domingo, 18 de janeiro de 2009

Ressonância nuclear eletromagnética com calda de chocolate

O novo médico especialista pediu ressonância nuclear eletromagnética para entender o que acontece e decidir o que fazer. Até o dia do exame fiz uso de novo antiinflamatório, pomada fitoterápica cheirosinha e bolsa gelada. Sem salto alto, nem ausência total de salto, somente sapatos com saltos de três centímetros – moleza. Além da recomendação expressa de respeitar meu conforto: se doer para.
Marquei o exame para a noite de sexta feira, após o expediente. A única orientação foi o jejum duas horas antes da ressonância. Naquele dia, durante o almoço-piada com as meninas, ouvi comentários sobre crises de claustrofobia, pavor e anestesia para enfrentar a situação. Não me impressionei por que não temo lugares fechados, nem exames diferenciados, desde que me expliquem o que e como será feito. Se eu aprendo o procedimento, ou parte dele, faço questão de colaborar para que o resultado seja bem definido e eficaz.
Ao deixar o escritório, já bem
atrasada, lembraram-me sobre o equipamento de ressonância que pegou fogo, seguido do comentário principal: Bem na hora que uma mulher fazia o exame. Brincadeirinha? Não, aconteceu mesmo. Vi as fotos, acompanhei parte do caso, mas é lógico que eu havia me esquecido desse detalhe até a carinhosa recordação quarenta minutos antes do meu exame.
Questionário de risco preenchido e lá fui eu para o túnel do tempo, apelido carinhoso que dei para aquele aparelho. Olhei a marca, não era a mesma do incendiado. Cumpri o jejum, nenhum lanchinho três horas antes do exame, mas não deixei de beber água. Com o calor que fazia nesta terra, passar sede estava fora de questão.
Estranhei quando me deram protetor auricular. Ah, outra descoberta: Você tem tatuagem? Então, segundo o enfermeiro que me auxiliou, durante o exame você sentirá a área tatuada queimar, mesmo que a sua tatuagem esteja na ponta do seu nariz e a ressonância seja feita no dedão do seu pé. Se queimar avisa, ta. E quem consegue avisar alguma coisa com aquela barulheira toda?
Nada de claustrofobia, anestesia, fogo ou medo. Seu eu senti a pele tatuada queimar? Não. Acho que a tinta que usaram na minha tatuagem não tinha chumbo, ou qualquer outro metal, que costumam misturar para agregar bela arte aos nossos belos corpos (não acredito! você tem tatuagem?!)
O duro da ressonância nuclear eletromagnética – e eu desconhecia esta característica – é o barulho que a máquina faz durante o exame. Parece o som de um bate-estaca incessante e cadenciado localizado a poucos centímetros dos ouvidos. Não adianta protetor auricular, não adianta tentar cantar mais alto, nem deixar seu corpo e realizar viagem astral para Shangrilá com conexão em Timbuctu, que a barulheira continua. Continua e, por incrível que pareça, dá sono e entontece. O quase dormir, estado no qual entrei durante o exame, segundo a biomédica que lá estava, é natural. Será essa a mesma razão que faz com que crianças deitadas em cadeiras ou bancos improvisados, durmam em plena festa super barulhenta, enquanto seus pais, momentaneamente, se esquecem que tem pimpolhos? Será barulho intenso o motivo que deixa os dervixes em transe? Mas eles rodam, rodam e rodam ao som de tambores bate-estacas ritmados, e eu não dei uma rodadinha sequer. Saí do túnel do tempo tonta, sonolenta, desnorteada e com enjôo. Dirigi para casa desse mesmo jeito e cheguei direitinho porque meu anjo da guarda é muito bom, a Paulista é uma reta e tem faixas bem definidas, o carro que ia a minha frente não tinha pressa alguma e seguiu até o final da avenida na pista da direita, bem ao lado da faixa exclusiva para ônibus. Acho que aquele motorista também fez ressonância no mesmo dia. Janela aberta para entrar ar fresco, som suave para aliviar a tensão, algumas orações pelo meio do caminho e cheguei bem. Cansada e bem. Se dirigir, não beba. Se fizer ressonância, não dirija,

Passada a brincadeira entrarei na fase do resultado. E quem sabe qual tipo de folia será.

Imagem de Norman Rockwell

sábado, 17 de janeiro de 2009

António Ramos Rosa

Sem confidências sem visões reveladoras
entro num domínio imediato e sinuoso
Escrevo na penumbra da madeira com um ímpeto animal
Inundo-me de uma luz unânime Sou vosso
Quanto eu escrever que seja o cimo ignorante
do bem-estar Que os braços e os joelhos
digam o vagar que brilha em redondez
Que a atmosfera clara cintile e se condense
nas ondulações do repouso e no fulgor das frases
E que as palavras tenham o murmúrio de arvore
dose de águas vivas e as sombras em sossego
E o vento fragrante que liberta e arrebatarea
vive o gozo de ser um amante iluminado

* * *

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

* * *

Ofício que vem da privação e de um excesso
que pulsa como um ninho que se abrisse ao âmbito
Toda a ignorância saboreia as substâncias escuras
que nascem para a claridade do fundo de si mesmas
O lugar vão tomando a prumo e em densidade
como um arvoredo na brisa de uma ciência branca
E assim todo o trabalho é a penumbra estremecida
em que se aprofunda o centro actual de uma idade antiga
Assim se está na luz das coisas vivas
e através de uma negrura mineral vêem-se os olhos líquidos
quase amarelos ou vermelhos oscilantes
Atónitos no doce movimento
já não somos mais do que a frescura sem idade
que nos dá altura e sombra e insinuação perfeita
de animais na folhagem num alvor de fresca paz

* * *

Eu vi o seu sorriso sob a sombra das folhas
e vi-o adormecer. Senti que mergulhava
em plácidas águas. Um tesouro
fulgurava entre as pedras e os limos.
Que tranquila a paixão, toda silêncio e luz!
Como um grande barco verde a folhagem navegava.
O coração do estio pulsava nas cigarras.
O sorriso do deus era um começo infinito.
O desejo no sono abria-se completo
numa corola de água, fogo e ar.
Os símbolos desfizeram-se em imediatas evidências.
Estávamos no seio da realidade ardente.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Aniversário e amor incondicional

Aniversário de filho é coisa séria. Aniversário de filho adulto, então, requer comportamento especial, sentimento diferenciado.
Dentre os rituais inventados ao longo da vida, mantenho os que fazem bem e não demandam sacrifício. Ritual chato, sem conteúdo e desnecessário, é descartado e esquecido.
Há alguns anos, no aniversário do meu filho, volto no tempo e revivo o dia do seu nascimento, a hora exata de seu aparecimento neste mundo. Esqueço quaisquer incômodos, dores e chatices que todo parto tem e novamente dou à luz minha melhor parte. Confirmo, reafirmo que outro filho não teria e que se me fosse dado escolher o filho que eu queria ter, seria esse mesmo, o que me foi emprestado para parir, criar e fazer por ele o meu melhor; não por que ele seja perfeito, o exemplo de filho que toda a mãe sonha ter, mas porque o conheço e o amo e com ele aprendi o real significado do amor incondicional. Assim, do exato jeito que ele é: Pleno de erros e virtudes, qualidades e defeitos, humano, egoísta, dedicado, simpático, solidário e com especial vocação para agregar pessoas. Com a parte de mim recebida - como, às vezes, me reconheço em você, meu filho, e a parte recebida do pai – como você se parece com seu pai. Lógico que a entonação da voz varia de acordo com a frase dita.
Para você, filhote, desejo o melhor. E que você tenha filhos bem parecidos com você e um tanto comigo, para que você possa ser o paizão que eu imagino que você será, e para que eu possa reconhecer a herança genética que terá em mim o ponto de partida conhecido.

Anomalias e esquisitices

Impossível não pensar em você. De onde veio isso? Não parece, nem um pouco. Letras juntadas à toa, sem conteúdo, sem base, nem verdade.
Pensar é o agir interno que antecede a ação imediata, a realização.
Mas por que escrever isso? E desejar bom ano? Desejar bom ano e retirar o desejo, então? Não é normal. É querer o mal.
O fazer e desfazer o feito, mesmo que o feito seja uma vírgula, um fio de cabelo, um nada no meio do tudo. Ainda mais quando o tudo é nada. Que nada.
Sorri a moça encantada: Obrigada.
Licença. Entre acanhada e educada responde: Desejo o mesmo. Será?


domingo, 11 de janeiro de 2009

Intimate bestiary


If someone wanted to be a tortoise
it would be me:
to fashion from a conical section
the prehistoric hub of my election
lodged in the dorsal spine.

Being a tortoise
has something ideal:
it sports wrinkles from its youth
and in a sense literally real
grows bigger with the years
– more years
more bulk.

Post-matrimonial,
without family ties
once its eggs are laid
like each and every woman
naturally daughter of the moon,
nevertheless
not a single schism
between her and her hearth gods lies.

With all these lows and highs,
for me
who is in me
– without balm pure pressure to go –
it matters little that her progress
on the surface is slow:
that
would give endurance to me
making me able to enter the sea
– that covers two thirds of the world’s
ground –
knowing that if I go down
I gain velocity.

Mirta Rosenberg

Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Voo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem-me, mas devo dizer:
eu
quero o delírio.

Lya Luft

sábado, 10 de janeiro de 2009

Virada do ano

Virada do ano, passagem, torturas comportamentais. Olha lá, aquela moça com blusa vermelha e saia branca; e aquele outro com camiseta amarela e bermuda branca; calcinhas rosadas, uniforme branco. A cor a indicar o desejo, a esperança renovada.
Todos aprendem mandingas e se torna mandatório comer doze uvas e guardar as sementes, comer romã e guardar os caroços, guardar folha de louro e providenciar uma carteira só para as sementes, caroços e folhas armazenadas na virada do ano.
Ansiedades e expectativas que judiam de muita gente.

Na véspera da véspera, da véspera, o trabalho intenso não deu trégua. Realmente, não parecia final de ano, a cidade adoravelmente vazia, leve, feliz. Ao descer a escada para buscar texto impresso veio a dor - e que dor! – e as chatas palavras pronto-socorro. Antiinflamatório, compressa gelada e tala. Tala. Tala coberta pela gaze especial, por que o pé com tala não coube na sandália de couro novinha e moderna que fiz questão de usar naquele dia. Dirigir com o pé acomodado na tala pode ser temerário, mas não mais temerário do que dirigir com dor antes da tala. Com a tala a dor quase cessou, mas ficou a presunção de culpa – ah, querida, não se meta em qualquer acidente, mesmo que você esteja certa, pois a bendita tala cria presunção. Essa mistura de dor e incômodo, com tanta coisa a fazer, e dois dias de licença médica que não considerei, chamaram breve pausa para recompor a coragem e respirar melhor. Café com sonho no lugar de sempre, o pé com tala e gaze direto no chão e o inédito caminhar lento. Fôlego retomado volto escada a cima e mantenho a perna esticada o máximo que consigo. No dia seguinte, tala, chinelos e eu voltamos à mesma escada, no último dia útil do ano.

Réveillon com o mesmo espírito de natal. O mesmo. À vontade, em paz, sem obrigações. Mas o filho queria reunir pessoas, queria festa, tinha razão. Em casa? Com o pé e a tala?
Comportamento padrão desconsiderado. Do mesmo jeito que a cor da roupa a torna uniforme, ou demonstra desejos, a virada do ano na praia tornou-se mania insana. Descer a serra e subir antes, ou depois, conviver com o mundo que resolve seguir o mesmo roteiro, para quê? Foi esse comportamento alterado que resultou em excelente comemoração. Por vinte e dois anos a família da namorada do meu filho passou o réveillon na casa de praia, mas desta vez resolveram mudar a sina e o jantar foi no vigésimo andar de um prédio em bairro alto, sem qualquer prédio na frente, melhor, sem nada que atrapalhasse a incrível vista de 270º desta cidade tão nossa. Os fogos da avenida Paulista à esquerda e tão próximos, à diante os fogos do Ibirapuera, do Morumbi, de outros bairros e todos nós encantados com aquela magia recém descoberta, até mesmo pelos próprios donos da casa que nunca haviam admirado a deliciosa festa de sua varanda, porque cumpriam o ritual de descer a serra e ficar perto do mar. Amigos queridos perto, violão e cantoria, leveza e alegria. Quem quer mais? Quem precisa de mais? Sem prévio planejamento, sem stress nem obrigação, foi o melhor réveillon de muitos, muitos anos.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

As razões que o amor desconhece

Você é inteligente. Le livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes do Ettore Scola, dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine al pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Como um currículo desses, criatura, porque diabos está sem namorado?
Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.
Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do cupido do que por uma ficha limpa.
Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele só escuta Egberto Gismonte e Sivuca. Não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. Ele não tem vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita de boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama esse cara? Não pergunte para mim.
Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou-a para conhecer sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o natal e ela detesta o ano novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.
Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio, nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, ta assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.


Martha Medeiros

Imagem de Charles Sheeler

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Just one simple word



Mocinha e dragão

Muito já foi escrito sobre o filme Factory Girl, de George Hickenlooper, com Sienna Miller no papel de Edie Sedgwick e Guy Pearce como o insuportável Andy Warhol.
Outro dia zapeava pela HBO e vi uma cena em que aparecia o caricato Warhol, o que me fez partir para outra programação, por que sua figura não me agrada, nunca me agradou.
No entanto, semana passada, bem quando resolvi passar um bom par de horas sem nada pensar diante da TV e no aconchego da minha poltrona favorita, Factory Girl foi reapresentado e resolvi que tentaria mudar minha ideia sobre o 'mestre' tão reverenciado da pop art. Reconheço que não fui bem sucedida, ao contrário, confirmei minha aversão e ao final da apresentação chorei um pouquinho por conta da vida desperdiçada, do paradigma tão batido, da pobre menina rica usada e bem judiada.
A garota encantadora, alegre e cheia de energia, que viveu em Paris e para lá levou o artista e firmou o sucesso dele, fez com que ele fosse reconhecido, o que auxiliou a aceitação da arte de Warhol nos
Estados Unidos; que o apresentou à alta sociedade novariorquina e incrementou a venda de suas peças com a simples e mentirosa menção: “mamãe encomendou quatro quadros”, que foi transformada em musa, cultuada vulgarizada e destruída por planejado capricho, aos vinte e poucos anos morreu de overdose. Mesmo após ter voltado à clínica de reabilitação, reassumido sua vida anterior, se dedicado à sua própria arte e se casado com um dos internos do mesmo lugar que tentou largar o vício.
Sem dúvida, a carga foi pesada demais. Sienna Miller comove, Guy Pearce enoja, e um personagem chamado Billy, ninguém menos do que Bob Dylan, perdeu a chance de tornar-se o príncipe valente e único capaz de salvar a mocinha das garras do feioso e esquisito dragão. Triste.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Essências, consequências, paz

Como preencher espaço vazio, aberto, sem conteúdo pela ausência de energia para escrever, ou até mesmo escolher algo que conferisse alguma emoção, alguma graça adicional a esta vida? Fotografias? Imagens? Texto aconchego de Rubem Alves, poesias recém descobertas e plenas de força de Tito Patrikios e de Luis Miguel Nava, que condensou sua breve existência em versos rasgados.
Alexander Pope não poderia faltar nesta fase parecida com o jogo infantil da memória, que revisita a parte ruim, deixada de lado por ser contrária a verbos essenciais como amar. Muitas vezes para prosseguir o amor faz par com o esquecimento, com a memória seletiva. Até porque recordar certas coisas traz gosto ruim, cria ruga, cabelo branco, deixa mágoa e desanda célula em câncer.
Processo semelhante ao da faxina no quarto escuro da bagunça, que toda casa saudável tem, para colocar a coisa em ordem, apesar do medo de encontrar barata e lagartixa. Mas você arregaça as mangas, mantém por perto o inseticida, a vassoura, amarra os cabelos, usa luva de borracha, camiseta de guerra e com ânimo segue em frente.
Há dia certo para faxina, assim como existe o tempo certo para buscar o canto escuro da memória. Não antes, nem depois. E como nosso sábio organismo concentra sua energia para curar alguma doença; poupa a perna ferida e força a outra para que o equilíbrio não se perca; compensa funções, concentrei minha energia e deixei de lado, vazio, aberto e sem conteúdo este espaço cinza claro com letras anárquicas e coloridas.

Foi o tempo do aniversário passado em terra estranha. A virada do ano pessoal em frente ao computador a digitar páginas e mais páginas de relatório transmitido por e-mail, imagens, fatos, dados, pausa para beber água gelada e esticar o corpo, aumentar um pouco o som, molhar o rosto e espantar o cansaço, o calor de outra região, olhar no espelho do quarto de hotel e no meu rosto ver estampado o rosto de minha mãe, lá, idêntico, um rosto sobre o outro, minha face transfigurada na dela, e ela lá, comigo. A rápida reação de espanto e a imediata onda de amor. O amor pode tudo.
Dias corridos, cansativos, quentes, escombros escalados, sol forte sobre a laje semi-destruída, pedaços de vidas, a única pausa para comer frutas, queijo, tomar suco, leite morno com chocolate em pó. Vestir uma camiseta, um short, chinelos de dedo e caminhar na areia daquela praia, daquela praia tão maltratada. A compensação veio no voo de volta para casa, nas nuvens mágicas compostas por matizes incríveis, especiais e belíssimas, na onda de aconchego tão intenso que quase sufoca, na paz – sentir paz em abundância é experiência rara e essencial - na leveza que alimentou a famélica alma para sempre.
Conheci e reconheci-me. Senti prazer em encontrar-me.

Veio mensagem escrita em outra língua, algo sobre organizar reunião com canapés e bebidinhas, reforço de parcerias. Em qual lugar? Quantas pessoas? No máximo cinquenta, certo? Duzentas e cinquenta? Trezentas? Céus! Prazo exíguo e a cada dia a lista aumentava. Endereços desatualizados, telefones, cargos, empresas alterados. Quer dizer que atualmente usam o webconvite? Desculpe, não entendi? Hospedar em site? Servidor limitado, rebelde. Pisar em ovos, não, não pisar em nada. O pouso em terra firme só acontecia na hora de negociar preço, serviço adicional sem aumentar preço, qualidade exigida, confirmada e reconfirmada, bebida importada sem rolha cobrada.
O que fazer? Como fazer? Simplesmente, fazer. Fazer isso e o resto também.
Descobrir novos talentos escondidos dentro de si é muito gratificante. Cansativo e gratificante.

Os dias que antecederam o natal foram corridos, cheios de atividade, nem parecia fim de ano. No natal passado, o segundo sem minha mãe e o primeiro pós câncer, o carinho de amigos que nos queriam perto, para compartilhar a refeição, a alegria como família.
Mas neste natal, neste natal em especial, quis leveza sem obrigação. Não quis presentes, listas, preocupações. Não quis convenções, casa enfeitada, risos e sorrisos sociais, hora definida, padrão. Quis leveza, liberdade, suavidade, conforto e acima de tudo, ficar à vontade. Quis filho e cão perto. Quis as ervas mais frescas e perfumadas – manjericão, alecrim, hortelã, orégano - flor de sal, a mais tenra parte do cordeiro ofertado, não em sacrifício, mas em amorosa refeição preparada com intuição, carinho e todo o tempo do mundo para o cozimento, para ficar pronta em sua própria cadência e hora. Só uma coisa: Percebi que o ânimo, o espírito, o real significado desta abençoada data seria minha missão relembrar. E assim, soprei em casa o espírito do natal que contagiou filho, cão e enfeitou nosso espaço com leveza e luz. As folhas das inúmeras plantas brilharam e refletiram por todo canto matizes mágicas como finos cristais coloridos, e anjos invisíveis nos abençoaram e nos ofertaram divina proteção. O natal também nasce dentro de cada um e se une ao natal do outro, do outro e do outro.

domingo, 5 de outubro de 2008

Loves

"Al love is born within love
grows larger in its belly
spreads into its space, inhabits it
desires permanence, lays claim to time
prevails, enjoys its superiority
and as soon as it is satisfied with its gains
another love is born in its belly
grows larger, spreads into its space
threatens to tear it to pieces.
But sometimes lovers stop
feeding on their adversaries’ flesh
and exchange stone likenesses
that remain unaltered within the surrounding decay
and coexist without pointless hostilities
more or less amicably, like the busts
of rival leaders in cemeteries."

Titos Patríkios

Imagem Norman Rockwell

sábado, 4 de outubro de 2008

A magia da sopa


"Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.
Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...
Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.
Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.A imaginação de Bachelard diz que a matéria também imagina. A água imagina arcos-íris. As sementes imaginam flores e árvores. O mármore imagina ‘Beijos’ (Rodin) e Pietás (Miguel Ângelo). O rios imaginam nuvens (Heládio Brito). As comidas também imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos fálicos, masculinos, infernais. O churrasco precisa de perfurações, cortes, dilacerações. As mandíbulas lutam com a carne. A carne resiste.
Já a sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. Nada é perfurado. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta snob, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...
Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constrói sobre o pressuposto de que as coisas são aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossível ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vêem. O surrealismo, ao contrário, acha que aquilo que os olhos comumente vêem é muito pouco: se olharmos com atenção perceberemos que as coisas são, ao mesmo tempo, o que são e também outras: elefantes se refletem nas águas de um lago como cisnes, cenários compõem o corpo erótico de uma mulher, o corpo de Cristo é transparente e através dele se vêem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo recria o criado.
As sopas são a versão culinária do surrealismo. Tivesse realizado sua vocação primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relações insólitas que o caldo torna possíveis. O caldo da sopa é o meio mágico que junta no caldeirão aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossível catalogar as combinações possíveis: fubá, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, tomate, ervilha, ovo, abóbora, mandioca, cará, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijão, arroz, queijo, azeitona, pão, maçã, abacate, temperos, pimentas, orégano, tandore - uma canja verdadeira não é canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortelã. E é preciso não nos esquecermos que sopa é a única comida que pode ser feita com pedra, como nos é relatado numa das estórias clássicas que se conta para crianças e adultos.
Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.
Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns amigos, às 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa.
Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa..." (Concerto para corpo e alma, p. 69.)

Rubem Alves

Old fashioned way


The demon

"Out of the body
emerges the demon
out of the body
extend
tentacles which
grapple towards the
other body
to suck out glances,
embrace
limbs, quarry entrails,
out of the body
project saliva sperm
sweat-ducts
channels for the
instillation of vaginal
fluids
for the pincers to
open and close, the
joints
to function, and the
otherwise unpaired,
unworldly bodies
to engage like cogs
It’s exactly the same
body
that suckles and
nurtures and restores
some things
and sucks out and
milks and empties
others
and burns up yet
others like a jet of fire
reducing flesh and
bones to ashes
yet without ever
annihilating
memories and
fantasies.
Out of the bodies’
ashes
emerges the demon
again
as painters depicted it
in churches that
haven’t been
completely deserted
the demon with goat’s
legs
forked tongue, red
eyes, snake’s tail
a huge, inflated yet
smooth member
sexless, androgyne
that lurks in all of us
the dog squashed on
the tarmac
its bloody tongue
hanging out
like a red penis after
ejaculation
steaming guts gaping
open
quivering like an
insatiable vulva.
At any moment it may
emerge from within us
fly out of our mouths
with our kisses, our words
our food, our squeals
of pleasure and pain –
the demon we carry
all our years
in a gestation that’s as
endless
and brief as our lives.
At any moment it too
may
break free of us."

Titos Patríkios