quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Brincadeira de criança

Folia + i-tunes + i-pod + i-phone = i-feliz

Véspera

Às vezes a insônia bate de frente e resolve ficar
Persistente
Fazer o quê? Descobrir o motivo
Sempre existe um motivo
Mais uma véspera
E tudo mais que isto significa

terça-feira, 13 de novembro de 2007

O primeiro sebento

Para espanto de alguns, nunca estive em um sebo, nem comprei livro algum em sebo. Explico melhor: Sempre fui ratinha de livraria, aliás, em livrarias, em certos museus e certas lojas de CD permaneço horas sem que hora alguma exista, me perco, entro no mais puro êxtase e reconheço que a existência vale a pena. E se algum vendedor lê muito, ouve música o dia inteiro, é sensível para reconhecer meus gostos e ousado para indicar novidades, então a conquista é fiel, para sempre e o considero o mais novo membro da reduzida família.
Minha relação com livros sempre foi intensa e respeitosa. Aprendi com meus pais a ler muito e a bem cuidar dos livros. O sábio ateniense me presenteou com frases que guardo para o resto da vida “leia o que cair em suas mãos, minha filha” foi uma delas. Sigo à risca. Saudade de você, papai.
Grifar livros, fazer anotações em suas páginas foram atos ousados e meio ressentidos, somente praticados no período da faculdade de Direito, quando tempo e volume de leitura eram incompatíveis - doutrina excessiva para assimilação imediata. Assim, Washington de Barros, Sílvio Rodrigues e Pontes de Miranda foram maculados, coitados, pelo lápis que corria solto pelas suas páginas.
Volto à fidelidade e lembro de Tadeu e Enoque. O primeiro, gerente de uma livraria, conseguia qualquer livro de Direito e indicou excelentes novidades em literatura, reconheço, muitas vezes acompanhadas pelo meu desafiador olhar de descrença, daí sua insistência: “Leva que você vai gostar” e eu realmente gostava. Tadeu foi responsável pelos livros de meu filho e encontrava as excelentes opções que minha mãe garimpava nos suplementos literários do Estadão e de outros periódicos – falei que vira família. Enoque trabalhava em uma loja de CD no mais charmoso shopping de Brasília e tinha a gentil preocupação de trocar a música alta, chamariz habitual desse tipo de comércio, cada vez que eu aparecia. Saía o pagode e o sertanejo, afinal era Brasília, e por encanto apareciam sons geniais. Ele entendia muito de boa música, conseguia qualquer CD e trouxe de volta o eficaz “leva que você vai gostar”.
O encanto aumentou com a Wom (uma lojinha que ficava ao lado de casa – era só andar pela alameda de árvores e atravessar a rua entre as super-quadras, puxa! Como era gostoso morar naquele lugar) e os CD importados, muitas vezes fora de catálogo, que faziam parte da brincadeira. A relação de CD que a Wom importava era de deixar qualquer um impressionado e a graça adicional era querer alguma coisa fora daquela fantástica lista. Era desafiador descobrir alguma novidade recém lançada no exterior, ou, esquecida no tempo e no espaço e pedir para o pessoal afiado daquela loja encontrar. Nunca falharam.
Há dias organizo minhas músicas no i-tunes e estou feliz com o que descubro e volto a ouvir. Sobre o sebo? Ora, indicar livro esgotado é nisto que dá. Fui atrás de uma dica e não encontrei outra solução. No final da tarde de ontem, parei a análise do processo em seu terceiro volume e procurei o Osvaldo para aprender sobre sebos. Não existe alguém que conheça mais sobre sebos do que o Osvaldo, nem quem saiba sobre Responsabilidade Civil tanto quanto ele. Pode parar com essa cara de espanto nipônico porque nunca fui a um sebo e me ensine o caminho. Liguei para o primeiro, segundo, terceiro – livro esgotado em sebo é demais! – surgiu a indicação de um site muito legal que administra mais de trinta e sete mil livros e lá fui eu entusiasmada com o desafio de encontrar o exemplar. Está lá, nas mãos do simpático Robinson, num sebo carioca em plena Visconde de Pirajá. Queridinha você mora perto de Ipanema? – pergunta bobinha, lógico que Humaitá não fica distante – seguida pelos engraçados comentários sobre o livro, seu título, conteúdo e os desvarios desta irrequieta garota. Pelas suas risadas entendi que você também ficou interessada, por isso, mandarei o livro de volta assim que terminar a leitura. Divertida brincadeira que rompeu a rotina. Romper a rotina é bom demais.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Supremas delícias - simplicidade

Descobrir delícias na simplicidade confere a vida nova dimensão e refresca a existência, tornando-a mais leve, alegre e plena.

O segredo do bem-estar não se encontra em lugares distantes, em bens materiais cobiçados, no íntimo carinho da pessoa errada, no falso conforto experimentado, em conquistas efêmeras, mas no trabalho, na honesta produção, no sabor, na doação constante sem qualquer expectativa, nas pequenas vivências e coisas do cotidiano que fazem toda diferença e na total ausência de interesse, exercício pleno de liberdade.

Sabemos o que mais nos aflige - a causa e o efeito - mesmo no ápice de confusas e graves crises, nas quais tudo parece nos angustiar. Às vezes é necessário sair de cena, com total isenção e quietude observar a vida, reconhecer dentre tantas feridas a que mais afeta e curar. Originalidade alguma no que escrevo: Até o irracional reconhece e lambe a pior matadura.

Caminhos. Sempre os benditos caminhos. A ladainha do caminho reto, que une dois pontos, o perfeito, o mais curto, o mais acertado. A retidão considerada a qualidade máxima: Na conduta, na fé, nos sentimentos, aliada constante do dever – você deve!

Com o tempo o ‘você deve’ fica inchado e disforme, cheio das ações que lhe foram agregadas. Atlas, você deve carregar o mundo nas costas! O céu? Não, meu filho, o mundo. Carregue o mundo, isso, desse jeito, levinho como ele só. Não, não curve os joelhos, mantenha a postura elegante. Atlas, Heracles não virá. Dor nas costas? Imaginação sua. Eu sei que você não tem dor nas costas. Eu sei o que você sente!

Procuro a cachoeira na trilha do Jatobá. Subo, desço, paro e descanso, dou um beijo, abraço, esquerda, direita, meia volta, refaço o caminho e descubro novos detalhes e entendo que o mesmo caminho mudou porque aprendi a observar e que caminho refeito não é perda de tempo nem de energia mas faz parte do caminhar, ouço, sinto o aroma, descubro o gosto de fruta no pé e a cor da mais nova flor, espanto mosquito, pulo, danço, olho para frente para trás para o lado para o tudo e o nada, canto, me encanto, nado, bebo água, sonho, vejo o sol de chapéu e óculos escuros – às vezes nem o sol agüenta seu brilhar – não esqueço a essência, sorrio, digo obrigada, acaricio com o olhar.

Isto, menina! Capacete, botinhas, mochila e coragem. Sabe o que quer, querida?
Muito bem!

O meu mundo carrego por dentro.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Outro continente

International Herald Tribune
03/11/2007

"Instituições humanitárias são os novos imperialistas na África

Por Greg Mills de Johannesburgo, África do Sul

"Façamos um teste. Vamos ver qual Landcruiser de uma ONG chega primeiro ao estacionamento", disse recentemente um colega em Ruanda. Não era uma piada. A área de estacionamento de um restaurante sofisticado em qualquer capital africana revela muita coisa a respeito do novo jogo neo-imperialista que se desenrola na África. Um veículo de tração nas quatro rodas após o outro, cada um trazendo a logomarca de alguma agência doadora ou instituição de caridade voltada para as crianças, disputava o espaço para estacionar. Não é difícil também identificar o pessoal do setor humanitário. Eles geralmente são brancos e barulhentos, e preferem usar um uniforme do tipo chique-surrado composto de camiseta, calça jeans e sandálias. Mas eles são mais poderosos e geralmente menos benignos do que parecem. O fato de ter me sentado recentemente no Cafe Bourbon na reluzente área de compras em Kigali abriu os meus olhos - e os meus ouvidos - para algumas das conseqüências disso. "Precisamos apenas transferir os US$ 8,5 milhões", disse o funcionário norte-americano de uma proeminente organização não governamental. Tal dinheiro confere poder e influência consideráveis a esses indivíduos. O ruandês médio ganha US$ 240 por ano. O orçamento anual do governo é de US$ 650 milhões. Acontecimentos recentes no Chade relativos ao suposto contrabando de crianças órfãs por uma ONG ilustram, para dizer o mínimo, o grau de suspeita provocado por tal poder relativo. Aqueles que simpatizam com o povo, a maioria jovens, que realizam trabalhos humanitários na África argumentam que fornecem habilidades muito necessárias aos africanos destituídos. A defesa normalmente acrescenta que eles estão abdicando de carreiras promissoras e enfrentando dificuldades ao optar por esse trabalho. O que eles não enfatizam é o dano menos óbvio que causam. Aqueles que anteriormente prestavam serviços imperialistas sofreram dificuldades, doenças e violência. Naquela época não havia evacuação médica de emergência, a mídia para dramatizar os serviços realizados, nem astros da música pop para fazer campanhas favoráveis àqueles funcionários. E, ainda que aqueles antepassados tenham promovido políticas que hoje em dia são consideradas repulsivas, eles eram mais responsáveis do que os indivíduos engajados nesse novo serviço quase colonial. Os agentes imperialistas do passado pelo menos tinham que prestar contas aos parlamentos e contribuintes, e não a diretorias escolhidas internamente, compostas de líderes ideológicos cheios de auto-importância. Mas isso não é o pior. Recentemente Paris Hilton anunciou que será realmente corajosa e viajará para Ruanda."Sim, estou assustada", disse ela. "Ouvir dizer que é realmente perigoso. Nunca fiz uma viagem como essa". Ela estaria pretendendo "deixar a sua marca", assim como vários outros antes dela, supostamente ajudando a África enquanto ajuda a si própria.
Assim que chegar lá ela pode pensar em fazer uma visita à Millennium Development Village local, uma idéia para ajudar a África formulada pelo professor da Universidade Columbia, Jeffrey Sachs. A celebridade cabeça-de-vento poderia conhecer a celebridade da economia.
Ao explicar o que motivou a idéia da viagem, Hilton declarou: "Existe tanta necessidade nessa área, e sinto que, se for lá, isso atrairá mais atenção para aquilo que as pessoas podem fazer para ajudar".Se isso de fato ocorrer, tomara que a visita da herdeira do império da hotelaria - uma visita atualmente adiada - seja mais bem-sucedida do que o conceito de vila por meio do qual Sachs quis provar a sua teoria de que, se você fornecer recursos suficientes a uma pequena unidade, os habitantes prosperarão, em um micro-protótipo da tese do "mais ajuda é igual a mais desenvolvimento africano". O custo dos "serviços" prestados por tais estrangeiros é, como sempre, carregado pelos africanos. As suas ações, técnicas de obtenção de verbas e proeminência fortalecem a percepção de que a África é incapaz de ajudar a si mesmo, uma percepção ao mesmo tempo doméstica, e, especialmente tendo em vista as exigências feitas para o financiamento das ONGs estrangeiras, externa. O trabalho dessas pessoas perpetua a idéia do desamparo e uma mentalidade de vítima. Em um momento no qual muita gente percebeu que o desenvolvimento da África depende dos africanos determinarem as suas próprias políticas e fazerem essas escolhas, tais ações deslocam poder e ênfase para longe dos tomadores de decisões do continente.
Retratar a África como um objeto de pena é algo que também ignora o progresso bem real que o continente, atualmente no seu quarto ano consecutivo de crescimento de 6% do seu produto interno bruto, fez na solução de conflitos e elevação dos padrões de vida.
O que a África necessita é de um crescimento econômico extraordinário, e não de uma piedade extraordinária. É por isso que a África acabará cansando-se desta nova geração de imperialistas, assim como rejeitou os imperialistas anteriores.

Greg Mills é diretor da Fundação Brenthurst, com sede em Johannesburgo."

Tradução: UOL

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2007/11/03/ult2680u592.jhtm

domingo, 4 de novembro de 2007

Juliette Binoche

Decalage Horaire (Jet Lag) é um filme encantador de Daniele Thompson escrito em parceria com seu filho, Christophe, que estreou em 2002, e fez considerável sucesso no circuito europeu de cinema.
Li sobre a sutileza emocional e a elegância formal que estão presentes nessa obra e mantenho as mesmas palavras.
É impossível não deixar-se arrebatar pela especial atuação da sempre genial Juliette Binoche e do truculento estereotipado Jean Reno, que formam uma das mais improváveis duplas da história do cinema. Durante todo o filme os dois conservam a magia, realizam maravilhas e praticam interessante exercício de íntima cumplicidade.
No movimentado aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, a esteticista, massagista, maquiadora e especialista em reflexologia, Rose, espera o embarque para Acapulco, lugar que escolheu para recomeçar a vida e fugir do namorado covarde, agressivo e vil.
Por sua vez, Felix, famoso e estressado chef de cuisine que tem sério problema com o café da manhã, também espera seu atrasado vôo para encontrar sua companheira na Alemanha.
Demora demasiada, suposta greve de aeroviários e os passageiros são obrigados a passar a noite no aeroporto. Felix consegue reserva em hotel próximo e condoído com o recente maltrato sofrido por Rose (o insuportável namorado marca sua infeliz e escandalosa presença na sala de espera do aeroporto), sugere que dividam o espaço e se refaçam do cansaço.
Assim, óleo e água se unem. A sonhadora e otimista Rose mantém adorável, inteligente e ágil diálogo com o seco e duro Felix (excelente caracterização do típico cozinheiro francês), que lhe sugere o uso de Ajax amoníaco para retirar a maquiagem do rosto. Não são pessoas felizes e seus invisíveis parceiros estão presentes o tempo todo – pelo celular a companheira de Felix não lhe dá trégua.
Apesar de suas mazelas e inseguranças, juntos descobrem sentimentos e sensações fundamentais.
Na manhã seguinte ela parte para Acapulco e ele muda seus planos e procura pelo pai, com quem havia rompido desde a adolescência. Esse é outro efeito do breve e especial encontro dos dois.
Ao chegar a seu destino, Rose encontra representante da empresa aérea com um cartaz na mão escrito Rose de Luxemburgo, que lhe entrega recado de Felix. Ela pega um táxi e segue seu percurso pelas belas e ensolaradas praias, enquanto ouve demorada e amorosa mensagem deixada por Felix no celular. Por fim, assume seu destino, pede ao motorista que dê meia volta e a leve ao aeroporto.

Gosto muito da talentosa Juliette Binoche e acompanho seu consistente desempenho, ao longo de sua brilhante carreira.

Lya Luft

"Quem - estando ausente - entra no quarto
Quem deita ao lado meu, quem passa
No meu coração seus lábios quentes, quem
Desperta em mim as feras todas
Quem me rasga e cura
Quem me atrai?

Quem murmura na treva e acende estrelas
Quem me leva em marés de sono e riso
Quem invade meu dia após a noite
Quem vem – estando ausente -
E nunca vai?"

* * *

"Se te pareço ausente, não creias:
Hora a hora o meu amor agarra-se aos teus braços,
Hora a hora o meu desejo revolve estes escombros
E escorrem dos meus olhos mais promessas.

Não acredites neste breve sono;
Não dês valor maior ao meu silêncio;
E se leres recados numa folha branca,
Não creias também: é preciso encostar
Teus lábios em meus lábios para ouvir.

Nem acredites se pensas que te falo:
Palavras
São o meu jeito mais secreto de calar."

* * *

"Tão sutilmente em tantos breves anos
Foram se trocando sobre os muros
Mais que desigualdades, semelhanças
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
O filho que se faz, uma arvore plantada,
O tempo gotejando no telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
O pó de um cotidiano desencanto..

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
Que uma em outra pode se trocar,
Sem que alguém de for a o percebesse nunca."

Dedication

"I have great faith in all things not yet spoken.
I want my deepest pious feelings freed.
What no one yet has dared to risk and warrant
will be for me a challenge I must meet.

If this presumptious seems, God, may I be forgiven.
For what I want to say to you is this:
my efforts shall be like a driving force,
quite without anger, without timidness
as little children show their love for you.

With these outflowing, river-like, with deltas
that spread like arms to reach the open sea,
with the recurrent tides that never cease
will I acknowledge you, will I proclaim you
as no one ever has before.

And if this should be arrogance, so let me
arrogant be to justify my prayer
that stands so serious and so alone
before your forehead, circled by the clouds."

Rainer Maria Rilke

Dois centímetros

Nos últimos dois anos mantive esporádica, mas não menos carinhosa relação com minha cabeleireira. Quebrei a rotina semanal da impecável executiva e deixei de cuidar de coisas que pareciam importantes, para refletir sobre fatos essenciais e indispensáveis que fazem verdadeira diferença nesta vida.
Neste aprendizado descobri maior satisfação e entusiasmo ao plantar diversas mudas, ao preparar alimentos deliciosos e ao cuidar melhor das pessoas e de mim. Experimentei o prazer do simples chá de folhas frescas de hortelã, retiradas do vaso que mantenho em casa, para curar o estômago do filho; de criar saboroso molho com o manjericão do vaso ao lado e de cortar a cebolinha no ponto certo para que continue a crescer.

Desacelerei a vida, sim. Eram cruéis e insanas as treze, quatorze horas diárias de trabalho sem fim, conseqüência direta dos desmandos de seres obtusos, incompetentes no trato da coisa alheia e desonestamente incapazes de fornecer a necessária estrutura para o correto desempenho das funções. Demanda exagerada, muitas vezes descabida e infundada, foi durante muitos anos, o sinal de alerta para o necessário basta.

Dediquei-me a outra lida, por vezes doída, desgastante e mantida pela única força possível: o amor aliado ao respeito, para estar ao lado e cuidar de alguém tão querido, transformado por distúrbios comportamentais que habitualmente acontecem, com a idade avançada, na parte final da vida.
De alguma forma você me escolheu e eu escolhi você.
O convívio diário, a dedicação integral e sem folga, o acerto de contas de duas existências, trouxe o despojado e suave esquecimento de mim. À época, não havia possibilidade de delegar parte desse esforço. Era comigo; tinha que ser. Marcou a frase perfeita do filho: Não somos esse tipo de pessoa. Pois, esse tipo de pessoas não fomos.

Assim, o cabelo prático, livre e curtinho com a nuca aparente, transformou-se na rebelde e vasta cabeleira longa, e mudou o visual de anos sem, no entanto, passar a temer o famoso corte além dos dois centímetros.
Não há mulher com cabelo longo que vá ao salão e ameaçadora deixe de dizer: Corte dois centímetros. ‘Só dois centímetros, hein!’
Nisso também sou diferente, uma vez que digo apenas corte. Mas como você quer? quero que você corte do jeito que quiser.
Verdadeira e fundada confiança costuma não fazer mal a ninguém, afinal, é o mesmo salão que freqüento há vinte anos e, no qual, me sinto em casa, cercada pela zelosa e respeitosa atenção de queridos profissionais que conhecem minha vida, acompanharam o crescimento do meu filho, atenderam minha mãe, me entendem pelo olhar e, sem serem intrusivos, compreendem meias palavras, até mesmo as não ditas. Cabelo cresce e o corte jamais é definitivo. Quer liberdade e possibilidade de ousar maior que essa? Daí vem o sorriso da satisfeita cabeleireira, com suas tesouras de vários tipos e tamanhos, aparelhos para desfiar, as mãos firmes e a imaginação solta. Faça o que você quiser.

Como vai você? Quantos anos. Que legal! Você está mais jovem e magra. Fiquei feliz ao vê-la tão bem. Parece que tudo tem algum segredo e, no caso, a tal da dieta espiritual seria a responsável por mudar até o jeito de pensar e agir da moça. Cozinhar sem gordura alguma? Mas, nem mesmo o saudável azeite? Gordura alguma! Quantos anos você segue essa dieta? Há dois anos – dois anos! – o que mais além da total ausência de gordura? O rígido horário para ingerir a, mais rígida ainda, porção diária de alimento. Uma única fruta por dia, ás 10h 27 min. Como é que é? Repito tudo para confirmar o entendimento. Sim, e se o horário for esquecido, adeus fruta daquele dia. Aliás, minha amiga que segue a mesma dieta come sua fruta dentro do carro, no trânsito, ou, em alguma reunião de trabalho. Tem também o jeito de preparar a refeição: mexa a colher três vezes no sentido horário... dê sete pulinhos (não pude evitar, os pulinhos foram de minha autoria)... Levo minha marmita para onde for. Como? Ah, cansei de jantar com amigos e pedir prato e talher para curtir minha própria refeição. A sem gordura; preparada com rituais e gestos contados; com rígido horário marcado. Céus! Voltamos cada qual para sua poltrona em lados opostos, refletidos por espelhos imensos. Olho para o rosto distraído da estóica cliente da clínica de dieta espiritual e enxergo algumas marcas... Não é bem assim.

Os diversos vidrinhos de esmalte e a quantidade de cores que existem deixam qualquer um com dúvida. Quero ousar: Esmalte escuro. Arrependo-me no mesmo instante. Mãos de menina, como as minhas, não ficam bem com esmalte escuro. E as unhas dos pés? Aí sou mais coerente e nem ouso. Não gosto das unhas dos meus pés com esmalte escuro. Não gosto das unhas dos meus pés com esmalte algum. No dia que resolver pintar as unhas dos pés com esmalte escuro, colocarei correntinha com penduricalhos no tornozelo e usarei sandália de oncinha com salto alto. Quem sabe nova tattoo bem mais aparente do que a existente? Você tem tattoo?! A vida é isso, também.

Descobri que mulheres que ofertam o braço para idosas mulheres se apoiarem, são privilegiadas pela magia do desprendido dedicar. Ultimamente vejo mais mulheres jovens, ao lado de senhoras idosas, a manter o mesmo lento caminhar. Houve vezes nas quais os vinte e dois anos que zelei por você, mamãe, pareceram pesados e sem fim. Mas passaram com a rapidez de um cometa e deixaram a fundamental e saudável certeza da dedicada devoção retribuída com muito amor.

Recebi este texto de querida amiga das Minas Gerais. Temo que, elegante, mantenha o silêncio da dor decorosa: “Milhares de anos passados e ainda não aprendemos a lidar com a morte. Dizem-no as palavras desastradas, os gestos inacabados, as lágrimas indigentes que não sabem nomear a dor de que brotam. Sustenta-se o inconfessado medo do desconhecido na sacralidade dos rituais, e neles depositamos o único consolo possível para o engano que é uma partida sem despedidas. É o assombro do indizível que nos esmaga, que me esmaga, que deixa a alma em destroços que não se sabe a que lugar pertencem. Só os mortos sabem morrer. Os rituais, esses, são para os vivos, tal como as despedidas são para quem fica. E ali sentem-se densos e quase visíveis os laços quebrados, os laços fingidos, os laços incômodos. Expostos, vergonhosamente, com o pudor da primeira nudez. Face a eles, os nós. Firmes ante o silêncio, contra a irresolução do rosto desconhecido da morte que os habita. Fica tudo por acabar. Como se resolve sozinho uma vida que era dual? Restam apenas os nós apertados em abraço. Para recolher os destroços, juntar os cacos.” Te adoro também, querida.

e e cummings

"who knows if the moon's
a balloon, coming out of a keen city
in the sky - filled with pretty people?
(and if you and i should

get into it,if they
should take me and take you into their balloon,
why then
we'd go up higher with all the pretty people

than houses and steeples and clouds:
go sailing
away and away sailing into a keen
city which nobody's ever visited, where

always
it's
Spring)and everyone's
in love and flowers pick themselves"

Cora Coralina

"Não te deixes destruir...
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.
Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema. E viverás no coração dos jovens
e na memória das gerações que hão de vir.
Esta fonte é para uso de todos os sedentos.
Toma a tua parte.
Vem a estas páginas
e não entraves seu uso
aos que têm sede."

* * *

"Mãe Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura."

* * *

"Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé
do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço...
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo...
Vive dentro de mim
a lavadeira
do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d'água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde
de São-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada,
sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
- Enxerto de terra,
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos,
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha...
tão desprezada,
tão murmurada...
Fingindo ser alegre
seu triste fado.
Todas as vidas
dentro de mim:
Na minha vida
- a vida mera
das obscuras!"

sábado, 3 de novembro de 2007

Maurice e Sarah, Justin e Tessa

Londres, 1939, durante a segunda grande guerra o escritor Maurice Bendrix inicia seu mais novo romance com a seguinte frase: “Este é um diário de ódio”.
Essa é uma das cenas do magnífico e perturbador filme de Neil Jordan, “The end of affair” (1999), baseado no livro autobiográfico de Graham Greene, que narra com perfeição o amor interrompido em tempo e estágio prematuros, por razões discutíveis e menores que a força do próprio amar.
São três personagens intensos e paradoxalmente contidos: Maurice, Sarah Miles e seu marido Henry. Li e ouvi muitas opiniões sobre o romance aparentemente
simples, mas dramático em sua essência, vivido por Sarah e Maurice. Qualificar esse amor de irracional, sexualmente libertador e proibido, é de uma simplicidade extrema, muito próxima da estupidez.
Sarah e Maurice se amam de fato, não são apenas amantes.
Henry e Sarah vivem um casamento estéril e morno, mantido por interesses e caracterizado pela hipocrisia, fator predominante nas relações que sobrevivem por este fim. Quando o homem deixa de ser homem e a mulher deixa de ser mulher, e ambos tornam-se parceiros, sócios, aliados, melhores amigos, carentes, dependentes e gratos ao sempre existente manipulador camuflado pela aparente generosidade; irmãos na pseudo-paz e segurança que acreditam experimentar, em detrimento da própria felicidade. Sufocam-se e oprimem-se em relacionamento desprovido de amor.
Em sua limitação e incapacidade de amar o fraco e egoísta Henry é incapaz de libertar Sarah.
Por sua vez, Sarah vive o dilema moral e religioso imposto pelos costumes e crenças de uma sociedade de aparências e não consegue assumir a responsabilidade pela própria vida, nem buscar sua felicidade. Assim, aparentemente resolve-se a questão, com a manutenção da dupla social e o afastamento do amoroso casal. Ao romper de forma inesperada seu relacionamento com Maurice, Sarah não esclarece o motivo e apenas cita a seguinte frase: “Deus reside nos detalhes”.
Eis o momento de maior impacto emocional: Em meio a um bombardeio aéreo a casa onde está o casal é atingida. Sarah acredita que Maurice está morto e desesperada implora a Deus pelo
milagre da vida do amado, em troca do sacrifício supremo de
jamais voltar a encontrá-lo. Dos escombros surge Maurice, mas a barganha com o Divino é mantida e Sarah se afasta. Decididamente, algumas promessas jamais deveriam ser feitas.
Infelizes e vazios procuram continuar suas vidas, mas é crescente a obsessão de Maurice para descobrir a razão do rompimento, apesar do amor que sentem.
Motivos
equivocados, comportamentos confusos, amor desperdiçado.
Li sobre a preciosa e rara química que Sarah e Maurice tinham, a mesma que muitos passam a vida sem saber exatamente o que significa.

O mesmo desperdício de tempo e sentimento é vivido por outro personagem intenso e contido que Ralph Finnes interpreta no sensacional filme “The constant gardner” (2005) de Fernando Meireles, baseado no livro de John le Carré. O diplomata britânico Justin Quayle, que ama e é amado pela mulher, trai a si mesmo ao desconfiar da infundada infidelidade de Tessa. Nesse caso, o vínculo e o forte sentimento do casal são mantidos, mas a desconfiança afasta Justin da realidade vivida pela mulher, impedindo-o de protegê-la contra os interesses político-econômicos de poderosos que dão cabo de sua vida. Com a perda de Tessa e a confirmação de sua lealdade, o atormentado Justin decide agir, sabendo que seu fim será o mesmo de sua mulher.
Sarah e Maurice, Tessa e Justin perderam o que de mais precioso tinham.
Para a platéia resta a certeza da eficácia do bom e verdadeiro diálogo, o fortalecimento da confiança e a sempre pertinente e honesta luta pelo raro amor verdadeiro. “Real love at any cost”.

Cecília Meireles

"Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria

como um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia."

* * *

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada."

* * *

"Homem vulgar! Homem de coração mesquinho!
Eu te quero ensinar a arte sublime de rir.
Dobra essa orelha grosseira, e escuta
o ritmo e o som da minha gargalhada:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Não vês?
É preciso jogar por escadas de mármores baixelas de ouro.
Rebentar colares, partir espelhos, quebrar cristais,
vergar a lâmina das espadas e despedaçar estátuas,
destruir as lâmpadas, abater cúpulas,
e atirar para longe os pandeiros e as liras...

O riso magnífico é um trecho dessa música desvairada.

Mas é preciso ter baixelas de ouro,
compreendes?
- e colares, e espelhos, e espadas e estátuas.
E as lâmpadas, Deus do céu!
E os pandeiros ágeis e as liras sonoras e trêmulas...

Escuta bem:

Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah!

Só de três lugares nasceu até hoje essa música heróica:
do céu que venta,
do mar que dança,
e de mim."

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Elizabethtown



You have only five minutes to enjoy your delicious misery.


Enjoy it. Embrace it. Let it go. Proceed.


Sometimes the road ahead is paved with anything but good intentions.