segunda-feira, 31 de março de 2008

Among crazy competitive boys

Once again among the crazy, competitive and impolite boys . Who told you, dear, not to deal with flowers, puppets, candies and non sense stuffs?

domingo, 30 de março de 2008

Mil perdões

Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vidas que andam juntas
Ninguém faz
Te perdôo
Por pedires perdão
Por me amares demais

Te perdôo
Te perdôo por ligares
Pra todos os lugares
De onde eu vim
Te perdôo
Por ergueres a mão
Por bateres em mim

Te perdôo
Quando anseio pelo instante de sair
E rodar exuberante
E me perder de ti
Te perdôo
Por quereres me ver
Aprendendo a mentir (te mentir, te mentir)

Te perdôo
Por contares minhas horas
Nas minhas demoras por aí
Te perdôo
Te perdôo porque choras
Quando eu choro de rir
Te perdôo
Por te trair

Chico Buarque

sábado, 29 de março de 2008

Folias culinárias

Fiz questão de assistir ao primeiro programa da nova série da Nigella Lawson e observei que ela está mais prática, rápida, bonita e gordota.
E quem mais prepararia deliciosos e crocantes biscoitinhos para presentear uma amiga e, durante o percurso até a casa da amiga, os comeria sozinha? Ora, Nigella. Mas ela pode e durante a apresentação tomou sua sopa de ervilhas frescas no parque, lambuzou-se com o frango assado e a salada cole slawe, comeu pedaços e mais pedaços de doces de chocolate com nozes, além das garfadas de sua mistura de macarrão com legumes, creme de amendoim e gengibre.

Ver Nigella preparar com muita facilidade tantas coisas e deliciar-se com todas as guloseimas deixa qualquer um encantado com a arte da culinária.
Outro representante do máximo sabor com pouco esforço é Jamie Oliver, que amadureceu, continua competente e agitado, e realiza um belo trabalho com a reeducação alimentar das crianças de seu país. A salada Caesar que ele preparou em seu último programa apresentado pelo canal GNT parece divina e será a próxima folia que tentarei realizar.
Vi que Jamie também adotou o modelo plante em qualquer lugar seus próprios temperos e seja feliz.
No meio desse festival gastronômico assisti novamente aos filmes A Festa de Babette (1987), Chocolate (2000) e O Tempero da Vida (2003) e curti cada movimento tão feminino que as atrizes oferecem. Pela primeira vez pude comparar o jeito elegante e organizado que minha mãe tinha ao preparar as deliciosas e inigualáveis refeições que nos proporcionou ao longo de sua vida e o meu próprio jeito, um tantinho mais caótico e rebelde. Lena Olin, que interpreta a personagem Josephine Muscat em Chocolate, é idêntica à minha mãe na cozinha; já a vigorosa Juliette Binoche, a Vianne Rocher do mesmo filme, tem o meu jeito. Por sinal, Chocolate e O Tempero da Vida retratam bem a alquimia dos ingredientes e a pura magia de seus resultados.
Foi com esse espírito que resolvi dar uma mudadinha no cardápio e quis botar por terra os dois mais famosos pratos à grega que encontramos por ai: O camarão e o arroz.
O verdadeiro camarão à grega é preparado da seguinte maneira: Esquente a água e quando ela começar a borbulhar coloque os camarões inteiros - sim, as cabeças ficam porque conferem mais sabor - mas não deixe de limpar os dejetos desses crustáceos com um pouco de habilidade e a ponta de uma faca. É muito feio ofertar camarões com a sujeira que costumam ter. Quando ficarem rosados retire-os da água e prepare azeite de oliva extra-vigem de boa qualidade, sal e suco de limão. Bata essa mistura com um garfo e coloque os camarões descascados. Só isso. Camarões cozidos no tempo ideal e mergulhados no azeite com sal e limão. O arroz à grega também é simples e feito com azeite de boa qualidade e sal.
Volto à mini-horta de temperos e outras delícias. É muito fácil de criar, manter e curtir em qualquer lugar. Não precisa de mais nada além de mudas, terra, água e sol.

Mansidão

Às vezes o tigre em mim se demonstra cruel
como é próprio da espécie.
Outras, cochila
ou se enrosca em afago emoliente
mas sempre tigre; disfarçado.

Dia leve

Percebi que algo estava meio esquisito quando perguntei o preço do carrinho de feira.
O dia começou com o passeio do cão e prosseguiu com o pastel. Pararia no pastel e no caldo de cana com abacaxi e partiria para o ar condicionado do supermercado - e sua oferta de produtos caros, passados e com baixa qualidade - se a calma que senti na feira não fosse tão intensa.
No início ouvi o comentário da moça que vendia ervas e temperos: São dez horas e tudo vai bem, sem qualquer assalto, sem violência.
Não resisti às frutas e verduras que estavam tão frescas, coloridas e redescobri o prazer de comprar em feira livre.
Estive em várias barracas e não considerei uma única para as frutas e outra para os legumes e verduras (escolher uma única barraca de frutas – sempre a compra mais cara – é opção segura, pois garante a entrega de todas as compras pelo garoto que auxilia na barraca), pechinchei preços que considerei excessivos, aprendi com um senhor japonês o segredo para fritar lulas sem que virem borrachas e peixes que não fiquem encharcados, desisti de comprar um carrinho de feira que não teria qualquer resistência a algo a mais do que três dúzias de laranjas e dois quilos de batatas e comparei o preço das sacolas de lona. O avô paterno do meu garoto tinha metalúrgica que fabricava carrinhos de feira e outros produtos domésticos e nem o de pior qualidade, o mais descartável, possuía as características dos carrinhos de feira ofertados hoje. No final da folia, duas sacolas recém adquiridas bem pesadas. Ah, mocinha, e agora? Deixar tudo e buscar o carro nem pensar, por que não haveria lugar para estacionar. Aceitar a oferta dos garotos carregadores não seria prudente e seguro. Bom, e com você mesma, arregace as mangas e siga em frente.
Parei diversas vezes no percurso de três quarteirões e em cada pausa curti o cenário, reparei em novos detalhes, observei as pessoas e imaginei suas histórias. Vi o casal de idade que passeava com quatro cachorros e a senhora que segurava as guias de outros três. É cachorro demais, mesmo para quem gosta. Senti e agradeci a sincera gentileza da senhora simpática com uniforme que ofereceu ajuda para seguir mais adiante – foi uma mulher que quis dividir o peso! Lembrei dos meus três anos de idade e do quanto dificultei a vida de minha mãe durante as feiras de cada semana. Eu e meu mini carrinho de feira de madeira vermelha a querer colinho e a maneira de minha mãe contornar a situação com o colinho fracionado e delimitado por esquinas – levo você até a próxima esquina e você caminhará as duas seguintes. Eu não estava cansada, era manhosa e queria aquele colo tão gostoso. Senti saudade de minha mãe. Aliás, na barraca de peixes me surpreendi com a artimanha preciso de peixe bom para uma senhora de idade; isso foi o que falei a maior parte da minha vida: Preciso de coisas de boa qualidade para a minha querida senhora de idade.
Ao chegar ao prédio encontrei o porteiro que solicito levou as sacolas até o elevador, sem deixar de comentar sobre o peso, sobre o percurso que ele havia feito: que pena, arrodiei pela avenida e não vi a senhora descendo a rua, e sobre um carregador que roubou a senhora que morava no apartamento 81.
Guardei na geladeira os produtos mais perecíveis e resolvi levar coisas para o conserto: Três pares de sapatos pretos, a haste dos óculos usados em casa, a troca das baterias de dois relógios e a alça da bolsa de pele de crocodilo de minha mãe.
O ajudante do sapateiro disse que a bolsa e o sapato de verniz não teriam conserto. Perguntei pelo sapateiro, um senhor ruivo e atencioso de quem não sei o nome, e o ajudante me disse que ele estaria tomando um lanche na padaria da esquina. De repente, o sapateiro voltou da clínica onde fez uma endoscopia para acompanhamento da cirurgia do estômago, examinou a bolsa, os sapatos, garantiu um bom serviço e cobrou barato. Eu não sei o nome desse senhor, mas sei que operou o estômago. Essa é uma das minhas características: Aprendi a ouvir o outro e a criar sincera empatia instantânea. Vá para casa descansar, meu senhor, faz o que aqui, depois de tomar anestésico por conta do exame?
Enquanto eu esperava a troca das baterias dos relógios surgiu uma senhora nascida em Nova York, magra e alta, com os olhos verdes, os cabelos compridos e grisalhos presos num coque e um sotaque irresistível a reclamar do calor. Trocamos idéias sobre aquela cidade e obtive dicas preciosas e inéditas. Fui ao supermercado e contei com o gentil e imediato acompanhamento do entregador – em detrimento das caixas de compras que lá estavam para serem entregues – apesar de já ter ultrapassado seu horário de trabalho. O cão, com minhas constantes saídas e chegadas, estava com a cara triste, se sentindo de lado e mereceu um agrado: O levei comigo para um café ao ar livre e mais diversão com a observação das pessoas e suas vidas imaginárias. Imaginar é ser livre. De lá, fomos ao petshop para o banho e a gravatinha que penduram em seu pescoço. Esperei e quis que ele me visse através da janela que separa os lavatórios da frente da loja, por conta da cirurgia que ele sofreu mês passado. Enquanto isso, apareceu um divertido lhasa, e seu dono também resolveu esperar. Ele é químico e dono de uma farmácia homeopática no bairro, ensinou-me mais sobre alimentação equilibrada e a farmacopéia natural, além das inevitáveis coincidências que ocorrem entre pessoas que engatam uma conversa sobre vários assuntos que fluem naturalmente: Ele nasceu em Poços de Caldas – cidade que gosto e onde, durante anos, passei minhas férias escolares de julho, é sagitariano e tem o tipo sanguíneo A negativo. E quem informa o tipo sanguíneo na primeira conversa? Ora, quem leu sobre a melhor alimentação de acordo com o tipo do sangue. Somente quando me despedi nos apresentamos e percebi que, às vezes, esse negócio de nome não é necessário. Paquera, pensará a mente tendenciosa. Não, em absoluto. A paquera estragaria a boa conversa. Esquecemos com facilidade que é essencial exercitar a capacidade de ouvir; e para isso, é necessário abrir-se e admirar a realidade e a verdade do outro.
O meu dia foi calmo, leve, produtivo e simples, como a vida deve ser. É fundamental uma pausa para deixar de lado a competente persona profissional e resgatar a essência humana. Pena que isso dura pouco, ou não: Será muito mais interessante retomar a maratona sem perder esse lado recém descoberto.
Imagem de Mário de Biasi.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Neurociência - Nos lugar dos outros

Viver em sociedade é complicado. Pessoas diferentes têm temperamentos, gostos, histórias de vida e crenças diferentes -ainda bem, ou o mundo seria muito monótono. Conviver em harmonia nessas condições requer levar em consideração o que julgamos serem as preferências, crenças e intenções dos outros, uma habilidade que por si só já demonstra que o cérebro faz muito mais do que apenas detectar e responder a estímulos.
Como não temos como entrar na cabeça do próximo, restam ao cérebro duas possibilidades para se colocar no lugar dos outros: usar da lógica racional para processar dados disponíveis sobre o outro, ou considerá-lo como uma extensão de si mesmo, usando os próprios gostos e crenças para julgar os do outro.
Na prática, a neurociência já mostrou que as duas estratégias são usadas - mas em circunstâncias diferentes.
Quando avaliamos as intenções e os sentimentos de alguém diferente de nós, o cérebro emprega regiões dorsolaterais do córtex pré-frontal, envolvidas no raciocínio analítico, para inferir o estado mental da pessoa.
Quando, ao contrário, avaliamos o estado mental de alguém que consideramos nosso semelhante, o cérebro emprega outra área: o córtex ventromedial, que integra as emoções ao comportamento - e também responde pela introspecção sobre nossos próprios sentimentos e preferências.
Segundo um estudo recente do grupo de Adrianna Jenkins, na Universidade Harvard, não só a mesma área do ventromedial como provavelmente os mesmos neurônios são usados para estimar nossas preferências e as de uma pessoa parecida (mesmo a cobertura da pizza!), como se lhe emprestássemos nossas convicções. Ou seja: julgamos os outros automaticamente à nossa semelhança -mas só se eles forem parecidos conosco.
Enxergar nosso semelhante de nossa própria perspectiva pode ser uma ótima estratégia para manter grupos coesos - mas permite tratarmos apenas racionalmente quem não compartilha de nossas convicções. A boa notícia, no entanto, é que isso pode ter jeito. Segundo a própria Adrianna, colocar-se conscientemente no lugar do outro, escrevendo sobre ele na primeira pessoa, por exemplo, pode mudar a maneira de o cérebro avaliar suas intenções. Ah, se umas pessoas quisessem apenas tentar...
Julgamos os outros automaticamente à nossa semelhança - mas só se eles forem parecidos conosco.

Texto escrito por Suzana Herculano-Houzel e publicado em 27.03.08, na Folha de São Paulo.

Carlos Drummond de Andrade

Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.

Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.

É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.

Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim

quarta-feira, 26 de março de 2008

Gibran Khalil Gibran

Aprendi sobre Gibran Khalil Gibran com o Arcebispo da Catedral Metropolitana Ortodoxa que freqüento desde que nasci. Dom Ignácio era uma pessoa ímpar e um dos meus raros mentores e paradigmas. Foi na morte do meu pai que recebi seu conselho para ler O Profeta de Gibran, de onde retirei o seguinte texto:
Então, uma mulher disse: “Fala-nos da alegria e da tristeza.
E ele respondeu:
“Vossa alegria é vossa tristeza desmascarada.
E o mesmo poço que dá nascimento a vosso riso foi muitas vezes preenchido com vossas lágrimas.
E como poderia não ser assim?
Quanto mais profundamente a tristeza cavar suas garras em vosso ser, mais alegria podereis conter.
Não é a taça em que verteis vosso vinho a mesma que foi queimada no forno do oleiro?
E não é a lira que acaricia vossas almas a própria madeira que foi entalhada à faca?
Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria.
E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite.
Alguns dentro vós dizeis: ‘A alegria é maior que a tristeza’, e outros dizem: ‘Não, a tristeza é maior.’
Eu, porém, vos digo que elas são inseparáveis.
Vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama.
Em verdade, estais suspensos como os pratos de uma balança entre vossa tristeza e vossa alegria.
É somente quando estais vazios que estais em equilíbrio.
Quando o guarda do tesouro vos suspende para pesar seu ouro e sua prata, então deve a vossa alegria ou vossa tristeza subir ou descer.”

O Profeta foi escrito em 1923 e bem cultuado na década de sessenta. Na leitura de sua obra contemplamos a conciliação de várias correntes filosóficas com a poesia e princípios cristãos.
Nesta semana, a cidade teve vários eventos para comemorar os 125 anos de nascimento desse poeta, filósofo e pintor árabe. Segundo ele, os poetas e artistas eram mais importantes do que os políticos.
Em seu livro O Louco, percebemos o conceito sufi da sábia solidão contra um mundo cada vez mais insano:
- Dois eremitas
Numa montanha solitária, viviam dois eremitas que adoravam a Deus e se amavam um ao outro. Ora, esses dois eremitas tinham uma tigela de barro que era a única coisa que possuíam.
Um dia, um espírito mau entrou no coração do eremita mais velho, e ele procurou o mais moço e disse-lhe: “Faz muito tempo, já, que vivemos juntos. Chegou a ocasião de nos separarmos. Dividirmos nossos bens.”
Então, o mais novo entristeceu-se e disse: “Aflige-me, irmão, que tu me deixes. Mas, se tens necessidade de partir, seja assim.” E trouxe a tigela de barro e deu-a ao outro, dizendo: “Não podemos dividí-la, irmão. Que seja tua!”
Então, o eremita mais velhos disse: “Não aceito caridade. Não levarei nada que não seja meu. A tigela deve ser dividida.”
E o mais moço ponderou: “Se ela for quebrada, que utilidade terá para ti ou para mim? Se é teu desejo, lancemos antes uma sorte.”
Mas o velho eremita disse novamente: “Não quero senão justiça e o que me pertence, e não vou confiar a justiça e o que me pertence à sorte vã. A tigela precisa ser dividida.”
Então o eremita mais moço não pôde deixar de argumentar e disse: “Se é de fato teu desejo e se mesmo assim o querer, quebremos a tigela.”
Mas a face do eremita mais velho foi escurecendo excessivamente,e ele gritou: “Ó maldito covarde, não queres mesmo brigar.”

- O olho

Um dia, disse o olho: “Vejo, além destes vales, uma montanha velada pela cerração azul. Não é bela?’
O ouvido pôs-se à escuta e, depois de ter escutado atentamente algum tempo, disse: “Mas onde há qualquer montanha? Não a ouço.”
Então, a mão falou: “Estou tentando em vão senti-la ou tocá-la, e não encontro montanha alguma”E o nariz disse: “Não há nenhuma montanha. Não lhe sinto o cheiro.”
Então, o olho voltou-se para outra parte; e todos começaram a conversar sobre a estranha alucinação do olho. E diziam: “Há qualquer coisa errada com o olho.”

Gibran buscou na união da natureza com o misticismo o resgate do homem corrompido pela civilização.
Em seu livro Parábolas encontramos os seguintes conceitos:
“A generosidade não está em dar-me aquilo de que preciso mais do que tu, mas em dar-me aquilo de que precisas mais do que eu.”
“Sois realmente caridosos quando dais e, ao dar, virais a face para não ver o acanhamento de quem recebe.”
“Uma vez, falei do mar a um pântano, e o pântano achou que eu era um visionário. E, uma vez, falei de um pântano ao mar, e o mar achou que eu era um difamador.”
“O desejo é a metade da vida; a indiferença é a metade da morte."
Está em sua obra Jesus o texto a seguir: Jesus desprezava e escarnecia dos hipócritas, e Sua ira era como a tempestade que os flagelava. Sua voz era trovão em seus ouvidos, e Ele os intimidava. Em seu medo d'Ele, buscaram sua morte; e, qual toupeiras na terra escura, trabalharam para solapar Suas pegadas. Mas Ele não caiu em suas ciladas. Riu deles, pois bem Ele sabia que o espírito não será ludibriado, nem será levado ao abismo. Ele segurou um espelho em Sua mão e, nele, viu o lerdo e o manco e aqueles que titubeiam e caem à beira da estrada a caminho do cume. E teve piedade de todos eles. E desejava erguê-los à Sua estatura e carregar seu fardo. Não somente isso, desejava despojar sua fraqueza em Sua força. Ele não condenava sumariamente o mentiroso, o ladrão ou assassino; mas condenava, sim, o hipócrita cujo rosto está mascarado e a mão enluvada. Muitas vezes, ponderei sobre o coração que abriga a todos que vêm das terras áridas para o Seu santuário; contudo, contra o hipócrita, permanece fechado e lacrado.
Um dia, enquanto repousávamos com Ele no jardim das romãs, eu Lhe disse:
- Mestre, tu perdoas e consolas o pecador e todos os fracos e enfermos, exceto ao hipócrita.
- Escolheste bem tuas palavras ao chamares o pecador de fraco ou enfermo. Perdôo a fraqueza de seu corpo e a enfermidade de seu espírito. Pois suas falhas foram-lhe conferidas por seus antepassados ou pela ganância de seus próximos. Mas não tolero o hipócrita, porque ele próprio lança um jugo sobre aquele a quem lhe falta astúcia ou que concede. Os fracos, a quem chamas de pecadores, são como aves que, sem penas para voar, caem do ninho. O hipócrita é o abutre aguardando sobre uma pedra a morte da presa. Os fracos são homens perdidos em um deserto. Mas o hipócrita não está perdido. Ele conhece o caminho; contudo ri entre a areia e o vento. Por esta razão não o acolho.
A apreciação da obra atemporal de Gibran é de grande interesse, além de ser fonte segura para nosso constante aprimoramento.

terça-feira, 25 de março de 2008

Tempo da delicadeza

Tempo de balanço interno não costuma ser fácil e demanda considerável dose de amenidade e auto-condescendência. Você não escolhe a data, não define o programa, nem elege a intensidade. O procedimento é lento – cada pessoa tem o seu tempo - e surge com a maturidade. Aliás, costuma resultar em mais maturidade.
Observar-se e entender-se são duas ações complicadas que devem ser praticadas com a necessária isenção. Aprendo que essa é a primeira etapa para equilibrar a energia, o corpo e a mente: Observar-se e entender-se, seguidos pelo corrigir-se e gostar-se mais.
Às vezes, a culpa transmite um sinal forte, luminoso, repetitivo e barulhento: Como eu permiti que isso acontecesse? E é nesse momento que o carinho por si deve prevalecer, para que a dureza do auto-julgamento limite-se à correção, sem penas injustas por não ter sido capaz de estancar a influência e o comportamento equivocados recebidos, por não ter dito mais nãos e bastas, por ter tentado se habituar à falta de gentileza, polidez e delicadeza, por ter temporariamente relegado certos princípios e valores.
Somente o conhecimento integral - que inclui a circunstância, a intenção e o sentimento de todas as pessoas envolvidas - fortalece o entendimento e liberta.
Esse equilíbrio demanda silêncio, olhar atento para o que vai por dentro e a sintonia apurada para não desperdiçar todas as dicas que a vida? o universo? o destino? nos manda. Ouvi frases essenciais durante esse tempo, reaprendi e aprendi mais. Muito mais. Calibrei o compasso e fiquei melhor.
Concordei com meu filho que comentou sobre meus pés flutuantes que desconhecem o que significa cuidar-se, e não mais do outro. Minha vida inteira cuidei de outras pessoas. Agora, aprendo a cuidar de mim. Opa! Aprender a fazer as coisas por nossa causa, em nosso favor, não é tarefa tão fácil. Não é. É chegado o momento de prestar mais atenção as coisas que quero para minha vida e manter-me fiel às minhas necessidades. Ser mais delicada comigo.

segunda-feira, 24 de março de 2008

domingo, 23 de março de 2008

Pastel de feira

O melhor pastel de feira de São Paulo é encontrado todas as sextas feiras, atrás do Cemitério da Consolação, na esquina das ruas Mato Grosso e Sergipe. A massa leve, seca, clara e crocante; os recheios variados, diferentes, saborosos e preparados com ingredientes de boa qualidade; o asseio, o atendimento atencioso e a dona Mitiko, são as cinco razões que tornam os pastéis tão especiais. Impossível não ficar encantada com o jeito da mãe de todos da barraca, em especial com o filho, que é o único responsável pela fritura. É a “bassá” quem tira os pasteis crus das gavetas, os coloca na frigideira, seca o suor e dá água para seu filho beber, tudo com notório carinho. Carinho é o ingrediente adicional desses pastéis.

sábado, 22 de março de 2008

Antonio Cicero

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma
Em cofre perde-se a coisa à vista

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que pássaros sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:

Para que ele por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que quer guardar.

* * *

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minha'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

* * *

Sou seu poeta só
Só em você descubro a poesia
Que era minha já
Mas eu não via.

Só eu sou seu poeta
Só eu revelo a poesia sua
e à noite indiscreta
você de lua.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Roteiro provisório para curtir Nova York

Tenho duas queridas amigas que conheceram o mundo nas inúmeras viagens que fizeram. Há oito anos, uma delas presenteou-me com um livro que contém vários roteiros de viagens para a Índia, o Nepal e o Tibet, então, meus destinos ansiados.
Da Espanha, direto para Deli e de lá para Samode, Jaipur, Benares e Agra, com a primeira extensão possível para a Caxemira, a segunda para Katmandu, Patan, Lhasa, Potala, Sera, Shigatse, Tsedan e outros vilarejos, e a terceira para Bangkok e Bali, com a volta pela Espanha. Há outras opções igualmente interessantes, que incluem Mumbai, Calcutá, Tanjore e Udaipur, de acordo com a região do país que se pretende conhecer.
Na semana passada, ao reencontrar esse livro, pensei o quanto minha resistência mudou, e ofereci seu empréstimo a um amigo de infância do meu filho, que estuda com afinco a cultura desses países. Continuei a pensar em roteiros de viagens, percebi que se aproxima a melhor época do ano para conhecer Nova York e decidi brincar com um plano de turismo provisório para aproveitar as coisas boas que aquela cidade oferece. Chamei-o de provisório porque o apresentarei a amigos que lá estiveram e que, certamente, o complementarão com suas preciosas e pertinentes dicas.
Dizem que em NY, o verão tem calor intenso e o inverno frio insuportável, por isso, a melhor época do ano para conhecer essa cidade seria a primavera, que iniciou em março e vai até maio.

O que não perder em NY:
1- Curtir um bom jazz em algum clube do Greenwich Village.
2- Conhecer o Carnegie Hall.
3- Assistir a uma peça na Broadway, na Off-Broadway, na Off-off-Broadway, ou na Neighborhood Play-house School of Theatre.
4- Apreciar um espetáculo de balé no New York State Theatre, no Julliard Dance Theatre, ou no Radio City Music Hall.
5- Aproveitar um concerto no Lincon Center (ou somente visitar as dependências do Lincon Center), no Julliard School of Music, ou no Frick Collection.
Em NY, encontram-se ingressos com considerável desconto (25% a 50%), além de espetáculos gratuitos.
6- Assistir a uma partida de beisebol no Yankee Stadium.
7- Fazer um passeio de barco a remo, do Loeb Boathouse, no Central Park.
8- Conhecer as delícias das mercearias Zabar’s, Dean & Deluca e Balducci’s.
9- Comer os pastéis da Fung Wong.
10- Curtir um vinho na Sherry-Lehmann.
11- Tomar um drink no McSorley’s Old Alehouse, no White Horse Tavern, ou no Chumley’s.
12- Passar um tempo nas livrarias Barnes & Noble e Strand Book Store.
13- Comer frutos do mar no Union Square Café.
14- Ouvir o piano no bar do hotel Algonquin.

Delícias que fortalecem a felicidade que deve ser estar lá:
Em NY é indispensável saborear um bagel; um egg cream; um giant pretzel; um cheesecake; uma clam chowder; um dim sum e uma costeleta de porco com calda de melaço, muffins de milho, couve refogada e feijão.

Sim, sou turista! Visitar com vontade:
1- O Empire State Building.
2- A Estátua da Liberdade.
3- A Brooklyn Bridge.
4- O South Street Seaport.
5- A Ellis Island.
6- O Museum of Modern Art (MoMA)
7- O Cooper-Hewitt Museum.
8- O Metropolitan Museum of Art.
9- The Cloisters.
10- O Museum of Television and Radio.
11- A India House.
12- O Central Park.
13- As ruas, templos, restaurantes e mercados da Chinatown.
14- O Grand Central Terminal.
15- O Fred F. French Building.

É impossível desconsiderar:
1- O serviço religioso gospel da Abyssinian Baptist Chuch, no Harlem.
2- O almoço no restaurante grego Netuno, no Queens.

Para caminhar:
1- SoHo e TriBeCa.
2- Greenwich Village.
Aliás, caminhar é o melhor meio de conhecer NY.

Compras: Ah, compras! Essa cidade é um dos paraísos dos compradores, logo, evite o stress, não estrague o passeio, reserve um único dia para suas compras e aproveite os demais para conhecer o bom que NY oferece.

Imagem do filme Manhattan de Woody Allen.

Pericle's funeral oration

… For we are lovers of beauty yet with no extravagance and lovers of wisdom yet without weakness. Wealth we employ rather as an opportunity for action than as a subject for boasting; and with us it is not a shame for a man to acknowledge poverty, but the greater shame is for him not to do his best to avoid it. And you will find united in the same persons an interest at once in private and in public affairs, and in others of us who give attention chiefly to business, you will find no lack of insight into political matters.
For we alone regard the man who takes no part in public affairs, not as one who minds his own business, but as good for nothing; and we Athenians decide public questions for ourselves or at least endeavour to arrive at a sound understanding of them, in the belief that it is not debate that is a hindrance to action, but rather not to be instructed by debate before the time comes for action.
For in truth we have this point also of superiority over the men, to be most daring in action and yet at the same time most given to reflection upon the ventures we mean to undertaken; with other men, on the contrary, boldness means ignorance and reflection brings hesitation. And they would rightly be adjudged most courageous who, realizing most clearly the pains no less than the pleasures involved, do not on that account turn away from danger.
Again, in nobility of spirit, we stand in sharp contrast to most men; for it is not by receiving kindness, but by conferring it, that we acquire our friends.
Now he confers the favour is a firmer friend, in that he is disposed, by continued goodwill toward the recipient, to keep the feeling of obligation alive in him; but he who owes it is more listless in his friendship, knowing that when he repays the kindness it will count, not as a favour bestowed, but as a debt repaid. And, finally, we alone confer our benefits without fear of consequences, not upon a calculation of the advantages we shall gain, but with confidence in the spirit of liberality which actuates us…

São Paulo e os feriados

Você vai viajar? Essa foi a frase mais ouvida durante esta semana.
Necessidade? Capacidade? Obrigação?
Há algum tempo, em São Paulo, não se emendavam os dias que antecediam os feriados. Lembro que meus amigos de outros estados ligavam com a mesma pergunta: O que você está fazendo aí, em pleno feriado? Trabalho, ora.
Hoje, São Paulo pára e emenda e enforca e quem pode viaja nestes dias. Às vezes, viaja sem poder. Estranho esse comportamento.
Praia? Montanha? Cidades litorâneas e interioranas lotadas. Restaurantes lotados; mercadinhos lotados; ruas originalmente vazias e pacatas lotadas. Encontrar sempre as mesmas pessoas, sempre os mesmos programas, sempre os mesmos sempres. Diárias de hotéis mais caras. Alimentação mais cara. Tempo, o tempo perdido na estrada lotada de carros, aquele marzão sem fim de luzes contínuas tal qual árvore de natal deitada no chão. Mais stress fora daqui?- Você vai viajar?- Com amenidade e alegria sinceras respondo: Não.
Nestes dias, abençoados dias, São Paulo volta a ser minha e aproveito esta cidade como nunca. É incrível a reação de um lugar quando seus moradores se ausentam: O espaço se entrega, se alegra, fica mais colorido, muito mais calmo e leve. São Paulo é linda e querida vazia.
Parece que o fluxo contrário ainda me atrai. Você vai viajar? Eu fico.
Faço parte dos paulistanos autênticos que ficam, apesar de ser sagitariana típica, com rodinhas nos pés, asas nos braços e o espírito sempre pronto para viajar...
Quando eu mais gosto da minha cidade? Nos feriados. Adoro São Paulo nos feriados.