. This is why it matters.
The trouble with much modern cooking is not that the food it produces isn’t good, but that the mood it induces in the cook is one of skin-of-the-teeth efficiency, all briskness and little pleasure. Sometimes that's the best we can manage, but at other times we don’t want to feel like a post-modern, post-feminist, overstretched woman but, rather, a domestic goddess, trailing nutmeggy fumes of baking pie in our languorous wake.
So what I’m talking about is not being a domestic goddess exactly, but feeling like one. One of the reasons making cakes is satisfying is that the effort required is so much less than the gratitude conferred. Everyone seems to think it's hard to make a cake (and no need to disillusion them), but it doesn’t take more than 25 minutes to make and bake a tray of muffins or a sponge layer cake, and the returns are high: you feel disproportionately good about yourself afterwards.
This is what baking, what all of this book, is about: feeling good, wafting along in the warm, sweet-smelling air, unwinding, no longer being entirely an office creature; and that’s exactly what I mean when I talk about ‘comfort cooking’. Part of it too is about a fond, if ironic, dream: the unexpressed ‘I’ that is a cross between Sophia Loren and Debbie Reynolds in pink cashmere cardigan and fetching gingham pinny, a weekend alter-ego winning adoring glances and endless approbation from anyone who has the good fortune to eat in her kitchen.
The good thing is, we don’t have to get ourselves up in Little Lady drag and we don’t have to renounce the world and enter into a life of domestic drudgery. But we can bake a little - and a cake is just a cake, far easier than getting the timing right for even the most artlessly casual of midweek dinner parties.
This isn’t a dream; what’s more, it isn’t even a nightmare." 

sábado, 2 de agosto de 2008

A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-mo a algo que poderia ter o nome de ‘culinária literária’. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos. Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como ‘chef’. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo - porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela.
Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos, são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblê baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblê...A pipoca é um milho mirrado, sub-desenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a idéia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
E o que é que isso tem a ver com o Candomblê? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa - voltar a ser crianças!
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão - sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: pum! - e ela aparece como uma outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. ‘Morre e transforma-te!’ - dizia Goethe.
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor-pesquisador da UNICAMP, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas ‘piruá’ é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: ‘Fiquei piruá!’ Mas acho que o poder metafórico dos piruás é muito maior. Piruás são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: ‘Quem preservar a sua vida perde-la-á.’ A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira.

Rubem Alves

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Receitas pedantes

Os ingleses têm um senso de humor interessante. Outro dia li uma matéria sobre o mais novo livro de Julian Barnes, um assumido aprendiz de cozinheiro, que se dedica a desmistificar os livros de culinária existentes. Em seu “O pedante na cozinha”, encontramos o relato de um apaixonado por iguarias, que depende de receitas alheias para preparar delícias. “O pedante na cozinha não está interessado em saber se cozinhar é ciência ou arte; ele se conforma se for um hobby. Só quer comida gostosa, nutritiva, sem envenenar os amigos, só quer ampliar seu repertório, e devagar”.
Essas são algumas das dicas de Barnes:
“1- Jamais comprar um livro por causa das imagens.
2- Jamais comprar livros com layouts transados.
3- Evitar livros abrangentes demais (como Grandes Pratos do Mundo).
4- Jamais comprar o livro de receitas do chef, em exposição, quando sair do restaurante.
5- Jamais comprar um livro de sucos se não possuir um espremedor de frutas.
6- Resistir, se possível, às antologias atraentes de receitas regionais, que nos sentimos tentados a comprar de lembrança em férias no exterior.
7- Evitar livros de receitas famosas do passado.
8- Jamais trocar livros com receitas garantidas por uma versão nova que tenha mais figuras.
9- Jamais comprar uma coleção de receitas com fins beneficentes. Mande o valor do livro direto para a instituição de caridade.
10- Não esquecer que os autores de livros de culinária não diferem de outros escritores: muitos só têm um livro dentro de si (e alguns não deveriam te-lo deixado sair).”


Imagem de Mapplethorpe