domingo, 6 de julho de 2008

Cabotinice

O cabotino faz assim: Chama a atenção para si; necessita e quer causar efeito sobre os demais; julga-se superior, mesmo que saiba, tenha plena ciência não ser; faz graça e pretende ser pleno de graça. Graça barata. Chinfrim. Alegria falsa. Monótona.
O cabotino, homem ou mulher, não importa, demonstra. Precisa demonstrar. Posse, ter, falso ser. Usurpa momentos e os incorpora. Hipócrita. Finge ser.

O cabotino é assim: Manipula. Precisa manipular.
O cabotino não muda.Tem a essência incorporada.
Tartufo? histriônico? cabotino? jeito de ser.





sábado, 5 de julho de 2008

Sampolândiacity

Não é fácil viver em São Paulo. A quantidade de pessoas, carros, stress, problemas decorrentes da má administração e da falta de educação já são suficientes para complicar bem a vida por aqui. Por isso não sou complacente com situações adicionais que surjam e demonstrem o quanto esta cidade forte, dura e fria é, ao mesmo tempo, muito vulnerável.
Sempre respeitei o direito – e é realmente um direito – que todos têm de se manifestar, reivindicar, tornar públicas suas justas necessidades e equilibrar as relações conflituosas que são obrigadas a viver. É também com a manifestação pública que empregados, bem ou mal, são ouvidos pelos patrões; que mães choram os filhos mortos em guerras; que reclamamos da péssima administração pública. Mas há formas, maneiras, para que esse direito não limite o direito dos demais. É inconcebível que qualquer passeata ocorra na Avenida Paulista, ou, em qualquer outra via de acesso principal de São Paulo. É abusivo parar ou impor lentidão ao fluxo de carros nas Marginais. É injusta toda e qualquer movimentação que cause transtorno e constrangimento aos restante da população. Falta bom senso e propriedade no agir, que acaba por prejudicar a razão da manifestação.



O mote desta semana: “Com oito anos de atraso São Paulo teve o bug do milênio”.
É ruim reconhecer o quanto dependemos da internet para trabalhar, para resolver questões, para viver.

Como vivíamos, e vivíamos bem, sem ela antes?


Administrar a própria vida é muito fácil:
- Bom dia. Por favor, quero marcar uma consulta.
- Próxima sexta feita às quatro da tarde.
- Desculpe, sexta é o dia do meu rodízio.
- Na quarta à tarde da outra semana?
- Puxa, para quarta está marcada a passeata dos lanterninhas

de cinemas, teatros e estabelecimentos similares aí, na Paulista.
- O doutor tem livre a manhã da primeira quinta feira do mês que vem.
- Os exames que devo fazer são fundamentais e não posso esperar um mês.

Por favor, o doutor atende pela internet?
Tolinha.



Telefonemas das tardes de sexta feira:
- Onde você está?
- Atravesso a Estados Unidos e você?
- Estou na Ibirapuera.
- Meu filho, você tem vinte minutos para chegar em casa
antes do horário do rodízio.
- Eu me viro, mãe. Como está a Bela Cintra?
- Agora, está livre.
Passada meia hora
- Onde você está meu filho?
- Parado na Ministro.
- O que você foi fazer na Ministro?
- Tentei fugir do congestionamento por causa da passeata da Paulista.
- Puxa, mas eu atravessei a Paulista há vinte minutos e não havia qualquer movimentação...
Salvo um grupo de desordenados amarelinhos parado na esquina... Filho, tente sair dessa confusão na Paulista e atravesse o quanto antes a Consolação porque é para lá que irão.
Uma hora e meia depois
- Me dê alguma idéia, mãe.
- Onde você está, filho?
- Parado na Augusta.

- Você ta bem? Quer que eu vá aí, lhe fazer companhia?
- Não, mãe, tô bem.
- E os amarelinhos? Já levou alguma multa, filho? Deixe o carro em algum estacionamento e venha a pé.
No final do nosso rodízio levo você e buscamos seu carro.

Imagem do largo do Paraíso com vista da Paulista, década de trinta.

Um eu dentro do outro

Eu sempre tive a necessidade de viajar para outros lugares, dirigir em boas estradas, para sair da rotina, renovar a boa energia e regressar inteira.
Em Brasília, o destino desse precioso período de renovação era a cidade de Pirenópolis, que fica próxima, em outro tempo e cenário, com várias cachoeiras para um bom refrescar. A cidade das cavalhadas, dos fuscas contados em frente da igreja, da pequena rua central apinhada de gente nos barzinhos locais.
A água é fundamental em meu destino. Água corrente que leve a parte ruim que às vezes impregna na gente.
Em São Paulo, eu sempre fiquei entre o mar e a montanha com seus rios. Ora um, ora o outro, além das constantes escapadas para Penedo e Visconde de Mauá. Apesar dessa necessidade, desse tanto gostar, às vezes, estamos tão fracos, tão sensíveis e vulneráveis, que tememos fazer o que nos traz o bem. Pois foi justo nessa fase que dirigir em boas estradas assustou demais. Sem dúvida, o medo impede, a insegurança restringe e sentí-los enquanto dirigimos demanda atenção extrema, concentração e nos deixa tensos. Muito tensos. Como resgatar a confiança entre caminhões imensos e ousados, ônibus apressados e carros que zunem ao nosso lado? De casa até a marginal do Tietê – não, eu não tenho a menor idéia onde fica a tal ponte da Casa Verde – na escuridão das seis da manhã de inverno, com trânsito intenso apesar da hora, quase fiquei na típica posição das velhas senhorinhas que grudam a face no vidro da frente do carro. Descobri que grudam, porque são inseguras. A estrada certa – no tal do rodoanel viário, qualquer um pode se confundir – cem quilômetros de pescoço e braços duros, até a parada estratégica para refrescar o rosto e perceber o dia clarear. Proteção. Bendito o rapaz que no dia anterior ligou para a concessionária das rodovias e descobriu em qual quilômetro, e o número da saída, a estrada B se encontra com a estrada C e me mostrou no mapa para qual direção seguir e não correr o risco de ser multada na marginal, pela perda de tempo com o erro do caminho, porque também era o dia do rodízio municipal de carros. Os outros quarenta quilômetros e os cento e cinqüenta da volta foram como costumavam ser: Boa música, garrafas de água e a mente livre. Relaxamento. Está tudo dentro de nós, sempre esteve.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Poda constante arbitrária e injusta

Entendo de planta o que aprendi sobre plantas no último ano e meio. Boa terra, água e cuidado. Talvez um pouco de carinho no trato, na boa energia que vai e volta. A poda. Saber quando e como cortar as folhas de manjericão, por exemplo, para que o resto da planta que fica no vaso não morra. Certos nãos são como podas radicais. Não seguido de não, acompanhado por outro não, por longo tempo, o não à toa pelo simples exercício arbitrário e injusto do não, tem o efeito da poda desastrada, que mata a planta. Mata a gente por dentro.

Sentimental

Sentimental, sentimental
Um coração saliente
Bate e bate muito mais que sente
Fica doente
Mas é natural, natural
Que num cochilo de agosto
Surja um outro alguém do sexo oposto
Do sexo oposto, outro alguém
Ontem vi tudo acabado
Meu céu desastrado
Medo, solidão, ciúme
Hoje eu contei as estrelas
E a vida parece um filme
Gemini, gemini, geminiano
Este ano vai ser o seu ano
Ou senão, o destino não quis
Ah, eu hei de ser
Terei de ser
Serei feliz
Serei feliz, feliz
Façam muitas manhãs
Que se o mundo acabar
Eu ainda não fui feliz
Atrapalhem os pés
Dos exércitos, dos pelotões
Eu não fui feliz
Desmantelem no cais
Os navios de guerra
Eu ainda não fui feliz
Paralisem no céu
Todos os aviões
É urgente, eu não fui feliz
Tenho dezesseis anos
Sou morena clara
Atraente
E sentimental
Sentimental, sentimental

Chico Buarque

Imagem de Elyzabeth Peyton

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Esse sonho mão mais

Algum dia, quem sabe, eu aprenda mais sobre sonhos. Quase não sonho. Dizem que todos sonham, mas há os que não se lembram de seus sonhos. Eu não sei.
Mas reconheço a existência de sonhos premonitórios. Ou será que nosso subconsciente registra com rapidez certas situações, não assimiladas racionalmente, e as traz de volta nos sonhos para nossa compreensão?
Recentemente, meu filho sonhou com determinado animal. Procurei o significado e o alertei: Tinha tudo a ver com uma situação que ele vivia.
Sonhar com algumas pessoas é sinal certo de tristeza ou contrariedade.
Eu que não sonho, ou não me lembro dos meus sonhos, tive um sonho triste e ruim na noite passada. Corrijo: Tive um pesadelo, rico em detalhes, entre as cinco e seis da manhã. Vi nesse sonho o que eu jamais quis ver na vida real. Com certeza se encaixou no sonho com pessoas que deixam o dia da gente ruim e esquisito; afetam nossa concentração e ânimo, desequilibram nossa boa energia.
Assim como a memória, talvez devamos ter sonhos seletivos.
Não segui o conselho de um amigo, que me falou para colocar uma tesoura de baixo do travesseiro para cortar pesadelo. Será que isso adianta? Com tesoura, ou sem, aquele foi um sonho para nunca mais.


Hoje eu sonhei contigo
Tanta desdita, amor
Nem te digo
Tanto castigo
Que eu tava aflita de te contar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina todo
E quer sufocar

Meu amor
Vi chegando um trem de candango
Formando um bando
Mas que era um bando de orangotango
Pra te pegar

Vinha nego humilhado
Vinha morto-vivo
Vinha flagelado
De tudo que é lado
Vinha um bom motivo
Pra te esfolar

Quanto mais tu corria
Mais tu ficava
Mais atolava
Mais te sujava
Amor, tu fedia
Empestava o ar

Tu, que foi tão valente
Chorou pra gente
Pediu piedade
E olha que maldade
Me deu vontade
De gargalhar

Ao pé da ribanceira
Acabou-se o liça
E escarrei-te inteira
A tua carniça
E tinha justiça
Nesse escarrar

Te rasgamo a carcaça
Descemo a ripa
Viramo as tripa
Comemos os ovo
Ai, e aquele povo
Pôs-se a cantar

Foi um sonho medonho
Desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha
E se urina todo
E já não tem paz

Pois eu sonhei contigo
E caí da cama
Ai, amor, não briga
Ai, não me castiga
Ai, diz que me ama
E eu não sonho mais.

Chico Buarque

Imagem de Ansel Adams

terça-feira, 1 de julho de 2008

Cotidiano

A sapataria da esquina

Lá, bem na esquina da Cardoso com a Itápolis, existe um sapateiro diferente de todos os outros. Alto e magro, de segunda a quinta ele veste calça social, camisa bem passada e gravata – as cores variam do rosa ao cinza claro e o tom de seus sapatos combina com o traje formal. Nas sextas feiras, ele assume o casual day e usa camiseta branquíssima, jeans e tênis. Seu estabelecimento fica na esquina da padaria e é composto por dois banquinhos de madeira: num ele se senta e no outro ele apóia a furadeira, que substitui o maquinário existente em qualquer sapataria. É com a furadeira que ele lixa e alisa os saltos consertados e as solas recém colocadas. É com ela, também, que ele lustra os sapatos. Tudo adaptado da forma mais criativa possível.
Para os dias de pico, que não são poucos, um auxiliar se ajeita como pode na calçada irregular e estreita. No mais, um martelo, pregos, graxas e panos.
Semana passada, o estabelecimento da esquina foi decorado com uma poltrona antiga para que as pessoas tenham seus sapatos engraxados com conforto.
Quase todos os empregados dos escritórios próximos – e são muitos - deixam nessa esquina seus sapatos para conserto. Outro dia, um senhor mal humorado reclamou sobre a ocupação da “rua pública” pelo mais novo empreendedor.
Nesses meses percebi o jeito do sapateiro, que passou do tímido para o seguro com desenvoltura.
Gosto daquela imagem. Gosto da ação positiva e honesta que transpõe a dificuldade e a lamúria.


Calçadas e pedestres

Calçadas estreitas, desniveladas, esburacadas e irregulares. Movimentadas. Calçadas movimentadas e estreitas. Não, bandos que insistem no andar vagaroso e concentrado, não. Pode parecer agradável o caminhar lento de pessoas que, lado a lado, conversam calmamente e ocupam toda a largura da calçada. Parece agradável. Mas não para quem quer passar em outro ritmo, sem conseguir.


Bufês impacientes

Não adianta virar e revirar a bendita folha de alface para tentar descobrir se existe alguma coisa além da alface. Se você optou por arriscar uma cisticercose, abandone o hábito de permanecer cinco minutos diante da travessa com folhas cruas. Por favor, deixe o papo furado para depois da balança e não empaque mais ainda a fila. Suco, refrigerante, água, cerveja, chá gelado... Para alguns tudo isso junto e à disposição pode gerar grave dilema existencial.

domingo, 29 de junho de 2008

Conversa de criança

Encantado, o menino conquista a condição de usar pela primeira vez o telefone. A orgulhosa mamãe sugere que a ligação inaugural seja para a querida tia Iolanda Maria - professora concursada do colégio estadual São Benedito, que aproveita sua aposentadoria em Santos, no litoral paulista. Com os olhinhos brilhantes o ansioso garoto se esforça para não errar a série de números do telefone da tia. Céus! Qual será a primeira frase dita? Alô, atende Iolanda Maria. Liguei para dar um beijinho, diz o guri. A mãe se emociona e deixa rolar uma lágrima. Entre gostosas risadas o garotinho de três anos repete a frase para manter a magia: liguei para dar um beijinho.

sábado, 28 de junho de 2008

Sábado de paz

Sábado tão gostoso e típico de outono, com o sol brilhante e o clima ameno.
Encontrei pavios para minha lamparina, novas mudas de plantas, um livro que há tempos queria e ganhei uma agenda. Tudo isso a pé, na companhia de boa música, que me faz esquecer a vida e mexer as pernas com ritmo enquanto espero os sinais abrirem.
Gosto muito de andar à vontade, curtir mais os lugares e descobrir coisas novas, jamais imaginadas quando uso o carro. Enquanto caminho faço autoterapia e deixo em cada passo uma parte do que pode entristecer ou incomodar.
No almoço quis manter o mesmo clima e não abri mão da paz que senti durante a manhã. Depois, apesar do soninho gostoso que vem quando conseguimos relaxar de verdade, ainda fui ao supermercado para comprar algumas gostosuras especiais para o almoço que quero preparar amanhã.
Estava no corredor dos sabonetes, desodorantes e lencinhos de papel, a ler o rótulo do mais novo creme para enxágüe (eu não gosto de usar muita coisa no meu cabelo, salvo um bom xampu) quando passou uma mulher com um rostinho conhecido
- Você não é a Ana?
Pois é, a Ana, que está ao meu lado na foto oficial da missa de formatura na frente da Catedral da Sé e que aparece nas minhas imagens da colação de grau no Anhembi.
Quer dizer que tiramos fotos juntas na porta da igreja?
Incrível como temos a capacidade de desconsiderarmos o tempo – lá se vão vinte e cinco anos! - e retomarmos o mesmo papo, com a única diferença que hoje, as crianças não são mais tão crianças e estão mais velhas do que nos éramos quando concluímos o curso de Direito.
Ana é mais séria do que eu e parece bem mais tímida. Mas ela era da turma do fundo e eu da turma da frente, dos que não ficavam de dependência. Lembro bem que fiquei encantada porque ela tinha uma escola de balé e ensinava crianças especiais.
Foi nisso também que pensei enquanto conversávamos: Gostar tanto do curso fez com que aqueles cinco anos fluíssem rapidamente. Ainda mais com o fim da minha rebeldia contra a física, a química e a matemática, abandonadas no segundo grau e no fundão bagunceiro.
- Você se lembra da sisudez que nos impuseram na formatura e da anarquista bomba de confetes que soltaram no palco?
- Na minha primeira audiência o juiz foi o professor Oscarlino.
- Ah, o professor Oscarlino. Saudade.
- Lembra do Edu, do Tião e da Vera? A Vera casou com o Zé que virou deputado do PT.
Educado o rapaz do supermercado pediu para que movêssemos nossos carinhos para que ele pudesse limpar em baixo das gôndolas dos produtos de higiene, de onde saíram muitas cebolas. Risadas. Aquelas cebolas rolaram do corredor ao lado.
Somos filhas únicas, mães, advogadas, mulheres e vizinhas que fazem compras no supermercado do bairro. Esta vida é muito gostosa. E quem precisa de mais?


Imagem de Elizabeth Peyton

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Escritos paridos

Vivi a intensa fase Marguerite Duras e li toda a sua obra em francês e português. Amei o extasiado período Marguerite Yourcenar, a belga que foi a primeira mulher eleita para a Academia Francesa de Letras e me conquistou para sempre com Memórias de Adriano. Gostei da sul-africana Nadine Gordimer e me entreguei a várias poetizas que me ensinaram muito. Agora, aprendo Dóris Lessing.
A mulher escreve com o ventre. Com o coração e o ventre.

Uma brasileira

Morreu a antropóloga Ruth Cardoso. Não digo morreu a ex-primeira-dama, título tão pomposo quanto vazio, mas uma mulher de personalidade, educada e culta. Várias vezes a vi nas caminhadas que costumo fazer - ela era alta, séria e compenetrada. Parecia até um pouco solitária.
O que me deixou verdadeiramente encantada foi seu comportamento gentil, há sete anos, em Brasília: Noite de sexta-feira, Teatro Nacional, uma única apresentação do balé Kirov.

Após o espetáculo minha mãe - minha baixinha e tão elegante mãe, então, com seus oitenta e dois anos - e eu estávamos no elevador do teatro, que parou no andar do camarote presidencial de onde saíam dona Ruth, outra senhora e um despreparado segurança.
Afoito e desajeitado ele ameaçou tentar tirar-nos do elevador - o que lhe renderia sério transtorno pela imediata defesa que eu faria de minha mãe – mas dona Ruth rapidamente o impediu e desceu conosco.
Nos onze anos que vivi em Brasília, cansei de saber e presenciar atitudes abusivas, desonestas e mal educadas dos que compartilham do poder.
Corrompidos, ainda perdem o mínimo de respeito e polidez. Não foi o caso.
É uma pena, de certa forma fiquei triste com a sua morte.

domingo, 15 de junho de 2008

Temos medo de nos apaixonarmos demais e fracassar na produção

Certas coisas, ah, certas coisas parece que perderam seu melhor com o passar do tempo, por conta das atitudes que tomamos, todas baseadas no medo. Temos medo de compromisso, temos medo de nos encontrarmos no outro, temos medo da verdade e temos muito medo de amar e perder o controle.
Por isso, algumas ações continuam tão sem propósito quanto o vazio eu te amo dito a toa e a tão banal reação à perda do poder – ou à negativa decorrente do reconhecimento do sentimento refratário e falso – com a não satisfação dos desejos pela simples satisfação dos desejos. Ato contínuo e tão previsível do agente desprovido de qualquer bem querência: a ofensa. A autenticidade vira suburbana, a honestidade provinciana e mulheres que sabem exatamente o que querem e sabem dizer exatamente o que querem são tratadas como anormais e até – pasmem! - chantagistas. E o amor? Bom, o amor que era sem ser, dito e redito, falece sem nascer. Eternos garotos – maus garotos – acreditam iludir. Outro dia ouvi de uma amiga uma frase batida, ou não, pouco importa, mas certamente vulgar e triste pela situação que encerra: O verdadeiro canalha oferece algo à mesa e exige a cama. Há brincadeiras que não mudam (seus protagonistas insistem em não mudar) e a imaturidade emocional, às vezes, prevalece.
Certas meninas cresceram, mas alguns meninos não. “Mas meu bem, deixa de ser alienada...”

Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era inda um desejo romântico e, mais que isso, um sonho político contra o “sistema’, uma busca de liberdade contra as regras da caretice, um “desregramento dos sentidos,”, diferente deste amor de mercado, amor transgênico, geneticamente modificado – este “fast love” de agora.
O amor virou um cultivo da intensidade contra a eternidade. É o fim do “happy end”. E, no entanto, era difícil amar completamente.
Falo isso porque sou do tempo em que as namoradas não “davam”.
Os meninos de hoje vivem em haréns. Esses garanhões privilegiados - que eu tanto invejo – torcem o nariz para deusas de 18 anos, entediados, enquanto, no meu tempo, as meninas, com pavor de engravidar, deixavam quase tudo, menos o principal, e os rapazes iam para casa com dor nos rins e perpetravam masturbações feéricas.
O medo era a “barriga”, a gravidez. Mas, mesmo depois da pílula, persistia o terror de uma liberdade assustadora; havia um forte apego a vestidos de debutantes, ao organdi branco, aos buquês e véus de noiva esvoaçando nas almas virgens. Quase ninguém “dava”. As poucas liberadas eram vistas pelos rapazes como uma atração cortada de preconceitos. Quantos teriam coragem de casar com elas? Lembro de uma menina na universidade que “dava”, mas o fazia num transe meio epiléptico, sofrendo com olhos virados e choros, do qual acordava sem lembrar de nada.
Não havia motéis, então. Namorávamos em qualquer buraco: terrenos baldios, cantos escuros da noite; eu mesmo já namorei dentro de uma grossa manilha encalhada na praia de Ipanema.
Quantas meninas eu tentei empurrar para dentro de apartamentos emprestados, mas que empacaram na porta!... Quantas unhas quebradas em sutiãs inacessíveis, quantas palavras gastas com complexas cantadas, apelando para Deus, para Marx, para tudo, desde que as saias caíssem e as calcinhas voassem... E meu caso foi pior, pois minha primeira namorada não era mais virgem – uma raridade.

Eu, que vivera até então na horrenda divisão entre bordéis e romances platônicos, achei que ia viver meu primeiro amor adulto. Mas, a namorada resolvera “reconstituir” neuroticamente sua virgindade, recusando-se a repetir comigo seu “erro” do passado. Arrependera-se de ter cedido uma única e sangrenta vez ao canalha que me anteceder e, com lágrimas e confissões na igreja, queria reconquistar a pureza perdida. Ou seja, para mim foi o calvário do coito interrompido. No carro do pai dela trocávamos carinhos sôfregos, apavorados, com desespero e orgasmos no ar.
O apartamento era a única esperança; se a menina entrasse, depois era mole. O problema era entrar. “Não adianta, meu bem, aí eu não entro!”
Eu, jovem comuna, tinha a chave de um “aparelho” secreto do Partido, ali em Copacabana – um conjugado com um sofá-cama rasgado e o algodão aparecendo, onde eu, da base cultural da UNE, queria tentar um amor adulto, mas com triplo medo:culpa política, medo de broxar e de ser apanhado pelos comunas caxias.
“Não entro!” – gemia minha namorada. Eu buscava argumentos que uma de Sartre e Simone até a revolução.
“Mas, meu bem... deixa de ser alienada... A sexualidade é um ato de liberdade contra a direita...” E ela: “Não entro! Isso seria também uma indisciplina pequeno-burguesa...”
“Mas, meu anjo – eu suplicava – você tem que assumir que não é mais virgem!”
E ela, com boquinha de nojo: “Eu sabia que você ainda ia jogar isso na minha cara!” E fugia pelas escadas.
Por isso, muitos homens casados viviam em casas de rende-vouz, como se dizia, e jovens corriam atrás de empregadas tristes e conformadas.
Éramos assim em 1962. Aos poucos melhorou... Em 63, conheci a primeira paixão, com vertigem e cegueira, pois, mesmo sem pílula e sem recuos, ela adentrou gloriosamente o “aparelho” do Partidão e, em meio a livros da Academia de Ciências da União Soviética, sob um pôster de Lenine e uma reprodução dos girassóis de Van Gogh, se entregou a mim com amor e coragem. Lembro que, embaixo, na loja de discos, tocava o sucesso da época – Chove chuva, chove sem parar... do Jorge Ben. Até hoje, guardo na alma essa tarde revolucionária.
Um dia, ela me largou por outro e eu virei um frágil comunista em pranto no Rio, pensado naquela poesia de Maiakosviki: “Venha de volta para meus braços desajeitados, amor... Não é por mum que tenho ciúmes; apenas me enciúmo pela Rússia Soviética...”
Sofri também por aquela ingratidão contra um militante de esquerda como eu, trocado por um engenheiro de direita da PUC, feliz possuidor de um reluzente Volks cor-de-laranja.
Hoje, o ritmo do tempo e do dinheiro acelerou o amor, matando seu mistério. Os casos duram uma semana, o amor tornou-se um software que pilotamos, com o controle das emoções programadas. Temos medo de nos apaixonarmos demais e de fracassar na produção.
Mas se a história atual parece não ter sentido, ainda querermos encontrar sentido para a vida, claro, e o amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Mesmo denegada, a sensação de eternidade que a paixão provoca é um desejo geral, do cafajeste à perua.
Por isso, lembro aqui um poema lindo de Ferreira Gullar sobre o amor:
“É um lampejo que surgiu no mundo
essa cor
essa mancha
que a mim chegou
de trás de dezenas de milhares de manhãs
e noites estreladas
como um puído aceno humano
mancha azul que carrego comigo
como carrego meus cabelos
ou uma lesão oculta onde ninguém sabe.”


Arnaldo Jabor

Imagem de Bresson

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Congestionamentos

A velocidade média dos veículos em São Paulo no horário de pico da tarde despencou 32% nos últimos dez anos, passando de 25 km/h, em 1998, para 17 km/h, em maio de 2008. O percentual é maior do que o crescimento da frota paulistana no mesmo período, que subiu de 4,7 milhões para 6,1 milhões. Uma das hipóteses para essa piora está no alto número de interferências registradas
no trânsito.

A partir de agosto, 400 motocicletas serão distribuídas para auxiliar o serviço de atendimento móvel de urgência. As 'motolâncias' de 250 cilindradas serão dirigidas por auxiliares de enfermagem, treinados para dar atendimento rápido até a chegada da ambulância.


Para mim é inédito todos os dias enfrentar o trânsito louco e estressante. Não, não vivi em outro planeta, explico: Quando trabalhei na avenida Paulista ia a pé de casa e em Brasília trânsito era palavra desconhecida.
Falta paciência, sobra irritação e surge o cansaço. É absurdo perder tantas horas preciosas do dia, no meio de carros, ônibus, caminhões e motocicletas - se bem que as motos passam rapidinhas - e ainda dividir espaço com caçambas.
Música. Sem boa música é impossível agüentar. Uma garrafa de água ao lado e algumas besteirinhas gostosas para distrair também são essenciais. Inevitável o celular, que virou instrumento de navegação: Você já passou pela Bela Cintra? Como está o trânsito por lá? E a Brasil? Pego a Estados Unidos e sigo pela Rebouças?
Um carro parado na pista da direita causa lentidão nas outras três pistas. Reunião básica e informal de policiais com motos e viaturas paradas de qualquer jeito, em divertida conversa, pára as quatro pistas. Passeata? Céus! As passeatas param uma boa parte da cidade - que nova mania é essa de fazerem passeatas nas tardes de sextas feiras?
Carros estacionados em locais errados, caminhões de entregas em horários impróprios, motoristas-tartarugas, motoristas-indecisos, motoristas-agressivos, motoristas que querem levar vantagem em tudo. Antes, eram os garotos desmiolados que dirigiam como se estivessem em algum rali; hoje, são as garotas desmioladas que dirigem como kamikazes. Motoristas infelizes que acreditam que o tamanho do carro é documento; os que dirigem caravelas e necessitam de duas pistas para entrar à direita ou à esquerda; alguns taxistas que perderam a noção do perigo e os motoristas rurais - que tal levarem seus imensos veículos utilitários, que ocupam tanto espaço, para fazendas, chácaras e pacatas cidades do interior? Sirene de ambulância nada representa, carroceiros e carroceiras dividem o espaço como podem e ousados ciclistas se arriscam. Pedestres nervosos e atirados, cachorros soltos, caos.
Se não bastasse tudo isso, ainda existem os ‘amarelinhos’ que adoram anotar seus blocos de multas. O sinal logo atrás do agente de trânsito não funciona, os motoristas estão desorientados, a confusão afeta as ruas da região, mas ele não larga a caneta e o papel para organizar o movimento, como deveria fazer. Foram treinados para multar, não para orientar. Alguns se satisfazem em multar.
O rodízio municipal de carros afeta nossa vida e atrapalha nosso relógio biológico: Acorde uma hora mais cedo, torça para não encontrar algum congestionamento e fique com sono pelo resto do dia. Por conta do rodízio e do trânsito entendi que é necessário descobrir lugares estratégicos - de preferência com boas salas de cinema, livrarias e restaurantes - para esperar, ao menos quatro horas, enquanto o tempo de rodízio prevalece.
Diariamente vejo o pouso do helicóptero cinza no alto do prédio de um Banco. O mesmo segurança, de terno escuro e rádio na mão, recebe o passageiro e lhe segura a pasta. Por sinal, é um prédio com sete andares, cinza e quadrado que mais parece a base do heliporto. Deve ser a base do heliporto. O helicóptero decola, segue rumo à Marginal e os carros que estão na avenida não se moveram sequer um centímetro.
Grudar no carro da frente, negar passagem, ficar hiper atenta e descobrir-se agressiva. Sem dúvida é um desafiador exercício de paciência e educação.
Não faço esforço para enfrentar o trânsito, mas para não perder a suavidade e a gentileza apesar do trânsito.

sábado, 24 de maio de 2008

Cida Garcia, preciosa Cida.

Estes são dois dos inúmeros brindes que Cida Garcia faz para a vida.
São os preciosos pedaços de Cida Garcia.
Ao mesmo tempo em que nos acolhe, sua obra nos deixa sem fala, sem respiração, suspensos em um mundo etéreo e pleno.
Emoção, é isso que sentimos ao contemplar a obra de Cida: Emoção.
Cida Garcia é um dos valiosos presentes que ganhei ao longo da vida.
Salve, Cida! Salve, querida!





domingo, 4 de maio de 2008

Instead of talking, just do it

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