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sábado, 13 de setembro de 2008

A doença da curiosidade

Santo Agostinho escreveu que, entre as tentações, uma das mais perigosas era a “doença da curiosidade”, que nos levava a tentar descobrir os segredos da natureza, “aqueles segredos que estão além da nossa compreensão, que em nada nos beneficiarão e que o homem não deve tentar saber.” Foi, em outras palavras, o mesmo conselho que Deus deu a Adão e Eva no paraíso, advertindo-os a não comer o fruto da árvore do saber para não contrair a doença.
Eva – sempre elas – não se agüentou e comeu o fruto proibido. Resultado: o homem perdeu o paraíso da ignorância satisfeita e está, desde então, tentando descobrir que diabo de lugar é este em que o meteram, esta bola girando entre outras bolas num espaço imensurável, sem manual de instrução. Santo Agostinho e outros tentaram nos convencer a aceitar os limites do conhecimento. Tentar compreender mais longe só nos traria perplexidade e angústia e nenhum benefício. Mas a doença já estava adiantada demais.
A fase mais aguda da doença da curiosidade chegou com a inauguração, esta semana, num subterrâneo na fronteira da Suíça com a França, do tal acelerador gigante que jogará prótons contra prótons em condições inéditas para tentar produzir a origem de tudo, liberar uma subpartícula atômica que até agora só existe em teoria e chegar mais perto de descobrir como funciona o universo.
Quer dizer, os descendentes de Adão e Eva pretendem levar a rebeldia do casal ao máximo e espiar por baixo do camisolão de Deus. Segundo alguns, o que o novo acelerador também pode trazer é um castigo terminal pela desobediência humana: o desaparecimento num buraco negro não só dos cientistas envolvidos e de alguns suíços e franceses na superfície, mas do mundo todo. Como você e eu, que não temos nada a ver com a história, atrás.
O cataclismo é improvável, mas mesmo que a insubmissão do homem não seja punida, resta a outra questão posta por Santo Agostinho, a do beneficio. Que proveito, salvo para a vaidade científica, trará descobrir o que pretendem? Quanto mais se sabe sobre o funcionamento do universo mais aumentam a perplexidade e a angústia por não saber mais, por jamais se poder compreender tudo – pelo menos não com este cérebro que mal compreende a si mesmo.
Mas a toxina daquela fruta era forte e ainda age no organismo. E a doença é incurável.

Luis Fernando Veríssimo


Imagem de Eisenstaedt

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Mentes, bolsas, interpretadores

Por dentro, mulher não é muito diferente de homem. Fora nas partes óbvias, em que somos convexos e elas côncavas, e em um ou outro detalhe, somos iguais. Anatomicamente, portanto, a mulher não tem mistérios para o homem. Ali fica o coração, ali o fígado, ali (onde mesmo?) o pâncreas... Igualzinho a nós. Não é verdade que elas têm glândulas secretas que a medicina ainda não se animou a examinar a fundo, como as que determinam o seu comportamento na direção de veículos automotores e em shoppings. Temos (mais ou menos) as mesmas glândulas.
Só duas partes da mulher continuam a desafiar a compreensão dos homens: sua mente e sua bolsa. Sabemos muito pouco do conteúdo de ambas e estamos constantemente nos surpreendendo com o que sai lá de dentro. E quando pedimos explicações, elas despistam.
O cérebro feminino não é biologicamente diferente, que eu saiba, do cérebro masculino e uma bolsa de mulher não deveria ser diferente de qualquer outro meio de guardar e transportar coisas, mas as surpresas se repetem. Tanto a mente quanto a bolsa femininas parecem ter acessos a mundos, mananciais, veios, supridores inacessíveis ao pensamento ou à mão do homem. De onde é que elas tiram aquilo tudo?!
É uma pergunta que nos atormenta desde aquele momento em que a Eva não só teve a idéia de comer a fruta proibida como produziu – de onde, meu Deus? – o canivete para descasca-lo e uma toalha para estender na grama, e nunca mais fomos os mesmos.

Li que um japonês inventou um aparelho que, adaptado à coleira, traduz o latido do cachorro. O cachorro late ou rosna e aparece numa telinha o que ele está tentando dzer para o seu dono. “Quero comida”, “Preciso fazer pipi”, “Trocar de canal”, “Gostei do seu cabelo assim”, etc. O mercado para a invenção é enorme, só a julgar pelos donos de cachorro que conheço. Finalmente eles vão poder não apenas falar mas dialogar com seus cachorros, trocar idéias, saber o que eles pensam da vida e dos homens. Há o risco, claro, da contestação inesperada. Do dono dizer “Senta” e o cachorro responder “Contextualiza”. Mas o interpretador de cachorros chega para preencher uma profunda necessidade humana. Gênio.

De acordo com a lógica que diz que com a invenção do fogo, inventaram o piromaníaco, cada nova técnica inaugura uma nova forma de loucura.
Como na jovem executiva, dinâmica, sem tempo a perder, chamada Jussara, que no outro dia teve o seguinte diálogo pelo telefone celular:
- Alô.
- Alô?
- Quem é?
- Eu.
- “Eu” quem?
- Eu quero falar com a Jussara.
- É a Jussara que está falando!
Ela jura que estava falando com ela mesma!E novas técnicas criam novas superstições. Muita gente acredita que as câmeras fotográficas digitais não apenas capturam a alma do fotografado como a transforma em microimpulsos que sobre e formam o cinturão eletrônico em volta da Terra, misturado com o ozônio. Velhas crenças, com o perigo mortal de comer melancia com leite antes de pular na piscina, ganham vida nova. Por exemplo, misturar tequila “Subcomandante Marcos”, pimenta e Prozac antes de pular na piscina. Mulheres com silicone devem passar pelos detectores de metais dos aeroportos de costas, senão os seios podem explodir. E o botox derrete. Guarda o Viagra numa cesta com ovos frescos por uma noite e fazer o sinal da cruz antes de ingeri-lo aumentam sua eficácia. Etcetera, etcetera.


Luis Fernando Veríssimo