
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Para o bem, nunca para causar dano ou mal
Asclépios (deus da cura), filho de Apolo com a mortal Coronide, era hábil cirurgião, foi citado na Ilíada por Homero, tornou-se capaz de curar aos mortos e aprendeu sua arte com o centauro Chiron. Antes de ser considerado deus pela mitologia grega, foi príncipe da Tessália e de seu casamento com Epione nasceram suas filhas Ighia (protetora da saúde), Panakea (protetora da cura) e seus filhos Telésforo (protetor da convalescença) e Poladira (médico dos exércitos). Nas estátuas que o representam, Asclépio tem seu braço direito apoiado sobre um cajado no qual uma serpente está envolta, assim, fica mais fácil entender o juramento de Hipócrates (considerado o pai da medicina, nascido na ilha de Kós, em 460 a.C., décimo-nono descendente de Asclépios, que acreditava na importância da mo
deração para uma vida sã: a harmonia entre a mente sã e o corpo são) e o símbolo da medicina:
“Eu juro, por Apolo médico, por Asclépio, Ighia e Panakea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem comprom
isso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substancia abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os hom
ens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."
Asclépios era cultuado principalmente na região do Peloponeso, que tornou-se o centro da medicina antiga, à época, praticada pelos Asclepíades
Os templos que homenageiam Asclépios estão em Epidauro e nas ilhas gregas de Kós e Kythnos, além de Pérgamo, situada na costa da atual Turquia, banhada pelo mar Egeu, próxima à cidade de Smirn e a noroeste da Anatólia (Ásia menor). Pérgamo cons
truída pelo gregos no século VI a.C. era famosa por sua biblioteca - prestigiada e comparara a de Alexandria e tão importante quanto Éfeso, ambas reconhecidas como centros culturais e políticos. No monte próximo ao vale existente ao redor da cidade de Pérgamo, os gregos construíram complexo em homenagem a Asclépio e Ighia, que também incluía um teatro, centro médico e salas de tratamentos e lá, acolhiam peregrinos e enfermos em busca da cura para seus ma
les.
Sob a construção circular há um corredor com aberturas no teto e dessas aberturas os médicos observavam seus pacientes que caminhavam pelo longo corredor e lhes diziam orientações, palavras de encorajamento e cura, através da indução. Ao final do corredor existem outras construções.
A atmosfera, a calma e a paz sentidas no templo de Ighia são especiais. Fazem bem.
deração para uma vida sã: a harmonia entre a mente sã e o corpo são) e o símbolo da medicina:“Eu juro, por Apolo médico, por Asclépio, Ighia e Panakea, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas, cumprir, segundo meu poder e minha razão, a promessa que se segue: Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte; fazer vida comum e, se necessário for, com ele partilhar meus bens; ter seus filhos por meus próprios irmãos; ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la, sem remuneração e nem comprom
isso escrito; fazer participar dos preceitos, das lições e de todo o resto do ensino, meus filhos, os de meu mestre e os discípulos inscritos segundo os regulamentos da profissão, porém, só a estes. Aplicarei os regimes para o bem do doente segundo o meu poder e entendimento, nunca para causar dano ou mal a alguém. A ninguém darei por comprazer, nem remédio mortal nem um conselho que induza a perda. Do mesmo modo não darei a nenhuma mulher uma substancia abortiva. Conservarei imaculada minha vida e minha arte. Não praticarei a talha, mesmo sobre um calculoso confirmado; deixarei essa operação aos práticos que disso cuidam. Em toda casa, aí entrarei para o bem dos doentes, mantendo-me longe de todo o dano voluntário e de toda a sedução, sobretudo dos prazeres do amor, com as mulheres ou com os homens livres ou escravizados. Àquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Se eu cumprir este juramento com fidelidade, que me seja dado gozar felizmente da vida e da minha profissão, honrado para sempre entre os hom
ens; se eu dele me afastar ou infringir, o contrário aconteça."Asclépios era cultuado principalmente na região do Peloponeso, que tornou-se o centro da medicina antiga, à época, praticada pelos Asclepíades
Os templos que homenageiam Asclépios estão em Epidauro e nas ilhas gregas de Kós e Kythnos, além de Pérgamo, situada na costa da atual Turquia, banhada pelo mar Egeu, próxima à cidade de Smirn e a noroeste da Anatólia (Ásia menor). Pérgamo cons
truída pelo gregos no século VI a.C. era famosa por sua biblioteca - prestigiada e comparara a de Alexandria e tão importante quanto Éfeso, ambas reconhecidas como centros culturais e políticos. No monte próximo ao vale existente ao redor da cidade de Pérgamo, os gregos construíram complexo em homenagem a Asclépio e Ighia, que também incluía um teatro, centro médico e salas de tratamentos e lá, acolhiam peregrinos e enfermos em busca da cura para seus ma
les.Sob a construção circular há um corredor com aberturas no teto e dessas aberturas os médicos observavam seus pacientes que caminhavam pelo longo corredor e lhes diziam orientações, palavras de encorajamento e cura, através da indução. Ao final do corredor existem outras construções.
A atmosfera, a calma e a paz sentidas no templo de Ighia são especiais. Fazem bem.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Asclépios
“Os deuses não revelaram aos homens todas as coisas desde o começo, mas estes, procurando-as, encontram com o tempo o que lhes é melhor.”“Queres ser médico, meu filho? Essa aspiração é digna de uma alma generosa, de um espírito ávido pela ciência. Desejas que os homens te considerem um deus que alivia seus males e lhes afugenta o méd. Mas, pensaste no que se transformará tua vida?
Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar teu descanso, teu lazer, tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás.
Os pobres, acostumados a sofrer, te chamarão só em caso de urgência. Mas os ricos te tratarão como escravo encarregado de remediar seus excessos: seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados: farão com que te despertes e venhas a toda pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns de sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar desse ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado.
Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conservadores. Agora não poderás descartar aos chatos, aos poucos inteligentes, aos presunçosos, aos desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo de tua profissão te proibirá impedir ou denunciar ações indignas das quais serás testemunha.
Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atendo poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não por tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte de tua roupa, pela aparência de tua casa, pelo número de teus criados pela atenção que dediques às conversas informais e aos gostos de teus pacientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; out
ros se és ateu.
Gostas de simplicidade: terás que adotar a atitude de um profeta. És ativo, sabes quanto vale o tempo. Não poderás demonstrar cansaço ou impaciência: terás que escutar relatos que procedem do começo dos tempos quando apenas se quer explicar a história de uma prisão de ventre. Os ociosos virão ver-te pelo simples prazer da conversa: servirás de escoamento para suas mínimas vaidades. Embora a medicina seja uma ciência incerta, que graças aos esforços de seus discípulos vai adquirindo pouco a pouco, um certo grau de certeza, não te será permitido duvidar, sob pena de perderes a confiança que em ti depositam. Se não afirmas que conheces a natureza da enfermidade, que possuis o remédio para curá-la, o povo te trocará pelos charlatães que vendem a mentira que eles necessitam.
Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam tara sido por sua própria robustez: se morrem fostes tu o culpado.
Enquanto estão em perito, te tratam como a um deus: te suplicam, te exaltam, te enchem de elogios. Apenas começam a convalescer já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários se aborrecem e te denigrem. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem.
Não penses que essa profissão tão dura te tornará um homem rico. Assegura-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivestes os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político.
Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das favelas, os fortes perfumes das prostitutas: terás que palmar tumores, tratar de chagas verde de pus, examinar urina, remexes em escarros, fixar o olhar e o olfato em imundícies.
Quantas vezes em um belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: ainda bem que tive a precaução de não jogar fora. Recordas então que terás que agradecer e mo
strar todo teu interesse por aquela dejeção.
Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas desprovidas de maquiagem, com parte de seus atrativos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para converterem-se em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão.
O mundo te parecerá um grande hospital, uma assembléia de seres que se queixam. Tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas. Assistindo algumas vezes o luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante faz cálculos sobre sua herança.
Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão: e sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido, se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar à luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhastes até o final; se anseias conhecer o homem e penetrar na trágica grandeza do seu destino, então, torna-te médico, meu filho.”
Terás que renunciar à vida privada: enquanto a maioria dos cidadãos pode, terminado o trabalho, distanciar-se dos importunos, tua porta estará sempre aberta a todos. A qualquer hora do dia e da noite virão perturbar teu descanso, teu lazer, tua meditação; já não terás hora para dedicar à família, aos amigos, ao estudo... Já não te pertencerás.
Os pobres, acostumados a sofrer, te chamarão só em caso de urgência. Mas os ricos te tratarão como escravo encarregado de remediar seus excessos: seja porque têm uma simples indigestão, seja porque estão resfriados: farão com que te despertes e venhas a toda pressa, logo que sintam alguma moléstia. Terás que te mostrar interessado pelos detalhes mais comuns de sua existência; terás que lhes dizer se devem comer carne de boi ou peito de galinha, se lhes convém andar desse ou daquele modo. Não poderás ir ao teatro nem ficar doente: terás que estar sempre pronto a acudir, quando chamado.
Eras rígido na escolha de teus amigos. Procuravas o convívio de homens de talento, de almas delicadas e de bons conservadores. Agora não poderás descartar aos chatos, aos poucos inteligentes, aos presunçosos, aos desprezíveis. O mal feitor terá tanto direito à tua assistência como o homem honrado: prolongarás vidas nefastas e o sigilo de tua profissão te proibirá impedir ou denunciar ações indignas das quais serás testemunha.
Acreditas firmemente que com o trabalho honrado e o estudo atendo poderás conquistar uma reputação: tem presente que te julgarão, não por tua ciência, mas pela casualidade do destino, pelo corte de tua roupa, pela aparência de tua casa, pelo número de teus criados pela atenção que dediques às conversas informais e aos gostos de teus pacientes. Haverá os que desconfiarão de ti se não usas barba, outros se não procedes da Ásia; outros se acreditas nos deuses; out
ros se és ateu.Gostas de simplicidade: terás que adotar a atitude de um profeta. És ativo, sabes quanto vale o tempo. Não poderás demonstrar cansaço ou impaciência: terás que escutar relatos que procedem do começo dos tempos quando apenas se quer explicar a história de uma prisão de ventre. Os ociosos virão ver-te pelo simples prazer da conversa: servirás de escoamento para suas mínimas vaidades. Embora a medicina seja uma ciência incerta, que graças aos esforços de seus discípulos vai adquirindo pouco a pouco, um certo grau de certeza, não te será permitido duvidar, sob pena de perderes a confiança que em ti depositam. Se não afirmas que conheces a natureza da enfermidade, que possuis o remédio para curá-la, o povo te trocará pelos charlatães que vendem a mentira que eles necessitam.
Não contes com o agradecimento de teus enfermos. Quando se curam tara sido por sua própria robustez: se morrem fostes tu o culpado.
Enquanto estão em perito, te tratam como a um deus: te suplicam, te exaltam, te enchem de elogios. Apenas começam a convalescer já os estorvas. Quando se lhes fala dos honorários se aborrecem e te denigrem. Quanto mais egoístas são os homens mais solicitude exigem.
Não penses que essa profissão tão dura te tornará um homem rico. Assegura-te: é um sacerdócio, e não seria decente que tivestes os ganhos de um comerciante de azeite ou de um político.
Compadeço-me de ti se te atrai o belo: verás o mais feio e repugnante que existe na espécie humana. Todos os teus sentidos serão maltratados. Terás que encostar o ouvido em peitos suados e sujos, respirar o odor das favelas, os fortes perfumes das prostitutas: terás que palmar tumores, tratar de chagas verde de pus, examinar urina, remexes em escarros, fixar o olhar e o olfato em imundícies.
Quantas vezes em um belo dia ensolarado, ao sair de uma representação de Sófocles, te chamarão para atender alguém acometido de cólicas abdominais, que te apresentará um urinol nauseabundo, dizendo satisfeito: ainda bem que tive a precaução de não jogar fora. Recordas então que terás que agradecer e mo
strar todo teu interesse por aquela dejeção.Até a própria beleza das mulheres, consolo dos homens, se desvanecerá para ti. As verás pelas manhãs, desgrenhadas desprovidas de maquiagem, com parte de seus atrativos espalhados pelos móveis do quarto. Deixarão de ser deusas para converterem-se em seres afligidos pela miséria, sem graça. Só sentirás por elas compaixão.
O mundo te parecerá um grande hospital, uma assembléia de seres que se queixam. Tua vida transcorrerá à sombra da morte, entre a dor dos corpos e das almas. Assistindo algumas vezes o luto de quem está destroçado por haver perdido o pai, e outras vezes, a hipocrisia daquele que, à cabeceira do agonizante faz cálculos sobre sua herança.
Pensa bem enquanto há tempo. Mas se, indiferente à fortuna, aos prazeres, à ingratidão: e sabendo que te verás, muitas vezes, só entre feras humanas, ainda tens a alma estóica o bastante para encontrar satisfação no dever cumprido, se te julgas suficientemente recompensado com a felicidade de uma mãe que acaba de dar à luz, com um rosto que sorri porque a dor passou, com a paz de um moribundo que acompanhastes até o final; se anseias conhecer o homem e penetrar na trágica grandeza do seu destino, então, torna-te médico, meu filho.”
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Tattoo
Será que conseguimos parar um tantinho só para percebermos o quanto determinados símbolos e atitudes deixaram de ter peso e significado negativos? O violão, por exemplo. Nas décadas de cinquenta e sessenta, as crianças, os jovens aprendiam a tocar piano, violino, flauta, reco-reco,campainha, mas violão, não. Violão era coisa de desocupado, de boêmio, do povo que ficava no bar e isso no Rio, cidade mais aberta e leve que São Paulo. Dias atrás assisti a documentário sobre a Bossa Nova e lá estavam Carlinhos Lyra e Roberto Menescal a comentar sobre a dificuldade que era, à época, aprender e ensinar a tocar violão. Wanda Sá, que fez um belo dueto com Menescal, ambos com seus violões, confirmou o quanto era difícil ser mulher e ainda por cima tocar violão. Mulher com voz ativa, a sustentar sozinha a família? Hoje, quase quarenta
por cento dos lares brasileiros são sustentados por mulheres (não me baseio somente nos dados do IBGE), mas o que não mudou foi a dupla jornada: A maioria das mulheres cuida da casa e trabalha fora para garantir o sustento. Na década de sessenta Anne Bancroft (Mrs.Robinson) seduziu Dustin Hoffmann em The Graduate (1967), enquanto Jane Fonda, lançada por Roger Vadim como Barbarella (1968), era o auge da sensualidade. Hoje, Barbarella é ingênua e a síndrome Mrs.Robinson ganhou força, espaço e garante a felicidade de muitos casais. Eu gosto dos anos 60 e gosto das mudanças que surgiram nessa década, tão ingênua e lírica, quanto ide
alista e entusiasta. Afinal, foi naquela década que a paz e o amor conviveram com as músicas de protesto e a rebeldia de parte da juventude que oscilava entre a vida natural e a química alucinógena. Os anos 60 fortaleceram a base da década seguinte e me conscientizo que faço parte da última geração que pode escolher entre estudar para ser alguém na vida, ou, construir uma casinha no meio do mato, perto do rio e do mar, para viver em harmonia com a natureza o resto de seus dias. Somos os últimos pais de surfistas, músicos e 'artistas', que passaram ao longe da gana por grana. Fizemos parte do grupo eclético de jovens, cujo futuro foi em parte definido pelo tamanho e pela força empenhada por nossos pais em nossas rédeas. 
Os nascidos no final da década de cinquenta mantiveram vivos os sonhos da casinha no meio do mato, do alimento natural, da liberdade, da paz, da yoga, da busca por respostas em outras dimensões, em outros planetas. Alguns ingressaram ou criaram grupos, cultos e ritos em busca da chamada
"luz universal", do "autoconhecimento", da busca pela "divindade interna", da magia, através das folhas da ayahuasca, de ervas, do kambo. Eu não sei se foram as músicas, a doutrina repetida, o barato (ou o tremendo bode) que a mistura de determinadas plantas propiciou à alguns jovens da minha geração e os fez acreditarem em "novas revelações", "luzes", "desbloqueios", "corpos sutis" a reforçar, do norte ao sul do país, o sincretismo religioso que semp
re existiu aqui, a junção do espiritismo com a "força" da floresta. Essa era uma das vertentes. A segunda, mais urbana, procurou seu nirvana com o amigo do amigo do amigo, que sempre tinha no bolso o pacotinho fedido de maconha, o pó e outros trecos nada baratos, hoje, consumidos por alguns pais da minha geração e seus filhos, baseados no convencimento de que um cigarrinho de maconha "faria menos mal" do que uma dose de whisky e o cigarro impregnado de câncer vendido na banca de jornal da esquina. Tenho o espírito livre e sei onde é meu lugar, onde me sinto bem e feliz, sei sobre as coisas que eu quis fazer e não fiz, os lugares que eu queria viver, mas não vivi e dou graças a Deus pelos pais que tive, re
sponsáveis, presentes, preocupados, exímios e competentes seguradores das minhas rédeas. Fiz parte da terceira vertente: Os caretas politizados (não entramos em contato com drogas, tampouco fizemos parte de movimentos político-estudantis), jovens multiculturais, leitores e desportistas pelo prazer que a leitura e a pratica de esportes nos proporcionava, plenos de ideias, ideais e, à época, sem sabermos, equilibrávamos as outras duas vertentes com os valores, os sentimentos e a segurança de lares bem estruturados e a ingenuidade natural que ainda nos é tão peculiar. Fizeram-me careta, meus pais, e me ensinaram o prazer das coisas simples pela alegria interna, pela naturalidade para ser e fazer feliz,
sem o trago, sem o gole, sem a fuga e, principalmente, sem a dependência. Dizem que foi na década de sessenta que um tatuador estrangeiro teria se instalado na zona portuária da cidade de Santos e lá teria criado fama. Portanto, no Brasil, há cinquenta anos, a tatuagem era coisa de bandido e de marinheiro. Li que arqueólogos encontraram registros de tatuagens feitas no Egito de 4000 a 2000 a.C. Na Polinésia, Filipinas, Indonésia, Nova Zelândia, a tatuagem estaria ligada à religião, à proteção e também identificaria a qual tribo a pessoa pertencia. Algumas tatuagens serviam para marcar fatos da vida: A primeira caça, a puberdade, o casamento, o nascimento do filho. Consta que os primeiros cristãos, perseguidos pela no
va fé que optaram, reconheciam-se por sinais específicos tatuados em suas peles. Na Idade Média, a igreja Católica Romana teria proibido a tatuagem, por considerá-la vandalismo contra o próprio corpo. Na Segunda Grande Guerra a tatuagem ganhou força com os soldados que tatuavam o nome da amada e também representou o sofrimento dos prisioneiros de guerra. A tatuagem “é uma forma de comunicação não verbal que oferece informação instantânea”. E é permanente.
Tudo o que é permanente ou que causa dependência me afasta. Mas em algum momento da vida surge a necessidade de se tomar determinada decisão e assim foi com a minha tatuagem. Primeiro, foi meu filho que fez a sua tatuagem sem que eu soubesse e mostrou-me o desenho no dia que recebíam
os visita em casa - com isso, ele descartou qualquer surto materno mais enfático. Depois, ele fez a segunda tatuagem e planejava a terceira quando eu voltava para casa, num dia chuvoso de Brasília, e apesar da velocidade mínima, rodei 360º com o carro, atravessei o canteiro entre um poste de luz e uma palmeira e aterrissei na pista contrária. Descarto a aquaplanagem porque a velocidade era bem baixa, considero um acidente comum de pistas molhadas naque
la cidade seca, considero um milagre eu não ter machucado ninguém - o ponto de ônibus estava cheio de gente - eu não ter batido meu carro em outro carro, eu não ter me machucado. Considero outro milagre minha aterrissagem perfeita na pista oposta, apesar do ônibus que vinha em sentido contrário. Agradeci a todos esses milagres com a única tatuagem que tenho,
desenho escolhido no calendário litúrgico greco-ortodoxo daquele ano. Foi divertido ver meu filho no papel de pai, a exigir agulhas novas, tinta de boa qualidade e o cuidado do tatuador, tudo o que eu teria feito se ele tivesse me contado antes de fazer sua primeira tatuagem. A minha tattoo é puro agradecimento e reforça minha fé.
Espalhadas e adotadas por muitos, há tantas pessoas tatuadas a criar nova estética, por vezes de gosto duvidoso. Acho um barato a tattoo de Angelina Jolie da latitude e longitude do nascimento de cada filho e ao mesmo tempo acho exagerada a quantidade de suas tatuagens e a exposição de seus símbolos com roup
as e jóias habillés. Acho estranha a Marilyn Monroe tatuada no braço da bela Megan Fox. A perna tatuada de Drew Barrymore talvez ficasse mais interessante com um belo par de tênis. Considero as tatuagens de Fernanda Young demasiadas em quantidade e colorido. Percebo que Jolie tentou, sem sucesso, apagar algumas tatuagens, presumo da época de Bob Thornton. Tatuar o nome
de amados pode dar trabalho. Enfim, fui mocinha muito bem comportada a vida inteira e tenho uma tatuagem. Talvez faça a segunda, não sei. Não gosto do exagero e do que se aproxima da mutilação. Piercing? Nenhum. Não tenho interesse.
Menina, menina, você tatuou todo o rosto? Assim, não vai encontrar ninguém. Será?
alista e entusiasta. Afinal, foi naquela década que a paz e o amor conviveram com as músicas de protesto e a rebeldia de parte da juventude que oscilava entre a vida natural e a química alucinógena. Os anos 60 fortaleceram a base da década seguinte e me conscientizo que faço parte da última geração que pode escolher entre estudar para ser alguém na vida, ou, construir uma casinha no meio do mato, perto do rio e do mar, para viver em harmonia com a natureza o resto de seus dias. Somos os últimos pais de surfistas, músicos e 'artistas', que passaram ao longe da gana por grana. Fizemos parte do grupo eclético de jovens, cujo futuro foi em parte definido pelo tamanho e pela força empenhada por nossos pais em nossas rédeas. 
Os nascidos no final da década de cinquenta mantiveram vivos os sonhos da casinha no meio do mato, do alimento natural, da liberdade, da paz, da yoga, da busca por respostas em outras dimensões, em outros planetas. Alguns ingressaram ou criaram grupos, cultos e ritos em busca da chamada
"luz universal", do "autoconhecimento", da busca pela "divindade interna", da magia, através das folhas da ayahuasca, de ervas, do kambo. Eu não sei se foram as músicas, a doutrina repetida, o barato (ou o tremendo bode) que a mistura de determinadas plantas propiciou à alguns jovens da minha geração e os fez acreditarem em "novas revelações", "luzes", "desbloqueios", "corpos sutis" a reforçar, do norte ao sul do país, o sincretismo religioso que semp
re existiu aqui, a junção do espiritismo com a "força" da floresta. Essa era uma das vertentes. A segunda, mais urbana, procurou seu nirvana com o amigo do amigo do amigo, que sempre tinha no bolso o pacotinho fedido de maconha, o pó e outros trecos nada baratos, hoje, consumidos por alguns pais da minha geração e seus filhos, baseados no convencimento de que um cigarrinho de maconha "faria menos mal" do que uma dose de whisky e o cigarro impregnado de câncer vendido na banca de jornal da esquina. Tenho o espírito livre e sei onde é meu lugar, onde me sinto bem e feliz, sei sobre as coisas que eu quis fazer e não fiz, os lugares que eu queria viver, mas não vivi e dou graças a Deus pelos pais que tive, re
sponsáveis, presentes, preocupados, exímios e competentes seguradores das minhas rédeas. Fiz parte da terceira vertente: Os caretas politizados (não entramos em contato com drogas, tampouco fizemos parte de movimentos político-estudantis), jovens multiculturais, leitores e desportistas pelo prazer que a leitura e a pratica de esportes nos proporcionava, plenos de ideias, ideais e, à época, sem sabermos, equilibrávamos as outras duas vertentes com os valores, os sentimentos e a segurança de lares bem estruturados e a ingenuidade natural que ainda nos é tão peculiar. Fizeram-me careta, meus pais, e me ensinaram o prazer das coisas simples pela alegria interna, pela naturalidade para ser e fazer feliz,
sem o trago, sem o gole, sem a fuga e, principalmente, sem a dependência. Dizem que foi na década de sessenta que um tatuador estrangeiro teria se instalado na zona portuária da cidade de Santos e lá teria criado fama. Portanto, no Brasil, há cinquenta anos, a tatuagem era coisa de bandido e de marinheiro. Li que arqueólogos encontraram registros de tatuagens feitas no Egito de 4000 a 2000 a.C. Na Polinésia, Filipinas, Indonésia, Nova Zelândia, a tatuagem estaria ligada à religião, à proteção e também identificaria a qual tribo a pessoa pertencia. Algumas tatuagens serviam para marcar fatos da vida: A primeira caça, a puberdade, o casamento, o nascimento do filho. Consta que os primeiros cristãos, perseguidos pela no
va fé que optaram, reconheciam-se por sinais específicos tatuados em suas peles. Na Idade Média, a igreja Católica Romana teria proibido a tatuagem, por considerá-la vandalismo contra o próprio corpo. Na Segunda Grande Guerra a tatuagem ganhou força com os soldados que tatuavam o nome da amada e também representou o sofrimento dos prisioneiros de guerra. A tatuagem “é uma forma de comunicação não verbal que oferece informação instantânea”. E é permanente.Tudo o que é permanente ou que causa dependência me afasta. Mas em algum momento da vida surge a necessidade de se tomar determinada decisão e assim foi com a minha tatuagem. Primeiro, foi meu filho que fez a sua tatuagem sem que eu soubesse e mostrou-me o desenho no dia que recebíam
os visita em casa - com isso, ele descartou qualquer surto materno mais enfático. Depois, ele fez a segunda tatuagem e planejava a terceira quando eu voltava para casa, num dia chuvoso de Brasília, e apesar da velocidade mínima, rodei 360º com o carro, atravessei o canteiro entre um poste de luz e uma palmeira e aterrissei na pista contrária. Descarto a aquaplanagem porque a velocidade era bem baixa, considero um acidente comum de pistas molhadas naque
la cidade seca, considero um milagre eu não ter machucado ninguém - o ponto de ônibus estava cheio de gente - eu não ter batido meu carro em outro carro, eu não ter me machucado. Considero outro milagre minha aterrissagem perfeita na pista oposta, apesar do ônibus que vinha em sentido contrário. Agradeci a todos esses milagres com a única tatuagem que tenho,
desenho escolhido no calendário litúrgico greco-ortodoxo daquele ano. Foi divertido ver meu filho no papel de pai, a exigir agulhas novas, tinta de boa qualidade e o cuidado do tatuador, tudo o que eu teria feito se ele tivesse me contado antes de fazer sua primeira tatuagem. A minha tattoo é puro agradecimento e reforça minha fé.Espalhadas e adotadas por muitos, há tantas pessoas tatuadas a criar nova estética, por vezes de gosto duvidoso. Acho um barato a tattoo de Angelina Jolie da latitude e longitude do nascimento de cada filho e ao mesmo tempo acho exagerada a quantidade de suas tatuagens e a exposição de seus símbolos com roup
as e jóias habillés. Acho estranha a Marilyn Monroe tatuada no braço da bela Megan Fox. A perna tatuada de Drew Barrymore talvez ficasse mais interessante com um belo par de tênis. Considero as tatuagens de Fernanda Young demasiadas em quantidade e colorido. Percebo que Jolie tentou, sem sucesso, apagar algumas tatuagens, presumo da época de Bob Thornton. Tatuar o nome
de amados pode dar trabalho. Enfim, fui mocinha muito bem comportada a vida inteira e tenho uma tatuagem. Talvez faça a segunda, não sei. Não gosto do exagero e do que se aproxima da mutilação. Piercing? Nenhum. Não tenho interesse.Menina, menina, você tatuou todo o rosto? Assim, não vai encontrar ninguém. Será?
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Difusão, correção e qualidade
Hoje em dia, as pessoas que precisam checar um nome ou uma data tendem a recorrer à Wikipedia. Para a minoria que ainda não sabe do que se trata, a Wikipedia é uma enciclopédia online constantemente escrita e reescrita por seus usuários. Em outras palavras, se você buscar um verbete como "Napoleão" e perceber que há alguma informação incompleta ou incorreta, você pode se registrar no site, editar o texto e salvar a versão correta na base de dados.Naturalmente, isso permite que algumas pessoas irresponsáveis e mal intencionadas disseminem informações falsas, mas os milhões de usuários também podem atuar checando uns aos outros. Se alguém alterou o texto sobre Napoleão Bonaparte, mudando o lugar de sua morte para Santo Domingo em vez de Santa Helena, outros iriam imediatamente corrigi-lo (e eu acredito que depois que várias pessoas entraram com processos de calúnia contra a Wikipedia, um tipo de conselho editorial foi estabelecido para exercer controle sobre as mudanças que são difamatórias). Nesse sentido, a Wikipedia confirma as teorias do filósofo norte-americano Charles Sanders Peirce, de uma comunidade (científica) que através de um tipo de homeostase elimina os erros e legitima novas descobertas, continuando assim a carregar o que ele chamou de tocha da verdade.
Mas, embora esse controle coletivo mantenha a acuidade do texto sobre Napoleão, será que fará o mesmo para um João da Silva? Para dar um exemplo, vamos observar o texto sobre uma pessoa que é um pouco mais conhecida do que João da Silva, porém menos famosa do que Napoleão - em outras palavras, eu mesmo. Há algum tempo eu corrigi o texto sobre "Umberto Eco" porque ele continha informações falsas. Entre outras invenções, estava escrito que eu sou o mais velho de treze filhos. Isso é verdade no caso do meu pai, não no meu. Todas as vezes que a curiosidade me levou a checar o texto sobre mim, encontrei mais nonsense, então desisti.
Recentemente, alguns amigos informaram-me que o texto da Wikipedia dizia que eu havia me casado com a filha de meu ex-chefe, o editor italiano Valentino Bompiani. Isso não é nem um pouco difamatório, mas no caso de suas filhas - minhas queridas amigas Ginevra e Emanuela - pensarem assim, eu eliminei a informação. Nesse caso não é possível argumentar que isso foi um erro compreensível - como a história dos treze filhos - ou que simplesmente perpetuou um rumor corrente: ninguém nunca nem mesmo pensou que eu poderia me casar com qualquer uma delas. O editor anônimo da Wikipedia havia modificado o texto para disseminar sua fantasia particular, sem checar a infor
mação com nenhuma fonte.
Então, o quão confiável é a informação encontrada na Wikipedia? Quando eu a uso, emprego as técnicas utilizadas pelos acadêmicos profissionais: leio sobre um determinado tópico na Wikipedia e depois comparo a informação com material encontrado em três ou quatro outros sites. Se o fato for confirmado por três fontes diferentes, então há uma boa possibilidade de que seja verdade - mas fique atento para os sites que são parasitas da Wikipedia, porque eles simplesmente repetem os erros.
Outro método é ler sobre o mesmo tópico na Wikipedia, mas em outra língua - se o seu Urdu estiver meio enferrujado, você pode experimentar as versões italiana ou francesa. Se elas forem diferentes, você poderá encontrar a contradição. Isso, por sua vez, fará com que você se levante da escrivaninha e consulte uma enciclopédia impressa, apesar de sua fé convicta no virtual.
Esses são métodos de um acadêmico que aprendeu como descobrir os fatos ao comparar as fontes. E os outros? Os crentes? As crianças que usam a Wikipedia para suas tarefas escolares? Tenham em mente que o que eu escrevi aqui sobre a Wikipedia é verdadeiro para qualquer outro site. Tanto assim que já faz um certo tempo que venho defendendo o estabelecimento de um centro de monitoramento da internet no qual um comitê de especialistas conceituados revisaria e avaliaria os sites por sua confiabilidade e precisão.
Mas vamos considerar outro exemplo, um que não envolva um nome histórico como Napoleão (com dois milhões de entradas no Google), mas o de um jovem escritor que trabalhou na obscuridade até um ano atrás, quando ganhou o Prêmio Strega, de grande prestígio literário na Itália. Estou falando de Paolo Giordano, autor de "The Solitude of Prime Numbers" ["A Solidão dos Números Primos"]. Uma busca por seu nome no Google resulta em 242 mil entradas. Como podemos monitorar todos esses sites?
Pensei em monitorar apenas sites dedicados a um único autor sobre quem estudantes possam buscar informações com frequência. Mas se alguém fizer uma busca pelo nome de Peirce (o filósofo que mencionei no início) a busca resulta em quase um milhão de entradas.
Então temos um sério problema que, por enquanto, não tem solução.
Texto de Umberto Eco publicado no jornal The New York Times
Recentemente, alguns amigos informaram-me que o texto da Wikipedia dizia que eu havia me casado com a filha de meu ex-chefe, o editor italiano Valentino Bompiani. Isso não é nem um pouco difamatório, mas no caso de suas filhas - minhas queridas amigas Ginevra e Emanuela - pensarem assim, eu eliminei a informação. Nesse caso não é possível argumentar que isso foi um erro compreensível - como a história dos treze filhos - ou que simplesmente perpetuou um rumor corrente: ninguém nunca nem mesmo pensou que eu poderia me casar com qualquer uma delas. O editor anônimo da Wikipedia havia modificado o texto para disseminar sua fantasia particular, sem checar a infor
mação com nenhuma fonte.Então, o quão confiável é a informação encontrada na Wikipedia? Quando eu a uso, emprego as técnicas utilizadas pelos acadêmicos profissionais: leio sobre um determinado tópico na Wikipedia e depois comparo a informação com material encontrado em três ou quatro outros sites. Se o fato for confirmado por três fontes diferentes, então há uma boa possibilidade de que seja verdade - mas fique atento para os sites que são parasitas da Wikipedia, porque eles simplesmente repetem os erros.
Outro método é ler sobre o mesmo tópico na Wikipedia, mas em outra língua - se o seu Urdu estiver meio enferrujado, você pode experimentar as versões italiana ou francesa. Se elas forem diferentes, você poderá encontrar a contradição. Isso, por sua vez, fará com que você se levante da escrivaninha e consulte uma enciclopédia impressa, apesar de sua fé convicta no virtual.
Esses são métodos de um acadêmico que aprendeu como descobrir os fatos ao comparar as fontes. E os outros? Os crentes? As crianças que usam a Wikipedia para suas tarefas escolares? Tenham em mente que o que eu escrevi aqui sobre a Wikipedia é verdadeiro para qualquer outro site. Tanto assim que já faz um certo tempo que venho defendendo o estabelecimento de um centro de monitoramento da internet no qual um comitê de especialistas conceituados revisaria e avaliaria os sites por sua confiabilidade e precisão.
Mas vamos considerar outro exemplo, um que não envolva um nome histórico como Napoleão (com dois milhões de entradas no Google), mas o de um jovem escritor que trabalhou na obscuridade até um ano atrás, quando ganhou o Prêmio Strega, de grande prestígio literário na Itália. Estou falando de Paolo Giordano, autor de "The Solitude of Prime Numbers" ["A Solidão dos Números Primos"]. Uma busca por seu nome no Google resulta em 242 mil entradas. Como podemos monitorar todos esses sites?
Pensei em monitorar apenas sites dedicados a um único autor sobre quem estudantes possam buscar informações com frequência. Mas se alguém fizer uma busca pelo nome de Peirce (o filósofo que mencionei no início) a busca resulta em quase um milhão de entradas.
Então temos um sério problema que, por enquanto, não tem solução.
Texto de Umberto Eco publicado no jornal The New York Times
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Nosso lado mulherzinha
Será que existe alguém sem uma pontinha de curiosidade diante do tapete vermelho de festival badalado e do desfile de famosos, que dedica
m tempo e esforço para se apresentarem, alguns poucos minutinhos, diante de flashes de inúmeros fotógrafos? Pois foi no tapete vermelho do festival de cinema de Toronto, que Jennifer Connelly - uma das mulheres mais bonitas do cinema - mostrou a sensibilidade de seus calcanhares machucados pelos sapatos com saltos super-altos, altíssimos, que todas insistem em usar. É bom saber que a belíssima Jennifer tem calcanhares sensíveis iguais aos nossos, ou a algumas de nós. Penélope Cruz, não entendi, deixou de lado o charme e a produção de outras mostras e parecia ter amarrado um tecido sobre o corpo. A baixinha Natalie Portman
não ganharia o prêmio da mais elegante da noite, mas esbanjou charme e Juliane Moore, bem, será que Juliane Moore e as milhões de sardas que a acompanham, sentiram-se bem e à vontade no vestido bufante e um tanto exagerado escolhido para a ocasião? Pelo sorriso meio forçado, pela posição da perna e pelos dedos dos pés esparramados, acredito que não. Acho feio dedos dos pés esparramados em sandálias mal escolhidas. Alguém repara em dedos de pés esparramados? Eu reparo. 
Eu sei, tentam nos convencer, a nós, mulheres com um pouco mais de vinte e bem menos de sessenta, tal qual Mrs.Moore, que podemos e devemos até, abusar de decotes, mas será que tanto assim? Desse jeito? E as sardas? Eu sei, dizem que são charmosas e encantadoras, mas tantas? Outro dia vi uma fotografia das mãos de Juliane Moore e fiquei impressionada com a quantidade de sardas.
Drew Barrymore usou um vestido bem interessante da coleção 2010 de Alexander Mcqueen e fugiu dos padrões curto, curtíssimo, decotes escancarados e tecidos am
ontoados sobre o corpo.A cor não valoriza muitas mulheres, ainda mais as loiras - decididamente o amarelo é para poucas - mas a linha do vestido, os detalhes e a renda preta diretamente sobre o colo reviveram época de extrema elegância. Renda preta que parecia desenhada, tatuada sobre a pele de Miss Barrymore.
Ela sempre surpreende e tal qual camaleão muda a cor dos cabelos, faz penteados de épocas diferentes, utiliza cores ousadas (reparem na cor do esmalte) e se transforma para cada tapete vermelho que lhe aparece pela frente. Ela tem personalidade.Curiosa eu quis conhecer outros modelos da mesma coleção e fiquei encantada com detalhes que me fizeram lembrar vestidos dos anos 60 e trajes da Europa oriental e da Ásia. O chato é saber que o mesmo tecido com padrão tão distinto foi utilizado para a confecção de outro modelito usado por Naomi Campbell - onde anda a exclusividade? - em evento do qual também participou Victoria Beckham e sua crescente magreza.

Dieta mediterrânea
Peixes, legumes, verduras, frutas, queijos, leite, ovos, azeite de oliva, carne de cordeiro, iogurte, trigo, nozes, amêndoas, avelãs, mel, vinho tinto e a maneira de pensar e encarar a vida dos povos do mediterrâneo. Esta é a receita para a longevidade saudável. A dieta mediterrânea protege o cérebro e o coração.De acordo com o estudo, os voluntários com maior adesão a essa dieta tinham risco cerca de 30% menor de desenvolver o distúrbio da depressão.
Fortemente relacionada à redução de risco para doenças cardiovasculares, a dieta mediterrânea mostrou efeito protetor contra a depressão em um estudo realizado com 10.094 pessoas.
O trabalho foi publicado na edição de outubro do "Archives of General Psychiatry", um dos periódicos da Associação Médica Americana.
Pesquisadores das universidades de Las Palmas de Gran Canaria e de Navarra (ambas na Espanha) avaliaram dados desses espanhóis, que preencheram questionários de 1999 a 2005 sobre a própria ingestão alimentar. Eles calcularam a adesão à dieta mediterrânea baseados em nove itens: maior ingestão de gorduras monoinsaturadas em comparação às saturadas, consumo moderado de álcool e laticínios, baixa ingestão de carne vermelha e alto consumo de legumes, frutas, oleaginosas (como nozes e castanhas), cereais e peixes.
Após acompanharem os voluntários por cerca de quatro anos, identificaram 480 novos casos de depressão - a maioria (324 ocorrências) em mulheres. Os que seguiram a dieta apresentaram risco 30% menor de desenvolver depressão. Para chegar aos resultados, foram ajustados outros fatores influenciáveis, como estilo de vida, estado civil, doenças crônicas e uso de antidepressivos. "Algumas variáveis, como os que não desenvolveram depressão serem mentalmente mais saudáveis e mais propensos a aderir a uma dieta mais saudável, não foram medidas. Mas é um estudo benfeito, com metodologia adequada", pondera a psiquiatra Andrea Feijó de Mello, da Associação Brasileira de Psiquiatria e pesquisadora da Unifesp. Trabalhos anteriores mostram que populações que consomem altas quantidades de peixes apresentam menores índices de depressão. Uma das explicações é que o ácido graxo ômega 3 (presente em peixes de água fria, como o salmão) influencia na estrutura do sistema nervoso central e no transporte de neurotransmissores.
Os ácidos graxos ajudam na formação da membrana celular, tornando-a mais fluida. A fluidez das membranas dos neurônios contribui para uma melhor plasticidade cerebral (capacidade de os neurônios se comunicarem), fator importante para o equilíbrio emocional do paciente."Quando há empobrecimento da comunicação, há prejuízos na memória, fluência verbal, criatividade e iniciativa, que são sintomas da depressão, fazendo a pessoa se tornar mais vulnerável à doença", diz Renério Fráguas Jr., supervisor da residência médica do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A dieta mediterrânea também oferece bons teores de folato e vitamina B12 (presentes em vegetais, peixes e ovos), nutrientes que participam como cofatores na sintetização de serotonina no cérebro, neurotransmissor relacionado às alterações no humor.
Segundo Fráguas Jr., alguns estudos mostram resultados significativos da suplementação em pacientes que têm depressão e não apresentam melhora com medicamentos. "É um dos mecanismos para explicar a associação entre questões nutricionais e depressão. Na prática, já oferecemos suplementos, principalmente para idosos que podem ter uma diminuição na absorção desses nutrientes e podem ser mais vulneráveis à depressão."
Texto de Julliane Silveira, publicado no jornal Folha de São Paulo
domingo, 4 de outubro de 2009
Variável
Nadie habrá dejado de observar que con frecuencia el suelo se pliega de manera tal que una parte sube en ángulo recto con el plano del suelo, y luego la parte siguinte se coloca paralela a este plano, para dar paso a una nueva perpendicular, conducta que se repite en espiral o en linea quebrada hasta alturas sumamente variables. Agachándose y poniendo la mano izquierda en una de las partes verticales, y la derecha en la horizontal correspondiente, se está em posesión momentánea de un peldaño e escalón. Cada uno de estos peldanõs formados como se ve por dos elementos, se sitúa un tanto más arriba y más adelante que el anterior, principio que da sentido a la escalera, ya que cualquier otra combinación produciria formas quizá más bellas o pintorescas, pero incapaces de trasladar de una planta baja a un primer piso.Porta de entrada para evitar a angústia da liberdade
Para quem tem filhos e para quem consegue entender o que significa ter filhos. É inevitável: No dia da descoberta da gravidez nascem ideias, planos, temores. Como ter um filho num mundo com este? Como protegê-lo de tanta coisa ruim, gente ruim, doenças, tristezas e mágoas? O melhor pediatra, a melhor alimentação, a melhor escola, sua melhor parte e seu absoluto amor dedicado ao filho, sem esperar nada em troca. Absoluto, desprendido e abnegado amor. Seu sacrifício: Trabalhar, produzir para garantir a qualidade de vida, deixar suas vontade para depois, relegar-se à segundo plano, não dormir às noites para buscar o jovenzinho das baladas, não dormir por que o garotão vai sozinho às baladas. Esperar acordada e como quem não quer nada puxar conversa rápida para perceber se o filho cometeu algum exagero; dar um beijo de boa madrugada, quase manhã, para curtir o carinho raramente aceito pelo rapagão e também para detectar cheiros estranhos, eternos temores de pais; olhar os olhos, o olhar tão diferente e ao mesmo tempo tão conhecido - profundamente conhecido - para confirmar a lucidez do filho que, graças a Deus, voltou inteiro. Ter filhos presume constante e dedicada vigília. Presunção não é regra, pois existem pais que levam a coisa toda numa boa, desencanam, não se preocupam, continuam suas vidas, integram seus filhos aos seus horários e atividades e os liberam cedo para a vida - os liberaram desde o primeiro dia. Ter ficado acordada inúmeras madrugadas não me fez mais mãe do que a mãe que não deixou de lado um minuto sequer do seu sono. Tudo isso é escolha, jeito de ser, maneira de criar filho. Não existe padrão, não existe manual perfeito que ensine como lidar com essas gracinhas que transformam nossas vidas.Há tempos li matéria sobre o escritor, crítico de cinema e cineasta David Gilmour e sua sábia atitude diante da rebeldia - ou qualificação mais precisa do que essa - de seu filho de quinze anos, Jesse. Eu não quero estudar, teria dito o menino. Quatro simples palavras com a força de um tsunami sobre a cabeça de qualquer pai ou mãe considerados normais - mas o que é normal, mesmo?
Sexta passada, ao conversar com engenheiro de capacidade profissional reconhecida e cujo nome é precedido pela carreirinha de letras de seus super-títulos acadêmicos, comentei sobre a atitude de David Gilmour e ouvi a reação de um pai tão espantado com a ousadia, quanto desesperado caso seu próprio filho viesse com tal novidade. Desespero é a palavra mais apropriada. O filho do engenheiro tem apenas dez anos, mas a projeção da possibilidade de um dia seu pimpolho desistir dos estudos - como?! O filho de um pesquisador desistir de estudar?! - pareceu-lhe o fim do mundo. Pois foi exatamente isso que aos 15 anos Jesse Gilmour decidiu fazer: Parar de estudar. Diante da infelicidade do filho (e qual adolescente não é infeliz?) David autorizou seu filho a deixar os estudos com uma única condição: Toda a semana o garoto deveria assistir a três filmes escolhidos pelo pai. Assistir aos filmes escolhidos e em companhia do pai. David não impôs que seu filho procurasse emprego, ou, substituísse a atividade escolar por outra responsável e social, como tornar-se voluntário em algum centro de crianças ou idosos, mas e tão somente os três filmes semanais. Os filmes e nenhuma droga!
Você, pai zeloso, esforçado e dedicado, teria esse comportamento com seu garoto? A senhora, aí ao lado, com essas olheiras profundas e as crises de gastrite que sua adorável filha lhe causa, faria o quê, numa situação dessas?
Além de educar Jesse e evitar que a rebeldia do garoto se tornasse maléfica, David fez o que pouquíssimos pais fazem: Durante três anos ele conviveu de fato com seu filho, compartilhou experiências, trocou ideias, conversou (principalmente, ouviu), observou e entre os dois surgiu a proximidade, o companheirismo e a franqueza, pela união em torno de interesse comum. Laços estreitados, sentimentos assumidos e horizontes expandidos.
Antes de cada filme o pai informava dicas ligeiras e, ao final, perguntava ao filho algo sobre o filme. Jesse expunha, ou não, sua interpretação e aos poucos o garoto percebeu que livrar-se das coisas chatas e desagradáveis era fácil, mas encontrar um rumo, ah! isso é bem mais complicado. Para o pai, também não foi fácil. Durante uma entrevista ele comentou que acordava de madrugada com pavor por destruir o futuro do filho e, ao mesmo tempo, temeu com a possibilidade de transformá-lo num desagradável esnobe, ou, que as sessões cinéfilas virassem mais uma obrigação. Foi por isso que David evitou aplicar qualquer método na escolha dos filmes e juntos assistiram a obras famosas e obscuras, boas e ruins, antigas e recentes, de acordo com a lembrança de David. Durante esses três anos, houve um período que Jesse ficou muito triste por causa da namorada, então, surgiu o “ciclo do terror”, para que uma emoção forte ajudasse a esquecer outra.
Dessa experiência Jesse criou sua lista de filmes preferidos: Uma Rua Chamada Pecado, de Elia Kazan; Noivo Neurótico e Noiva Nervosa, de Woody Allen; O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola; Scarface, de Brian de Palma e Bons Companheiros, de Martin Scorsese. David listou: Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci; Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens; Crimes e Pecados, de Woody Allen; Amor à Queima-roupa de Tony Scott ; Sindicato de Ladrões, de Elia Kazan.
Como está Jesse? Ora, hoje, aos 23 anos, ele estuda por livre escolha, já rodou um curta-metragem e prepara o roteiro de um longa.
Mais do que esperar de madrugada, buscar sinais e odores, intuir, é nossa principal e interminável função ensinar nossos filhos e aprender coisas novas com eles. É esta necessidade evolutiva que devemos incentivar e preservar.
Imagem de Doisneau
sábado, 3 de outubro de 2009
O clube do filme
Livro: O Clube do Filme, de David Gilmour (entre R$24,90 e R$ 15,40)Eu não sei nada sobre educação, exceto isto: que a maior e mais importante dificuldade dos seres humanos parece residir naquela área que diz respeito a como criar os filhos, e como educá-los.
Michel de Montaigne (1533–1592)
A FELICIDADE NÃO SE COMPRA * A FORÇA EM ALERTA * O PODEROSO CHEFÃO * O BEBÊ DE ROSEMARY * SEXY BEAST * O EXORCISTA * TUBARÃO * SCARFACE * SINDICATO DE LADRÕES * TIO VÂNIA EM NOVA YORK * UMA LINDA MULHER * PODER ABSOLUTO * TOOTSIE * 8½ * À BEIRA DO ABISMO * A NOITE DO IGUANA * OS AMIGOS DE EDDIE COYLE * O PODEROSO CHEFÃO II * OS INCOMPREENDIDOS * O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA * QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF? * PROFISSÃO, LADRÃO * OPERAÇÃO FRANÇA * PICARDIAS ESTUDANTIS * ISHTAR * ONIBABA, A MULHER DEMÔNIO * O ILUMINADO * OS IMPERDOÁVEIS * A OUTRA * A HORA DA BRUTALIDADE * O ÚLTIMO TANGO EM PARIS * APOCALYPSE NOW * O SAMURAI * A ÚLTIMA INVESTIGAÇÃO * A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS * ANJO DO MAL * DESAFIANDO O ASSASSINO * AMORES EXPRESSOS * HOMBRE * ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE * O GRANDE GATSBY * BUTCH CASSIDY * BONEQUINHA DE LUXO * O PAGAMENTO FINAL * O MENSAGEIRO DO DIABO * PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL * SHOWGIRLS * NOIVO NEURÓTICO, NOIVA NERVOSA * PLENTY * UM LANCE NO ESCURO * CÃES DE ALUGUEL * CAMINHOS PERIGOSOS * MAMÃEZINHA QUERIDA * O TERCEIRO HOMEM * CANTANDO NA CHUVA * KLUTE * CHINATOWN * INSTINTO SELVAGEM * INTERLÚDIO * IRRESISTÍVEL PAIXÃO * ROBOCOP * JUSTIÇA CEGA * AGUIRRE * LADRÕES DE BICICLETAS * LOLITA * MAGNUM 44 * MANHATTAN * A PRINCESA E O PLEBEU * O PREÇO DA AMBIÇÃO * O PROFISSIONAL * MATAR OU MORRER * NASCIDO PARA MATAR * MEMÓRIAS* NIKITA * O NOME DO JOGO * CIDADÃO KANE * VULCÃO * CRIMES E PECADOS * O SOPRO NO CORAÇÃO * UMA RUA CHAMADA PECADO * AMERICAN GRAFFITI * OS PÁSSAROS * POR UM PUNHADO DE DÓLARES * PSICOSE * PULP FICTION * QUANTO MAIS QUENTE MELHOR * O PADRASTO * UM HOMEM DESTEMIDO * SCANNERS * 007 CONTRA O SATÂNICO DR. NO * RASTROS DE ÓDIO * ROCKY III * A DOCE VIDA * FEBRE DA SELVA * CASABLANCA * VELUDO AZUL * CHARADA * A ÚLTIMA MISSÃO * O SUCESSO A QUALQUER PREÇO * DINHEIRO SUJO * RAN * OS FANTASMAS SE DIVERTEM * JACKIE BROWN * INTRIGA INTERNACIONAL * ENCURRALADO * OS REIS DO IÊ, IÊ, IÊ * A HORA DA ZONA MORTA * CALAFRIOS * QUIZ SHOW * BULLITT * PLANO 9 DO ESPAÇO SIDERAL * AMOR À QUEIMA-ROUPA
Outro dia, eu estava parado num sinal vermelho quando vi meu filho saindo do cinema. Ele estava com sua nova namorada. Ela segurava a manga do casaco dele com a ponta dos dedos e sussurrava algo em seu ouvido. Não cheguei a descobrir que filme eles tinham acabado de ver — os letreiros estavam cobertos por uma árvore em plena floração —, mas naquele momento me peguei recordando, com uma nostalgia quase dolorosa, os três anos que ele e eu passamos, só nós dois, assistindo a filmes e conversando na varanda de casa, um período mágico que um pai não costuma experimentar quando tem um filho adolescente. Agora, já não o vejo tanto quanto antes (e é assim que deve ser), mas aquele foi um período maravilhoso. Uma pausa feliz, para nós dois.
Quando eu era adolescente, acreditava que havia um lugar para onde iam os garotos maus, quando caíam fora da escola. Ficava em algum ponto remoto da Terra, como um cemitério de elefantes, porém repleto dos delicados ossos brancos daqueles garotos. Tenho certeza de que é por isso que até hoje ainda tenho pesadelos em que apareço estudando para uma prova de física, com crescente aflição, saltando as páginas de um livro cheio de vetores e parábolas — porque são coisas que eu nunca vi antes!
Trinta e cinco anos depois, quando as notas do meu filho começaram a oscilar na nona série, caindo terrivelmente no ano seguinte, eu reagi com uma espécie de duplo horror, primeiro em relação ao que estava efetivamente acontecendo, depois por causa da lembrança daquela sensação, ainda muito viva em mim. Foi quando troquei de casa com minha ex-mulher (“Jesse precisa viver com um homem”, ela disse). Eu me mudei para a casa dela e ela se mudou para o meu loft, que era pequeno demais para acomodar a presença, em tempo integral, de um adolescente de um metro e oitenta e com pés enormes. Dessa forma, pensei comigo mesmo, eu poderia fazer os deveres de casa para ele, em vez dela.
Outro dia, eu estava parado num sinal vermelho quando vi meu filho saindo do cinema. Ele estava com sua nova namorada. Ela segurava a manga do casaco dele com a ponta dos dedos e sussurrava algo em seu ouvido. Não cheguei a descobrir que filme eles tinham acabado de ver — os letreiros estavam cobertos por uma árvore em plena floração —, mas naquele momento me peguei recordando, com uma nostalgia quase dolorosa, os três anos que ele e eu passamos, só nós dois, assistindo a filmes e conversando na varanda de casa, um período mágico que um pai não costuma experimentar quando tem um filho adolescente. Agora, já não o vejo tanto quanto antes (e é assim que deve ser), mas aquele foi um período maravilhoso. Uma pausa feliz, para nós dois.
Quando eu era adolescente, acreditava que havia um lugar para onde iam os garotos maus, quando caíam fora da escola. Ficava em algum ponto remoto da Terra, como um cemitério de elefantes, porém repleto dos delicados ossos brancos daqueles garotos. Tenho certeza de que é por isso que até hoje ainda tenho pesadelos em que apareço estudando para uma prova de física, com crescente aflição, saltando as páginas de um livro cheio de vetores e parábolas — porque são coisas que eu nunca vi antes!
Trinta e cinco anos depois, quando as notas do meu filho começaram a oscilar na nona série, caindo terrivelmente no ano seguinte, eu reagi com uma espécie de duplo horror, primeiro em relação ao que estava efetivamente acontecendo, depois por causa da lembrança daquela sensação, ainda muito viva em mim. Foi quando troquei de casa com minha ex-mulher (“Jesse precisa viver com um homem”, ela disse). Eu me mudei para a casa dela e ela se mudou para o meu loft, que era pequeno demais para acomodar a presença, em tempo integral, de um adolescente de um metro e oitenta e com pés enormes. Dessa forma, pensei comigo mesmo, eu poderia fazer os deveres de casa para ele, em vez dela.
Mas não deu certo. Quando eu perguntava, a cada noite:
“É somente isso seu dever de casa?”, meu filho respondia alegremente:
“Com certeza!” Mas quando ele foi passar uma semana com a mãe, naquele verão, achei uma centena de deveres em branco, escondidos em todos os cantos possíveis de seu quarto. Resumindo, a escola o estava transformando em uma pessoa dissimulada, em um mentiroso.
Colocamos Jesse numa escola particular. Algumas manhãs, uma secretária perplexa telefonava para nossa casa, perguntando por ele: “Vocês sabem onde ele está?” Mais tarde, no mesmo dia, meu filho de pernas compridas se materializava na varanda.
Aonde ele tinha ido? Talvez a uma competição de rap em algum shopping do subúrbio, ou a algum lugar ainda menos saudável, mas não à escola. Nós o repreendíamos, ele se desculpava solenemente, andava na linha por alguns dias e, então, começava tudo de novo.
Jesse era um rapaz de natureza doce, muito orgulhoso, que parecia incapaz de fazer qualquer coisa na qual não tivesse interesse, mesmo que ficasse preocupado com as consequências disso. E ele se preocupava bastante. Os seus boletins escolares eram desanimadores, exceto pelos comentários sobre sua sociabilidade. As pessoas gostavam dele, todo tipo de pessoas, até mesmo o policial que o deteve uma vez por pichar os muros de sua antiga escola. (Vizinhos incrédulos o reconheceram.) Quando o oficial o deixou em casa, disse a ele: — Eu não pensaria numa vida de crimes se fosse você, Jesse. Você não tem esse dom.
Finalmente, numa tarde em que tentava lhe dar algumas explicações sobre latim, me dei conta de que ele não tinha trazido nenhuma anotação, nenhum livro escolar, nada além de um pedaço amassado de papel com umas poucas frases sobre magistrados romanos, que ele devia traduzir. Eu me lembro dele sentado,
cabisbaixo, do outro lado da mesa da cozinha, um garoto de rosto pálido e transparente no qual se podia perceber a chegada de qualquer preocupação, por menor que fosse, tão claramente como se podia ouvir alguém bater à porta. Era um domingo daqueles que os adolescentes odeiam, com o fim de semana terminando, o dever de casa por fazer, a cidade cinzenta como o oceano num dia sem sol. Folhas úmidas cobrindo a calçada e a segunda-feira insinuando-se em meio à névoa. Depois de algum tempo, perguntei a ele:
— Onde estão suas anotações, Jesse?
— Deixei na escola.
Jesse tinha facilidade para línguas, entendia sua lógica interna, tinha um ouvido de ator — aprender as coisas devia ser moleza —, mas, observando-o folhear o livro para a frente e para trás, eu podia ver que não sabia onde estava o que quer que fosse.
— Não entendo por que você não trouxe suas anotações para casa. Isso torna as coisas muito mais difíceis — eu disse.
Jesse percebeu a impaciência na minha voz: isso o deixou nervoso, o que, por sua vez, me causou desconforto. Ele estava com medo de mim. Eu odiava isso. Nunca soube se fazia parte da relação entre pai e filho ou se a fonte dessa ansiedade era um problema particular meu, meu pavio curto, minha impaciência
hereditária.
— Deixa pra lá — eu disse. — Será divertido mesmo assim. Eu adoro latim.
— Sério? — ele perguntou ansioso (talvez para tirar o foco das anotações esquecidas).
Então eu o observei trabalhar por algum tempo — seus dedos manchados de nicotina cobrindo a caneta, sua caligrafia ruim.
— Como exatamente se captura e conquista uma mulher sabina, pai?
— Eu explico depois.
Pausa.
— Elmo é um verbo? — ele perguntou.
“É somente isso seu dever de casa?”, meu filho respondia alegremente:
“Com certeza!” Mas quando ele foi passar uma semana com a mãe, naquele verão, achei uma centena de deveres em branco, escondidos em todos os cantos possíveis de seu quarto. Resumindo, a escola o estava transformando em uma pessoa dissimulada, em um mentiroso.
Colocamos Jesse numa escola particular. Algumas manhãs, uma secretária perplexa telefonava para nossa casa, perguntando por ele: “Vocês sabem onde ele está?” Mais tarde, no mesmo dia, meu filho de pernas compridas se materializava na varanda.
Aonde ele tinha ido? Talvez a uma competição de rap em algum shopping do subúrbio, ou a algum lugar ainda menos saudável, mas não à escola. Nós o repreendíamos, ele se desculpava solenemente, andava na linha por alguns dias e, então, começava tudo de novo.
Jesse era um rapaz de natureza doce, muito orgulhoso, que parecia incapaz de fazer qualquer coisa na qual não tivesse interesse, mesmo que ficasse preocupado com as consequências disso. E ele se preocupava bastante. Os seus boletins escolares eram desanimadores, exceto pelos comentários sobre sua sociabilidade. As pessoas gostavam dele, todo tipo de pessoas, até mesmo o policial que o deteve uma vez por pichar os muros de sua antiga escola. (Vizinhos incrédulos o reconheceram.) Quando o oficial o deixou em casa, disse a ele: — Eu não pensaria numa vida de crimes se fosse você, Jesse. Você não tem esse dom.
Finalmente, numa tarde em que tentava lhe dar algumas explicações sobre latim, me dei conta de que ele não tinha trazido nenhuma anotação, nenhum livro escolar, nada além de um pedaço amassado de papel com umas poucas frases sobre magistrados romanos, que ele devia traduzir. Eu me lembro dele sentado,
cabisbaixo, do outro lado da mesa da cozinha, um garoto de rosto pálido e transparente no qual se podia perceber a chegada de qualquer preocupação, por menor que fosse, tão claramente como se podia ouvir alguém bater à porta. Era um domingo daqueles que os adolescentes odeiam, com o fim de semana terminando, o dever de casa por fazer, a cidade cinzenta como o oceano num dia sem sol. Folhas úmidas cobrindo a calçada e a segunda-feira insinuando-se em meio à névoa. Depois de algum tempo, perguntei a ele:
— Onde estão suas anotações, Jesse?
— Deixei na escola.
Jesse tinha facilidade para línguas, entendia sua lógica interna, tinha um ouvido de ator — aprender as coisas devia ser moleza —, mas, observando-o folhear o livro para a frente e para trás, eu podia ver que não sabia onde estava o que quer que fosse.
— Não entendo por que você não trouxe suas anotações para casa. Isso torna as coisas muito mais difíceis — eu disse.
Jesse percebeu a impaciência na minha voz: isso o deixou nervoso, o que, por sua vez, me causou desconforto. Ele estava com medo de mim. Eu odiava isso. Nunca soube se fazia parte da relação entre pai e filho ou se a fonte dessa ansiedade era um problema particular meu, meu pavio curto, minha impaciência

hereditária.
— Deixa pra lá — eu disse. — Será divertido mesmo assim. Eu adoro latim.
— Sério? — ele perguntou ansioso (talvez para tirar o foco das anotações esquecidas).
Então eu o observei trabalhar por algum tempo — seus dedos manchados de nicotina cobrindo a caneta, sua caligrafia ruim.
— Como exatamente se captura e conquista uma mulher sabina, pai?
— Eu explico depois.
Pausa.
— Elmo é um verbo? — ele perguntou.
E assim por diante, com as sombras da tarde avançando pelos azulejos da cozinha. Um lápis batucando no tampo de fórmica da mesa. Aos poucos, percebi uma espécie de resmungo baixinho. De onde vinha? Dele? Mas o que era? Meus olhos fixaram-se em Jesse. Era uma espécie de tédio, sim, mas de um tipo raro, uma convicção extraordinária, quase física, da irrelevância da tarefa que ele tinha à frente. E por alguma razão estranha, naqueles poucos segundos, eu experimentei aquele tédio como se estivesse acontecendo no meu próprio corpo. Ah, pensei, então é assim que ele passa seus dias na escola. Contra isso não se pode lutar. E, de repente — tão inconfundível quanto o som de uma janela quebrada —, compreendi que nós tínhamos perdido a batalha da escola. Eu também soube, no mesmo instante — senti na minha própria carne —, que perderia Jesse no meio daquilo tudo, que um dia ele ia se levantar e responder: “Quer saber onde estão as minhas anotações? Eu vou lhe dizer onde elas estão. Eu as enfiei no rabo. E se você não parar de encher meu saco, vou enfiá-las no seu também.” E, então, ele iria embora batendo a porta, bam, e seria o fim.
— Jesse — eu disse suavemente.
Ele sabia que eu o estava olhando, e isso o deixava inquieto, como se estivesse a ponto de se meter numa encrenca (de novo), e aquela atividade, folhear o livro para a frente e para trás, para a frente e para trás, era uma maneira de tentar escapar disso.
— Jesse, largue sua caneta. Pare por um segundo, por favor.
— Por quê? — ele perguntou.
Ele está pálido, pensei. Esses cigarros estão sugando toda a energia dele.
— Quero que você me faça um favor — eu disse. — Quero que pense se quer continuar indo à escola.
— Pai, as anotações estão na minha...
— Esqueça as anotações. Quero que você pense se quer ir à escola ou não.
— Por quê?
Eu podia sentir meu coração se acelerar, o sangue fluir para o meu rosto. Aquela era uma situação em que eu nunca estivera antes, nem mesmo imaginara ser possível.
— Porque, se você não quiser, está tudo bem.
— O que está tudo bem?
Apenas diga, desembuche.
— Se você não quiser mais ir à escola, não precisa mais ir.
Ele pigarreou.
— Você me deixaria sair da escola?
— Se você realmente quiser, sim. Mas, por favor, pense alguns dias sobre isso. É uma deci...
Ele se levantou num pulo. Ele sempre se levantava quando ficava excitado; suas pernas compridas não eram capazes de suportar, paradas, sua agitação. Inclinando-se sobre a mesa, ele disse em voz baixa, como se tivesse medo de ser ouvido:
— Eu não preciso de alguns dias.
— Pense mesmo assim. Eu insisto.
Mais tarde, naquela mesma noite, tomei coragem, com algumas taças de vinho, e telefonei para a mãe dele em meu loft (que ficava no prédio de uma antiga fábrica de doces), para lhe dar a notícia. Ela era uma atriz magra e muito bonita, a mulher mais gentil que já conheci na vida. Uma atriz nada “afetada”, se você me entende. Mas também capaz de fazer uma cena terrível, se imaginasse Jesse vivendo como um mendigo, numa caixa de papelão, em Los Angeles.
— Você acha que isso aconteceu porque ele tem baixa autoestima?
— Maggie perguntou.
— Não — respondi. — Acho que isso aconteceu porque ele odeia mesmo a escola.
— Mas deve haver algo errado com ele, se ele odeia a escola.
— Eu também odiava a escola — falei.
— Talvez seja daí que ele tenha herdado isso.
Seguimos nessa trilha por algum tempo, até que ela começou a chorar, e eu tentei lhe mostrar que aquilo não era tão ruim, com uma argumentação que teria deixado Che Guevara orgulhoso.
— Ele precisa arrumar um emprego, então — disse Maggie.
— Você acha que faz sentido substituir uma atividade que ele rejeita por outra?
— O que ele vai fazer, então?
— Eu não sei.
—
Talvez ele possa fazer algum trabalho voluntário — ela disse, fungando.
Acordei no meio da noite, com minha mulher, Tina, se remexendo ao meu lado, e fui até a janela. A lua pendia do céu, desproporcionalmente baixa. Como se estivesse perdida, esperando ser chamada de volta para casa. E se eu estiver errado?, pensei. E se estiver tentando ser moderno à custa do meu filho, deixando que ele arruíne a própria vida? É verdade, pensei. Jesse tem que fazer alguma coisa. Mas o quê? O que eu posso propor a ele que não seja uma repetição do desastre escolar? Ele não gosta de ler; detesta esportes. O que ele
gosta de fazer? Gosta de ver filmes. Eu também. Na verdade, por alguns anos, já nos meus trinta e muitos, cheguei a fazer críticas superficiais para um programa de televisão. O que poderíamos fazer com isso?
Três dias depois, ele foi jantar comigo no Le Paradis, um restaurante francês com toalhas de mesa brancas e talheres de prata pesados. Ele estava me esperando do lado de fora, sentado numa balaustrada, fumando um cigarro. Jesse jamais gostou de se sentar sozinho em restaurantes. Isso lhe dava a impressão de que todas as pessoas o classificariam como um perdedor, alguém
que não tinha amigos. Eu o abracei e senti a força de seu corpo jovem, sua vitalidade.
— Vamos pedir um vinho e bater um papo depois.
Entramos. Apertos de mão. Rituais adultos que o deixavam lisonjeado. Houve até mesmo uma piada entre ele e o barman sobre o personagem John-Boy, do seriado Os Waltons. Sentamos em silêncio, um pouco distraídos, esperando pelo garçom. Estávamos na expectativa de algo crucial; não havia nada a dizer até que isso acontecesse. Deixei-o pedir o vinho.
— Corbière — ele sussurrou. — É do sul da França, certo?
— Certo.
— Um pouco rústico?
— Isso mesmo.
— O Corbière, por favor — ele pediu à garçonete, com um sorriso que dizia: “Eu sei que estou brincando de adulto, como um macaco de imitação, mas, de qualquer maneira, estou me divertindo.” Deus, ele tem um belo sorriso. Esperamos o vinho chegar.
— Você faz as honras — eu disse.
Ele cheirou a rolha, balançou desajeitadamente a taça de vinho e, como um gato se familiarizando com um pires de leite, deu um gole.
— Não sei dizer — falou, abandonando sua atitude no último momento.
— Sim, você sabe — eu disse. — Apenas relaxe e sinta. Se achar que não é bom, é porque não é bom.
— Mas eu fico nervoso.
— Apenas sinta o aroma. Você saberá. A primeira impressão é sempre a correta.
Ele voltou a cheirar.
— Aproxime mais o nariz.
— É bom — ele disse.
A garçonete sentiu o aroma da garrafa.
— É bom ver você de novo, Jesse. Seu pai vem sempre aqui.
Olhamos à nossa volta, no restaurante. O casal de idosos de Etobicoke estava lá. Um dentista e sua mulher: o filho deles a ponto de concluir o curso de administração em alguma faculdade de Boston. Eles acenaram. Nós acenamos de volta. E se eu estiver errado?
— Então — eu disse. — Você pensou sobre aquilo que conversamos?
Dava para ver que ele queria ficar de pé, mas não podia. Jesse olhou em volta, parecendo irritado com essa restrição. Então aproximou seu rosto pálido do meu, como se fosse me contar um segredo.
— A verdade — ele sussurrou — é que eu não quero nunca mais pôr os pés numa escola de novo.
Meu estômago se revolveu.
— Tudo bem, então.
Jesse olhou para mim, atônito. Ele estava esperando que eu criasse um caso. Eu disse:
— Só tem uma coisa. Você não precisa trabalhar, não precisa pagar aluguel. Você pode dormir até as cinco da tarde todos os dias, se quiser. Mas nada de drogas. Se aparecer com alguma droga, nosso acordo está desfeito.
— Tudo bem — ele disse.
— É sério. Vou realmente castigar você, se começar a mexer com isso.
— Certo.
— Tem mais uma coisa — falei (estava me sentindo como o detetive do seriado Columbo).
— O que é? — ele perguntou.
— Quero que você assista a três filmes por semana, comigo. Eu escolho os títulos. Essa é a única educação que você vai receber.
— Você está brincando — ele disse, após um momento.
Não perdi tempo. Na tarde seguinte, sentei-o no sofá azul da sala, eu à direita, ele à esquerda, puxei as cortinas e mostrei a ele Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut. Pensei que seria uma boa maneira de apresentar os filmes de arte europeus, embora soubesse que ele provavelmente os acharia tediosos até
que aprendesse como assistir a eles. É como aprender as variações da gramática. Truffaut, eu expliquei (e quis fazê-lo de forma breve), entrou no cinema pela porta dos fundos. Tinha largado a escola (como você), vivia pelas ruas e era um ladrãozinho nas horas vagas; mas adorava filmes, e passou a infância inteira enfiado nos cinemas que se espalhavam pela Paris do pós-guerra.
— Jesse — eu disse suavemente.
Ele sabia que eu o estava olhando, e isso o deixava inquieto, como se estivesse a ponto de se meter numa encrenca (de novo), e aquela atividade, folhear o livro para a frente e para trás, para a frente e para trás, era uma maneira de tentar escapar disso.
— Jesse, largue sua caneta. Pare por um segundo, por favor.
— Por quê? — ele perguntou.
Ele está pálido, pensei. Esses cigarros estão sugando toda a energia dele.
— Quero que você me faça um favor — eu disse. — Quero que pense se quer continuar indo à escola.
— Pai, as anotações estão na minha...
— Esqueça as anotações. Quero que você pense se quer ir à escola ou não.
— Por quê?
Eu podia sentir meu coração se acelerar, o sangue fluir para o meu rosto. Aquela era uma situação em que eu nunca estivera antes, nem mesmo imaginara ser possível.
— Porque, se você não quiser, está tudo bem.
— O que está tudo bem?
Apenas diga, desembuche.
— Se você não quiser mais ir à escola, não precisa mais ir.
Ele pigarreou.
— Você me deixaria sair da escola?
— Se você realmente quiser, sim. Mas, por favor, pense alguns dias sobre isso. É uma deci...
Ele se levantou num pulo. Ele sempre se levantava quando ficava excitado; suas pernas compridas não eram capazes de suportar, paradas, sua agitação. Inclinando-se sobre a mesa, ele disse em voz baixa, como se tivesse medo de ser ouvido:
— Eu não preciso de alguns dias.
— Pense mesmo assim. Eu insisto.
Mais tarde, naquela mesma noite, tomei coragem, com algumas taças de vinho, e telefonei para a mãe dele em meu loft (que ficava no prédio de uma antiga fábrica de doces), para lhe dar a notícia. Ela era uma atriz magra e muito bonita, a mulher mais gentil que já conheci na vida. Uma atriz nada “afetada”, se você me entende. Mas também capaz de fazer uma cena terrível, se imaginasse Jesse vivendo como um mendigo, numa caixa de papelão, em Los Angeles.
— Você acha que isso aconteceu porque ele tem baixa autoestima?
— Maggie perguntou.
— Não — respondi. — Acho que isso aconteceu porque ele odeia mesmo a escola.
— Mas deve haver algo errado com ele, se ele odeia a escola.
— Eu também odiava a escola — falei.
— Talvez seja daí que ele tenha herdado isso.
Seguimos nessa trilha por algum tempo, até que ela começou a chorar, e eu tentei lhe mostrar que aquilo não era tão ruim, com uma argumentação que teria deixado Che Guevara orgulhoso.
— Ele precisa arrumar um emprego, então — disse Maggie.
— Você acha que faz sentido substituir uma atividade que ele rejeita por outra?
— O que ele vai fazer, então?
— Eu não sei.
—
Talvez ele possa fazer algum trabalho voluntário — ela disse, fungando.Acordei no meio da noite, com minha mulher, Tina, se remexendo ao meu lado, e fui até a janela. A lua pendia do céu, desproporcionalmente baixa. Como se estivesse perdida, esperando ser chamada de volta para casa. E se eu estiver errado?, pensei. E se estiver tentando ser moderno à custa do meu filho, deixando que ele arruíne a própria vida? É verdade, pensei. Jesse tem que fazer alguma coisa. Mas o quê? O que eu posso propor a ele que não seja uma repetição do desastre escolar? Ele não gosta de ler; detesta esportes. O que ele
gosta de fazer? Gosta de ver filmes. Eu também. Na verdade, por alguns anos, já nos meus trinta e muitos, cheguei a fazer críticas superficiais para um programa de televisão. O que poderíamos fazer com isso?
Três dias depois, ele foi jantar comigo no Le Paradis, um restaurante francês com toalhas de mesa brancas e talheres de prata pesados. Ele estava me esperando do lado de fora, sentado numa balaustrada, fumando um cigarro. Jesse jamais gostou de se sentar sozinho em restaurantes. Isso lhe dava a impressão de que todas as pessoas o classificariam como um perdedor, alguém
que não tinha amigos. Eu o abracei e senti a força de seu corpo jovem, sua vitalidade.
— Vamos pedir um vinho e bater um papo depois.
Entramos. Apertos de mão. Rituais adultos que o deixavam lisonjeado. Houve até mesmo uma piada entre ele e o barman sobre o personagem John-Boy, do seriado Os Waltons. Sentamos em silêncio, um pouco distraídos, esperando pelo garçom. Estávamos na expectativa de algo crucial; não havia nada a dizer até que isso acontecesse. Deixei-o pedir o vinho.
— Corbière — ele sussurrou. — É do sul da França, certo?
— Certo.
— Um pouco rústico?
— Isso mesmo.
— O Corbière, por favor — ele pediu à garçonete, com um sorriso que dizia: “Eu sei que estou brincando de adulto, como um macaco de imitação, mas, de qualquer maneira, estou me divertindo.” Deus, ele tem um belo sorriso. Esperamos o vinho chegar.
— Você faz as honras — eu disse.
Ele cheirou a rolha, balançou desajeitadamente a taça de vinho e, como um gato se familiarizando com um pires de leite, deu um gole.
— Não sei dizer — falou, abandonando sua atitude no último momento.
— Sim, você sabe — eu disse. — Apenas relaxe e sinta. Se achar que não é bom, é porque não é bom.
— Mas eu fico nervoso.
— Apenas sinta o aroma. Você saberá. A primeira impressão é sempre a correta.
Ele voltou a cheirar.
— Aproxime mais o nariz.
— É bom — ele disse.
A garçonete sentiu o aroma da garrafa.
— É bom ver você de novo, Jesse. Seu pai vem sempre aqui.
Olhamos à nossa volta, no restaurante. O casal de idosos de Etobicoke estava lá. Um dentista e sua mulher: o filho deles a ponto de concluir o curso de administração em alguma faculdade de Boston. Eles acenaram. Nós acenamos de volta. E se eu estiver errado?
— Então — eu disse. — Você pensou sobre aquilo que conversamos?
Dava para ver que ele queria ficar de pé, mas não podia. Jesse olhou em volta, parecendo irritado com essa restrição. Então aproximou seu rosto pálido do meu, como se fosse me contar um segredo.
— A verdade — ele sussurrou — é que eu não quero nunca mais pôr os pés numa escola de novo.
Meu estômago se revolveu.
— Tudo bem, então.
Jesse olhou para mim, atônito. Ele estava esperando que eu criasse um caso. Eu disse:
— Só tem uma coisa. Você não precisa trabalhar, não precisa pagar aluguel. Você pode dormir até as cinco da tarde todos os dias, se quiser. Mas nada de drogas. Se aparecer com alguma droga, nosso acordo está desfeito.
— Tudo bem — ele disse.
— É sério. Vou realmente castigar você, se começar a mexer com isso.
— Certo.
— Tem mais uma coisa — falei (estava me sentindo como o detetive do seriado Columbo).
— O que é? — ele perguntou.
— Quero que você assista a três filmes por semana, comigo. Eu escolho os títulos. Essa é a única educação que você vai receber.
— Você está brincando — ele disse, após um momento.
Não perdi tempo. Na tarde seguinte, sentei-o no sofá azul da sala, eu à direita, ele à esquerda, puxei as cortinas e mostrei a ele Os Incompreendidos (1959), de François Truffaut. Pensei que seria uma boa maneira de apresentar os filmes de arte europeus, embora soubesse que ele provavelmente os acharia tediosos até
que aprendesse como assistir a eles. É como aprender as variações da gramática. Truffaut, eu expliquei (e quis fazê-lo de forma breve), entrou no cinema pela porta dos fundos. Tinha largado a escola (como você), vivia pelas ruas e era um ladrãozinho nas horas vagas; mas adorava filmes, e passou a infância inteira enfiado nos cinemas que se espalhavam pela Paris do pós-guerra.
Quando tinha 20 anos, um simpático editor ofereceu a ele um trabalho como crítico de cinema — e isto o levou, seis anos depois, a dirigir seu primeiro filme. Os Incompreendidos (cujo título original em francês, Les 400 Coups, é uma expressão idiomática que faz alusão às “diabruras da juventude”) era um olhar autobiográfico sobre os conturbados anos de vadiagem de Truffaut. Em busca de um ator para interpretar a versão adolescente dele próprio, o diretor estreante, de 27 anos, colocou um anúncio no jornal. Poucas semanas depois, apareceu um garoto de cabelos negros, que tinha fugido de um internato, no centro da França, e viajara de carona até Paris, para fazer um teste para o papel de Antoine.
Seu nome era Jean-Pierre Léaud. (Nessa altura, eu já tinha conseguido prender a atenção de Jesse.) Expliquei que, com exceção de uma cena no consultório da psiquiatra, o filme todo fora rodado sem som — adicionado mais tarde —, porque Truffaut não tinha dinheiro para o equipamento de gravação. Pedi a Jesse que prestasse atenção numa cena famosa, na qual todo um grupo de estudantes desaparece pelas costas do professor, durante um passeio por Paris; abordei suavemente outro momento maravilhoso, quando o jovem rapaz, Antoine, está falando com a psicóloga. — Observe o sorriso que ele dá quando ela lhe pergunta sobre sexo — eu disse. — Lembre-se de que não havia roteiro; isso foi totalmente improvisado. 
Nessa hora, achei que já estava começando a soar como um professor ginasial, então parei de falar e coloquei o filme. Assistimos do início ao fim, até aquela longa sequência em que Antoine foge correndo do reformatório; ele corre por campos, quintais, pomares de macieiras, até chegar ao deslumbrante oceano. É como se nunca o tivesse visto antes. Aquela imensidão, que parece se estender até o infinito! Ele desce por uma escada de madeira, avança pela areia e, lá, onde as ondas morrem, vira-se levemente para trás e olha diretamente para a câmera. Nesse momento, a imagem congela: o filme acabou. Um tempo depois, perguntei a Jesse:
— O que você achou?
— Um pouco chato.
— Você vê algum paralelo entre a situação de Antoine e a sua? — insisti.
Ele pensou durante um segundo.
— Não.
— Por que você acha que ele tem aquela expressão engraçada no rosto, no final do filme, na última cena? — perguntei.
— Não sei.
— Como ele parece estar se sentindo?
— Ele parece preocupado — Jesse disse.
— Com o que ele poderia estar preocupado?
— Não sei.
— Veja em que situação ele está. Fugiu do reformatório e de sua família. Está livre... — falei.
— Talvez ele esteja preocupado com o que vai fazer em seguida.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei.
— Talvez ele esteja pensando: “Certo, cheguei até aqui. Mas, e agora?”
— Tudo bem, então me deixe perguntar novamente. Você vê alguma coisa em comum entre a situação dele e a sua? Ele sorriu.
— Você quer dizer sobre o que vou fazer agora que não preciso mais ir à escola?
— Sim.
— Não sei.
— Bem, talvez seja por isso que o garoto parece preocupado. Ele também não sabe — eu disse. Após um momento, Jesse falou:
— Quando eu estava na escola, ficava preocupado com tirar notas baixas e me encrencar. Agora que não estou mais lá, fico preocupado porque talvez esteja estragando minha vida...
— Isso é bom — eu disse.
— Como assim?
— Isso significa que você não vai se conformar com uma vida ruim.
— Gostaria de poder parar de me preocupar tanto. Você se preocupa?
Eu me peguei dando um suspiro involuntário.
— Sim.
— Então isso nunca acaba, mesmo que a gente faça tudo direito?
— A qualidade da preocupação é que muda — falei. — Tenho preocupações mais felizes hoje do que no passado.

Nessa hora, achei que já estava começando a soar como um professor ginasial, então parei de falar e coloquei o filme. Assistimos do início ao fim, até aquela longa sequência em que Antoine foge correndo do reformatório; ele corre por campos, quintais, pomares de macieiras, até chegar ao deslumbrante oceano. É como se nunca o tivesse visto antes. Aquela imensidão, que parece se estender até o infinito! Ele desce por uma escada de madeira, avança pela areia e, lá, onde as ondas morrem, vira-se levemente para trás e olha diretamente para a câmera. Nesse momento, a imagem congela: o filme acabou. Um tempo depois, perguntei a Jesse:
— O que você achou?
— Um pouco chato.
— Você vê algum paralelo entre a situação de Antoine e a sua? — insisti.
Ele pensou durante um segundo.
— Não.
— Por que você acha que ele tem aquela expressão engraçada no rosto, no final do filme, na última cena? — perguntei.
— Não sei.
— Como ele parece estar se sentindo?
— Ele parece preocupado — Jesse disse.
— Com o que ele poderia estar preocupado?
— Não sei.
— Veja em que situação ele está. Fugiu do reformatório e de sua família. Está livre... — falei.
— Talvez ele esteja preocupado com o que vai fazer em seguida.
— O que você quer dizer com isso? — perguntei.
— Talvez ele esteja pensando: “Certo, cheguei até aqui. Mas, e agora?”
— Tudo bem, então me deixe perguntar novamente. Você vê alguma coisa em comum entre a situação dele e a sua? Ele sorriu.
— Você quer dizer sobre o que vou fazer agora que não preciso mais ir à escola?
— Sim.
— Não sei.
— Bem, talvez seja por isso que o garoto parece preocupado. Ele também não sabe — eu disse. Após um momento, Jesse falou:
— Quando eu estava na escola, ficava preocupado com tirar notas baixas e me encrencar. Agora que não estou mais lá, fico preocupado porque talvez esteja estragando minha vida...
— Isso é bom — eu disse.
— Como assim?
— Isso significa que você não vai se conformar com uma vida ruim.
— Gostaria de poder parar de me preocupar tanto. Você se preocupa?
Eu me peguei dando um suspiro involuntário.
— Sim.
— Então isso nunca acaba, mesmo que a gente faça tudo direito?
— A qualidade da preocupação é que muda — falei. — Tenho preocupações mais felizes hoje do que no passado.
Jesse olhou para fora pela janela.
— Isso tudo está me dando vontade de fumar um cigarro. Aí vou poder me preocupar com um câncer no pulmão.
No dia seguinte, como sobremesa, ofereci a ele Instinto Selvagem (1992), com Sharon Stone. Mais uma vez, fiz uma pequena apresentação sobre o filme, nada sofisticada. Uma regra de ouro que estabeleci: ser o mais simples possível. Se ele quiser saber mais, vai perguntar. Eu disse:
— Paul Verhoeven. Diretor holandês. Veio para Hollywood depois de alguns sucessos na Europa. Grande impacto visual, iluminação requintada. Fez alguns filmes excelentes, ultraviolentos, mas assistíveis. RoboCop é o melhor deles. (Eu estava começando a soar como uma máquina de código Morse, mas não queria perder a atenção de Jesse.) Continuei:
— Ele também fez um dos piores filmes de todos os tempos, um clássico burlesco chamado Showgirls.
Começamos a ver o filme, que tem início com uma loura bronzeada golpeando um homem com um picador de gelo, no meio de uma relação sexual. Bela cena de abertura. Depois de quinze minutos, é difícil não concluir que Instinto Selvagem
não é apenas um filme sobre pessoas estranhas, mas um filme feito por pessoas estranhas. Ele deixa transparecer uma fascinação típica de adolescentes atraí dos por cocaína e “decadência” lésbica. Mas é um filme maravilhosamente assistível — é preciso reconhecer. Ele evoca uma espécie de pavor agradável. Algo importante ou obsceno parece estar sempre acontecendo, mesmo quando não está. E depois, é claro, há os diálogos. Comentei com Jesse que o roteirista Joe Eszterhas, um ex-jornalista, recebera 3 milhões de dólares para escrever esse tipo de coisa:
detetive: Há quanto tempo você estava saindo com ele?
sharon stone: Eu não estava saindo com ele. Eu estava fodendo com ele.
detetive: Você lamenta que ele esteja morto?
sharon stone: Sim. Eu gostava de foder com ele.
Jesse não conseguia tirar os olhos da tela. Ele podia até ter gostado de Os Inc
ompreendidos, mas isso era muito diferente.
— Podemos fazer uma pausa um momento? — ele disse, e correu até o banheiro para dar uma mijada; do sofá, ouvi o barulho do tampo do vaso e, em seguida, aquele som característico.
— Deus do céu, Jesse, feche a porta! Bam, a porta foi fechada. Então ele correu de volta, aos pulos, segurando a calça pela cintura, e voltou a se aboletar no sofá.
— Você tem que reconhecer, pai: este sim é um grande filme.
— Isso tudo está me dando vontade de fumar um cigarro. Aí vou poder me preocupar com um câncer no pulmão.
No dia seguinte, como sobremesa, ofereci a ele Instinto Selvagem (1992), com Sharon Stone. Mais uma vez, fiz uma pequena apresentação sobre o filme, nada sofisticada. Uma regra de ouro que estabeleci: ser o mais simples possível. Se ele quiser saber mais, vai perguntar. Eu disse:
— Paul Verhoeven. Diretor holandês. Veio para Hollywood depois de alguns sucessos na Europa. Grande impacto visual, iluminação requintada. Fez alguns filmes excelentes, ultraviolentos, mas assistíveis. RoboCop é o melhor deles. (Eu estava começando a soar como uma máquina de código Morse, mas não queria perder a atenção de Jesse.) Continuei:
— Ele também fez um dos piores filmes de todos os tempos, um clássico burlesco chamado Showgirls.
Começamos a ver o filme, que tem início com uma loura bronzeada golpeando um homem com um picador de gelo, no meio de uma relação sexual. Bela cena de abertura. Depois de quinze minutos, é difícil não concluir que Instinto Selvagem
não é apenas um filme sobre pessoas estranhas, mas um filme feito por pessoas estranhas. Ele deixa transparecer uma fascinação típica de adolescentes atraí dos por cocaína e “decadência” lésbica. Mas é um filme maravilhosamente assistível — é preciso reconhecer. Ele evoca uma espécie de pavor agradável. Algo importante ou obsceno parece estar sempre acontecendo, mesmo quando não está. E depois, é claro, há os diálogos. Comentei com Jesse que o roteirista Joe Eszterhas, um ex-jornalista, recebera 3 milhões de dólares para escrever esse tipo de coisa:
detetive: Há quanto tempo você estava saindo com ele?
sharon stone: Eu não estava saindo com ele. Eu estava fodendo com ele.
detetive: Você lamenta que ele esteja morto?
sharon stone: Sim. Eu gostava de foder com ele.
Jesse não conseguia tirar os olhos da tela. Ele podia até ter gostado de Os Inc
ompreendidos, mas isso era muito diferente.— Podemos fazer uma pausa um momento? — ele disse, e correu até o banheiro para dar uma mijada; do sofá, ouvi o barulho do tampo do vaso e, em seguida, aquele som característico.
— Deus do céu, Jesse, feche a porta! Bam, a porta foi fechada. Então ele correu de volta, aos pulos, segurando a calça pela cintura, e voltou a se aboletar no sofá.
— Você tem que reconhecer, pai: este sim é um grande filme.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
A continual farewell
Never give all the heart, for loveWill hardly seem worth thinking of
To passionate women if it seem
Certain, and they never dream
That it fades out from kiss to kiss;
For everything that's lovely is
But a brief, dreamy. Kind delight.
Oh never give the heart outright,
For they, for all smooth lips can say,
Have given their hearts up to the play.
And who could play it well enough
If deaf and dumb and blind with love?
He that made this knows all the cost,
For he gave all his heart and lost.
Imagem de Doisneau
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Liderança
Digamos incorreta ou, no mínimo, incompleta a ideia sobre pessoas nascidas para obedecer e outras, líderes natas. A liderança, a boa liderança, depende tanto do líder, quanto dos liderados e ambos podem tornar a liderança um fiasco. Pessoas infelizes, improdutivas, emocionalmente enfraquecidas, limitadas ao habitual, sem o empenho pelo algo a mais que faz toda a diferença, que confere mais qualidade, temerosas e não respeitosas, não são lideradas, muito menos entusiasmadas. São acomodadas ou necessitadas, pessoas em estado latente e atentas para a primeira oportunidade de mudança que surgir. A liderança depende de inúmeros fatores e nenhum deles pode ser desconsiderado: Em primeiro lugar, é necessário respeitar e gostar de pessoas. Qualquer um que se encontra em posição de liderança (a posição de liderança não faz o líder), mas não goste de pessoas, tampouco as respeite, pode até comandar - e mal, mas jamais liderar. Além de respeitar e gostar de pessoas, o líder deve sentir empatia pelos liderados, deve conhecer e praticar a justiça, a correção e a pertinência. O verdadeiro líder fortalece a equipe e com ela se fortalece. É respeitado e não temido. Não cria conflitos para através deles administrar com mais facilidade, graças a desunião de seus subordinados. Não manipula, não maltrata, não mente, não agride, nem dispõe da pessoa jurídica - detentora de direitos e obrigações próprias - como se fosse a extensão ou o quintal dos fundos de sua casa. O líder reconhece os talentos de seus subordinados e os incentiva ao constante aprimoramento. O líder conhece a amplidão de suas palavras a força de suas ações e jamais age movido pela vingança, pelo despeito, muito menos pela ignorância. O verdadeiro líder cria novos líderes e não teme a perda de sua posição. O ambiente no qual a verdadeira liderança é exercida é diferente e imediatamente reconhecido: A salubridade e a leveza estão presentes. O líder é formado pelo meio do qual veio, pelos valores que adquiriu ao longo da vida e pela honestidade de suas ações e intenções. Talvez as pessoas não nasçam líderes, mas tornam-se líderes, ou não. Afinal, reconhecemos os aspectos culturais, os valores e a própria psique de um verdadeiro líder.Imagem de Doisneau
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