quinta-feira, 26 de março de 2009

Consciência e atitude - as ações eficazes de cada um para a proteção deste planeta


Contra o aquecimento do nosso planeta uma pequena atitude. Uma ação mínima que há dois anos aconteceu na australiana Sidney. Um quase nada que ao menos serve para fazer pensar, para querer saber mais sobre o tema, sobre as consequências do aquecimento global.
O Aquecimento global é um fenômeno climático de larga extensão observado através do aumento da temperatura média da superficial global nos últimos 150 anos. Certas causas naturais, além das ações provocadas pelo homem, são estudadas para explicar esse fenômeno.
Devido aos efeitos potenciais sobre a saúde humana, economia e meio ambiente o aquecimento global é fonte de grande preocupação.
Importantes mudanças ambientais têm sido observadas e foram ligadas ao aquecimento global. Os exemplos de evidências secundárias citadas abaixo (diminuição da cobertura de gelo, aumento do nível do mar, mudanças dos padrões climáticos) são exemplos das conseqüências do aquecimento global que podem influenciar não somente as atividades humanas mas também os ecossistemas.
O aumento da temperatura global traz a mudança do ecossistema; algumas espécies podem ser forçadas a sair dos seus hábitats (possibilidade de extinção) devido a mudanças nas condições ambientais enquanto outras podem espalhar-se, invadindo outros ecossistemas.
O aquecimento da superfície favorecerá o aumento da evaporação nos oceanos o que fará com que haja na atmosfera mais vapor de água e aumentará cada vez mais o efeito estufa.
Assim, a superfície terá um aquecimento médio de 4 a 6°C, além de pesados aguaceiros e mais erosão.
O aumento do número de mortos, desabrigados e perdas econômicas previstas devido ao clima severo atribuído ao aquecimento global será piorado pelas densidades crescentes de população em áreas afetadas, assim, já observamos o aumento do número de ciclones tropicais no Atlântico Norte e toda a devastação que causam às cidades litorâneas próximas.
Efeitos adicionais antecipados incluem aumento do nível do mar de 110 a 770 milímetros entre 1990 e 2100, repercussões na agricultura, possível desaceleração da circulação termoalina, reduções na camada de ozônio, aumento na intensidade e freqüência de furacões, a baixa do pH do oceano e propagação de doenças como malária e dengue. Um estudo prevê que 18% a 35% de 1103 espécies de plantas e animais serão extintas até 2050, baseado nas projeções do clima no futuro.

Autômato

Sexta-feira à noite
Os homens acariciam o clitóris das esposas
Com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
Contam dinheiro, papéis, documentos
E folheiam nas revistas
A vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
Os homens penetram suas esposas
Com tédio e pénis.
O mesmo tédio com que todos os dias
Enfiam o carro na garagem
O dedo no nariz
E metem a mão no bolso
Para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
Os homens ressonam de borco
Enquanto as mulheres no escuro
Encaram seu destino
E sonham com o príncipe encantado.

Marina Colasanti

Imagem obra de David Hockney

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pares e casais vazios

Em outro texto comentei sobre a triste visão de casais em restaurantes, que mal trocam uma palavra e demonstram, com imensa nitidez, o quanto são infelizes, incompletos, obrigados, enfastiados. Igualmente comentei sobre casais formal e aparentemente felizes, atores de teatro que são.
Era muito divertido frequentar restaurantes com minha mãe, porque ela tinha a exata e imediata visão e nunca errava. Minha mãe tinha a capacidade de enxergar as pessoas como realmente são e também se entristecia com tamanho vazio existente entre os casais.
Mudo um pouco o enfoque e comento sobre homens e mulheres que almoçam durante a semana em conhecido e movimentado restaurante na área de avenida Paulista.
As mulheres tratam de negócios e o fazem com extrema competência e profissionalismo. Falam, olham, agem como profissionais diretas e competentes. Os homens profissionais, em frente dessas mulheres profissionais, mantêm o olhar vazio, o comportamento autômato e a mente longe, bem longe.
Alguns, poucos, parecem que ouvem com atenção a conversa sobre as vantagens de certo produto, de certa aplicação e quando conseguem – porque elas falam sem parar – fazem algum comentário, mas possuem o nítido olhar de homens que planejam o passo seguinte à sobremesa, sem que talvez nenhum negócio tenha sido fechado.
Na semana passada fui almoçar com uma amiga e observei, comentei sobre os pares profissionais próximos, além de ter chamado minha atenção um casal que destoava de todo o cenário, do mundo atual.
Ele literalmente encantado, amoroso, carinhoso, realmente educado, dedicado de fato, só tinha olhos e braços e mãos para ela, além de uma aliança enorme no dedo anelar da mão esquerda. Ela, sem aliança alguma, mas com alguns anéis imensos (como evitar comentários tipicamente femininos?) não era bonita, tinha os cabelos pretos compridos super alisados, a pele morena, a sobrancelha bem fina e era carinhosa com ele, sua mão sempre apoiada no peito dele, no ombro dele, no braço dele. Não se sentaram de frente, mas um ao lado do outro. Serviram-se juntos no bufê, ou melhor, ele a serviu com gentileza e educação e ela não demonstrou qualquer surpresa com essa atitude (como? ainda existem homens que servem as mulheres durante a refeição, sem que sejam garçons?), o tempo todo ele esteve de verdade preocupado com o bem estar dela. Conversaram muito e o olhar de um ficou no olhar do outro, como se mais ninguém estivesse lá, ele literalmente hipnotizado por ela. Ele não era falso ou hipócrita em suas atitudes e em momento algum demonstrou qualquer desconforto por estar em restaurante conhecido e bem frequentado. Aquele homem era feliz ao lado daquela mulher e toda a sua atenção foi dedicada a ela, a ponto de minha amiga achar que estavam em lua de mel. Após o almoço pensamos pedir um curso, talvez uma palestra a moça, para que ela ensine a todas nós a arte de realmente encantar – encantar a alma. Ah, não venha me dizer que tudo se resume a sexo, porque alguns homens mantêm relação sexual satisfatória fora do insatisfatório casamento, mas nem de longe tratam as mulheres (ao menos as duas de suas vidas) como aquele homem fez. Raríssima visão.


Reli as palavras soltas aí, em cima, e parecem apologia da infidelidade. Não! Longe disso. Não acredito que enganar, mentir, desrespeitar traga qualquer mérito, muito pelo contrário. Apenas vi um homem com comportamento real e bem diferente do que há tempos vejo. Ele estava encantado, embasbacado, maravilhado. Aliás, farei outro exercício: Casados os dois saíram do restaurante e foram à joalheria retirar a aliança da moça do conserto. Pronto.
O fato é que não importa a idade, o nível social e cultural, infelizmente, a grande maioria dos homens perdeu a gentileza em algum momento entre o dia do nascimento e o dia da saída da maternidade embalados em cueiros e aconchegados nos braços de suas progenitoras.
O comportamento da maioria das mulheres auxiliou a rarear a gentileza do homem (e as progenitoras também tem considerável parcela de responsabilidade no jeito que educaram seus pimpolhos), mas na vida a tendência é a evolução, o aprimoramento, o que não acontece com os relacionamentos amorosos.
Por isso, adapto a 'frase enlatada': avô rico, pai remediado e dos netos ninguém sabe, para avô homo neanderthalensis, filho hobbit e neto australopitheco. Sobre a evolução feminina? Talvez as progenitoras também tenham errado com suas pimpolhas.

segunda-feira, 23 de março de 2009

domingo, 22 de março de 2009

Famílias e bichos

Um filme leve divertido e gostoso de assistir é My Family and other animals (2005) sobre a infância do famoso ambientalista naturalista e zoólogo inglês, Gerald Durrell, durante os anos que sua família viveu na ilha de Corfú (1935-1939).
Gerald Durrell nasceu na Índia, em 1925. Três anos depois, com a morte de seu pai, a família mudou-se para a Inglaterra e em 1935, trocaram Londres pela ensolarada ilha grega. Lá, o garoto Gerald encontrou o médico, cientista, poeta e filósofo Theodoros Stephanides, que se tornou seu amigo e mentor na observação e pesquisa da fauna.
A diversão maior está nas características distintas de cada membro da bem humorada família: Mãe e quatro filhos (o mais velho, Lawrence Durrell, se tornou diplomata e reconhecido escritor, poeta e dramaturgo) e no comportamento dos moradores da ilha.

"Corfu an isle where mountains meet the sea, a lighter purple on the blue; and grey-green olive-trees, sun-kissed, show silver glinting through."

Gize



Google satélite - A piramide de Gizé, uma das sete maravilhas (do mundo antigo, como passaram a ser chamadas).

Ilimitado

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:
- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

Affonso Romano de Sant'Anna

Imagem de Doisneau

M.A.S.H.





É muito bom reservar algumas horinhas para curtir um bom livro, ouvir música ou assistir a TV em paz, ainda mais se encontramos algum filme que nos traz boas recordações e diversão. É impossível não se render às críticas, ao humor, à irreverência, ao estilo de M.A.S.H. e sugerir ao filho que também assista, para que ele se divirta e conheça mais a obra de Altman da década de setenta.
Donald Sutherland e Elliot Gold estão sensacionais e não foram superados na série de TV posterior, estrelada por Allan Alda.

sábado, 21 de março de 2009

Manuel Bandeira

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Imagem de Doisneau

Com uma amiga dessas, quem precisa de mais amigas?

Camilla Rosemary Shand, a sra.Parker Bowles, mãe dedicada e mulher fidelíssima do oficial do exército Andrew Parker Bowles (amigo do príncipe de Gales, ex-namorado da princesa Ana e afilhado da rainha mãe) foi a maior incentivadora do casamento do século da linda Diana e tornou-se mundialmente conhecida através do Camillagate e demais situações pra lá de interessantes na qualidade de amante oficial de um príncipe de verdade - e quem se envolveria com um príncipe de verdade?
Pois em 1898, aos vinte e nove anos a bisavó de Camilla, Alice Edmonstone Keppel, tornou-se a amante oficial de Eduardo VII, então com 57 anos (filho da rainha Vitória e trisavô do príncipe atual), que desde 1862 era casado com a princesa dinamarquesa Alexandra, mãe de seus seis filhos. O relacionamento da bisavó de Camilla com o tataravô de Charles durou doze anos e era ela quem acompanhava o rei nas viagens oficiais ao exterior, além de estar ao lado dele no leito de morte. E a rainha Alexandra? Está mais do que provado que duas mulheres não ocupam o mesmo lugar e que alguns homens tem memória muito fraca e seletiva. Coincidentemente, Alice Keppel morreu no mesmo ano que sua famosa bisneta nasceu. Como dizem que certas características genéticas ressurgem em gerações futuras, a filha de Alice Keppel, Violeta Trefusis, só fez fugir do marido em 1920, para passar seus dias com a escritora Vita Sackville-West. Mas, por sua vez, Camilla ultrapassou a famosa bisavó e deixou de ser apenas a amante oficial do príncipe para se tornar a princesa consorte, além de receber os títulos de Duquesa da Cornualha e de Rothesay. Foi ou não foi um super upgrade?

Acreditaram os românticos que ao se casar com a aparente bruxa o príncipe sapo desencantaria e viveria feliz para sempre, mas se esqueceram da supernanny e desconheciam – ou fingiam desconhecer – Janet Jenkins, que recentemente surgiu na mídia após ter faturado cerca de 20 mil euros por seis cartas recebidas do mesmo príncipe, de quem também teria sido amante. Os entusiastas poderiam criar versinhos: Janet traiu Camilla que traiu Diana que casou com o príncipe que não consegue amar ninguém.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Here comes the Super Sparkling Girl

O principal material empregado em medicina nuclear é o tecnécio-99m, emissor gama com energia aproximada de 140 KeV, que pode ser detectado com um contador de cintilância. A cada seis horas a radiação emitida pelo tecnécio cai pela metade. Sua eliminação ocorre pelos rins.

Ora direis contar estrelas, acompanhada pela aparente banalidade na execução de exames realizados nas catacumbas hospitalares, normalmente no antepenúltimo subsolo, onde estão instaladas as unidades de medicina nuclear.
A começar pelo preparo: Pode tudo, menos utilizar roupa com qualquer metal e uma única condição proibitiva: a gravidez. Quando a enfermeira quis minha confirmação de que não havia qualquer possibilidade de eu estar grávida, não pude evitar o meu melhor rostinho de terna desprotegida e meiga dúvida. O bom humor faz toda a diferença.
Quero saber mais sobre o fármaco (sim, utilizam a palavra fármaco e acho que é para inibir mais ainda o paciente) que será aplicado por essa agulha diretamente espetada na veia da minha mão: O que é, quais são os efeitos, as contra-indicações, quanto tempo ficará no meu organismo e o que devo fazer para não prejudicar outras pessoas, afinal, por um período serei a Super Sparkling Girl com poderes sensacionais.
E quem diria que fármaco e tecnécio seriam palavras latinas? sânscritas? gregas, portanto, incompreendidas pelas maioria dos mortais.
A enfermeira trabalha no mesmo lugar há quinze anos e não vê a hora de mudar-se ‘para o interior’ (não importa qual interior) para dedicar-se ‘ao social’. Durante a série de perguntas de praxe começou a olhar-me com ar de comiseração e foi saber do biomédico se o tal do fármaco deveria ser aplicado na sala de espera ou ‘diretamente no aparelho’. Como, não entendi? Esse tecnécio é meu! Pois, lá fui eu deitar naquela coisa dura, estreita e fria, na sala com cor de praxe (por favor, senhores engenheiros, arquitetos, decoradores de salas de exames, se a cor das paredes não afeta o resultado dos procedimentos realizados, então, utilizem matizes diferentes do bege sem qualquer graça, para que os pacientes pacientes possam se sentir menos pacientes do que são), a agulha espetada na mão e o amigo fármaco injetado por uma seringa, enquanto as imagens eram vistas por alguém, eu não sabia quem, até que mexi um pé (sim, eu mexi um pé) o que fez surgir aos pulos e gritos uma criatura com metro e meio, avental branco, bigode, óculos e forte sotaque da zona leste: Não pode mexer! Não pode mexer! Pena que eu ainda não estava Super Sparkling.
Olho para a enfermeira, pergunto se o rapaz nervoso não gostaria de ir agora pro interior com ela pra se dedicar ao social e espero a volta da criatura à sala. Infelizmente, não é a primeira vez que me submeto a cintilografia e sei muito bem como me comportar, principalmente, quando sou bem orientada. Não devo me mexer naquele exato momento de total descontração e alegria? Então, diga: não se mexa, que virarei estátua. Uma estátua muito lindinha.
Reconhecido pelo biomédico o exagero da própria atitude, enquanto eu colocava meus tênis e pensava para onde ir durante as duas próximas horas de espera antes do retorno para nova leitura do contador de cintilância, aproximou-se com mais candura e orientou-me a beber água, muita água e a fazer xixi, muito xixi. E tomar cuidado na hora da higiene para que não ficasse qualquer resíduo que fatalmente brilharia no resultado do exame. Manchete de primeira página: A Super Sparkling Girl fez xixi brilhante.
Água, muita água, adoro água, um lanche básico e estava pronta para minha leitura quando toca o celular e falo sobre trabalho. Não agora, não depois dessas últimas semanas tão puxadas com excesso de coisas realizadas. Dou um tempinho, leio mais sobre a psique humana, ligo para meu filho, comento em que fase estou e combinamos o horário que ele me buscará – lógico, após eu passar na sorveteria que gostamos, não resistir a um sorvete de misk na casquinha super crocante, comprar uma caixa de isopor média com sorvete para casa e tomar um café esquisito no Starbucks, que vejo da janela na lanchonete do hospital.
Na realização do exame, na fase séria e cansativa, o mesmo filho de italianos, torcedor do palmeiras e apreciador de mar, que antes estava tão nervoso e outra biomédica. Dois profissionais? O chato é que podemos perceber, pelo cuidado que dedicam e pela retomada de imagens em determinadas posições, que encontraram algo. Não sei o que. Reconheço que fazer novamente esse exame me entristeceu.
O primeiro fiz em 2007, após a cirurgia e o regime de iodo, para detectar eventual metástase. Sim, às vezes eu escrevo detalhes insignificantes para não comentar outras coisas.

Outono

quinta-feira, 19 de março de 2009

Ser consciente

Se tivéssemos a real capacidade de entender o que significa amar, teríamos comportamentos bem diferentes, diríamos palavras bem diversas, viveríamos nossas vidas de forma desigual e faríamos com que a felicidade do ser amado fizesse parte da nossa própria felicidade.
Isso é um resumo de vida construtiva, saudável e feliz, cuja viabilidade é plena, a realização ao alcance de todos e a execução de extrema facilidade, desde que tenhamos a real capacidade de entender o significado de amar.
Para compreender o real significado do amor é necessário ser consciente.
Em relação à consciência consideramos duas possibilidades básicas: Estar consciente e Ser consciente.
Estar consciente é fazer uso da razão ou da capacidade de raciocinar e de processar os fatos que vivenciamos. É ser capaz de pensar e ter ciência das nossas ações físicas e mentais. A consciência permite-nos a lucidez e a percepção que temos em relação ao mundo.” Uma dose a mais daquele vinho tinto espetacular, por exemplo, pode alterar o estado de nossa consciência.
Ser consciente não é um estado momentâneo em nossa existência, mas refere-se à nossa maneira de existir no mundo. Está relacionado à forma como conduzimos nossas vidas e, especialmente, às ligações emocionais que estabelecemos com as pessoas e as coisas no nosso dia a dia. Ser dotado de consciência é ser capaz de amar!
O Ser consciente vincula-se ao lado subjetivo e compreende o sentido ético de nossa existência. “A consciência não é um comportamento, nem algo que possamos fazer ou pensar. A consciência é algo que sentimos. Ela existe antes de tudo, no campo da afeição e dos afetos. Mais do que uma função comportamental ou intelectual a consciência pode ser definida como uma emoção.

A consciência é um senso de responsabilidade e generosidade baseado em vínculos emocionais de extrema nobreza com outros seres (animais, humanos) ou até mesmo com a humanidade e o universo como um todo.”
A consciência nos orienta para o caminho do bem, nos impulsiona a tomar decisões aparentemente irracionais, baseia nossas atitudes cotidianas, nossa bravura, coragem, nosso sacrifício. “A consciência nos abraça e conduz pela vida afora, porque está em plena comunhão com o mais poderoso combustível afetivo: o amor.”
Todas os seres conscientes se emocionam com vários fatos da vida, sentem as belas melodias, apreciam a exuberância da natureza, se alegram com os gentis atos de amor, vibram frente à superação de obstáculos pelas pessoas,
se comovem com situações trágicas, se indignam diante do desrespeito e da injustiça, exercem a compaixão. "A consciência genuína nos impulsiona a ir ao encontro do outro, colocando-nos em seu lugar”.
Todos que são conscientes sentem empatia.
Somente os conscientes possuem julgamento moral interno, senso ético, sentem culpa, remorso, inquietação mental, constrangimento por terem desapontado, magoado, enganado alguém.
Por outro lado, os seres desprovidos de consciência são calculistas, frios, incapazes de tratar as pessoas com verdadeiro respeito e consideração, não possuem
escrúpulos, não sentem culpa nem remorso, desconhecem o arrependimento, são dissimulados, mentirosos, manipuladores e visam apenas seu próprio benefício, o que é prático e vantajoso para si. Porém, para sua total infelicidade, são incapazes de estabelecer vínculos afetivos verdadeiros e de se colocar no lugar do outro. Desconhecem a empatia.
O gradativo aprendizado resulta em maior compreensão e as palavras ouvidas, as ações propostas não realizadas, a dureza e as constantes omissões adquirem real dimensão.


Citações do livro "Mentes perigosas" de Ana Silva
Imagem de Lemony Snicket's a series of unfortunate events (2004)

quarta-feira, 18 de março de 2009

Indiscutível talento

Era uma vez um ator britânico, filho de dois atores britânicos (Margaret Scudamore e Roy Redgrave), que era embalado pela mãe com sonetos shakespearianos e foi considerado um dos maiores atores ingleses do século XX e um dos melhores intérpretes da obra de Shakespeare, que também virou Sir, Sir Michael Redgrave, e casou-se com a atriz Rachel Kempson, Lady Redgrave, com quem teve três filhos, todos atores: Vanessa, Corin e Lynn, que cresceram e se casaram e tiveram filhos. Vanessa casou-se com o cineasta Tony Richardson, com quem teve Joely Richardson e Natasha Richardson e, depois, teve Carlo Gabriel Nero, roteirista e cineasta, filho do ator Franco Nero. Corin casou-se duas vezes, teve cinco filhos e a segunda, Jemma Redgrave, também é atriz e, por sua vez, Lynn é feliz em seu único casamento e seus três filhos, nenhum deles ator ou atriz.
Conto essa pequena história que merece um gráfico genealógico, resumo bem as informações e até embaralho um pouco os dados só para dizer que sempre admirei a arte de Vanessa Redgrave e sua verdade no ativismo sócio-político e aprendi a admirar as atuações de suas filhas (quem consegue esquecer Natasha
Richardson em The Parent Trap de 1998?) e que fiquei triste com a morte prematura de Natasha e a dor da mãe Vanessa.

Eu sei, mas não deveria

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.

E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo
e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que
gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.