terça-feira, 2 de março de 2010

Leões, gazelas, peixes e salada

Sem dúvida é melhor, faz o outro crescer, dá trabalho, mas é muito mais produtivo ensinar a pescar, mesmo que todos queiram receber o peixe descamado, limpo, temperado e frito, ou, um pesqueiro produtivo pronto, com peixes saudáveis em abundância e bem treinados para se cuidarem sozinhos. As possíveis diferenças entre um pesqueiro recebido pronto e outro criado com esforço pelo próprio dono, é que algum dia o primeiro pode ter todos os seus recursos esgotados e seu atual proprietário não saber o que fazer, enquanto o segundo, desde que administrado com zelo e eficiência, superará as dificuldades e tenderá ao progresso e ao sucesso constante.
Mas nessa história de pesca e pescador há uma série de circunstâncias, detalhes, particularidades que ora demandam pela real competência de ensinar do bom pescador, ora dependem da capacidade de aprendizado do aspirante a um lugar na ala dos pescadores. Saber pescar não significa saber ensinar a pescar e entre querer aprender a pescar e ter condições para ser um pescador há um universo a ser conquistado. Afinal, o ex-aspirante a pescador pode aprender e ser um excelente padeiro, carpinteiro ou o eterno dependente de outro pescador.
Os simplistas resumem os esforços em três palavras distintas: Competência, perseverança e vocação. Com a mesma simplicidade acrescento a quarta palavra: Necessidade, a mãe postiça da engenhosidade.
O que acontece quando, de repente, o pescador experiente e bem sucedido novamente se torna aprendiz? Ou está cansado demais de tantas pescas, que perdeu o entusiasmo para aprender novas técnicas e assim progredir? O que acontece quando o jovem aprendiz é tão cheio de si, considera-se perfeito, capaz e desvaloriza o ensinamento do bom pescador? Mais uma vez a real vocação para ensinar equilibrará a temporária deficiência do aprendiz, seja ele quem for. Aquele que ensina a pescar  tem natureza paciente e, generosamente, compartilha toda a sua experiência. Reconhece o momento ideal, respeita o aprendiz, sabe suas limitações, recua, avança, está próximo para ampará-lo no primeiro tombo e não sonega o pulo do gato, ou melhor, o pulo do peixe. O bom pescador não desiste do outro.
Na fauna da qual fazemos parte dizem que o leão acorda com a certeza que deve correr mais do que a gazela e a gazela não dorme por conta do treino constante para correr muito mais do que o leão.
Faço minha habitual salada: Gazelas, leões, pescadores e aspirantes, todos podem coabitar em paz, trocar experiências e aproveitar os recursos naturais perenes. Neste campo, somos todos aprendizes.
Acordei com o jeito Esopo de ser.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Abobrinhas rápidas

Primeiro de março, teoricamente começou a brincadeira do ano novo de fato, posterior ao réveillon e ao carnaval. Essa ideia comum, essa condescendente elasticidade da folga nunca funcionou para mim. Não há folga prolongada, nunca houve. E para sentir um teco a mais de ansiedade, eu percebo que a ida ao supermercado ridiculariza de vez nossa precária noção de tempo: 2009 terminou há cinquenta e nove dias, os enfeites e as ofertas de natal foram recolhidas, ainda existem panetones, frutas secas e cerejas a preço de banana e os ovos de páscoa já estão expostos, pendurados bem próximos de nossas cabeças. Decididamente, o comércio acelerou nosso envelhecimento.

Outro dia li artigo sobre a maternidade nos moldes antigos e a repercussão desse movimento. Céus! Um mês e meio após a comemoração dos meus vinte e um anos o pimpolho nasceu e eu tive que esquecer os temores característicos das mães inexperientes e, literalmente, arregaçar as mangas para lavar no tanque previamente esterilizado as fraldas de algodão (o pediatra, que foi meu pediatra, proibiu o uso da máquina de lavar), fervê-las em balde reservado para as roupas do bebê, passá-las, ferver as mamadeiras, os bicos das mamadeiras e tudo mais utilizado para chazinhos, sucos e papinhas. Liquidificador era outro utensílio desconsiderado: Os ingredientes frescos e recém cozidos das papinhas eram passados na peneira previamente escaldada com água fervente. Lembro o quanto eu me sentia esterilizada com tudo isso e também grata pela ausência de chupeta, senão seria uma coisa a mais para ser fervida. Durante quatro meses eu dormia três horas por dia, porque justo no penúltimo ano do curso de Direito, as aulas começaram quatorze dias depois do nascimento do garotão. Lógico que meu leite se foi com todo o cansaço. Os bebês das minhas amigas usavam fraldas descartáveis, papinhas da Nestlé, as mamadeiras e as chupetas caiam no chão e eram reutilizadas sem qualquer frescura, quanto muito uma sopradinha ou o passar da mão da zelosa mãe. Todas as crianças cresceram e todas as mães sobreviveram.
Sabemos que a maioria das mulheres posterga a maternidade em prol da carreira escolhida. A maternidade nos moldes antigos pressupõe mães em tempo integral e pais participativos. Caso contrário, será mais uma forma de aumentar nossa atávica culpa.

Tristeza. Cada vez que leio quem serão os candidatos sinto tristeza e penso no trabalho que terei para ir ao posto eleitoral e não votar. Por favor, não me tomem por exemplo, eu não sirvo pra coisa. Não consigo votar no “menos pior” e não dissocio vida pessoal, histórico dos feitos e vivências, das aspirações políticas dos candidatos. Para mim, o voto no Brasil não deveria ser obrigatório.
Tenho capacidade danada para perceber os recursos utilizados para aprimorar aparências e condutas. Eu não voto em aparências, nem em promessas.

Imagem de Lilian Brassman 

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Esta luz animada e desprendida, vinda de longínqua estrela misteriosa, reflete-se em nosso rosto e acende indescritível claridade

Qual é a dessa petulante alta, magrela, pernas compridas, nariz e bumbum arrebitados, cheia de dengos, capciosa, cinturinha fina, tão fina, por pura inveja apelidada de “cinturão de fogo”, que sem ser convidada resolveu percorrer nosso planeta do sul ao norte? Por que, de repente, as placas de Nazca, a Sul-americana, a Norte-americana, a Eurasiana, a Arábica, a Indo-australiana, a Africana e a Polar ficaram tão alvoroçadas, impacientes, mal educadas, irrequietas meninas salientes, as oito apaixonadas por San Andreas, garoto atrevido e cheio de falhas, mal-humorado, sem eira nem beira, que vive a viajar pelo Alaska, Ásia, Japão, Filipinas, Indonésia, Malásia, Birmânia - como tem fôlego esse rapaz, Índia, península arábica, Turquia, Grécia, Itália e Portugal? O que existe de tão interessante nas “zonas de convecção”, locais de encontros e agito preferidos pelas placas tectônicas e pelas não tão tectônicas assim, para namoros e festas rave, que sempre acabam em atritos, choques e confrontos?
Esses abalos sísmicos acontecem de hora pra outra, sem aviso prévio, sem que ninguém saiba quando nem onde, tampouco pra que lado correr.
Tanta gente estuda, tanto equipamento ajuda, tanto investimento é feito, mas ainda não aprendemos a antecipar e nos proteger do inevitável. Será? Somos terrivelmente limitados.

A diminuta parte do todo

Reencontrei a alegria sentida no tempo das descobertas, do aprendizado inesquecível da infância e reforcei a necessidade de aprender mais, ato contínuo e indispensável, que transmuta a vida tornando-a muito mais rica e plena.
Não há nada capaz de substituir o entusiasmo do conhecimento - eufórico nos primeiros anos e contemplativo nos seguintes - conteúdo de primeira linha do espírito, verdadeiramente, livre.
Adoro aprender, verbo capaz de transpor limites, extinguir preconceitos e excluir barreiras. E o amor, ah, o amor é o conhecimento supremo: O bem e o mal - componentes do ser amado - aprendidos, perdoados, assimilados e amados.
Nesta semana a garota sapeca entrou no site da NASA, admirou as cores dos planetas do nosso sistema e atrevida renomeou o que viu pela frente. Hélios, Hermes, Afrodite, Gaia, Ares, Zeus, Cronos, Uranos, Poseidon e Hades. Os diversos satélites naturais com nomes de semideuses, titãs, titânides e hecatonquiros, parte da intrincada teogonia, gerações iniciadas por Caos.
O Hubble Space Telescope transformador de matizes e descobridor do belíssimo Blue Marble, nosso lugar.
No sistema de Hélios, Hades, filho de Cronos e Réia, mantém a mesma importância.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Lift us into the air that's no problem, but we can't stay in the sky, supported by air, nor can we soar like birds because we have no wings

Outono inverno 2010/2011
Aminaka Wilmont, Blumarine, Christian Siriano, Alexandre Herchcovitch, D & G, Denise Basso, DSquared2, Isaac Mizrahi, Juan Carlos Obando, Just Cavalli, Lino Villaventura, Manuel Bolaño, Mary Katrantzou, PPQ, Michael Kors, Victorio&Lucchino, Pamella Roland, Phillip Lim, Prada, Vivienne Westwood, William Rast

Pra que cara feia? Na vida ninguém paga meia

Conversa íntima

If there is something to desire,
there will be something to regret.
If there is something to regret,
there will be something to recall.
If there is something to recall,
there was nothing to regret.
If there was nothing to regret,
there was nothing to desire.

Vera Pavlova

Pedi tanto, não fiz promessa para não barganhar com Deus, mas pedi e pedi e pedi mais ainda, eu, que sempre peço de forma coletiva: a união e a proteção da família, a cura dos enfermos, luz divina sobre aqueles que necessitam de sabedoria e não peço algo só para mim, que não aproveite ao outro. Acho ruim e mesquinho incomodar o Pai com minhas coisas tão pequenas.  Mas eu acreditava tanto, então, pedi a realização do meu pedido - justo, devido, honesto - e pedi paz, felicidade e que a paz e a felicidade formassem um lindo manto sobre os demais.
Você não crê em Deus? Mas entende o que escrevo, porque alguma fé você deve ter. Não? Nenhuma fé? Cético de tudo? Você acredita no big bang e na criação do mundo através da explosão de inúmeros vulcões, na junção de placas (tectônicas?) e na separação de outras placas com mais vulcões ativos e o gelo a esfriar o ânimo da Terra.
Mas você entende que existem pessoas que professam um só batismo e crêem em um só Deus. Pois faço parte desse grupo fiel. Não, não sou evangélica, carismática, não faço parte de qualquer movimento religioso e respeito todas as religiões e crenças do bem – do mal quero distância, muita distância, infinita distância. Não recorro ao sincretismo tão nosso, tão brasileiro, de quem acende vela na igreja e corre até a moça da banca de ervas, na feira-livre, com a lista encomendada pelo conselheiro do centro de predileção. Acho que isso pode criar confusão nos diversos canais, além de dar mais trabalho: igreja, vela, centro, ervas, moça da barraca de ervas. 
Acendo vela na igreja e lamparina em casa diante dos ícones ortodoxos. Só. Foi assim que aprendi com meus pais e é assim que ensinei ao meu filho. Isso de fé a gente sente e tem.
Se aquele meu raro pedido particular foi atendido? Foi e graças a Deus não foi atendido exatamente do jeito que eu pedi – fui bem clara e racional ao pedir. Eu recebi mais, muito mais. Meu pedido foi atendido do jeito especial que Deus tem de ser do alfa ao omega, de conhecer todos os tempos, de conhecer todas as alma, de querer o melhor para nós e assim corrigir os pedidos baseados em nosso conhecimento parcial e tantas vezes equivocado. Saiba pedir (ou conheça bem o que você pede) não é assim que nos ensinaram? Deus melhorou e atendeu meu pedido e ainda por cima me protegeu de todo o mal, amém.

Is this someone you could take advice from? Who considers the stars? The one who said the truth? Who ate the last biscuit?

Another poet came into being when I saw the life of life,
the death of death:
the child I had birthed.
That was my beginning:
blood burning the groin,
the soul soaring, the baby wailing
in the arms of a nurse.

*        *        *

I broke your heart.
Now barefoot I tread
on shards. 

*        *        *

Immortal: neither dead nor alive.
Immortality is fatal.
Let us embrace. Your arms are
the sleeves of a straightjacket,
a life-belt to stay afloat.
Lyrical poets are cursed:
a caress is always firsthand,
a word rarely.

*        *        *

Learn to look past,
to be the first to part.
Tears, saliva, sperm
are no solvents for solitude.
On gilded wedding bowls,
on prostitutes’ plastic cups,
an eye can see, if skilled,
solitude’s bitter residue.

*        *        *

Perhaps when our bodies throb and rub
against each other, they produce a sound
inaudible to us but heard up there, in the clouds and higher,
by those who can no longer hear common sounds . . .
Or, maybe, this is how He wants to check by ear: are we still intact?
No cracks in mortal vessels? And to this end He bangs
men against women?

*        *        *

Why is the word YES so brief?
It should be
the longest,
the hardest,
so that you could not decide in an instant to say it,
so that upon reflection you could stop
in the middle of saying it . . .

*        *        *

Tenderly on a tender surface
the best of my lines are written:
with the tip of my tongue on your palate,
on your chest in miniscule letters,
on your belly . . .
But, darling, I wrote them
pianissimo!
May I erase with my lips
your exclamation mark?

*        *        *

Whose face and body would I like to have?
The face and body of Nike.
I would fly past all those Venuses,
would have nothing to do with Apollos.
With the wind chill on my shoulder
I would leave behind forever
the hall of plaster copies!    

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Ah! essa necessidade atávica de querer tudo controlar

É ela. Sem dúvida é ela. Ora, pois, acreditamos. Sua total ausência de dúvida é o que de mais duvidoso existe. Quantas vezes você pensou exatamente assim: É ela! E quantas vezes ela deixou de ser.
Mas essa é tão carinhosa, dedicada, dócil, amorosa, alegre, generosa, bem humorada, cuida de mim, cuida das minhas coisas, prepara surpresas no meu aniversário, se preocupa com a minha saúde, melhora a minha alimentação, me incentiva a fazer exercícios, se preocupa com o que eu me preocupo, se interessa pelo que eu faço, acredita que eu sempre tenho razão, aceita minhas manias, não liga para os meus vícios – ela até me acompanha, sente prazer comigo e, sensacional, tem comportamento outdoor e demonstra a todos, sem exceção, nossa vida, o quanto me ama e o quanto eu sou o máximo. É ela.
O discurso interno é sempre o mesmo, as fontes de convencimento também, o terreno é aparentemente seguro, confortável, promissor e, principalmente, controlável, mas passado algum tempo, apesar do cenário todo adaptado de acordo com o gosto e as necessidades dele, alguma coisa acontece que o sufoca, oprime, o faz se sentir vazio, incompleto, infeliz, doente, o encanto se quebra e mais uma vez ela deixará de ser. Há um padrão aí, e uma sequência de escolhas erradas.
Como você dorme? Você faz questão de dormir de um lado específico da cama? Do lado esquerdo ou do lado direito? Você faz questão de dormir do lado que fica próximo à janela ou à porta? Como você arruma sua cama? Quantos travesseiros você precisa para uma boa noite de sono? Uma parte do lençol de cima deve ficar presa em baixo do colchão, ou, o lençol de cima deve ficar solto? Você não gosta do lençol de cima? Você não consegue dormir sem estar coberto pelo lençol e por uma colcha bem leve e suave, afinal, estamos em pleno verão? Você lê antes de dormir? Ouve música ou assiste TV? Você gosta de conversar antes de dormir ou em silêncio relaxa o corpo e a mente? Como é o seu colchão preferido? Cama com cabeceira ou sem? O que está sobre a mesinha ao lado da sua cama? O que você guarda na primeira gaveta do seu criado-mudo? Você faz questão de ter uma garrafa de água mineral por perto? 
Acredito que ninguém seria capaz de escrever sobre todas as suas próprias manias, idiossincrasias e comportamentos padronizados - apêndices acoplados ao corpo e mente ao longo da vida - sem correr o risco de desconhecer (ou não reconhecer) uma boa parte deles, ou, no caso de atento e perspicaz observador de seus próprios comportamentos, ideias e sentimentos, sem correr o risco de procurar imediato auxílio psiquiátrico.
Sou eu, meu corpo de um metro e setenta centímetros e outros eus, da mesma altura, formados por esses apêndices que deveriam tornar a vida muito mais interessante, mas, criam ambientes de conforto, controle e segurança – pseudo-ambientes – a limitar a existência.
As escolhas amorosas, por exemplo, costumam seguir o mesmo padrão: a repetição do que conhecemos e, o pior, do que entendemos controlar.
Nossas manias, idiossincrasias e comportamentos padronizados nos dão a falsa ideia de controle e custamos muito a entender que quanto mais desses apêndices incorporamos à nossa vida, mais seremos controláveis, previsíveis, isolados e, irremediavelmente, vazios.
Analiso bem os meus eus-apêndices e com carinho percebo o quanto, na realidade, são frágeis e com um sopro, vagarosamente, os desintegro até que reste somente o meu corpo, muito mais leve, um pouco mais sábio e inteiramente livre.

Imagem de Lilian Brassman

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Or the abyss is invisible, or there is no abyss until you fall into it

Não foi a primeira vez que o filme The Guitar, 2008, de Amy Redford, passou na TV, mas foi a primeira vez que deixei de lado tempo e realidade para ingressar em outra história com algumas  nuances semelhantes. Enfatizo o toque feminino que faz toda a diferença: As cineastas (Isabel Coixet, Sarah Polley, Julie Gavras, Nora Ephron, Kathryn Bigelow) nos presenteiam com obras de rara sensibilidade, enfoques distintos, complexos e belos. Amy, filha de Robert Redford, tem mais experiência como atriz e acertou em cheio nesse filme difícil de ser classificado. Não é um drama, nem comédia, muito menos um musical ou um filme romântico. Ousada afirmo que The Guitar é um conto de fadas do século XXI. Algumas bruxas bem malvadas representadas pelo emprego maçante, pelo empregador injusto, pelo namorado egoísta e pela enfermidade inesperada. A torre no castelo encantado, sem príncipe, nem fada madrinha. Solidão, sofrimento, lágrimas, descobertas, mudanças e sonhos realizados. O equilíbrio que a vida, de algum jeito, sempre traz.

Complementos: Seu comentário sobre o filme Paris, Je t'aime, Gerana, é encantador, pura poesia, expressão literária da mais alta qualidade a mesclar duas formas de arte. Li e reli seu escrito, que transformou literatura e cinema em arte una.

Confesso que estou com o dvd New York, I love you, 2009, dos memos idealizadores de Paris, Je t'aime, mas o deixo para o final do meu festival pessoal de filmes desta semana de molho, pelo receio de perder o encanto do primeiro. 

Sim, querida Gerana, assisti Les Amants du Pont-Neuf (Os amantes da Pont-Neuf), 1991, de Leos Carax, com Juliette Binoche, uma de minhas atrizes preferidas. Você não achou que também é de difícil classificação? Não é comédia, nem drama, tampouco musical? Um beijo carinhoso em você e na sua filhota querida.

Eat while you can of all this beauty continually replenishing itself, eat and digest and comprehend it

Vida morna? Existência monótona e insossa? Sentimentos controlados, camuflados, represados? Convivências teatrais, não pela dramaticidade, nem pela arte, mas pelas artimanhas para reforçar a suportabilidade inexistente, a convivência meio forçada? Céus! Não! Nananinanão. Nosso tempo é curto demais para isso.

Os nobres sentimentos

Desde a mais tenra infância, fomos ensinados a refrear certos sentimentos. Era feio ter inveja, raiva, ódio, e por aí vai. Mas será mesmo? E quem é a santa que só tem no coração bondades e caridades? Querendo ou não, os sentimentos – bons e maus – surgem, mas nos ensinaram que os piores devem ser afastados em nome já esqueci de quê. E como fingir que eles não existem, como ignorar o que está dentro do peito? Que tal tentar conviver com eles reconhecendo que somos apenas pessoas normais, para o mal e para o bem?
Digamos que sua grande amiga seja maravilhosa, tenha 10 centímetros a mais do que você e 10 quilos a menos. Além disso, é charmosa, inteligente, simpática e generosa – o que, aliás, não é nenhuma vantagem, com tantas qualidades – e consegue seduzir, sem fazer o menor esforço, homens, mulheres e crianças. Que raiva, que inveja. Fazer o quê? Em primeiro lugar, reconhecer o que está sentindo e as razões desses sentimentos. Não será preciso ir longe a ponto de dizer: “Eu te odeio porque você é mais bonita do que eu”. Mas, quando estiver sozinha, pode ficar com toda a raiva do mundo e odiá-la com todas as forças do seu coração – para aliviar o peito e não ter um infarto; isso ajuda a passar. E, quando adorar uma pessoa, deve também ir fundo e dizer que gosta sem nenhum pudor, pois gostar e fingir indiferença não tem a menor graça.
Já reparou como, para certas pessoas, é difícil elogiar? Quem escolher viver honestamente todos os seus sentimentos ai perder alguns amigos, mas, em compensação, os que ficarem vão ser para sempre. De que adianta o telefone tocar o dia inteiro se é preciso fingir que é indiferente para ser querida, para ter com quem ir à praia.
Quando tiver vontade de torcer o pescoço de seu filho adorado – porque isso às vezes acontece –, permita-se reconhecer e, se puder, diga a alguém – uma amiga, o padre ou o analista – quanto gostaria, naquele momento, de esganar a carne da sua carne e o sangue do seu sangue. Depois que a raiva passar, diga a ele, que vai achar muita graça. Assim, você estará abrindo para ele a possibilidade de lhe dizer um dia a mesma coisa, o que vai ser maravilhoso para a amizade de vocês. Porque entre mãe e filho, além do amor, se tiver também amizade, é a melhor coisa do mundo. E convém que ele saiba que, quanto mais próximas as pessoas, mais ocasiões e razões temos para amá-las ou odiá-las, e que isso é normal (e não deve trazer culpas).
Como é bom falar mal de uma pessoa, dizer com carinho que ela não vale nada e terminar confessando que é exatamente por isso que é louca por ela. Quando se ouve uma declaração de amizade dessas, nunca mais se esquece, e ser especial para alguém é tudo que se quer.
E mais: sofrer, chorar, rir, abraçar, beijar, passar noites em claro, de tanta felicidade ou de tanto sofrimento, acordar um dia achando que o mundo é todo seu e no outro não conseguir nem se levantar da cama de tanta tristeza sem nenhum motivo – é isso que diferencia uma vida plena e rica de outra morna e medíocre.
Dinheiro se economiza, mas emoções, sejam de felicidade ou de tristeza, de amor ou de raiva, nunca. Vá sempre fundo – a não ser que você esteja na vida a passeio, o que é uma escolha; uma triste escolha, aliás. Porque todos os sentimentos são nobres – inclusive os piores.

Danuza Leão

Imagem de Lilian Bassman

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Ela disse adeus

Publicado hoje, no reuters Brasil, o texto abaixo nos faz pensar. Ou não? Será que o nosso comportamento mudou tanto? Certamente, não nos referimos somente aos jovens, a twitter - sms – mms - generation, mas a milhões, pessoas das mais diferentes faixas etárias, que perambulam pelo universo composto pelos sites sociais.
O que pensar da justificativa de Sean Wood sobre os foras instantâneos serem "fáceis", "rápidos" e auxiliarem a fuga do desentendimento? Hum! Será que facilidade e rapidez são as melhores qualificações para o fim de um relacionamento amoroso? Fácil e rápido para quem?
Consideremos um relacionamento ruim, pesado, medíocre e infeliz para as duas partes. Findo o sentimento e ansiada a liberdade, então, a rapidez pode ser excelente para a solução. Mas na hora de dividir os CDs, os livros, as fotografias, os móveis, o cão, justo naquele dia a carência emocional marca forte presença e uma das partes pode balançar um pouco, não pode? Pensar melhor, relembrar os bons momentos e, de repente, temer a solidão.
Lidar com sentimentos é complicado. Lidar com sentimentos em tempo de tantas mudanças é muito mais complicado. Os psicanalistas esclarecem sobre o rito de passagem e o período de luto, fundamentais para a assimilação de situações adversas difíceis. Afinal, não somos robôs.
Ela disse adeus através da alteração de seu status no facebook - ela disse adeus e tornou público que está disponível. Como, rapaz, você não passa o dia inteiro na internet (não trabalha, nem estuda) para saber sobre o status do seu próprio relacionamento amoroso?

O status dela no Facebook virou "solteira"? Você levou um fora

LONDRES (Reuters Life!) - Levar um fora digital é um fenômeno que está crescendo, segundo pesquisa, com números crescentes de pessoas preferindo o uso de email e redes sociais na Internet para terminar relacionamentos com seus parceiros.
Mais de um terço das 2 mil pessoas que participaram da pesquisa (34 por cento) disse que havia terminado o relacionamento por email, 13 por cento havia mudado seu status no Facebook sem avisar os parceiros e seis por cento havia divulgado a notícia unilateralmente no Twitter.
Em contraste, apenas dois por cento terminou o relacionamento por mensagens de texto de celular.
O resto havia se separado da forma antiquada através de conversa cara-a-cara (38 por cento) e por telefone (oito por cento).
"Terminar o relacionamento digitalmente se tornará mais comum", disse Sean Wood, diretor de marketing do serviço de relacionamentos DateTheUk para o qual a pesquisa foi realizada.
"Geralmente é mais fácil, mais rápido e evita qualquer desentendimento."

Perguntas da esfinge

Decididamente, este não é um tema a ser tão considerado, nem discutido – alguém descobriu a causa do câncer? Alguém? Como extinguir a fome? Como acabar com o abandono? Você aí? Nada? – mas a vida é feita disso, daquilo, daquilo outro e assim também passa o tempo.
Ao zapear os canais de TV entre a leitura de um livro e o mais novo DVD, nesta fase de quietude e mansidão para que os pontos, por enquanto, fiquem exatamente onde estão (Ai vai uma enquête relâmpago - O que você teme mais: A realização de algum exame médico, ou, o recebimento do resultado?) assisti a leitura feita por Tiger Woods do texto sobre seu arrependimento por ter traído seu casamento e causado dor, etc, etc, etc. Mas o quê ele está fazendo aí? Porque essa exposição? Afinal, do que se trata?
Não sou fanática por golfe, mas lembro bem do aparecimento daquele garoto nos campos, sua concentração e seu sucesso imediato. Precoce. Aos vinte e um anos conquistou seu primeiro Master e manteve o mesmo olhar, a mesma expressão, o entusiasmo contido. Imaginei sua criação rígida, controlada e direcionada – a gente imagina o que quer e o que não quer. E lá estava ele, na frente de jornalistas, câmeras, microfones e de sua mamãe, para a entrevista coletiva monólogo sem possibilidade de qualquer pergunta, só a leitura de um texto, no mínimo, duvidoso.
O que, afinal, fez Tiger Woods? Ah! Então, faltou uma figura típica: a esposa bem arrumada que apóia o marido famoso em sua confissão pública de adultério, preferências e condutas sempre ligadas ao sexo. Se eu tivesse que escolher a melhor figura típica do gênero, confesso que oscilaria entre Jackie O e Hilary Clinton. A primeira, não abriu a boca, nem um piu, sobre o lânguido derretimento público de Marylin Monroe; já a segunda, enquanto Mr. President semi-confessava, demonstrou seu total apoio e anuência através do balanço de sua cabeça enérgica e de seu olhar dúbio, ora pleno de admiração pelo maridão, ora pleno de ódio feminino velado a dizer: Depois eu coloco esse moço na linha e lanço minha candidatura à presidência.
Quantos ensaios, assessores, quantas palavras contadas, cortadas, refeitas, recontadas para confessar em público casos que se tornaram públicos. Mas qual é o nosso interesse nessa história toda? Mr. Woods sofre de algum vício sexual ou é, de fato, mulherengo? Isso o torna pior, ou melhor, jogador de golfe? Os resultados por ele conquistados serão afetados? E quanto ao Mr. Presidente, detentor do poder de definir o destino de milhões de pessoas? São dois pesos e duas medidas ou um peso e só uma medida?
Num mundo no qual a aparência é mais estimada do que o conteúdo e valores principais são esquecidos, confesso que me senti meio perdida com a importância conferida a essa história e, ao mesmo tempo, sem saber como responder as seguintes perguntas:
- Você confiaria num médico mulherengo?
- Você confiaria num advogado ou num juiz que sofre de compulsão sexual?
- Você gostaria que seu namorado, marido, companheiro convivesse com aquele melhor amigo, hedonista ao extremo e voltado exclusivamente à busca pelo sexo oposto (tentei não repetir a palavra mulherengo)?
- Você aceitaria o casamento de sua filha com aquele Don Juan Casanova?

Imagem de Joe Tan - figura da ópera chinesa.

Complemento: Obrigada, Gerana. Muito obrigada.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Some of the good performances of the last decade

Hoje, The New York Times Magazine publicou o vídeo The Best Performances of the Decade, com os depoimentos de Sandra Bullock, Jeff Bridges, Julianne Moore, Jake Gyllenhaal, Carey Mulligan, Woody Harrelson, Morgan Freeman, Christopher Waltz, Sam Worthington, Vera Farmiga, Tobey Maguire, Colin Firth, Zoe Saldana e George Clooney, sobre as melhores interpretações dos últimos dez anos. É interessante a análise que cada depoente faz sobre a razão de sua escolha. Enjoy.

Imagem de Lilian Bassman

I keep on dying because I love to live

The free bird leaps
on the back of the wind
and floats downstream
till the current ends
and dips his wings
in the orange sun rays
and dares to claim the sky.

But a bird that stalks
down his narrow cage
can seldom see through
his bars of rage
his wings are clipped and
his feet are tied
so he opens his throat to sing.

The caged bird sings
with fearful trill
of the things unknown
but longed for still
and is tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom

The free bird thinks of another breeze
an the trade winds soft through the sighing trees
and the fat worms waiting on a dawn-bright lawn
and he names the sky his own.
But a caged bird stands on the grave of dreams
his shadow shouts on a nightmare scream
his wings are clipped and his feet are tied
so he opens his throat to sing

The caged bird sings
with a fearful trill
of things unknown
but longed for still
and his tune is heard
on the distant hill
for the caged bird
sings of freedom.