sábado, 28 de janeiro de 2012

Emmanuel Pahud - Corrente from Bach's Partita BWV 1013

Transforma-se o amador na coisa amada, corre pelas formas dentro. E a coisa amada é uma baía estanque.

1. Que está ou vive sozinho, ou gosta de estar só (navegador solitário); ISOLADO [antôn.: Antôn.: acompanhado.]
2. Que ocorre na solidão (existência solitária); RECLUSO; RETRAÍDO
3. Que não convive com seus pares ou semelhantes (caçador solitário); DESACOMPANHADO [Antôn.: acompanhado.]
4. Que se encontra em lugar longínquo, afastado das concentrações humanas (cabana solitária)
5. Que foi abandonado por todos; que se encontra só; APARTADO [antôn.: Antôn.: congregado.]
6. Bot. Que nasce e floresce de maneira isolada (arbusto solitário); SÓ
7. Bot. Que só tem um caule; UNICAULE
8. Indivíduo que vive em solidão; EREMITA; ERMITÃO; MISANTROPO
9. Monge que vive em isolamento; ANACORETA
10. Nome comum a certos religiosos que vivem isolados do mundo
11. Joia em que se coloca apenas uma pedra preciosa
12. P.ext. A pedra que se coloca nessa joia, esp. o diamante
13. Vaso longo e estreito no qual se colocam ger. uma ou duas flores de haste comprida



“Atirado ao deserto, era agora um animal solitário"

Isole, bata na madeira, segure o patuá, reze fervorosamente todas as orações conhecidas e crie suas próprias orações, entoe mantras, medite, dê três pulinhos meia volta e volta e meia, prometa, reprometa, ofereça o sacrifício e, principalmente, não cite a palavra, a tal, diga apenas “so”, a mesma atitude adotada com o cancer, céus! o “ca”, nós não dizemos essas palavras. Nós não dizemos!
Acreditamos que evitar a palavra impede sua materialização, a mantém irreal e distante. “Ca”, “so” e outros monossílabos baseados em nossos temores.
Sim, é fato que aceitamos o inaceitável, contaminamos nossas vidas com relacionamentos sofríveis, perdemos precioso tempo, diminuímos nossas expectativas ou deixamos de ter expectativas, nos enganamos e consideramos verdade a mentira e a meia mentira, nos iludimos com fictícia qualidade de vida, cerceamos nossa intuição, desconsideramos todos os sinais de nosso organismo, fechamos os olhos e a mente, tudo para evitar a solidão amorosa e a sensação de animais solitários atirados no deserto sem um oásis, a sombra de uma tamareira, sequer uma gota de água.
Estar só é considerado castigo ou, no mínimo, incapacidade para encontrar a cara metade (não tão cara nem metade, comumente diversas pseudometades mantidas por períodos variados ao longo da vida) que nos firme socialmente, nos enquadre em categoria super valorizada e nos poupe do estigma de criaturas problemáticas, desequilibradas, idiossincráticas e, quem sabe, com a casa cheia de gatos.
Posicionar-se optante da solidão amorosa parece coisa de outro mundo e desafia o entendimento dos que, consciente ou inconscientemente, temem a solitude. Pois é esta a minha certeza atual, baseada na vivência dos últimos anos: A solidão amorosa é opção corajosa que em nossa vida adulta deve ser abraçada e aproveitada para nosso melhor aprendizado, para reconhecer e se desfazer de amalgamas emocionais, para observar a vida sem influencias e definir com exatidão o que queremos, arrumar nosso interno, fortalecer nossas referências e qualidades, concluir nossa construção e, no futuro, melhor conviver com o outro. Longe de ser eremita, reclusa, retraída, isolada, mantenho a opcional solidão amorosa a meu favor e afastada da inevitável assimilação do outro, sempre resultante das relações amorosas, pela primeira vez na vida eu me encontro. 
O meu timbre de voz, a minha maneira de falar, o meu pensar, os meus trejeitos, as minhas crenças e certezas, o meu gostar e o desgostar, finalmente identificados, meus, sem a influência de algum ser amado. Como é possível viver com o outro sem nele se perder? Como é possível viver bem com o outro sem se conhecer? A solidão amorosa traz bem-vinda oportunidade única e dela não necessito qualquer resgate - por mais que você entenda o contrário.
Longe de ser sinonimo de vulnerabilidade, a solidão amorosa é o melhor caminho para se encontrar.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


Este é excelente presente, coisa para ser lida e relida, esquecida e reaprendida com certa frequência. Poema de Constantino Kavafis certamente postado em outra ocasião aqui, sempre sábio e pertinente. Aproveitem.

"Se partires um dia rumo a Ítaca, 
faz votos de que o caminho seja longo, 
repleto de aventuras, repleto de saber. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o colérico Posídon te intimidem; 
eles no teu caminho jamais encontrarás 
se altivo for teu pensamento, se sutil 
emoção teu corpo e teu espírito tocar. 
Nem Lestrigões nem os Ciclopes 
nem o bravio Posídon hás de ver, 
se tu mesmo não os levares dentro da alma, 
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo. 
Numerosas serão as manhãs de verão 
nas quais, com que prazer, com que alegria, 
tu hás de entrar pela primeira vez um porto 
para correr as lojas dos fenícios 
e belas mercancias adquirir: 
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos, 
e perfumes sensuais de toda a espécie, 
quanto houver de aromas deleitosos. 
A muitas cidades do Egito peregrina 
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente. 
Estás predestinado a ali chegar. 
Mas não apresses a viagem nunca. 
Melhor muitos anos levares de jornada 
e fundeares na ilha velho enfim, 
rico de quanto ganhaste no caminho, 
sem esperar riquezas que Ítaca te desse. 
Uma bela viagem deu-te Ítaca. 
Sem ela não te ponhas a caminho. 
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre. 
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência, 
e agora sabes o que significam Ítacas."

Voltar também faz parte do bom caminho

Acostumar-se com algo é ultrapassado, talvez até inapropriado. Novidades sempre. Nossa (combalida) capacidade de adaptação é constantemente desafiada. Como? Mais de um ano longe deste blog? Ah, querida, você encontrou tanta novidade (gráficos, estatísticas, novo layout interno, dados sem-fim, informações úteis e inúteis) e pensou ser bem mais interessante sair desta página e cuidar da vida, curtir um bom livro e música de primeira, bater um longo papo com pessoas queridas, passear com o cão, ir ao cinema, preparar alguma gostosura (aprendeu a cozinhar gostosuras e, principalmente, aprendeu a gostar de cozinhar). Mas persistente e um tanto curiosa respira fundo, alonga a coluna, cruza os braços e finca o pé direito enquanto pensa: Este aqui também é meu pedaço, sem dúvida amorosamente compartilhado, e resolve ficar enquanto quiser ficar. Eu sei bem como é. Você oscilou entre o que chatice tanta mudança e o fato desta coisa cheia de textos e fotos e vídeos e poesias ter sido, em parte, o que ajudou a segurar o que se apresentou para ser segurado - e o que se apresentou para ser segurado foi um monstrengo malvado e indócil do tamanho do mundo, ou, uma pena suave e frágil, porque o todo não passa de nada dependendo da perspectiva; assim, o caos se  torna a melhor fonte de criação e superação. Afinal, o caos é o princípio de tudo.
Lições, preciosas lições, que somente um ser totalmente desprovido de sensibilidade e inteligência - da mediana, nada muito especial - deixaria de reconhecer e aprender e entender que a vida, bom a vida tem uma criatividade surpreendente e a disposição de dedicada e incansável professora que, carinhosamente, sorri para determinado aluno, depois, dá uma carinhosa piscadela, joga o giz na cabeça do aprendiz, uma pedrinha, uma bolinha de gude, um tijolo, uma pedreira inteira, até a adorável criaturinha acordar e, finalmente, aprender. E a dedicação da vida não se limita à pedreira jogada sobre a cabeça (ainda bem que ela, a vida, não sofre da síndrome da Rainha de Copas de Alice), mas também de repetir a lição até confirmar que a garota realmente aprendeu - no caso, em especial, a dizer não, simples assim.
Em outra ocasião virá texto sobre a depressão e tudo o que essa coisa ruim faz com a gente. Quem sabe algo sobre solidão adorável e construtiva. Sobre odisseias internas, tão assustadoras e dolorosas quanto abençoadas e admiráveis. Sobre Cíclopes e Lestrigões apavorantes e imaginários. Sobre vida e entusiasmo. 
No mais, se quiser e puder guarde bem esta imagem: Os 50 são adorável e exclusiva ponte entre os 40 e os 60. É a segunda adolescência desprovida da angústia e dos incômodos da primeira. É a época mais espetacular da nossa vida. Acredite. Por isso, cuide para atravessar essa ponte tão especial com o máximo de leveza que puder, acompanhado pela essencial fluidez. Tudo apenas começa. 
  

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Snooky Ookums , Fred Astaire and Judy Garland, 1948



Cute cute, bizuquinho, bizuquinha, vida, benhê, mãe, moorr, bebê, duduquinho, pai, nhumy nhumy, princesa... A sofrível linguagem pseudo amorosa.

Fairy tales are full of impossible tasks

The hounds, you know them all by name.        
You fostered them from purblind whelps
At their dam’s teats, and you have come
To know the music of their yelps:

High-strung Anthee, the brindled bitch,
The blue-tick coated Philomel,
And freckled Chloe, who would fetch
A pretty price if you would sell -

All fleet of foot, and swift to scent,
Inexorable once on the track,
Like angry words you might have meant,
But do not mean, and can’t take back.

There was a time when you would brag
How they would bay and rend apart
The hopeless belling from a stag.
You falter now for the foundered hart.

Desires you nursed of a winter night -
Did you know then why you bred them -
Whose needling milk-teeth used to bite
The master’s hand that leashed and fed them?

*        *        *

The blackbird sings at
the frontier of his music.
The branch where he sat

marks the brink of doubt,
is the outpost of his realm,
edge from which to rout

encroachers with trills
and melismatic runs sur -
passing earthbound skills.

It sounds like ardor,
it sounds like joy. We are glad
here at the border

where he signs the air
with his invisible staves,
“Trespassers beware” -

Song as survival -
a kind of pure music which
we cannot rival.

*        *        *

So long I have been carrying myself
Carefully, carefully, like a small child
With too much water in a real glass
Clasped in two hands, across a space as vast
As living rooms, while gazes watch the waves
That start to rile the little inland sea
And slap against its cliffs’ transparency,
Revise and meet, double their amplitude,
Harmonizing doubt from many ifs.
Distant frowns like clouds begin to brood.
Soon there is overbrimming. Soon the child
Looks up to find a face to match the scolding,
And just as he does, the vessel he was holding
Is almost set down safely on the bookshelf. 

domingo, 10 de outubro de 2010

Maintaining ideas

"Think peace, act peace, spread peace."
"War is over (if you want it!)."

Modelo ultrapassado

É, Zé, sem dúvida é uma dona Encrenca.
Ela tem o comportamento de dona Encrenca, o engendrado raciocínio de uma legítima dona Encrenca, faz comentários de dona Encrenca, tem os excessos de quereres, frustrações, má educação e egoísmo de toda a dona Encrenca.  
Como legítima dona Encrenca é craque na manipulação, busca o controle e tem pressa; tem pressa a dona Encrenca.
Meninas, parem de seguir o ultrapassado modelo de suas mães!

Miscellanea

As plantas dos vasos que compõem minha mini jungle estavam sedentes. Mais de trinta litros de água para extinguir tanta sede. Plantas! Ah plantas!

O inverno passado teve, no máximo, cinco dias frios. Foi uma estação atípica, seca, abafada, quente. A seca insalubre que retira grande parte da nossa energia e bem estar. Em nada parecida com o duro clima seco de Brasília, a cidade feita de terra vermelha. A seca paulista é carregada de poluição.

Não, eu não redefino quem eu sou tampouco o que quero. Eu descubro quem eu sou e a partir desta descoberta eu saberei o que quero.

Novas flores surgiram no inverno. Meus lírios da paz floresceram em quantidade inédita e minhas violetas – eu havia me esquecido de suas cores – apareceram em seus vasos. Até a azaléia rebelde, este vaso cheio de folhas verdes que ganhei há três anos e cheguei a duvidar tratar-se de azaléia, apareceu. Rosa e branca, linda como ela só. Por três anos esta azaléia me ensinou a me contentar somente com suas folhas.

Na fase de quietude optei por ter um único aparelho telefônico em casa, usado o mínimo possível. Estive bem cansada com a perda de energia e tempo dos telefonemas vazios. Atualmente desenvolvo especial aversão à exposição involuntária do número do nosso telefone: Eu não quero receber ligações de “atendentes eletrônicas” (céus! Que ousadia essa, de disparar uma gravação para se comunicar conosco!), candidatos políticos, serviços de telemarketing (telemarketing e radares de trânsito deveriam ser extintos) e outras tão chatas quanto. Eu só quero receber ligações de pessoas que eu gosto, pessoas que têm algo a dizer.

Graças a Deus este é um país laico.

Não me rendi ao smartfone. Prefiro um celular burrinho, discreto e acanhado. Não vejo qualquer vantagem em estar conectada o tempo todo, disponível e onisciente dos fatos (relevantes ou não) que acontecem. Tal qual a vida, a internet demanda pausa.

Novas saias justas, ou, os diversos resultados da permanência em sites sociais: A marcação feita no facebook, que nos vincula a imagens nada, nada a ver. O que fazer? Não há a opção desmarcar e retirar a criatura da lista de amigos parece medida exagerada.

Poesia: A primeira chuva da primavera.

O chato período eleitoral deveria ser aproveitado para apresentação do planejamento feito pelos candidatos e seus assessores para a educação, a segurança pública, o sistema de saúde público e outros temas fundamentais para toda a população. Planejamento com força de ato consumado, metas e ações que serão efetivamente implantadas no período exato do mandato. Que tal um plebiscito para cada um dos demais temas?

Ninguém em sã consciência é a favor do aborto, procedimento duro, que também afeta a saúde emocional da mulher. Mas não é por sermos contrários ao aborto que ele deixará de existir, deixará de ser praticado na clandestinidade. Este não é o melhor raciocínio e está longe da perfeição. Afinal, não somos mulheres perfeitas, nem todos os homens são honestos e ideais, e nem todas as concepções/ gravidezes são planejadas e saudáveis. Qual é a efetiva solução?

Achei adorável a relação de Diane Keaton e Jack Nicholson e confirmei minha impressão ao assistir novamente Something’s gotta give (2003), de Nancy Myers. Há encantos muito especiais e exclusivos na relação amorosa da, assim dita, meia-idade.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Nossa responsabilidade

Healthy eating

(Dr. Weil's anti-inflammatory food pyramid)

"The right diet can help protect against diseases that affect sight, including age-related macular degeneration (AMD), the leading cause of blindness in those over the age of 55. Researchers at the Agricultural Research Service (ARS)-funded Laboratory for Nutrition and Vision Research have found that the combination of a low-glycemic diet combined with vitamins C and E, zinc, lutein, zeaxanthin, and omega-3 fatty acids can help maintain quality of life and reduce health care costs due to sight-robbing eye diseases. The study examined dietary intake and other data from more than 4,000 men and women age 55 to 80, who had taken part in the long-term Age-Related Eye Disease Study (AREDS). The researchers ranked intake of several nutrients and then calculated a score designed to assess their combined effect on the risk of AMD.
My take? I’ve long advocated eating low on the glycemic index and have recommended increasing consumption of vitamin C, vitamin E, lutein and zinc to support vision health. I recommend these nutrients and lifestyle changes to address AMD."

Dr. Weil's daily blog

terça-feira, 5 de outubro de 2010

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Existiam jardins onde a lua passeava

"Se eu fosse uma coisa, amaria ver-me
como comboio-correio. Longo e nocturno,
devassando o interior, contemplado
de fugida por pinhais e estrelas,
lobos, penhascos e embruxados.
Bom parar em todas as estações.
Cabecear de sono, beber vinho, ser
banco de campónios, crianças, contrabandistas.
Aldeã que reza, desdentada e solícita.
Em cada carruagem existe sempre
um voluntário palhaço que golfa
sua alegria: coroá-lo com o clarim
do galo. E deixar em todos os lugares
as ânforas de barro das paixões
(quase sempre mal-avindas, fortuitas,
temerosas): colaborar, encher
a inocente mala do carteiro."

*        *        *

"Não gosto deste perfil de gafanhoto.
Constante sou, trepido, usam-me,
servo da gleba. Rasgo e acamo,
tenho um veio de dolorosa, serena
transmissão. Custa levar de rojo
uma vaca à cova. Esmaguei já
uma perna. Detesto o peso do reboque.
Cinco anos e ainda não percebo estas
sujas peças que rodam em mim.
A escavadora, ao menos, uiva
(amo-a). Não me agrada a sucata."

*        *        *

" Gratidão que nem sabe
a quem deve ser grata.

Por um novilho, um poldro
vagueando na pastagem,
um farol, uma escada magirus,
uma vasilha de leite, de vinho

Por um beijo, uma sonda
que não regressa de Venus,
uma safra, uma ceifa
de amantes.

Por ser crente e descrente,
matricial e fiel
ferozmente a si próprio.

Ao início, ao que foi
expurgado, à placenta, grato."

*        *        *

"Criança que despeja um grilo,
pata a pata,
víscera a víscera,
da sua pequeníssima alma.

E não há quem refaça
o grilo e a criança."

*        *        *

" Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta."  

*        *        *

"É triste não possuir uma casa de sementes.
Não adianta amar essas partículas ali ociosas,
nem desejar que nidifiquem sem granizo
e irrompam como a chama de uma vela.

É triste pagar um preço pelo que há-de nascer,
que o bersim perca a cor alazã penetrando na terra
e o trevo da Pérsia alimente a boca das reses.

É triste que não recusem essa densa, pródiga,
obstinada servidão, a vitalidade apaixonada pelo sol,
e não façam, como um camponês, as suas contas,
exigindo a Deus e aos homens o salário da maquinação."

Colcha de retalhos

O desencanto que eu tenho com a política em grande parte é resultado dos onze anos que vivi em Brasília.
À época o meu conhecimento técnico me rendeu convite indeclinável para trabalhar no Distrito Federal e durante aquele período, criei e gerenciei diversas áreas de empresa privada e também fui professora de Direito Civil em faculdade local.
Lá cheguei em 1993 e presenciei a mudança de Brasília durante os governos seguintes. Lá também perdi uma parte do meu idealismo, abandonei algumas ideias, só não alterei meus valores por isso fiquei mais sensível, refratária até.
A única certeza que hoje eu tenho em relação à eleição é a não obrigatoriedade do voto. Eu não sou feliz por ser obrigada a votar se não reconheço nos candidatos existentes a capacidade e a competência para serem meus representantes. O voto é direito que deveria depender da vontade do seu titular para ser exercido.
Para evitar a dura descrença e alimentar a esperança em um Brasil melhor, principalmente para os netos que um dia eu terei, eu quero acreditar que no futuro surgirão políticos competentes, capazes, eficazes e honestos, plenamente conscientes do espírito público e desinteressados nas vantagens pessoais, que administrarão este país do jeito que ele merece. Acredito que um dia aprenderemos a votar e, principalmente, deixaremos de embasar nossas escolhas em escusas pouco ou nada valorosas.

No segundo turno mais uma vez serei obrigada a votar sem ter em quem votar. Descubro que não aprecio a permanência, nem o retorno. Dedico meu especial apreço ao novo (competente, capaz e eficaz novo) que algum dia surgirá.

No tempo que solteira morei com meus pais, na São Paulo onde nasci, eu era vizinha de um dos editores do jornal O Estado de São Paulo. A cultura daquele jornalista e seu empenho no seu constante desenvolvimento e aprimoramento eram invejáveis. Era prazeroso ler suas matérias e compartilhar uma pequena parte do seu vasto conhecimento. Infelizmente e na grande maioria, os jornalistas que hoje atuam são carentes de preparo e, principalmente, de boa formação cultural. Com isso perdemos todos nós com a carência que vivemos de boas matérias, que poderiam aprimorar nosso próprio conhecimento.
Deixo este retalho na colcha que ora costuro, porque uma boa parte da responsabilidade proveniente do cenário político deste país é devida à imprensa.

Ontem à noite, no facebook, uma cineasta conceituada publicou o vídeo do show do palhaço Tiririca. Meu filho tinha acabado de chegar e enquanto eu comentava com ele sobre a inacreditável quantidade de votos conquistados pelo candidato Tiririca, principalmente em São Paulo, acessei o vídeo e meu filho acompanhou a música. Ele conhecia a letra.
Infelizmente, eu não escolhi o artista Tiririca sequer para meu entretenimento. Pelo visto estou fora da realidade.

Volto ao filho: Outra das minhas tristezas nesta eleição foi a impossibilidade de conversar com meu filho sobre as minhas escolhas.
É ruim não reconhecer a condição, a vocação e a capacidade para a nossa efetiva representação. No último domingo fomos juntos, meu filho e eu, para votar e depois apreciamos gostoso almoço em um restaurante do bairro.

Eu não estudei sociologia, antropologia, tampouco psiquiatria. Acho que por isso eu sou incapaz de analisar o comportamento dos eleitores. Eu não sei o que significam mais de 10% de votos brancos e nulos na votação para governador do estado de São Paulo, assim como não sei, no mesmo estado, o que significam os percentuais 27,35% na escolha de senadores, 15,77% na escolha dos deputados federais e 16,12% de votos brancos e nulos na escolha dos deputados estaduais. Todos percentuais, a meu ver, bastante elevados.

Houve um tempo no qual o número do nosso telefone, nosso endereço e email eram protegidos. Atualmente, parece que esses dados se tornaram públicos e disponíveis a qualquer um. Eu não sei como alguns candidatos ao senado foram capazes de utilizar o meu telefone para mensagens gravadas a pedir o voto. O serviço de telefonia oferece essa possibilidade?

Adoraria ser convencida que estes meus pensamentos soltos estão errados.

Swing Time, Rogers and Astaire