terça-feira, 10 de março de 2009

Feito um pedaço de mim

Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão. Caio Fernando Abreu

Passei por tanta coisa, não por valentia ou escolha, e sempre mantive meu jeito, minha crença, coerência, sem me tornar melhor nem pior, e segurei todas as conseqüências e quando senti que era tempo de contar as experiências, contei as experiências, para que assimilassem a possibilidade de sobreviver a essas e outras situações e tocar a vida em frente, da melhor forma, para que valha a pena.

Uma condição homogênea, sempre presente, imutável é o contato imediato com filho para que ele aprenda e se prepare cada vez mais para a vida. Afinal, amor incondicional e ensinamento formam a melhor herança, a que não tem preço.
Para lidar com o que fica de tudo que vivemos, e sempre fica alguma coisa, aprendi a pedir ajuda e no momento certo entrei na casa gostosa da vila, com frescor árvores altas e floridas, e confiei e segui direito a receita e aprendi os nomes corretos de algumas coisas, pessoas, situações – o nome correto de tudo é importante - e confirmei que verdade continua sendo verdade; que entre o branco e o preto existem inúmeras tonalidades, todas as cores, algumas lindas outras nem tanto e isso não é uma metáfora nem serve como escusa para jogar como se quer com a honestidade, o respeito, o amor; que cada um tem seu jeito e que alguns jeitos tem nomes nem sempre lisonjeiros e cada vez que vou lá, aprendo mais.
Entendi que observar-se é importante até mesmo para corrigir a rota, deixar de lado sentimentos, comportamentos, padrões assimilados que não interessam e não fazem bem e descobrir e descobrir-se e acarinhar-se e respeitar-se e, principalmente, amar-se, além de alimentar minha alma para que ela se expanda e esteja em tudo o que faço, nos laços mantidos, no viver. Se a alma não estiver inteiramente envolvida, até beijo fica ruim. Quero conhecer tribos de pessoas boas e encontrar minha outra tribo, da qual em algum momento me perdi e uni-la à tribo que mais conheci para, assim, enxergar-me nos sorrisos e nos olhares intuídos.

eu sou como eu sou

pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto

segunda-feira, 9 de março de 2009

Sossego


Poema de Paulo Leminski e ilustração de Patricia Toyama

Me sirve y no me sirve

La esperanza tan dulce
tan pulida tan triste
la promesa tan leve
no me sirve

no me sirve tan mansa
la esperanza

la rabia tan sumisa
tan débil tan humilde
el furor tan prudente
no me sirve

no me sirve tan sabia
tanta rabia

el grito tan exacto
si el tiempo lo permite
alarido tan pulcro
no me sirve

no me sirve tan bueno
tanto trueno

el coraje tan docil
la bravura tan chirle
la intrepidez tan lenta
no me sirve

no me sirve tan fria
la osadía

si me sirve la vida
que es vida hasta morirse
el corazon alerta
si me sirve

me sirve cuando avanza
la confianza

me sirve tu mirada
que es generosa y firme
y tu silencio franco
si me sirve

me sirve la medida
de tu vida

me sirve tu futuro
que es un presente libre
y tu lucha de siempre
si me sirve

me sirve tu batalla
sin medalla

me sirve la modestia
de tu orgullo posible
y tu mano segura
si me sirve

me sirve tu sendero
compañero.

Mario Benedetti

Imagem obra de Gustav Klimt

domingo, 8 de março de 2009

Se-lo


Poesia de Alice Ruiz e ilustração de Patricia Toyama

Inspiração feminina





































































Janela que abre


Poesia de Alice Ruiz e ilustração de Patricia Toyama

Três mosqueteiros



Chamam de clássico o jogo de futebol entre dois times rivais, com torcedores mais rivais ainda, que acontecerá logo mais à tarde, na cidade paulista de Presidente Prudente.
“Só torcemos contra um único time: o rival”, abobrinhas que ouvi de alguns idiotas espalhados por aí.
Pois, sou filha de corinthiano e mãe de corinthiano e tomei emprestado para mim o desenho que Ziraldo fez para homenagear a mulher corinthiana, esta mulher corinthiana, que não assiste aos jogos, que não conhece o nome de todos os jogadores, que não sabe direito quem é o técnico, que canta apenas o refrão do hino, mas que é capaz de aprender tudo isto em minutos e se tornar especialista em impedimentos, e fica muito feliz com o jeito do filho quando o time ganha.
Minha torcida é tão diferente, que permite o abrigo de dois times bicolores, só por conta da alegria que dão aos mais amados meus.

sábado, 7 de março de 2009

Metamorfose


Poesias de Alice Ruiz e de Paulo Leminski, ilustração de Patricia Toyama

A gérbera

Ela nasceu uma gérbera amarela.
Poderia ter nascido uma violeta azul, um cravo branco, uma jabuticaba, uma amendoeira, um tamanduá, um japonês.
Ma nasceu gérbera, “gênero de plantas herbáceas perenes da família das compostas, dotadas de folhas basais, e flores reunidas em capítulos solitários e multifloros de 10 cm de diâmetro, intensamente coloridos, e cujo fruto é aquênio acicular.”
Cresceu ao lado de muitas outras semelhantes a ela e era regada diariamente por um ser de cabeça, tronco e membros (chamado homem).
Alguns dias eram de chuva, outros eram de sol. Quando ventava fraco, ela aproveitava para dançar um pouco, Mas se vinha um vento forte, suas pétalas ficavam muito assanhadas, às vezes até caíam, e ela tinha medo de virar uma flor careca.
Pensava sempre na existência da vida: germinar, brotar, crescer, e depois?
Corria um boato, lá entre as flores, que um dia todas seriam arrancadas para alguma finalidade desconhecida. Uma contava isso para outra, que contava para outra, e já havia se tornado um saber atávico por ali que o futuro das flores cultivadas geralmente é esse. Ir parar numa floricultura, e torcer para, então, terminar seus dias num lugar agradável.
As rosas vermelhas se vangloriavam de serem as campeãs de preferência entre os homens apaixonados.
Os cravos apostavam na possibilidade de um dia desempenhar a função de enfeitar uma lapela em solenidades importantes como casamento, por exemplo.
Casamento, aliás, era um freqüente destino para as flores de laranjeira.
As margaridas, todas risonhas, geralmente eram eleitas para alegrar ambientes.
E assim a gérbera ia vivendo, sem saber qual seria seu fim. “É a vida”, pensava ela. Nuvens chovem, raios caem, folhas voam, pedras rolam, árvores dão frutos, pessoas dão flores umas pras outras. Pessoas fazem e acontecem.
E eis que aconteceu do homem que regava a gérbera amarela aparecer, numa manhã, acompanhado de muitos outros homens e um objeto enorme (cujo nome era caminhão, mas esse detalhe as flores ignoravam). Sabiam apenas que quando aquele objeto se aproximava era sinal de que, muito provavelmente, havia chegado o dia delas. Havia mesmo.
Depois de devidamente arrancada, a gérbera amarela viajou por muitas horas, com centenas de colegas, chacoalhando por caminhos (denominados estradas), e experimentou sensações inéditas com correr, subir, descer, virar à direita, ou à esquerda, parar, de repente.
Já era noite quando a viagem terminou. As flores foram retiradas do caminhão, separadas pelo critério –espécies e cores – e colocadas em baldes cheios de água, num lugar que cheirava a flor, como nenhum outro.
O dia havia nascido havia algumas horas quando alguém pegou a gérbera amarela, várias outras, amarelas como ela, mais algumas brancas, e foi amarrando uma por uma com um negócio (arame) até todas formarem um círculo. Parecia até que elas brincavam de roda.
Naquela tarde, no velório de um pai, um filho olhou para a gérbera amarela, no meio das outras todas, e pensou que preferia ter nascido uma flor a ter nascido um menino, quase 33 anos antes.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Rio com água limpa e cristalina

Outro dia, no escritório de amigas, conversamos sobre trabalho e suas melhores formas, trocamos ideias sobre as maneiras mais apropriadas para a apresentação, convencimento, oferecimento de serviços justos honestos diferenciados e de qualidade para suprir as sérias deficiências de um cliente; nós, mulheres, com alguns aspectos de vida comuns, todas com a mesma formação acadêmica, o pensamento de uma a completar o da outra e o que impressiona é a suavidade e a leveza com as quais temas bem duros são tratados. Juntamos o conhecimento, a experiência e a intuição, elementos fantásticos e imbatíveis, no caldeirão em formato de mesa comprida e retangular.
Ao final da reunião de trabalho, na conversa sobre como estamos surgiu o comentário, para mim inédito, que rendeu sonora gargalhada. Foi interessante a bem humorada descrição da fase curva de rio, que atrairia lixo, e mais interessante ainda o procedimento adotado por uma delas para exorcizar de vez a coisa e arrumar o leito do rio para sempre.
Na semana seguinte, no consultório da minha médica xará preferida, agenda cheia e o encaixe entre as consultas que a gentil assistente permitiu – aguardaria a manhã inteira porque precisava mostrar os exames mais recentes e conhecer a melhor medicação - citei a curva, que já era conhecida da doutora, surgiram novas risadas, além dos comentários sobre os benefícios que o novo maravilhoso e benvindo período traz. Ah, liberdade, doce espera.

Mais de quinhentas vezes o mesmo incômodo foi demais e não deixou qualquer saudade. Gosto do melhor jeito de encarar a vida.
Essa leveza séria que não perde a condição de leveza, a suavidade que não retira a forte competência nem reduz a reconhecida capacidade, além do bom humor inteligente são qualidades que só a mulher profissional tem e com coragem e ousadia as demonstra. Mas somente a mulher que domina um leão selvagem por dia – às vezes dois - sem se travestir de homem, nem assumir as características profissionais do homem, tampouco esquecer os significados essenciais de algumas palavras atualmente tão desconsideras no mundo dos negócios.


Crise, é? Pelo amor de Deus reduzam seus oniricos bônus e diminuam seus indecentes gastos, ao invés de demitir tanta gente e fazer com que os remanescentes trabalhem muito mais e cumpram horas extras, super extras.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Amor bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

quarta-feira, 4 de março de 2009

Tempos externo e interno

Quando vou ao supermercado experimento a sensação do ‘já?’.
Foi exatamente o que senti ontem, ao ver os ovos de páscoa pendurados.
É no supermercado que encontro os primeiro sinais do natal (figos secos, nozes, panetones), do carnaval e seus pôsteres, do inverno com o apelo das sopas, da primavera e por ai vai.
Para apreciarmos a natural e encantadora fluidez dos acontecimentos é necessário esquecermos a medição do tempo tal qual a conhecemos hoje, e considerarmos outros parametros bem mais abrangentes e naturais. Este é um dos elementos da leveza, da suavidade e da paz interna.

Imagem obra de Gustav Klimt

terça-feira, 3 de março de 2009

Miscelânea cerebral

Gostaria de entender algo sobre o funcionamento do nosso cérebro, sobre as disfunções e a atuação dos fármacos atualmente tão prescritos pela maioria dos médicos.
Haveria possibilidade de controlarmos as funções cerebrais sem qualquer química? A incapacidade de odiar significaria que existe alguma deficiência nas estruturas cerebrais, ou, seria resultado da educação recebida, do ambiente que crescemos? E a incapacidade de amar?

De acordo com pesquisa inglesa o ódio e o amor deixariam sinais inequívocos no centro de nossas emoções e consciência, o cérebro.
Os resultados do mapeamento das áreas cerebrais teriam demonstrado a existência de padrão semelhante tanto no ódio, quanto no amor, com a desativação do putâmen e da insula. O putâmen localiza-se no córtex cerebral e em conjunto com outras estruturas é o responsável pelo controle do movimento; a insula, localizada no encéfalo, faz parte do sistema límbico, que coordena as emoções e o paladar.
A pesquisa baseou-se na análise individual de homens e mulheres enquanto olhavam fotos de pessoas por eles amadas, de pessoas conhecidas pelas quais não teriam qualquer sentimento e de pessoas por eles odiadas. O efeito provocado pelas imagens dos desafetos teria ativado um conjunto de áreas cerebrais denominadas o ‘circuito do ódio’.
Algumas áreas compreendidas no ‘circuito do ódio’, igualmente, seriam acionadas durante outras atividades: O córtex pré motor, por exemplo, também seria ativado no planejamento e na execução de movimentos e o pólo frontal na previsão das ações de outras pessoas.
Segundo os pesquisadores, a explicação estaria na reação de mobilização do sistema motor que a visão da pessoa odiada causaria, baseada na possibilidade de ataque ou defesa.
Outra estrutura cerebral envolvida no planejamento motor e ativada pelo ódio é o putâmen direito, que igualmente seria estimulado ao sentirmos medo, desprezo e repugnância. Esse padrão cerebral identificado pelos cientistas seria diferente do relacionado ao medo, perigo e agressividade, apesar de haver uma parte do cérebro associada à agressividade, que também seria ativada por todos esses sentimentos. A diferença encontrada entre os efeitos provocados pelo amor e pelo ódio seria o padrão de desativação de algumas regiões cerebrais. No caso do amor, zonas do córtex cerebral relacionadas ao julgamento e à razão seriam desativadas e a explicação justificaria o fato de sermos menos críticos e exigentes em relação à pessoa amada. Porém, ao sentirmos ódio, uma área cerebral ainda mais restrita, em comparação ao padrão observado no amor, seria desativada: Uma pequena região do córtex frontal, e essa desativação, segundo os pesquisadores, estaria relacionada à mudança de atenção com o espaço exterior e a sensação interna, associada à ansiedade.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Calor e pensamentos soltos

Calor. Muito calor. Este calor nos faz mudar hábitos, adequar comportamentos, entender mais o que o corpo necessita. Descansar durante as horas que o calor está mais forte. Não consegue? Então, desacelere o ritmo. E água, muita água.
Água, frutas suculentas e doces, sucos, saladas muito bem lavadas e com os temperos ideais.
Alimento fresco e preparado na hora, que fique mais gostoso se apreciado morno, quase frio. Sorvetes deliciosos encontrados em três lugares especiais desta cidade. Chás refrescantes, aromáticos e mais água. Lavanda aspergida nos lençóis e fronhas para que a sensação de frescor ajude a relaxar. Banhos, quantos quiser por dia, cabelos presos e roupas leves.
Interessante a matéria que li sobre o denominado apartamento ideal para um casal na faixa dos quarenta, cinquenta. Na realidade dois apartamentos vizinhos reformados e transformados num único, com a quebra de paredes e a manutenção dos gostos distintos do marido e da mulher.
A sala de estar dela tem piso diferente da sala de estar dele, que recebeu um canto adicional usado como escritório, enquanto que o canto adicional da sala dela virou saleta de TV.

A decoração é bem diferente nesses quatro ambientes.
A sala de jantar dele tem mesa clara e oval, enquanto que na sala de jantar dela, a mesa é quadrada e cor de laranja.

O banheiro dele todo branco e o dela marrom. Em comum o quarto de hóspedes dele e o quarto de hóspede dela, são decorados com sofás que podem ser usados como camas e possuem estantes para livros. Assim, receberão, no mínimo, dois hóspedes ao mesmo tempo: o dele e o dela.
A parede que separava as cozinhas de cada apartamento foi quebrada, mas as duas pias foram mantidas. Compartilham o mesmo fogão, que foi colocado onde antes estava a parede demolida. Na área de serviço dela ficou o quarto e o banheiro de empregada e na dele adequaram a lavanderia e lugar para passar roupa. As poltronas Wassily, as cadeiras Bertoia e as obras de arte dela na parte dela. As cadeiras Eileen Gray dele, além de suas obras de arte, livros, e discos antigos no lado dele. Decorações tão diferentes, que não parecem ser de uma mesma casa – e de fato não são. Ainda tomaram cuidado para facilitar a reconstrução de duas ou três paredes, caso o feliz casal resolva vender um dos apartamentos ou o dois, separadamente, nunca se sabe. Se quiserem, no tempo que lá viverem e do jeito que tudo organizaram, poderão ficar semanas sem se encontrarem, o que talvez aumente a saudade.
Sou filha única e em nossa casa cada um tinha seu próprio espaço, além de respeito e cuidado com as coisas do outro: jamais sequer toquei no que era dos meus pais, salvo se autorizada, e sei que eles também respeitaram meus pertences.

Do jeito que aprendi jamais me preocupei em mexer no que era de meu marido, namorado ou amigo e por achar fundamental esse comportamento, acredito que não mexam em minhas coisas. Portanto, me qualifiquem de individualista e enalteçam minhas idiossincrasias, como se somente eu as tivesse. Mas as diferenças e o isolamento dos ambientes descritos e fotografados na matéria que li, deixaram a sensação de que o casal mora junto sem morar, portanto, não curte uma das maiores delícias, senão a única verdadeira delícia da convivência a dois.
Neste calor difícil de aturar não há coisa melhor do que andar na chuva. Vestido leve, sandálias, cabelos presos e a chuva a refrescar por fora, por dentro.


Imagem de Doisneau

domingo, 1 de março de 2009

Alice Ruiz

plantei uva para o vinho
para as festas, para as passas
só deu batatas

* * *

mormaço e suor
corta a tarde pelo meio
o cheiro de jaca

* * *

amarelas, vermelhas
folhas novas anunciam
mangas que virão

* * *

casa com telhado
para afastar passarinho
não vira ninho

* * *

pássaro morto
no meio da estrada
carros que voam

* * *

do jeito que as coisas vão
até parecem felizes
comportando tanto impossível
nunca do jeito que são

coisas pelo contrário
pessoas perdem matizes
viram vultos sombras nadas
coisas quando serão?

* * *

mesmo que eu morra
dessa morte disforme
o esquecimento
não lamento

viver ou morrer
é o de menos
a vida inteira
pode ser
qualquer momento
ser feliz ou não
questão de talento

quanto ao resto
este poema
que não fiz
fica ao vento
mãos mais hábeis
inventem

* * *

apaixonada
apaixotudo
apaixoquase

* * *

primeiro verso do ano
é pra você
brisa que passa
deixando marca de brasa

* * *

assim que vi você
logo vi que ia dar coisa
coisa feita pra durar
batendo duro no peito
até eu acabar virando
alguma coisa
parecida com você

parecia ter saído
de alguma lembrança antiga
que eu nunca tinha vivido

alguma coisa perdida
que eu nunca tinha tido

alguma voz amiga
esquecida no meu ouvido

agora não tem mais jeito
carrego você no peito
poema na camiseta
com a tua assinatura

já nem sei se é você mesmo
ou se sou eu que virei
parte da tua leitura

* * *

minuto a minuto
quis um diato
do azul
no teu dia

meu querer
quero crer
azulou
teu dia a dia
tudo
que podia

* * *

pequeno
tinha um pensamento

a selva
quando crescer

em algum lugar
na selva

corre grande
um pensamento

* * *

jamais amei um santo
nem cantei um hino
só quero morar
contígua a um sino
som que continua
desenhando templos

* * *

não vai dar tempo
de viver outra vida
posso perder o trem
pegar a viagem errada
ficar parada
não muda nada
também
pode nunca chegar
a passagem de volta
e meia vamos dar