terça-feira, 11 de março de 2008

Pode, não pode? Pode.

Para encerrar o tema compartilho um pouco mais de informação recém assimilada sobre a tireóide:

1- As doenças da tireóide não escolhem sexo, idade ou raça e podem atingir a todos, sem distinção. Conheço um garoto de doze anos que tem hipotireoidismo bravo e não consegue desempenhar suas atividades normais sem a dose diária de hormônios.

2- Nem sempre conseguimos identificar os sintomas conseqüentes do precário funcionamento dessa glândula. Insônia, alteração no peso, queda de cabelos, mudança de pele e unhas, irritabilidade, frio, confusão mental, insegurança, medo, tontura, alterações da menstruação, depressão, diminuição da visão e da audição são alguns dos inúmeros sintomas que as doenças tireoideanas trazem e, na maioria das vezes, são confundidos, ou pior, desconsiderados e até criticados.

3- Os exames da tireóide devem ser feitos habitualmente em cada check up periódico. O exame de sangue, que mede a dosagem dos hormônios específicos, pode não ser suficiente para identificar o grau de enfermidade da glândula. O ultra-som e o exame físico, realizados por bom médico, detectam nódulos que podem ser benignos, ou não.

4- O tamanho do nódulo é outro tema polêmico: Determinada corrente médica indica que nódulos com um centímetro devem ser puncionados e operados. Outra grupo entende que nódulos com um centímetro e meio mereceriam maior atenção.

5- Com o tempo, a tireóide enferma adere aos demais órgãos próximos. Portanto, a espera para a realização da cirurgia, quando sua indicação é clara e correta, só prejudica ao enfermo.

6- Os riscos imediatos de uma cirurgia de retirada da tireóide são: o dano que pode ocorrer nas cordas vocais e nas paratireóides. As paratireóides são responsáveis pela absorção do cálcio pelo organismo.

7- É comum o aumento de peso, do colesterol e da pressão sanguínea nas pessoas que operaram a tireóide. Sim, essa glândula também auxilia no equilíbrio desses índices.

8- Receber a confirmação do câncer não é tarefa fácil e cada um tem a sua reação. Eu pensei se valeria a pena continuar, arregacei as mangas e tentei olhar o bicho de frente. No entanto, depois da briga o que fica é a sensação de uma espada que flutua sobre o pescoço. São necessários cinco anos para que a recidiva seja afastada de forma mais firme. Eu olho para a espada, a espada olha para mim e decido o que fazer e como fazer.
Está em minhas mãos torná-la um canhão, um canivete ou uma leve pena branca de ganso. Conquistar a capacidade de escrever sobre o tema, após alguns meses, já é pequena vitória.

Dois dias antes da minha cirurgia fiz questão de prestigiar a apresentação de um grupo musical, que foi organizada pelo meu filho, e lá encontrei dois amigos meus: uma mais recente e o outro querido há mais de vinte anos. Minha amiga deu-me de presente o livro Ame-se e cure sua vida e comentou que havia procurado outro, da mesma autora, que estaria esgotado. Por sua vez, o meu amigo, que naquela ocasião soube da cirurgia, comentou sobre o mesmo livro. Seria coincidência duas pessoas que não se conhecem, em ocasião idêntica, sugerirem a leitura de um mesmo livro? Com esta introdução justifico a compra posterior do meu primeiro livro de auto-ajuda denominado Você pode curar sua vida de Louise L. Hay, que parece ser o hit de todos os enfermos, operados e cancerígenos. Está aqui, ao meu lado, e ainda não foi lido. Abro no capítulo quinze a lista, sou saudável, pleno e completo – e eu posso com isso? – para ler, segundo a autora, as possíveis causas das duas coisas que surgiram em minha vida: Câncer – mágoa profunda, ressentimento antigo, grande segredo ou pesar comendo o eu. Tireóide – humilhação, nunca consigo fazer o que quero. A lista de causas prováveis de todos os males que nos acometem é vasta e inclui arroto, celulite, zumbido, calosidade, gases, frieiras e flacidez. Se alguém tiver algum interesse basta escrever que a simpática administração providenciará a cópia das causas prováveis do que for perguntado.
Inauguro inédita fase zen e a principal atenção, pela primeira vez, sou eu.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Devolvam a minha tireóide sã

Tireoidectomia total é o nome meio troglodita e complicado da coisa. Trata-se da retirada cirúrgica integral da essencial glândula tireóide que tem, dentre outras funções, a responsabilidade pelo metabolismo do nosso organismo.
Qualquer coisa que termine com ctomia é bem complicada, ainda mais se o câncer estiver envolvido.
A minha não fez um ano e ainda sinto o corte puxar. Aliás, passei a observar as tais puxadas e descobri que estão intimamente ligadas ao cansaço e ao bombardeio emocional.
Por isso, a administração colocou nova placa na entrada da minha vida: Proibidas grosserias, mentiras, traições, pouco caso, desconsideração, desonestidade e maltrato. Por ser confiante, ou incompetente, a admistração não estipulou penas para eventuais infratores.

Punção e tireoidectomia

A seguinte entrevista feita com o dr. Orlando Parise, cirurgião de cabeça e pescoço do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo, encontra-se no site do médito Drauzio Varella http://drauziovarella.ig.com.br/entrevistas/ntireoide5.asp

Drauzio – Existe relação entre o aparecimento de nódulos na tireóide e eventos como obesidade, dieta ou estilo de vida?

Orlando Parise – Não existe. No entanto, hoje se observa que as pessoas andam mais ansiosas do que eram antigamente, ansiedade que interfere na conduta diante dos nódulos. Por exemplo, uma jovem de 25 anos vai ao ginecologista que pede um ultra-som de tireóide e verifica a presença de um nódulo. Imediatamente, é indicada uma punção para complementar o diagnóstico e acaba havendo a indicação exagerada de tireoidectomias.

Drauzio – Você poderia definir as palavras punção e tireoidectomia?

Orlando Parise – Tireoidectomia é a remoção terapêutica - parcial ou total - da tireóide e punção, o exame padrão que se realiza para conhecer o tipo de células que constituem o nódulo. A punção pode indicar que se trata de um nódulo maligno e a indicação, nesse caso, é cirúrgica; ou que é francamente benigno e a postura recomendada é observá-lo periodicamente pelo ultra-som. No entanto, muitas vezes, o resultado que deveria dar tranqüilidade para o paciente gera muita ansiedade e são tomadas atitudes mais radicais e desnecessárias.

Drauzio – Como é feita a punção?

Orlando Parise – Para fazer a punção, o paciente não precisa de anestesia geral. No máximo, pessoas mais sensíveis recebem anestesia na pele. O exame consiste em introduzir uma agulha no nódulo e aspirar seu conteúdo com seringa especial para analisar sua celularidade. Esse exame dá informação sobre o conteúdo do nódulo, mas não sobre sua arquitetura. Isso é um problema, porque para distinguir as doenças malignas das benignas é necessário conhecer a arquitetura da glândula e não apenas a celuridade do nódulo, uma vez que ela pode dar indícios, mas não permite fechar o diagnóstico. Por essa razão, muitas vezes, é indicada uma cirurgia para esclarecer as dúvidas geradas pela punção.

Drauzio – Em nódulos grandes, palpáveis, é fácil introduzir a agulha para realizar a punção. Todavia, se medem 4mm ou 5mm, como o médico faz para localizá-los?

Orlando Parise – Ele é guiado pelo ultra-som. Na verdade, o exame resulta da combinação de dois métodos. Ao mesmo tempo em que realiza o ultra-som, o médico posiciona a agulha para ter certeza de que está dentro do nódulo. Isso representa uma vantagem e uma desvantagem. Como já mencionei, 10% das pessoas possuem microcarcinomas e a polêmica quanto à conduta a ser tomada diante do achado é muito grande. Se os nódulos forem muito pequeninos, a tendência é não fazer nada, nem mesmo a punção. Por quê? Porque microcarcinomas de tireóide, com 1mm, 2mm, 3mm, não têm a menor relevância clínica e a pessoa, provavelmente, jamais irá desenvolver a doença.

Drauzio – Por isso, é preciso eleger um critério de seleção. Nódulos muito pequenos não devem ser puncionados. Os maiores, a partir de que tamanho a punção devem ser feita?

Orlando Parise – Geralmente, a partir de 1cm. Esse é um número mágico, pois outros fatores também devem ser considerados. Nódulos malignos costumam ter consistência mais endurecida. Portanto, nódulo único de 0,9mm, mas de consistência endurecida, surgimento rápido ou crescimento acelerado, merece sempre mais atenção do que a presença de vários nódulos, todos pequenos e de palpação inocente.Um dos critérios de tratamento mais usados é não precipitar a indicação da cirurgia, mas aguardar a evolução do nódulo em termos de tamanho. Colocar a glândula em descanso por meio de hormônios é uma estratégia válida. Teoricamente, a supressão hormonal congela a atividade proliferativa da glândula. Se o nódulo continuar crescendo na vigência desse tratamento, é motivo para preocupação.

Drauzio – Nódulos de consistência firme, que crescem com maior rapidez, são candidatos à punção porque podem ser malignos?

Orlando Parise – Nódulos celulares causam maior preocupação do que os nódulos císticos com líquido em seu interior. O exame de ultra-som permite estabelecer a diferença entre um tipo e outro.

Fases

Atualmente vivo cinco fases distintas e interligadas, que formam diferente e interessante rede.
Concluída uma, as demais se diluirão.

Aprendo a apreciar Wong Kar-wai:

Chungking Express (1994),
Days fo being wild (1991)
As tears go by (1998),
In the mood for love (2000),
2046 (2004).

Adélia Prado

Eu amava o amor
e esperava-o sob árvores,
virgem entre lírios. Não prevariquei.
Hoje percebo em que fogueira equívoca
padeci meus tormentos.
A mesma em que padeceram
as mulheres duras que me precederam.
E não eram demônios o que me punha um halo
e provocava o furor de minha mãe.
Minha mãe morta
minha pobre mãe,
tal qual mortalha seu vestido de noiva
e nem era preciso ser tão pálida
e nem salvava ser tão comedida.
Foi tudo um erro, cinza
o que se apregoou como um tesouro.
O que tinha na caixa era nada.
A alma, sim, era turva
e ninguém a via.

sábado, 8 de março de 2008

Amor






Útero virado

Hoje é o dia internacional da mulher.
Decidi que somente comemorarei esta data se criarem o dia internacional do homem.
Afinal, sou mulher, quebrei tabu e fui a primeira executiva de um forte conglomerado financeiro. Por muito tempo trabalhei duro e bem mais que meus colegas da predominante ala masculina, sempre baseada no respeito, na competência e na dedicação extrema.
Enquanto isso, fui mãe e filha, tive cólicas, hemorragias, câncer e coração partido, fingi que esqueci sonhos e expectativas, sempre em prol da melhor rentabilidade, não minha, mas da empresa e a manutenção do emprego.
Infelizmente não abandono, fui e sou fiel ao homem que amo, ao filho que fiz, aos meus pais e aos meus princípios.
Acredito, confio e faço um esforço danado para manter o coração bom.
Por respeito e honestidade, nunca traí ou tirei homem de outra mulher e tive minhas mazelas com dignidade e sem alarde.
Briguei em favor das pessoas que integraram as equipes que chefiei e por muitos anos tive a responsabilidade integral e solitária de homem da casa, sem a contrapartida de qualquer direito que essa difícil posição costuma trazer.
Concedi uma imensa folga ao ex-marido-pai e criei o filho sozinha sem mesada e sem qualquer apoio; cuidei da mãe sem mais ninguém para dividir o emocional e o financeiro, os quereres e os mandos.

Meu pai era engenheiro mecânico e tinha fábrica, mas não deixou herança que garantisse meu papo para o ar, nem a possibilidade de seguir devaneios que não gerassem bom salário no final de cada mês.
Apesar de na casa de meu pai ter tido vida e educação de princesa privilegiada, aprendi a arregaçar as mangas e contornei o insuportável. Sem exagero, tubarões ferozes e inescrupulosos vicejaram soltos nas águas pelas quais passei. Enfrentei cliente armado e insatisfeito com os erros cometidos por outra área, mas tenho medo de barata. Rodei trezentos e sessenta graus com o carro e aterrissei na pista contraria, mas não sei andar de bicicleta. Arma foi apontada na minha cabeça e fui refém de roubo durante quatro longas e assustadoras horas, mas choro quando assisto a filme triste.
O filho se formou, viajou para a Europa duas vezes e não contei com apoio de quem quer que seja para pagar um único centavo de seus gastos durante mais de duas décadas.
Até bem pouco tempo, todas as minhas escolhas foram em prol dos outros, algumas condicionadas desde que nasci, e nisso fui mulher ao extremo.
Nas aulas de Direito Civil da faculdade, também ensinei meus alunos sobre os incapazes: Nós, mulheres, éramos consideradas relativamente incapazes e dependíamos do aval do pai ou do marido para tudo.
Hoje, em determinadas situações, ainda somos consideradas incapazes de fato.
E apesar de tudo, das missões cumpridas e de todo esforço dedicado, não comemoro esta data.
Não uso burca, não tive meu clitóris castrado, não fui criança ou jovem estuprada pelo pai e prostituída em alguma cidade, nem servi de diversão em presídios abarrotados por animais enfermos dentro e fora das celas.
Hoje é o dia internacional da mulher.
Todas as mensagens que recebi, e não foram poucas, vieram de outras mulheres.
Não sei por que não comemoro.


Foto de Robert Doisneau

sexta-feira, 7 de março de 2008

Suave companhia

Há tempos não dormia tão bem. Acordei tranqüila, abri as janelas, comi uma fruta, preparei meu leite morno com chocolate, as torradas com geléia de cereja, queijo e peguei o jornal.
Separei o que interessa ler e liguei o som. Apreciei a leitura calma e sem pressa.
Dei uma olhada no chão e não encontrei o fiel cão. Por um momento esqueci que meu filho o levou ontem à noite para a praia. Eu deveria ter ido junto, mas desisti.
Preciso ir para o litoral. O ar marinho e o mar me ajudam muito. Os hormônios sintéticos, que substituem os que eram produzidos pela tireóide retirada, não fazem o efeito necessário. Eu sei, também preciso ir ao médico. Médicos e exames.
Pensei que, pela primeira vez depois de graves crises, ficar alguns dias sem o cão seria ruim. Janeiro meu filho viajou quinze dias e o cão e eu fizemos boa parceria.
Aprendi a assumir que estou em recuperação e tenho alguns medos recentes.
Também percebi que queria ficar um pouco só.
Conversei com duas amigas que ligaram e o dia passou leve e rápido.
É a primeira vez que fico sozinha desde a cirurgia e o tratamento, e reconheço que fui boa companhia. Aprendo a ser amena comigo.

quarta-feira, 5 de março de 2008

terça-feira, 4 de março de 2008

Balé da cidade

Os seis bailarinos que compõem as diferentes cenas parecem revigorados pela dança que fazem, como se, finalmente, tivessem encontrado a sua dança. Depois de várias tentativas, fundamentais e indispensáveis para que ficasse clara uma dificuldade histórica e estrutural, quem sabe seja esse o formato que melhor responde a esses intérpretes. Mistura de dança com teatro. Helena Kratz, no Estado de São Paulo.

Fui a pé de casa para o Teatro Municipal e isso já é motivo de boa folia. Gosto muito de caminhar pelas cidades, descobrir coisas novas e cumprir pequenos desafios diários representados por ações, trajetos, comportamentos, pensamentos e boa energia renovada.
O espetáculo meta-sensoriais foi inusitado, não pela coreografia, cruel e exigente para os bailarinos, mas pela participação do público. Em momento algum ficamos na platéia e acompanhamos as diversas cenas nos bastidores e no palco do Municipal.
Estar naquele ambiente secular e restrito, com suas paredes imensas de tijolos aparentes e as sensações que surgem já é um espetáculo. Confesso que no início me senti em guarda – ah, menina, relaxa – porque desconhecíamos a dinâmica, andávamos em ambiente inédito e escuro e me preocupei com algumas senhoras de idade que lá estavam. Interagir nem sempre é proposta fácil. Havia fios e luminárias no chão e os próprios bailarinos que nos orientavam com luzes fracas, também estavam tensos. Mas a coisa flui, os olhos se acostumam com a escuridão e nos integramos ao espaço. Muitos movimentos lembravam ritos africanos e a capoeira. Utilizaram o calor que emanou de um aquecedor elétrico para abrir um saco plástico na cena do bailarino que dançou com vários sacos plásticos, seus sons e formas. Noutra cena utilizaram papéis polimorfos perfumados e o aroma exalado era muito gostoso. Ao acenderem as luzes, dei de cara com a platéia do Teatro. Foi mágico. Timidamente caminhei até a beira do palco e olhei para o teto, para os afrescos clássicos com palavras gregas. Soltei-me e resgatei sensação que há tempos estava esquecida. Conversamos com os bailarinos – que corpos tão bem trabalhados - e comentei sobre a beleza e crueza da coreografia, pelo esforço demandado. A resposta foi interessante: E ainda somos todos quarentões. Saímos do bom espetáculo nos sentindo muito melhor.

Ética de princípios

Existente, mesmo que aparentemente esquecida e desconsiderada, a ética, que também é uma das fontes do Direito, pode ser caracterizada pela motivação que conduz o comportamento humano de forma valorativa e moral. A moral é elemento da ética, e ambas norteiam os costumes. São três conceitos fundamentais esses: Ética, moral e costumes.

A leitura do texto de Rubem Alves lembrou-me a compaixão. O médico jamais poderia mentir para sua paciente – não seria ético. Mas a compaixão, sentimento terno e piedoso que nos permite compartilhar do sofrimento do outro, diferencia o comportamento das pessoas. A ética não presume a bondade e a compaixão, mas nada impede que a compaixão e a bondade façam parte do comportamento ético.

Ao me perguntar se estava com câncer meu pai imaginava a resposta, mas queria que eu confirmasse. Pela primeira vez, eu lhe respondi com outra pergunta. Fui amorosa, terna e baseei-me na compaixão máxima diante da pessoa que eu mais havia amado na vida. Em contraponto, também me senti traidora de nossa confiança. Naquele momento, a verdade não lhe faria qualquer bem e a mentira não caberia, dado ser base de desamor. Na compaixão dividimos a dor.


Duas éticas - a de princípios e a contextual. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"

As duas éticas: a ética que brota da contemplação das estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão o nome de ética de princípios, e a ética que brota da contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos -a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada sabem sobre os estrelas que alguns dizem já ter visto por revelação dos deuses. Como os homens comuns não vêem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que dizem já as ter visto longe, muito longe... Os jardineiros só acreditam no que os seus olhos vêem. Pensam a partir da experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram... Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. A mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo.O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico ela pergunta: "Doutor, será que eu escapo desta?"Está configurada uma situação ética. Que é que o médico vai dizer?
Se o médico for um adepto da ética estelar de princípios, a resposta será simples. Ele não terá que decidir ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A enferma perguntou. A resposta terá de ser a verdade. E ele, então, responderá: "Não, a senhora não escapará desta. A senhora vai morrer..." Respondeu segundo um princípio invariável para todas as situações.A lealdade a um princípio o livra de um pensamento perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em consideração o potencial destruidor da verdade.
Mas, se for um jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a sua palavra terá que produzir a bondade. E ele se perguntará: "Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano -"A senhora breve estará curada...'-, cuidará da mulher como se a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?" E ele dirá:"Você me faz essa pergunta porque você está com medo de morrer. Também tenho medo de morrer..." Aí, então, os dois conversarão longamente - como se estivessem de mãos dadas ...- sobre a morte que os dois haverão de enfrentar. Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à bondade.
Pela ética de princípios, o uso da camisinha, a pesquisa das células-tronco, o aborto de fetos sem cérebro, o divórcio, a eutanásia são questões resolvidas que não requerem decisões: os princípios universais os proíbem.
Mas a ética contextual nos obriga a fazer perguntas sobre o bem ou o mal que uma ação irá criar. O uso da camisinha contribui para diminuir a incidência da Aids? As pesquisas com células-tronco contribuem para trazer a cura para uma infinidade de doenças? O aborto de um feto sem cérebro contribuirá para diminuir a dor de uma mulher? O divórcio contribuirá para que homens e mulheres possam recomeçar suas vidas afetivas? A eutanásia pode ser o único caminho para libertar uma pessoa da dor que não a deixará?
Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: "Qual delas está mais a serviço do amor?"

Texto escrito por Rubem Alves e publicado na Folha de São Paulo, em 04.03.08
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0403200804.htm

segunda-feira, 3 de março de 2008

Vanguardista

Alguns espetáculos são tão vanguardistas, que criam monólogos surdos entre o artista e sua obra. Ninguém mais entende. Não tem como apreciar. Durante certo espetáculo quatro pessoas deixaram a platéia. No total éramos trinta.
Por ser otimista nata, eu nunca abandonei uma apresentação. Sempre acredito que aquilo pode melhorar e que devo me esforçar para entender a intenção do artista. Caso é que há pessoas que se dizem artistas sem ser; e algumas performances poderiam ser expostas em consultórios psiquiátricos.
Acredito que temos o direito de abandonar a platéia, desde que o façamos com elegância e sem incomodar os demais. A tolerância é pessoal e comum.

Papéis sufocantes

Papéis são coisas sexuadas que se multiplicam em velocidade estonteante.
Alguns papéis deveriam ter o mesmo aviso de perigo existente nos sacos plásticos do supermercado: Cuidado pode sufocar.

domingo, 2 de março de 2008

Limpeza

Guardei, guardei e guardei mais um pouquinho. Antes de mim guardaram também. Quantas vezes eu quis jogar tudo fora, principalmente na mudança de cidade e vida, mas a avalanche de coisas veio e desafiadora ficou. Sinto-me uma Indiana Jones desnorteada a abrir caminho entre os escombros de algum templo perdido. Às vezes, surge uma naja faminta, noutra um escorpião com a pior índole possível – se é que escorpião tem índole, acho que não. Limpo, leio, rasgo, organizo, separo e me canso. Desgastante cansaço interno. Mas como nada é à toa, reviver certas coisas tem seu motivo. Deve ter.

sábado, 1 de março de 2008

Conhecer-se

É muito bom conversar com pessoas que nos conhecem desde que existimos.
Tantos anos compartilhados purificam as intenções e aprimoram nosso próprio conhecimento.
Com certas pessoas aprendo mais sobre mim.