domingo, 10 de janeiro de 2010

Fina colcha de retalhos

Para mim bastariam as interpretações de Gena Rowlands e Juliette Binoche, mas Je t’aime Paris (2006), um dos filmes escolhidos para ser revisto durante as férias, traz muito mais. São vinte e um curtas-metragens escritos e dirigidos por vinte e um cineastas diferentes (Ethan e Joel Cohen, Isabel Coixet, Vincenzo Natali, Walter Salles, Daniela Thomas, Gus Van Sant entre outros) ideia original de Tristan Carmé e realização de Emmanuel Benbihy, todos ambientados em Paris.
Especiais destaques para Margo Martindale, impecável no papel da turista solitária; Melchior Beslon, o garoto cego e apaixonado; Miranda Richardson e Sergio Castellitto, o casal que se reaproxima na doença; Catalina Sandino Moreno, a jovem mãe; Rufus Sewell e Emily Mortimer, o casal enamorado que reata graças à intervenção de Oscar Wilde, vivido por Alexander Payne. Fanny Ardant e Bob Hoskins formam um estranho casal, enquanto Nick Nolte e Bem Gazzara renascem das cinzas. Este filme é preciosa colcha de retalhos criada com esmero.
Emmanuel Benbihy também é o responsável pelo filme New York, I Love you (2009), obra realizada por onze cineastas distintos.

No drama


He is just not that into you (2009), de Ken Kwapis, não é um filme sugerido com ênfase e encantamento, mas é boa diversão pelo entrosamento dos personagens, principalmente, das meninas Jennifer Connelly, Drew Barrymore, Scarlett Johansson, Jennifer Aniston e Ginnifer Goodwin.
Baseado no livro He is not that into you: The no-excuses truth to understanding guys, de Greg Behrent, que fez bastante sucesso durante a exibição do seriado Sex and the City (Behrendt foi um dos roteiristas), ao tentar ensinar as desculpas esfarrapadas dos meninos, que praticam a magistral arte da incoerência entre o que dizem e o que realmente fazem.

O filme aborda com ótimo humor os relacionamentos internéticos, o isolamento exagerado, a ausência de contato pessoal, o fascínio dos sites sociais, o medo do envolvimento e o estresse criado pela administração de diversos portais, ao lembrar o quanto era bom lidar apenas com um telefone fixo, uma secretária eletrônica e sua pequena fita cassete.
Os depoimentos de diversas mulheres, que intercalam as cenas, garantem boas risadas e demonstram o quanto somos complexas, sensíveis, crédulas e previsíveis.
Quanto aos meninos, basta aplicarmos a razão: Não, ele não foi atropelado por uma manada de elefantes desembestados, tampouco foi abduzido por alienígenas. O moço não telefonou, porque ele não liga.

Marginal é quem escreve à margem, deixando branca a página para que a paisagem passe e deixe tudo claro à sua passagem


sábado, 9 de janeiro de 2010

Muro fluído que não deixa passar o impuro murmúrio da voz sem luz nem ar


No fim quando as cidades
não forem senão
escombros procura

na morada flagelada
pela água das margens
o espelho derradeiro e interroga:

os lugares perdidos as margens
por que tentas
prendê-los com a água?

A chuva não é novidade nesta época do ano, nem o aumento do índice pluviométrico: Chove e chove muito. Ao consultarmos qualquer site, ou ouvirmos alguma rádio, saberemos as condições meteorológicas para os próximos cinco dias. Não é assim também que fazemos de manhã, ao lermos o jornal? Antes de viajarmos não pesquisamos os aspectos climáticos do local de destino? Ao administrarmos nossa casa, nossa família, não tomamos cuidado com as crianças, com as janelas abertas, com o cão, com as roupas penduradas no varal? Nossos filhos saem de casa com capa, guarda chuva e galochas, protegidos, nutridos, bem orientados e essa é a nossa obrigação, administrar nosso pequeno núcleo familiar, as pessoas, os animais e os bens que o compõem. Nós administramos.
O núcleo se expande e comporta novos círculos concêntricos formados por amigos, grupos, trabalho, sociedade, comunidade, cidade, estado, país, mundo. Esse é o nosso múltiplo cenário. De acordo com nossas atividades nos afastamos do núcleo familiar, mas nossa responsabilidade persiste mesmo se diluída diante de responsabilidade maior, baseada na competência. Somos responsáveis, mas em determinados contextos somos incompetentes visto que o Estado, ente público, avoca para si a ação. É neste contexto que a justiça é aplicada: Evoluímos da lei de talião, olho por olho, dente por dente, para o agente capacitado e investido pelo Estado para dizer o Direito, a jurisdição, e aplicar a lei ao fato concreto. Há exceções como a legítima defesa, o estado de necessidade, mas algumas regras básicas jamais deveriam ser desconsideradas, a exemplo da eficácia e da força: O remédio aplicado não pode ser mais forte do que a doença existente – a defesa corresponde à agressão.
Aos vinte e sete anos comecei a trabalhar e em seis meses gerenciei minha primeira equipe. O desafio foi bom naquele tempo e nas décadas seguintes, sempre a gerenciar pessoas, procedimentos e resultados. No mínimo, três elementos caracterizam o bom administrador: Dedicação, esforço e vocação.
Na década de oitenta eu ficava impressionada com o bom humor de meus amigos cariocas, então habituados a enchentes, que na volta do trabalho estacionavam seus carros sobre as calçadas, entravam em algum bar e jogavam conversa fora até a água diminuir. Hoje, vejo algumas ruas de São Paulo transformadas em nova Veneza e imagino gôndolas adaptadas ao nosso gosto nacional.
Parei de imaginar gôndolas criativas ao ler sobre um bairro localizado na zona leste paulistana, chamado Jardim Romano, que há um mês tem suas ruas alagadas. O que acontece? Aprendi que o rio Tietê e o Córrego Três Pontes estão próximos do Jardim Romano e minha aflição aumenta, tento imaginar pelo que passam seus moradores.
Ora, estamos em época de chuva, certo? Entra ano, sai ano e a quantidade de chuva aumenta, logo, é previsível que tudo isso aconteça. As causas divulgadas variam de acordo com o interesse atingido e vão da ocupação desordenada do solo ao lixo jogado em córregos e bueiros. E? Li que a empresa de água e esgoto da cidade não cobrará dos moradores do Jardim Romano as contas dos meses de janeiro, fevereiro e março e não sei se rio ou se choro.
Que tal fazermos um trato? Apesar da minha experiência muito bem sucedida na administração de pessoas, procedimentos e resultados, eu não tenho a menor vocação para administrar um bairro, uma cidade, um estado, muito menos um país como o nosso; logo, eu não me candidatarei a qualquer cargo da administração pública, mas, em contrapartida, todos que se julgaram aptos a administrar cidades e estados de nosso país, e provaram incompetência, desistirão da atividade pública. É o mínimo.

Imagens pesquisadas na internet, poema de Gastão Cruz

Haverás de despertar, tu também, para a vigília das metáforas, para o sonho da linguagem

É muito fácil, apenas vinte minutos de caminhada sem pressa: Andamos um quarteirão, viramos à direita, descemos rua comprida e estamos no centro de São Paulo, na Avenida Ipiranga, bem próximo à Praça da República, à Rua Barão de Itapetininga, que nas décadas de cinquenta e sessenta era bem elegante.
No começo da Avenida Ipiranga, naquele miolo formado pela Consolação e pela São Luis, está o edifício Copan, uma mini-cidade no centro da cidade com 1.160 apartamentos, projetado por Niemeyer na década de cinquenta (as curvas fluídas e ousadas, criadas por Niemeyer, me emprestaram beleza e leveza nos doze anos de Brasília). Em baixo do Copan está o Bar da Dona Onça, da inovadora Janaína Rueda, a única chef a assumir a utilização da panela de pressão.
O cardápio? Bife a role; muqueca de cação com camarõezinhos, arroz, farofa de dendê e purê de banana; frango com quiabo, arroz, polenta e verdura refogada; fish and chips com maionese de alho; contra filé a cavalo com batata frita; dobradinha com feijão branco, paio e legumes; camarão com chuchu e farofa de ovos; rabada cozida na pressão com polenta e agrião; carne moída refogada com azeitonas e ovo cozido; caçarola de músculo, legumes e arroz.
Parece que esta é a nova onda culinária: Produtos locais, refeições simples e caseiras.

A cozinha de vanguarda perderá terreno, e o cupuaçu é a fruta da vez em 2010. Essas são algumas das modas gastronômicas previstas em estudos recentes e independentes feitos por empresas internacionais, especializadas em avaliar tendências de mercado.
A companhia inglesa The Food People identificou o que caiu de moda e o que vai ser sucesso a partir deste ano. A alta cozinha de Ferran Adrià, por exemplo, está em baixa. "Isso não significa que ela irá desaparecer, mas sim que a cozinha mais simples e com menos intervenções provavelmente será mais 'trendy'", diz o diretor Charles Banks.
Para o mercado norte-americano, analistas da Mintel identificaram seis sabores-chave: cupuaçu, cardamomo, batata-doce, hibisco, água de rosas e condimentos latinos, como o coentro. Esses ingredientes se inserem num contexto de crise global, que reforçou o hábito de comer em casa. "A cozinha caseira está se aperfeiçoando conforme homens e mulheres testam novos temperos e sabores e preparam itens diários de outras maneiras", diz Lynn Dornblaser, especialista em novos produtos da empresa.
Também refletem a preocupação cada vez maior com alimentos saudáveis. O cupuaçu, identificado como "a próxima superfruta", tem como maiores atrativos, segundo o estudo, mais de dez vitaminas e antioxidantes, além de ácidos graxos e aminoácidos essenciais.
Além da versatilidade, a batata-doce é a nova aposta entre os alimentos funcionais, pelo alto teor de fibras, betacaroteno e vitaminas. "É um ingrediente do nosso dia a dia ainda pouco explorado", avalia a chef Roberta Sudbrack. "Suas possibilidades de sabor, do preparo defumado ao cremoso, são sensacionais."
Na esteira dessas previsões, Roberta e outros quatro chefs de cozinha brasileira - Rodrigo Oliveira, Beto Pimentel, Carlos Ribeiro e Mara Salle s- elegeram um ingrediente ou um sabor no qual apostam suas fichas em 2010. Se em 2009 brilharam o mangarito, a priprioca e o queijo da serra da Canastra, nos próximos meses será a vez das favas e dos feijões, das farinhas, das bananas e, também, do coentro.
Apostas do Brasil
- "Estamos descobrindo que o nosso feijão é mais do que o preto e o carioquinha. Estou testando feijões que estouram como pipoca, fazendo purês, saladas, farofas e cozidos. Feijões e favas são saudáveis, nutritivos, baratos e versáteis. Neste ano, quero servir um purê de fava-branca cozida no leite e finalizada com manteiga" - Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó (São Paulo).
- Farinha de Uarini
"Essa farinha-d'água [da mandioca fermentada] é produzida na região de Uarini, no Amazonas. Tem uma acidez particular e é feita por um processo artesanal complexo. Na nossa interpretação do chibé (bebida cabocla feita com farinha-d'água e água), juntei outros aromas (coentro e pimentas frescas amazônicas) e água gelada à farinha. Servido na cuia, tem um apelo extraordinário e apropriado para esse clima quente" - Mara Salles, do restaurante Tordesilhas (São Paulo).
- Flor de coentro-selvagem
"A flor do coentro-selvagem tem um gosto forte e intenso. Gosto de usá-la no meu pesto 'baianês', que leva azeite, a flor machucada, manjericão, gengibre e, no lugar do pinoli, uso o licuri [fruto da palmeira Syagrus coronata], além de uma pimenta híbrida, mais cheirosa que a biquinho. Esse molho, com mais flor e menos manjericão, fica inigualável em peixes" - Beto Pimentel, do restaurante Paraíso Tropical (Salvador).
- Coentro
"É a 'lavanda do Nordeste'. Além de bonito para finalizar pratos, é delicado quando bem usado. Tenho feito algumas pesquisas com coentro em outras receitas que não o peixe, como em temperos de carnes vermelhas, aves e arroz. Neste mês, quero lançar minha torta capixaba ao perfume de coentro" - Carlos Ribeiro, do restaurante Na Cozinha (São Paulo).
- Bananas
Neste ano, vamos nos debruçar sobre as bananas para entender sua composição, da casca à sementinha. Já conseguimos explorar seu açúcar no auge. Isso, com sua gelatina suntuosa e delicada, nos possibilitou preparar um sorvete artesanal sem adição de açúcar. O resultado é de uma pureza e cremosidade ímpares. Mas isso é só o começo" - Roberta Sudbrack, do restaurante Roberta Sudbrack (Rio de Janeiro).
Tendências globais
- Combinações clássicas, ingredientes simples e locais.
- "Comfort food" (coq au vin, lasanha) - Já anunciada como tendência, vai permanecer como uma contrapartida à gastronomia de vanguarda.
- Comida étnica (nos cardápios americanos) - Depois das cozinhas mexicana, chinesa e italiana, é a vez de focar em regiões específicas, como a Toscana e a Carolina do Norte, e em países mais exóticos, como o Brasil e o Marrocos.
- "Digital food" - Lanches pedidos via SMS; petiscos entregues via correio; guia de restaurantes em celulares.
- Várias cozinhas serão modernizadas e interpretadas: cozinha de bistrô, africana, escandinava e coreana.
- Novas variedades de peixes, que não estejam sob ameaça de extinção, como a tilápia no lugar de bacalhau e hadoque.

Texto de Cristiana Couto

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Estar em férias


Estou em férias curtas e quietas para descansar, principalmente descansar, para curtir minha casa, ficar em silêncio, ouvir, ler e fazer o que quero, para nada fazer e conhecer-me melhor.
Férias para ficar encantada com as cores e aromas das tardes de verão após a chuva, o cheiro bom de terra molhada tão perto do centro de São Paulo.
Férias para descobrir rua bem perto da minha e encontrar jasmins, emocionar-me com os jasmins, o perfume preferido da minha mãe. Férias para preparar gostosas saladas e me fartar de folhas verdes, coisas que não como fora de casa.
O celular meio esquecido, sem emails, sem desperdiçar energia, nem pensar. Não faço planos e não cumpro programas turísticos. Não tenho horário, não corro mini-maratonas diárias, tampouco me preocupo com a diversão e o bem-estar dos demais, em detrimento da minha alegria. Não administro vontades e bicos. Não acelero o passo para acompanhar alguma criança, nem caminho vagarosamente para estar ao lado de algum idoso.
Pela primeira vez na vida eu estou realmente em férias.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Para Gerana e seu avô, que a protege







Manolis Anagnostakis

The morning

In the morning
At 5
The dry
Metallic echo
After the loaded trucks
That shattered the doors of sleep.
And the final ‘adieu’ of the day before
And the final steps on the damp tiles
And your last letter
In the arithmetic notebook from your childhood
Like the grill on the small window
Which slides up the parade of the morning’s
Joyous sun with perpendicular black lines.














Kiki Dimoula


A minute's licence

The house a tiny neighbour to the sky.
Nearness’ tendency built so high
on a peak’s open wings like
a lectern that splendour might read the dawning
the meridian the setting gospel of the day.

I go out into the yard. Waiting for me sparkling
with reins saddle harness is the horizon’s wild freedom
that I might mount and galloping tame its verification.
Ah, only gaze and vision managed to ride
this immaterial untamed conquest.
The heavens’ overweening views tumble are dashed
for the unhindered is of the briefest duration.

See how it catches on a stretch of barbed wire
round the property. Low, tame and yet
if you look carefully consider it carefully it divides
my good-morning from the neighbour’s
all day long fanaticising borders quietly arming
the weeds against their brothers.

At night alone the unifying fragrance of night flowers
cuts through it in places and passes
in the demented glow of the fireflies
– glowbums we called them when alive.

Oh, inglorious heroics by volunteer dreams. What’s the point
in encroaching on two inches more of moondust
inheritance left by the summer to its passing.

Let them observe a minute’s licence
those few illiterate widow extensions
that the law doesn’t cover

though no one knows
what hope still holds in store for them.

Summer, Platanos-Aigialeia
















Nikos Fokas 



The Lovers

Oh miserable patrons of the concert hall,
I watch you as you listen to a piano piece
Ostensibly playing it on the arms of your seat
With fingers twisted, aching and arthritic,
Aping, poor wretches, the distinguished soloist
On stage or, further back, the famous composer,
Ostensibly playing the tune, beating the rhythm
Conducting it for all the world with head or foot.

Truth to tell, what frustrated composers or soloists we all are;
And indeed what frustrated lovers
– In spite of all the loves we may have known – ;
Frustrated yes, but not resigned, playing as we do
Into our ripe old age on the arms of our seat
Or even on the wood of our last bed, the same old tune
Like an answer to a dream long unfulfilled
And on matter that fails to respond to our fingers.

When will you have to say yes, to feel the passion of those days, possessing you again

Sonho. Isso é novidade interessante. Normalmente, não me lembro dos sonhos, logo, presumo que não sonho. Atualmente, talvez por dormir melhor, acordo com o sonho bem nítido, quase real. Por sonhar devo interpretar o que sonho? É essa uma das dicas para o autoconhecimento, para entender melhor o que vai pelo inconsciente, quase nada inconsciente? Interpreto e utilizo a razão, considero a intuição e, raramente, se a intuição continua sonolenta ou alerta sobre algo preocupante, busco o significado no Google, que me remete a sites fracos, que repetem os sentidos dos símbolos. Deve ser fácil criar um site desse jeito e copiar o conteúdo de outro site, copiado de outro. Presumo que expliquei o motivo da busca por cartomantes, leitores de búzios, da borra do café, das folhas de chá: É o esforço empreendido para mudar a realidade conhecida ou intuída.
A dúvida surge nos sonhos com pessoas inesperadas, indiferentes, distantes, fora de nosso convívio e pelas quais não nutrimos qualquer sentimento. Talvez existam duas alternativas: Deixar a vida fluir ou analisar ações e pensamentos, lembrar de fatos passados e administrar as teias de aranhas e o mofo de lugarzinhos meio escondidos, não visitados em nossa mente. Como a vida normalmente apresenta duas possibilidades, podemos seguir outro caminho, ou, com espanador e vassoura nas mãos, iniciar a faxina interna. Alerta: às vezes faxinas internas podem doer - ou não, depende do jeito que as encaramos.

Imagem sketch de Saul Steinberg

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

I call to the ash to disarm me, I call upon the ash by its code name: Everything


Eu gosto do itunes para ouvir músicas no PC. É fácil de instalar, gratuito, tem visual e ferramentas interessantes, além de atualizações periódicas. Como a troca do HD foi surpresa não precedida pela cópia dos arquivos, com ele foram todos os dados, inclusive as músicas que estavam no itunes. Ótimo. Em outro texto comentei sobre a forma positiva que encarei o mundaréu de memória livre para guardar descobertas e novidades no PC, mais ainda porque quase todas as músicas também estavam armazenadas no ipod. 27 GB é espaço para muito arquivo, mais ou menos 10 dias, ou, 240 horas de músicas contínuas, sem repetição.
Não sei como as pessoas reagem diante das perguntas que os programas de computador costumam fazer: "Tem certeza que você quer excluir para sempre essas mensagens?" Sim, sim, por favor, não percamos tempo com o "tem certeza", para que eu não mude de ideia e, sentimental até os poros, continue a guardar um monte de tranqueiras. Desta vez a pergunta foi diferente: "Detectamos que as músicas estão arquivadas em outra versão do itunes, você quer sincronizar seu ao ipod ao itunes?" "Sincronizar", ajustar precisamente, criar a simultaneidade: É lógico! Eu quero a sincronização com a volta de todas as músicas ao PC. Esqueceram de explicar que a sincronização é via de mão dupla com destino privilegiado do itunes para o ipod. Em segundos, 240 horas de músicas foram para o espaço das coisas perdidas e lá fazem festa com livros, guarda-chuvas, luvas, chaveiros, caixinhas de comprimidos e porta óculos desaparecidos. É um teste, certo? Querem saber se continuarei positiva, otimista, alegre e capaz de perceber o lado cor-de-rosa da vida, não é? Pois aprendo a organizar melhor os arquivos e em três dias gravei 2130 músicas, com as respectivas capas e sem qualquer duplicidade. Algumas versões foram mantidas: Como escolher entre Agora só falta você da Elis e a versão original da Rita Lee com o Tutti-Frutti? E Corcovado com Astrud Gilberto, acompanhada pelo Stan Getz, da versão da Gal Costa cantando Jobim? Águas de março com Elis, com Tom ou com Elis e Tom? Canto de Ossanha com Elis ou com Vinícius e Baden Powell? Desde que o samba é samba com Caetano ou com Gil? Detour ahead com Monheit, Peyroux ou Holiday (essa é fácil de responder)? Devo preferir Your song de Elton John e apagar a versão de Al Jarreau? Com calma e impressionada com a minha própria organização, trago de volta boa parte das músicas desaparecidas. As vantagens dessa trabalheira? Curtir coisas esquecidas, descobrir coisas novas,  apreciar músicas antes desconsideradas, relembrar dos CDs das meninas gregas que ganharam o mundo e viajar para outro mundo, ao som de Bessie Smith.
Com Callas veio o vigor e a energia que só Callas sabia proporcionar. Inigualável Callas. Nana, em 1962, com produção de Quincy Jones é um encanto especial e a marcante Bessie arremata com Gimme a pigfoot and a bottle of beer, I don't care.    

sábado, 2 de janeiro de 2010

Ano novo anos buscando um ânimo novo


De nada adianta calcular o ângulo entre nós e o centro da terra, de nada nos aproveitara, tu e eu, centros de irregular gravitação


O que você fez na semana anterior ao ano-novo? E durante a virada?
Você encarou todas as gavetas apinhadas de papéis, tirou tudo dos armários, comprou roupa branca e calcinha cor-de-rosa para encontrar o amor de sua vida em 2010? Ah, além do namorado você também quer paz, mais dinheiro e sorte? Então, você usou quatro calcinhas de cores diferentes? Você correu as lojas para trocar os presentes de natal, do tamanho M para o G? Você fez uma tonelada de promessas, definiu metas, pulou ondas, jogou flores no mar, comeu lentilhas, uvas, romãs, subiu na cadeira e desceu com o pé direito? Respondeu a todos os sms e emails, não importa se spams? Entrou na neura de ter que sair da cidade; ficou no aconchego com a pessoa amada; ficou imaginando o que fazia a pessoa amada; forçou a barra, cobrou mais atitude da pessoa amada; desejou ter uma pessoa amada? Decidiu parar de fumar, emagrecer, viver de salada, fazer exercício, tomar litros de água? E ser mais gentil, isso também você decidiu? Ficou deprimido, ansioso, entristecido? Encheu-se de esperança no primeiro segundo do ano-novo? Céus! Quantas coisas mais fazemos nesse período?

Parei. Afinal, está tudo aqui, dentro da gente e só depende de cada um de nós.

Mais uma vez um único dia de folga na véspera – o da véspera – seguida de mais do que merecidas férias, o primeiro de dois períodos acumulados. A última lida do ano, que desde março passeou por diversas mãos: As iniciais, à época, desencantadas e limitadas, deixaram de agir e trouxeram a barriga para empurrar; as segundas, receosas, também optaram pela barriga e assim fizeram as terceiras e quartas. Quantas barrigas! Mas por que as minhas mãos? Foi por isso que deixei de ir à praia e também trabalhei no dia 31. Por sinal, o dia 31 foi o que mais rendeu pela ausência de interrupção, barulho, conversas, telefonemas, emails. Eu sei que tenho um monte de horas extras a serem compensadas, mas eu queria sair em férias tranquila e em paz. Férias curtas para colocar a vida em dia, fazer exames, curtir a cidade, cuidar de mim.

Passar o reveillon sozinha assusta muita gente, mas eu garanto que depende do jeito que encaramos a vida. Desde o dia 29 eu sinto falta das brincadeiras do cão, das risadas gostosas do filho, mas reconheço que precisava da liberdade de curtir minha casa, de estar sozinha sem me sentir só. Percebi que era meia-noite ao ouvir o estouro dos fogos de artifício. Da janela encantada vi o céu multicolorido da minha cidade – eu não sabia que estamos tão próximos da grande queima de fogos de São Paulo. Senti o ventinho gostoso da madrugada. Fiquei tão feliz que não ouvi o celular tocar tantas vezes. Com o congestionamento do serviço de telefonia móvel só consegui retornar as ligações mais tarde, mas isso também faz parte. Dormi como há tempos não dormia.

aprende a falar – diz
a rosa: escreve de noite
e que o meu múltiplo sol
te guie inúmeros
os caminhos. põe-te numa sala
com a luz apagada
onde chegue acesa
a de uma outra, e
frágil,
ao papel que para ela
voltas. Então falas
das paixões, da pétala
que cai no interior
do coração
e navega na sombra do
sangue, de assombro em
assombro.

Imagem de Saul Steinberg, poema de Manuel Gusmão

Rapidelas prosaicas


Semanas curtas, a cidade em outro ritmo e do Natal ao ano-novo pequeno pulo, meio piscar de olhos.
No Natal, como eu pretendia, a ausência total de estresse, de pressão, do massacrante ter que. Um único dia de folga na véspera – o da véspera – e o compasso de acordo com o cansaço. Os amigos queridos compreenderam e respeitaram minha necessidade de tranquilidade.
Preparei com prazer o jantar do dia vinte e quatro e compartilhamos a refeição em paz e harmonia. Sei que meu filho e eu estamos em fase de treino, de aprendizado: Ele se prepara para a vida e a família que construirá, enquanto eu aprendo a viver com mais propriedade, a reconhecer a importância de detalhes fundamentais. O almoço do dia vinte e cinco ficou por conta do garotão, a receita por ele pesquisada na internet, deliciosa surpresa e a superação das expectativas.
Talvez esse tenha sido nosso último Natal assim, em paz, sem correrias, sem dúzias de presentinhos, sem os chatos sorteios de amigo-secreto, sem bagunça nem mesa comprida para que todos tenham lugar. Quem sabe nos próximos Natais os filhos do filho façam a verdadeira festa.

Domingo de manhã, a namorada do garotão telefonou para avisar que a avó havia falecido, o corpo levado ao IML e o pai sozinho aguardava a liberação. Nessas horas eu observo as reações de meu filho para saber o quanto ele está preparado para essas coisas tristes da vida.
O pai da namorada é dinâmico, prima pela praticidade e pelas soluções eficazes e solitárias. Mas, naquele momento, ele também era filho. Entre o não desafiar a solitária atitude e a solidariedade, prevaleceu a segunda opção e o garotão voltou no final da tarde, para buscar-me e irmos ao cemitério.
Depois, reassumo o papel de mãe e imponho a parada para o necessário alimento seguido de sobremesa doce para tirar o gosto da morte da boca. É assim que os gregos fazem nessas situações: Antes de voltarem para casa comem algo doce.

Na noite de domingo coloquei lençóis de molho na máquina de lavar, que sozinha decidiu não enxaguar, tampouco centrifugar. Não é necessário ser super dona-de-casa para imaginar como ficariam lençóis de molho durante nove dias, a perspectiva ofertada pela atendente do serviço de assistência técnica autorizada: "Técnico, minha senhora, só lá pro dia quatro de janeiro."
Durante a escolha de qualquer eletrodoméstico, não há quem deixe de lado a qualidade do serviço de assistência técnica. Resolvemos persistir e não mudar de marca, apesar de existirem apenas quatro autorizadas em São Paulo, uma delas com serviço de péssima qualidade.
Há um ano e meio, vieram dois técnicos juntos, ambos desonestos e por pouco não caímos no golpe que criaram. À época, a máquina de lavar antiga foi doada. Foi por isso que o garotão ficou bem irritado. Na manhã de segunda-feira liguei para o serviço de atendimento do fabricante, confirmei o telefone das autorizadas, perguntei o preço da visita e quis saber quais poderiam ser as causas da súbita rebeldia da máquina.
Convenci a atendente do serviço autorizado a mandar um técnico no dia seguinte, terça-feira. No segundo telefonema o garotão reduziu o "durante o horário comercial" para o "próximo da hora do almoço."
Eu estava no escritório e meu filho telefonou para comentar sobre o técnico, um senhorzinho simpático, que virou a máquina, abriu a bomba e retirou parte do recheio do edredom que havia rasgado dentro da lavadora (edredom fofinho é cama perfeita para o cão), seguido pelo comentário: "Os técnicos têm preguiça de fazer o que faço e preferem trocar a bomba de água." Como a vida é bela! Dessa vez dependemos de alguém honesto. Para concluir a folia sugeri que meu filho e a namorada preparassem nhoque e curtissem a brincadeira do dia 29 – o nhoque da sorte.
Voltei para casa, a louça lavada, nhoque gostoso na panela e a falta que senti das brincadeiras do cão. Foram todos para a praia e eu quis ficar aqui, chamar o ano-novo no canto e dizer: Esta sou eu. Sei fazer cara feia, também tenho rosto amoroso. Costumo ser corajosa, mas, às vezes, sinto medo. Não sou perfeita e quero estar melhor no final do seu período.

Imagem obra de Seurat

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

O corpo dividido em duas partes fechadas à chave uma na outra, avanço num duplo coração como se fosse ao mesmo tempo num só barco por dois rios


Fico impressionada e encantada com as diversas alternativas existentes para a cura de nosso planeta. Por maltratarmos e desrespeitarmos tanto a Terra, substitui a palavra preservação pela regeneração, pelo movimento salutar. A Terra não guarda ressentimentos, se o homem a respeitar ela o ajudará a livrar-se da pobreza.
Dentre os documentários existentes sobre nosso planeta meu preferido é o dirigido por Renaud Delourme, La terre vue du ciel, por mostrar a devastação e por apresentar soluções viáveis, todas dependentes de nossa ação. Em sua maioria são idéias simples, caracterizadas pela dedicação, pela perseverança e, principalmente, pelo convencimento dos demais: Hortas suspensas, que garantem o sustento de famílias; diversos sistemas para melhorar o aproveitamento da água; plantios apropriados, eficazes e econômicos. Em complemento, a tecnologia utilizada em favor do homem e do planeta com a energia gerada através de fontes renováveis: Energia elétrica criada a partir do lixo doméstico – 30 mil toneladas de lixo podem produzir energia elétrica para mais de duas mil residências por ano; o isolamento do hidrogênio e o lixo produzido por uma cidade podem gerar energia elétrica para movimentar transportes coletivos seguros e rápidos; o maglev, criado através de eletroímãs; captação eficaz de energia solar; fazendas de vento de Tehachapi, deserto de Mojave – 5000 turbinas eólicas produzem 800 milhões kW/hora de eletricidade e suprem as necessidades de 350.000 pessoas por ano e tantas outras ações empreendidas, que protegem o planeta e, aos poucos, nos tornarão independentes das fontes de energia limitadas e poluidoras. Ao mesmo tempo somos os causadores dos problemas e os responsáveis por todas as soluções. Ouvi uma frase que subverte nosso habitual egoísmo: Ao invés de querermos um planeta melhor para nossos filhos, criarmos filhos melhores para o nosso planeta.

Imagens de Yann Arthus-Bertrand, La Terre vue du ciel, do documentário dirigido por Renaud Delourme:"Avec la Terre vue du Ciel je souhaite montrer aux gens la Terre telle qu’elle est aujourd’hui, aussi fidèlement que possible. Ce qui me motive c’est l’impact qu’une photo peut avoir dans le domaine de la protection de l’environnement. La grande nouveauté aujourd’hui, c’est que l’humanité a le pouvoir de modifier son environnement. Aussi, je voudrais que mes photos déclenchent des prises de conscience."

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010


Imagem de Yann Arthus-Bertrand,  La terre vue du ciel,  do documentário dirigido por Renaud Delourme