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sábado, 28 de janeiro de 2012

Transforma-se o amador na coisa amada, corre pelas formas dentro. E a coisa amada é uma baía estanque.

1. Que está ou vive sozinho, ou gosta de estar só (navegador solitário); ISOLADO [antôn.: Antôn.: acompanhado.]
2. Que ocorre na solidão (existência solitária); RECLUSO; RETRAÍDO
3. Que não convive com seus pares ou semelhantes (caçador solitário); DESACOMPANHADO [Antôn.: acompanhado.]
4. Que se encontra em lugar longínquo, afastado das concentrações humanas (cabana solitária)
5. Que foi abandonado por todos; que se encontra só; APARTADO [antôn.: Antôn.: congregado.]
6. Bot. Que nasce e floresce de maneira isolada (arbusto solitário); SÓ
7. Bot. Que só tem um caule; UNICAULE
8. Indivíduo que vive em solidão; EREMITA; ERMITÃO; MISANTROPO
9. Monge que vive em isolamento; ANACORETA
10. Nome comum a certos religiosos que vivem isolados do mundo
11. Joia em que se coloca apenas uma pedra preciosa
12. P.ext. A pedra que se coloca nessa joia, esp. o diamante
13. Vaso longo e estreito no qual se colocam ger. uma ou duas flores de haste comprida



“Atirado ao deserto, era agora um animal solitário"

Isole, bata na madeira, segure o patuá, reze fervorosamente todas as orações conhecidas e crie suas próprias orações, entoe mantras, medite, dê três pulinhos meia volta e volta e meia, prometa, reprometa, ofereça o sacrifício e, principalmente, não cite a palavra, a tal, diga apenas “so”, a mesma atitude adotada com o cancer, céus! o “ca”, nós não dizemos essas palavras. Nós não dizemos!
Acreditamos que evitar a palavra impede sua materialização, a mantém irreal e distante. “Ca”, “so” e outros monossílabos baseados em nossos temores.
Sim, é fato que aceitamos o inaceitável, contaminamos nossas vidas com relacionamentos sofríveis, perdemos precioso tempo, diminuímos nossas expectativas ou deixamos de ter expectativas, nos enganamos e consideramos verdade a mentira e a meia mentira, nos iludimos com fictícia qualidade de vida, cerceamos nossa intuição, desconsideramos todos os sinais de nosso organismo, fechamos os olhos e a mente, tudo para evitar a solidão amorosa e a sensação de animais solitários atirados no deserto sem um oásis, a sombra de uma tamareira, sequer uma gota de água.
Estar só é considerado castigo ou, no mínimo, incapacidade para encontrar a cara metade (não tão cara nem metade, comumente diversas pseudometades mantidas por períodos variados ao longo da vida) que nos firme socialmente, nos enquadre em categoria super valorizada e nos poupe do estigma de criaturas problemáticas, desequilibradas, idiossincráticas e, quem sabe, com a casa cheia de gatos.
Posicionar-se optante da solidão amorosa parece coisa de outro mundo e desafia o entendimento dos que, consciente ou inconscientemente, temem a solitude. Pois é esta a minha certeza atual, baseada na vivência dos últimos anos: A solidão amorosa é opção corajosa que em nossa vida adulta deve ser abraçada e aproveitada para nosso melhor aprendizado, para reconhecer e se desfazer de amalgamas emocionais, para observar a vida sem influencias e definir com exatidão o que queremos, arrumar nosso interno, fortalecer nossas referências e qualidades, concluir nossa construção e, no futuro, melhor conviver com o outro. Longe de ser eremita, reclusa, retraída, isolada, mantenho a opcional solidão amorosa a meu favor e afastada da inevitável assimilação do outro, sempre resultante das relações amorosas, pela primeira vez na vida eu me encontro. 
O meu timbre de voz, a minha maneira de falar, o meu pensar, os meus trejeitos, as minhas crenças e certezas, o meu gostar e o desgostar, finalmente identificados, meus, sem a influência de algum ser amado. Como é possível viver com o outro sem nele se perder? Como é possível viver bem com o outro sem se conhecer? A solidão amorosa traz bem-vinda oportunidade única e dela não necessito qualquer resgate - por mais que você entenda o contrário.
Longe de ser sinonimo de vulnerabilidade, a solidão amorosa é o melhor caminho para se encontrar.

sábado, 13 de setembro de 2008

A doença da curiosidade

Santo Agostinho escreveu que, entre as tentações, uma das mais perigosas era a “doença da curiosidade”, que nos levava a tentar descobrir os segredos da natureza, “aqueles segredos que estão além da nossa compreensão, que em nada nos beneficiarão e que o homem não deve tentar saber.” Foi, em outras palavras, o mesmo conselho que Deus deu a Adão e Eva no paraíso, advertindo-os a não comer o fruto da árvore do saber para não contrair a doença.
Eva – sempre elas – não se agüentou e comeu o fruto proibido. Resultado: o homem perdeu o paraíso da ignorância satisfeita e está, desde então, tentando descobrir que diabo de lugar é este em que o meteram, esta bola girando entre outras bolas num espaço imensurável, sem manual de instrução. Santo Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só nos traria perplexidade e angústia e nenhum benefício. Mas a doença já estava adiantada demais.
A fase mais aguda da doença da curiosidade chegou com a inauguração, esta semana, num subterrâneo na fronteira da Suíça com a França, do tal acelerador gigante que jogará prótons contra prótons em condições inéditas para tentar produzir a origem de tudo, liberar uma subpartícula atômica que até agora só existe em teoria e chegar mais perto de descobrir como funciona o universo.
Quer dizer, os descendentes de Adão e Eva pretendem levar a rebeldia do casal ao máximo e espiar por baixo do camisolão de Deus. Segundo alguns, o que o novo acelerador também pode trazer é um castigo terminal pela desobediência humana: o desaparecimento num buraco negro não só dos cientistas envolvidos e de alguns suíços e franceses na superfície, mas do mundo todo. Como você e eu, que não temos nada a ver com a história, atrás.
O cataclismo é improvável, mas mesmo que a insubmissão do homem não seja punida, resta a outra questão posta por Santo Agostinho, a do beneficio. Que proveito, salvo para a vaidade científica, trará descobrir o que pretendem? Quanto mais se sabe sobre o funcionamento do universo mais aumentam a perplexidade e a angústia por não saber mais, por jamais se poder compreender tudo – pelo menos não com este cérebro que mal compreende a si mesmo.
Mas a toxina daquela fruta era forte e ainda age no organismo. E a doença é incurável.

Luis Fernando Veríssimo


Imagem de Eisenstaedt