quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mulher é desdobrável

Desculpe, senhora, mas preciso de silêncio, preciso recuperar energia, preciso de um pouco de paz para seguir em frente e dar conta de tudo no monte de horas que virão pela frente, até este dia acabar. Eu sei, entendo, reconheço seu orgulho por ter filhos formados, entendi que sua filha mais velha tem ciúmes dos irmãos, que sua filha do meio deixa a criança com a senhora para ir trabalhar e que a senhora trata sua neta como filha - se a senhora tivesse ideia do vespeiro que se mete ao tratar mãe e filha como se irmãs fossem - mas ontem voltei do escritório bem tarde, hoje acordei às cinco e meia da manhã para estar aqui, por conta desse exame chato, e a senhora não para de falar um segundinho sequer, nem se cansa de tanto falar. Sim, sim acho que foi seu celular que tocou. Como? Não vai tirar uma folguinha do monólogo para abrir o armário e tirar o celular da sua bolsa? Ai, meu Deus, agora é a descrição da dor do exame por conta do anzol que está em seu peito. Faço o quê? Pronto, chegou mais uma senhora para ouvir seu monólogo e eu poderei encostar minha cabeça na parede e fechar meus olhos, mais uma, duas, três, quatro? A enfermeira fala tão alto, fala alto e é atrapalhada, a atendente anda pelo corredor e o salto alto faz toc toc toc toc toc com percussão, não reconheço bem o som, escola de samba talvez. De repente, formamos um petit comitê de mulheres vestidas com o mesmo avental, modelito padrão, algumas quietas, outras falantes, todas com algum receio, uma das médicas não consegue encontrar a paciente que sumiu e falam meu nome: Nunca antes fiquei tão feliz ao ser chamada para a mamografia.

Imagem de Anabel Veloso, por Francisco Bonilla

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O olhar de Deus pondo nas coisas uma claridade inefável

“O câncer é uma moléstia de perfeita curabilidade, quando tratada a tempo.” Esta frase foi dita em 1933, pelo Professor Doutor Antônio Prudente de Moraes, excelente, vocacional e dedicado médico, neto do primeiro presidente civil do Brasil e casado com a admirável Carmen Prudente.
Em 1934, Antônio Prudente fundou a Associação Paulista de Combate ao Câncer - APCC e a incansável e sempre sorridente Carmen criou a Rede Feminina de Combate ao Câncer - RFCC, formada por voluntárias vestidas com aventais cor-de-rosa. O hospital do câncer da cidade de São Paulo continua na mesma rua, uma travessa da Tamandaré e da Vergueiro, mas o prédio construído com ajuda e doações foi reformado, modernizado e a entrada não é mais feita de vidro sustentado
por ferro pintado de azul. Os lençóis, as roupas usadas pelos pacientes e os brinquedos das crianças com os cabelos raspados, não são mais provenientes das doações feitas pela população da cidade e do Estado de São Paulo, graças ao empenho de dona Carmen e das voluntárias. Era ao hospital do câncer que minha mãe me levava para entregar roupas e brinquedos e era ao mesmo local, que eu levava meu filho para aprender o significado de doar. O sorriso e o carinho de dona Carmen sempre me encantaram e me lembro bem de seu cabelo curtinho e meio azulado, igual ao da minha madrinha Fanny. Carmen Prudente era feita de dedicação, decisão e carinho, assim como minha mãe, que a conhecia e admirava. Essas duas queridas mulheres de estatura baixa, perseverantes e com sorrisos encantadores, vieram ao mundo para fazer verdadeira diferença. Ambas abnegadas e benemerentes, escolheram os filhos que quiseram adotar.
Na década de oitenta a palavra câncer surgiu de forma inesperada e me levou de volta ao mesmo hospital, para buscar vacinas que trouxessem algum alívio para meu pai. À época, através da mesma porta envidraçada com a parte de ferro pintada de azul, as crianças com seus cabelos raspados confirmavam a certeza de que a doença desconhece o que é justo, ou não. Agora, passados vinte e quatro anos da morte de meu pai, e um mês depois da conversa séria que tive com pessoa tão querida, um dos anjos que surgiu em minha vida - me inspirei em você e a bendisse o tempo todo para que sua vida seja plena de amor, saúde, bênçãos e proteção - me enchi de coragem, segurei o temor, fingi que sou forte e fui aprender mais sobre câncer, exames e procedimentos. O amparo, o que me permitiu uma certa leveza e me integrou ao lugar, ao movimento daquele hospital, foram as adoráveis imagens de dona Carmen e seu marido, que enfeitam as paredes do ambulatório feminino, foi rever os aventais com a idêntica tonalidade cor-de-rosa das senhoras voluntárias e com tudo isso, trazer minha mãe de volta, bem perto de mim.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sem limites


Cansaço? Desânimo? Apatia? Ora, existe muito chão pela frente...



Dorothy de Low, 99 anos, Ruth Frith, 100 anos, Olga Kotelko, 90 anos e Reg Trewin, 101 anos, em Campeonato na Australia.
Dorothy joga ping-pong há mais de quarenta anos, competiu em diversos torneiros internacionais e treina com o campeão australiano Paul Pinkewich, idade não identificada.


Imagens de Craig Golding

Cinquentinhas


Na mala a brisa comigo a lua vem e brilha

Às vezes me sinto assim, exatamente deste jeito: Uma garotinha sozinha, que respeita a linha amarela, diante de duas portas a começar alguma jornada.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Mistério columbino

Cristovão Colombo, o famoso navegador genovês, não, Cristovão Colombo, o famoso navegador catalão, irmão de Diego e pai de Hernando, era filho de um pobre tecelão italiano, quer dizer, era filho (legítimo ou ilegítimo - até isso tentam descobrir sobre o descobridor) de um nobre espanhol, iniciou suas atividades marítimas como corsário, fez fortuna, ganhou as embarcações Nina, Pinta e Santa Maria com a condição de se tornar um bom rapaz e, após contato de terceiro grau com seu superior extraterrestre, zarpou direto para a América com o único intuito de proteger os cocoons de venusianos que passavam férias na Terra. Os restos de Colombo, ou melhor, os pequenos pedacinhos de ossos que presumem ser de Colombo, foram da Espanha à República Dominicana, voltaram à Espanha e foram depositados na catedral de Barcelona, de onde sairam para serem examinados em diversos laboratórios super modernos de DNA. O que descobriram? Se considerarmos o vai e volta da urna mortuária do moço e as precárias condições de preservarção dos ossos que podem ser, ou não, dele, além dos ossos exumados de um de seus irmãos e de seu filho, descobriram que o laboratório mais avançado pode não descobrir nada. Mudem todos os livros de história e as perguntas de vestibular. A origem de Colombo é um mistério e talvez ele sequer tenha existido.

Fundamental

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Meu pai dizia que o sono é alimento. Fundamental.

Cartoon

domingo, 11 de outubro de 2009

Rimagem

- Existem pessoas com características próprias, perfeitamente identificáveis, que fazem questão de estar bem em todas as fotos?
- Sim, existem.
- É possível sair bem em todas as fotos, sem exceção?
- Não importa o esforço dedicado, a constante preocupação e cuidado com a imagem, nem o traquejo e o molejo adquiridos ao longo dos anos, ou, o pós-doutorado em manipulação.
Não há fotógrafo desmemoriado,
nem versão avançada do photoshop capaz de fazer com que qualquer pessoa saia bem em todas as fotos.
- Quanto tempo duram as fotos com aparência mais que perfeita?
- Pouco. O tempo exato da ilusão, da ótica.
- Qual é o motivo da constante busca pela autoimagem perfeita?
- Ausência de conteúdo.

La vie en close

Bênçãos e graças - o mundo

Estamos em época tão sofrida, pessoas combalidas, desesperadas, abandonadas, sem qualquer possibilidade de suportar mais, de resistir mais, sem o mínimo para manterem a dignidade que de alguma maneira resiste, persiste, capacita para a manutenção de alguma esperança, algum resquício de força para prosseguir. Não falo somente sobre desumanos e estúpidos conflitos, sobre o injusto preço pago pelos desfavorecidos, sobre o insuportável desequilíbrio de recursos, sobre o lucro desenfreado capaz de garantir gerações futuras e tão covardemente incapaz de ter uma parte, uma pequena parte compartilhada com o próximo, sobre a insaciável ansia de possuir cada vez mais, sobre a falsa garantia que o material - o efêmero material - traz, sobre a falta de caráter, a falta de respeito, a falta de vergonha e a total falta de valores. Não falo somente sobre guerras, sobre desarmonia, sobre a irascível incapacidade de convivência entre os desiguais, sobre as ações ou omissões humanas, individuais, coletivas, governamentais, mas também sobre as ações da natureza sufocada pelo nosso descaso e maltrato, sobre terremotos, tsunamis, furacões, sobre as mudanças climáticas, sobre gerações que merecem, que precisam de paz, de saúde, de alimento e de saber. Não é mais suficiente juntar cacarecos imprestáveis num saco qualquer para posterior depósito em algum lugar, na tentativa de amenizar o peso insuportável do que pensamos, falamos, fazemos e, principalmente, do que deixamos de fazer. Não basta mais pensar no 'fluxo da boa energia', no 'feng-shui' estilizado, na 'disponibilização do velho para garantir a vinda do novo' - até quando entregamos o que não mais queremos somos, continuamos a ser cada vez mais egoístas. (Imagem de Andrew Biraj)


Deixemos um pouco de lado as bobeirinhas, as futilidades, a perda de tempo, que também fazem uma pequena parte da vida, e pesquisemos notícias, relatos, imagens do sofrimento ao redor do mundo. Vejamos nos sites da reuters, BBC, CNN, nos sites que quisermos. Vejamos o que acontece na esquina da nossa rua, na praça perto de nossa casa. É hora de acordar. (Imagem de Carlos Barria - pescadores no Sri Lanka)



Garanto a origem e a veracidade desta parte de fotografia, que representa a união, a dedicação, a abnegação, o altruísmo, a ação humanitária desprendida, imagem que por respeito, amor e consideração não exponho inteira, do jeito que eu a recebi e tanto me emocionou, ao saber sobre essa obra de querida e admirada amiga, que me conhece desde o dia que apareci neste mundo e hoje, na Itália, feliz e casada com engenheiro construtor, faz parte de associação que ameniza o sofrimento na África central: Em Burundi, seu marido constrói uma escola primária e um jardim de infância. Eles não ofertam conhecimento, tijolos e cimento, mas a melhor parte das muitas bênçãos e graças que receberam ao longo da vida.



Follow the women, pesquisem, conheçam. Ideias que podem fazer diferença. Alguma diferença. A tão necessária diferença.

Cães

O cão de casa, que de imediato identifica quando não estamos bem, dorme no chão, ao lado do enfermo, do triste, do deprimido, anda atrás de nós por toda a casa e somente se afasta, por segundos, para beber água ou esticar o tronco no seu canto preferido da sala, enquanto dormimos. Que nos recebe com genuína e entusiasmada alegria. O cão que não abandona sua vigília e late não apenas se dizemos alguma palavra num tom mais alto, mas se pretendemos dizer alguma palavra num tom mais alto e áspero - nos bota em ordem este pacífico cão - uma mini-draga diante do alimento, com infinita vontade de comer acompanhada pela autentica e comovedora cara de pidão, deste cão. Pois o cão de casa pode ter o alimento que mais gosta e quer à sua disposição, mas não se aproximará, sequer o tocará, se não estivermos perto, se não compartilharmos com ele o sagrado momento da refeição. Nosso irracional cão.

Você já reparou nos cães que acompanham pessoas que vagueiam pela rua? Os cães não abandonam os humanos.
Imagem de Doisneau

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A estrela cadente me caiu ainda quente na palma da mão

No final da tarde de quinta, direto do trabalho, fui ao consultório da minha médica. Uma hora e meia de consulta, olhos, ouvidos e mente interessadas prestaram atenção em cada palavra dita e analisaram comportamento e reações. Com base nas informações anteriores e nas recentes - ela conhece seus pacientes! - veio a nova hora do aparelhinho de pressão seguida de orientação direta, assim por mim interpretada: Está na hora de ouvir a opinião de especialistas e recomeçar a mini-maratona. Segunda orientação direta: Você ficará de repouso. Comentamos sobre leituras e ela, mãe de dois pequerruchos e com a agenda do consultório cheia, só tem tempo para ler livros de medicina para estar sempre atualizada. Foi por isso que lembrei de Asclépios, Ighia e Hipócrates. Saí do consultório amparada, orientada e considerada. Não me senti perdida, tampouco atendida em poucos minutos, tal qual linha de montagem: Next!
Molho. Pausa. Sono. Tudo para equilibrar: energia, mente, corpo, vida.

Imagem de Doisneau
Hai-kai de Paulo Leminski